Arien acordou aos berros. Sonhar com seu passado nunca era benéfico, principalmente esse fatídico dia, por mais que mais de 10 anos já tivessem se passado. Ele passou uma das mãos munidas de garras na bochecha, sentindo a palma molhada de suor. E algo mais também. Cicatrizes, três enormes cicatrizes que se estendiam até quase o nariz do cão do trovão.

O garoto soltou uma risada amarga que mais parecia um latido e balançou as três caudas, levantando-se lentamente. Já não havia mais motivo para dormir, nem mesmo para ficar parado. Agilmente saltou para um galho mais baixo, depois outro, outro e mais outro, até pousar gentilmente as patas imaculadamente brancas no chão da floresta escura. Voltou os olhos dourados para o céu e farejou várias vezes. Aquele cheiro... Humanos. Estavam caçando-o novamente.

Sem barulho algum, ele começou a correr. Era apenas um borrão na noite, apenas um vulto. O tempo parecia correr junto com o rapaz, rindo dos humanos que caçavam o cão do trovão. Pena que o tempo é um amigo ingrato, e que humanos são seres muito espertos.

Eles surgiram na frente de Arien cobertos com peles de animais, o que disfarçara perfeitamente seu cheiro. A armadilha tinha sido perfeita, e sua execução magnífica. Finalmente estavam cara a cara com o desprezível meio-humano de quem tanto tinham ouvido falar. A rapidez com que boatos se espalhavam era uma coisa incrível. Principalmente boatos verdadeiros. E matar um cão do trovão provavelmente seria uma das maiores realizações daqueles guerreiros.

O general despiu sua pele de cervo e sorriu, erguendo uma lança que parecia cortar o próprio ar de tão afiada. Arien praguejou, e parou a alguns metros dos homens. Seus cabelos arruivados arrepiaram-se, fazendo com que ele parecesse ter o dobro do tamanho normal. Inconscientemente ele rosnava e levantava o lábio superior, revelando caninos brancos enormes e afiados.

–Vocês realmente querem brincar comigo? – Ele perguntou.

–Eu serei aquele que vai matar a besta do trovão. — O general soltou uma gargalhada e bateu um dos punhos na armadura, ignorando completamente a pergunta.

–Eu não vou perguntar uma terceira vez, você realmente quer brincar comigo? –Arien flexionou as mãos, fazendo as garras brilharem de um jeito macabro ao encontro da luz da lua cheia.

A resposta veio em forma de um sinal para os homens que o acompanhavam avançarem. Os soldados cercaram Arien, armados com lanças, espadas e facas. Não parecia ser uma situação exatamente fácil para o cão.

–Ataquem! – O general berrou, com o prazer transparecendo na voz.

E os homens atacaram. Pena que ninguém os havia avisado que Arien não ia se entregar assim. Ninguém os havia avisado que ele nutria um profundo ódio pelos humanos. Ninguém os havia avisado que ele não era um cão dócil. Parecia mais um lobo selvagem que um cão, na verdade.

O desenrolar da batalha foi horrendo. Por mais que não passasse de um garoto, aquela besta sabia muito mais do que qualquer um dos presentes como defender a própria vida. E o mais importante, era experiente em tirar outras vidas. Ele até podia cair, mas não iria deixar de levar alguns dos soldados com ele.

O primeiro, e mais tolo deles, baixou a lança e tentou perfurar o peito do cão com ela. Rosnando, Arien agarrou a lança e arrancou-a com brutalidade da mão do soldado, que se desequilibrou, tropeçando em direção ao garoto, que não perdeu tempo, enterrou a lança no peito do soldado. Com um barulho de sucção, retirou-a e atirou na cabeça de um segundo soldado que portava lança, fazendo com que o mesmo caísse sem fazer som. Terminado o perigo das lanças, Arien agora precisava cuidar das espadas e facas. Não foi feliz. Outro dos guerreiros tomou coragem e atingiu um dos braços do cão. O mesmo rosnou e atirou o outro braço para frente, fazendo as garras penetrarem profundamente na carne do inimigo. Puxou a mão e retirou com ela alguns ossos esmagados e carne pulsante. Pronto, menos um. Mas ainda faltavam três, contando com o general. Com um salto ágil, Arien parou na frente dos dois soldados restantes. No momento em que suas garras iam destroçar a garganta do próximo inimigo, sentiu a carne de uma das patas caninas ser perfurada. Maldito.

Imediatamente ele encolheu-se no chão, transformando-se em um alvo menor e rolando para fora do centro da batalha. Por mais que a pata doesse, forçou-a para dar um salto que o deixou imediatamente atrás dos dois soldados e de cara com seu comandante. Mordeu a nuca de um dos inimigos, cravando os caninos na coluna e sentindo na boca o amargo gosto de sangue humano. No momento em que o outro virou-se para encará-lo, Arien já tinha rasgado sua barriga com as garras. O chefe dos homens encontrava-se agora frente a frente com a besta coberta de sangue, tanto o seu quanto o de seus homens.

–Besta medonha! Mandou meus homens pra a terra dos mortos! – O homem praguejou.

–E você é o próximo. – Arien respondeu, atirando-se contra o homem e empurrando sua alabarda com um dos ombros, cerrando os dentes para suportar a dor de ter um de seus membros sendo rasgado. As garras mais uma vez entraram em ação, transformando o rosto do adversário em tiras.

–Idiotas. Além de terem medo de mim, não sabiam lutar. – Ele respondeu, arrancando a arma do braço, ao mesmo tempo em que começava a caminhar a procura de um rio para lavar-se.