O cão e a aranha da rainha.
7 Conversação
Pouco mais das nove horas a carruagem de Alois apareceu de longe pela estrada, Ciel via ela se aproximando lentamente pela janela da biblioteca. Ele estava em desvantagem, não tinha obtido nenhum tipo de informação. Saiu todo confiante para conseguir se mostrar superior na frente de Alois e aí está ele, sem nenhuma informação, com ataduras na cintura e mancando, sua bengala nunca teve tanta utilidade quanto agora, só a usava como acessório, porém agora com esse ferimento ela finalmente começou a trabalhar em sua função. Se apresentar naquele modo fraco e vulnerável só daria mais felicidade para Alois em ver o quão franzino ele era e como seria fácil acabar com ele depois que tudo isso estivesse terminado. “Ainda bem que havia Sebastian” ele pensou.
Quando a caruagem começou a se aproximar da mansão, Ciel se dirigiu até a entrada para receber os convidados, o sol queimava forte lá fora apesar de não ser nem meio-dia, assim que Ciel foi para o lado de fora da mansão o sol acertou em cheio sua bochecha esquerda e ele teve que usar a mão enluvada para proteger o rosto.
– Como vai o ferimento? — Claude estendeu os braços para segurar seu mestre, mas Alois afastou a mão dele e saiu da carruagem num salto.
– Menos machucado que o meu ego. — A frase saiu de um modo brusco e rouco. — Você não conseguiu nenhuma informação eu acho.
Alois tentou olhar diretamente para Ciel mas o sol lhe ardeu o olho direito e ele abaixou um pouco a cabeça.
– Não quero conversar aqui fora. — disse. — Vai me deixar entrar?
Ciel virou as costas e entrou na mansão com Alois e Claude logo atrás, não foi dita uma sequer palavra até chegarem na biblioteca, era o lugar preferido de Ciel, lá estava tudo que ele precisava, mapas, livros, seus jogos antigos de tabuleiro, de preferência o xadrez que ficava sempre a postos para quando ele recebia visitas e as desafiava para uma partida. Sebastian tinha acabado de limpar tudo pelo que ele vira, apontou para o sofá que estava de frente para a poltrona indicando onde Alois deveria se sentar.
– Eu fiquei me perguntando como você conseguiu isso aí. — disse Alois enquanto se apoiava no braço do sofá. — confesso que rolei milhares de vezes na cama imaginando você levando um ferimento assim, quase perdi todo o sono.
– Fui pego de surpresa, o endereço que eu recebi me levou para uma emboscada. Sebastian cuidou de todos, ou eu pensei que ele tivesse cuidado mas tinham mais alguns escondidos e o primeiro deles a se mostrar atirou em mim.- Aquilo tudo fazia a mente de Ciel dar voltas, a vida dele com o rei do tráfico de ópio de Londres não era das melhores, mas eles nunca estiveram tão hostis um com o outro do que como estiveram nesse momento. E uma traição era algo muito pesado para Ciel pensar vindo dele, porque havia dele trair Ciel e levá-lo para a morte, a não ser que ele estivesse temendo a outra pessoa além da vingança de Ciel. — Ele morreu depois, claro, mas como apareceram tantos Sebastian não teve outra escolha e infelizmente eu saí de lá sem a minha resposta, e você?
– Detesto ter que admitir que estou numa situação parecida com a sua em relação a informações, apenas descobri sobre mais carregamentos de ópio, mas isso é tão comum já, e nem é da minha conta.
Quando Alois falou em ópio as ideias começaram a surgir na cabeça de Ciel como se a palavra
fosse óleo nas engrenagens fazendo com que elas girassem mais rápido.
– Como vai ser esse carregamento? E quando?
– Eles vão entregar mais uma carga por navio hoje a noite mais ou menos umas dez horas o navio chegará.- Alois se entediava fácil com qualquer conversa independentemente de com quem ele esteja falando e já começou a caçar algo que pudesse pegar e brincar. Os olhos e a mão rápida logo encontraram uma miniatura de um barco contido dentro de uma garrafa, a miniatura estava em uma das estantes que ficava grudadas à parede, rapidamente ele se levantou e voltou para seu assento tentando colocar o dedo dentro da garrafa e cutucar o pequeno navio de vela. — Por que?
– Não sei ainda, acho que o ópio pode nos ajudar em algo.
– Do mesmo modo que você achou bom ir para esse endereço sozinho sem me chamar?
– Isso é diferente, Alois. — Ciel não podia negar por mais que quisesse. Ele não devia ter ido pra lá sozinho, mas foi tudo por momento, ele não conseguiria esperar Alois chegar para daí então eles irem descobrir algo, mas sabia que se tivesse feito, o resultado seria diferente do que o atual.
Alois largou o barco, era inútil para os dedos dele conseguir tocar no veleiro. Tinha feito tudo certo até lá, enquanto Ciel só colocava os pés pelas mãos, com certeza alguém já tinha percebido o movimento da aranha e do cão da rainha e começaram a desconfiar desse movimento, era certo que as pessoas que eles procuram já sabem desse movimento deles e por isso poderiam apagar todas as pistas e despistar os dois. Alois pensara sobre isso desde o início das busca deles, mas essa ideia pereceu não chegar nem perto da mente de Ciel, a emboscada contra ele foi um aviso claro de fique longe, e ali está ele, querendo outra, não que Alois se importasse com a vida de Ciel, mas ver alguém pedindo para morrer desse jeito lhe dava vontade dele mesmo matar.
– São esses seus modo estúpidos de pensar que me aumentam a vontade de lhe matar. — disse.
– Nós temos que ir. — O tom de Ciel não era de súplica, era uma ordem como se Alois fosse seu lacaio, seco e bruto.
– E o que? Vamos chegar lá e atrapalhar o comércio de ópio da capital? Não temos a menor certeza do que vai acontecer lá, nem se teremos algumas respostas e você só está indo de mau a pior nas suas investidas. Nós devíamos esperar mais algo acontecer e correr atrás das pistas que eles nos derem.
– Você está falando sobre esperar aparecer mais alguém morto? Deixar os civis morrendo e aproveitar isso? — Apesar do que falava, Ciel não sentia pena nenhuma dos civis, apenas não queria ter de esperar mais um indigente qualquer morrer para fazer algo, ainda tinha sua fama e orgulho.
– Eles são peões, Ciel, não passam disso, xadrez é o seu jogo preferido não é? Pois então, deixe com que os peões morram e que eles descuidem de sua defesa, e quando tivermos a chance acabamos com eles.
– Não, nós vamos hoje, se você não for eu vou sozinho, querendo você ou não. — Foi isso o que lhe restou fazer, um ultimato, deixar Alois sem escolhas obrigando ele a ir.
A boca de Alois entortou, era claro que ela estava segurando a raiva. Ter que se dobrar ao desejo de Ciel deixava um gosto amargo na boca dele, mas não havia o que fazer, eles estavam trabalhando juntos e teriam que continuar assim, e Ciel se aproveitaria dessa condição até o último segundo, a discussão na biblioteca estava deixando claro que a guerra física deles tinha acabado mas a palavras podiam ferir tanto quanto suas armas ou até mais se bem usadas a cada momento em que eles cuspiam palavras um contra o outro tentando colocar seu rival contra a parede. E Ciel vencera essa, mas só essa, Alois pensou, ainda haviam outras guerras para se travar nesse caminho e ele e prepararia para a próxima.
– Certo, nós vamos. — Foi difícil dizer isso, principalmente quando ele viu um sorriso nascer no canto da boca de Ciel, mas deixar ele gozar da sua pequena vitória era a única escolha. — Mas eu escolho o que devemos fazer.
Ciel se ajeitou na poltrona, ficar parado na mesma posição deixou a ferida formigando e infelizmente ele não podia coçar aquilo, mover-se era o mais certo a se fazer. Sebastian chegou na sala trazendo uma bandeja coberta, colocou-a em cima de um móvel e ia abrir quando Ciel disse que ele podia deixá-la ali que se ele quisesse ele mesmo se levantava para pegar. Sebastian saiu a passos largos e foi se atarefar.
–O.K. Eu aceito você ditar parte das regras, mas primeiro vamos discutir elas, não vou sair aceitando tudo é claro.
A conversa acabou se levando mais do que Ciel e Alois queriam, enquanto um falava algo o outro discordava e dizia o porque de que não era uma boa ideia, tanto um quanto o outro não aguentavam nem a voz nem de olhar um para o outro, Alois fitava o tapa olho no rosto de Ciel e só queria ir lá e furar aquele maldito olho marcado enquanto Ciel só pensava em pegar um dos talheres que estavam na bandeja e cortar a língua de Alois. Quando deu quase meio-dia Alois e Ciel chegaram no que eles acharam que seria impossível, um meio termo, nenhum dos dois estavam totalmente felizes com o que foi resolvido, mas se era para ser bem feito teria que ser assim, independentemente do agrado ou desagrado de ambos.
–Certo, cansei de estar nessa casa, preciso voltar, meus criados são uns inúteis, quero me divertir um pouco com eles antes de ir dormir. Que as coisas fiquem desse modo, não quero mais ouvir você falando sobre o que concorda ou não, estou cagando para isso. Quero dormir um pouco e acordar totalmente disposto para mais tarde. — Alois se espreguiçou as que se levantou do sofá, ele se sentia bem apesar de todo aquele estresse.
– Ficaremos assim então. — O rosto de Ciel era como uma estátua de mármore, não tinha uma sequer expressão, ele passou a discussão toda olhando Ciel nos olhos ou fixando os olhos em algum ser inanimado dentro do cômodo. Claude não disse uma única palavra pela discussão inteira, passou o tempo todo colocando o óculos de modo certo nos olhos ou olhado o horizonte através da janela, mas sempre sentado e sem se pronunciar.
Quando a carruagem de Alois partiu, Ciel se sentiu tirando um peso das costas, mas aquilo estava longe de terminar, e essa sensação de peso logo iria voltar. Esse dia estava muito longe de terminar.
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