O cão do trovão

5 Capítulo quatro


Os latidos de indignação de Arien podiam ser ouvidos a várias centenas de metros do buraco onde ele e Sindel se encontravam. O torso nu e coberto de cicatrizes medronhas subia e descia como um fole e as narinas tremiam nervosamente.

– Você... Por que...? Como ousa? – Os dentes a mostra e os músculos tensos provavam que não havia brincadeira ou aprovação aos atos de Sindel. – Drogas para dormir. Sua bas...

Um olhar gelado da garota fez com que ele parasse no meio da frase, sentindo o ar subitamente esquentar e sua respiração tornar-se pesada e difícil. Algo bestial havia tomado conta das faces bronzeadas da meio-dragão e Arien imediatamente soube que havia despertado algo com que não podia lidar. Mas também não importava muito. Ela podia ser muito mais forte, mas ele tinha a experiência ao seu lado. Deliberadamente esqueceu-se do fato e que ainda estava fraco e ferido, e tentou mascarar a própria fraqueza com devaneios em que estrangulava a garota que havia salvado sua vida.

– Termine a frase. – A garota sibilou.

– Eu... – O cão respirou fundo.

– Agora. – Ela insistiu.

– Bastarda. – Embora a palavra houvesse sido sussurrada, um brilho de desafio rondava os olhos dourados do ruivo e um sorriso feroz iluminava seus lábios finos.

Um som gutural escapou dos lábios da moça, que levou uma das mãos à altura do peito do rapaz. O calor da carne dela contra o plexo solar do cão o fez uivar, e uma enxurrada de lembranças ainda mais dolorosas do que a queimadura inundaram sua mente. Eram lembranças turvas de breves momentos de consciência, lembranças de dois cães furiosos chacinando crianças aos berros, e então o chão voando embaixo dele. Logo, a cena foi substituída pelo som alto de soluços agoniados. E a dor... Aquela dor tão intensa, aquele pulsar agoniado que percorria toda a extensão de seu diminuto corpo. Quando acordou pela quarta vez uma multidão cercava ele e os pais, que rosnavam furiosamente.

– Corra para longe. O mais rápido que puder, e não esqueça de não olhar para trás. – A mãe sussurrou em seu ouvido. – Vá

E ele foi. Não sabia como conseguira, nem de onde tirara forças para fugir naquele estado. Mas havia conseguido. O mais assustador, porém, não era a crueldade dos humanos, não era a fúria dos pais ou o fato de não os ter mais por perto, e sim que já não lembrava mais de seus rostos, ou se seu cheiro. A voz já havia se tornado um eco indistinto a muito tempo.

Fora um espaço de segundos, mas pareceu uma eternidade para Arien. Com apenas uma queimadura, apenas um toque e o gatilho de suas memórias fora ativado e ele não conseguira nem pensar em uma reação apropriada. Desde quando havia se tornado tão fraco? Passara dez anos evitando a duras penas o momento em que iria relembrar sua sofrida infância e logo quando sua vida corria maior risco ele precisava recordar?

Quando voltou a focar o olhar ao seu redor, Arien descobriu que Sindel estava encolhida em um canto e que o torso nu doía. Uma marca inchada e de aparência derretida e pulsante devorava o peito já coberto de marcas.

– Me perdoe Varis. Me perdoe. –A frase constantemente repetida fazia eco na caverna, transformando-se em palavras confusas e absolutamente sem sentido.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.