O cão do Central Park

8 Capítulo 8 - Quebra-cabeça


Capítulo 8 – Quebra-cabeça

Sherlock observou atentamente todo o local, andando de um lado para o outro. Devia ser realmente aterrorizante à noite.

— Foi assustador jantar aqui. Parece que alguns quadros me olhavam.

— Mas olhavam mesmo.

Ela o fitou de olhos arregalados, em busca de respostas.

— No subsolo há uma espécie de canos que servem como binóculos, iguais aos que são usados em submarinos. Mais um capricho da casa utilizado nas épocas mais remotas, quando havia batalhas e perigos por perto. Alguns ainda funcionam e estão conectados aos olhos de alguns dos personagens das pinturas.

— Mas eu olhei cada um de perto. Parecem mesmo estar pintados.

— Eu também pensei assim quando olhei daqui de fora, mas depois de uma análise cuidadosa feita lá de baixo, alguma pesquisa e o que estou vendo agora, consigo confirmar que se trata de uma película muito semelhante ao material da tela em si. No começo, achei impossível, mas vejo que me enganei. É como as películas utilizadas em vidro, que apenas quem está do lado de dentro consegue ver do outro lado. O trabalho pra disfarçar é muito bem feito, mas dá pra ver um pouco do brilho do material embaixo – ele disse, acendendo uma lanterna nos olhos de um dos personagens da pintura.

Joan se aproximou e até colocou seus óculos para ver melhor. Sherlock estava certo. Ela podia notar um brilho discreto e muito bem disfarçado no local, detalhe que ela facilmente havia deixado passar na falta de luz.

— Stapleton esteve nos olhando daqui? – Ela perguntou preocupada.

— Eu temo que talvez na noite em que você chegou e talvez mais uma vez, embora eu não saiba dizer o horário. Felizmente os canos só se ligam a esta sala e a alguns lugares no exterior da mansão. Mas pouco tempo depois eu fechei todo e qualquer buraco que sirva de observatório lá embaixo, até quebrei algumas coisas. Me doeu no fundo da alma quebrar algo tão magnífico, mas tudo pela segurança do nosso cliente e especialmente pela sua, minha querida Watson – ele concluiu carinhosamente.

Joan o encarou com um sorriso de derreter o coração e Sherlock usou todas as suas forças para não abraçá-la e beijá-la naquele momento, saindo de seu transe quando ela voltou a falar com ele.

— Não falou sobre isso pra Marcus ou o capitão?

— Falei sim. E como eu disse, não destruí tudo. Algumas peças podem ser restauradas e recuperadas quando tudo isso acabar.

Joan voltou a observar o grande quadro na parede, o mesmo que chamara sua atenção na primeira noite ali, e de repente levou a mão aos lábios para reprimir uma exclamação de surpresa, talvez de susto. Estavam ali. Os mesmo olhos que a incomodavam, ainda que não entendesse o motivo.

— Sherlock...

— O que?

— Olha direito pra esse rosto.

O consultor olhou o ponto que ela indicava na pintura antiga por alguns segundos, inicialmente sem entender, mas logo sua visão se iluminou. Estavam encarando Stapleton!

******

— Não encontramos nada no manuscrito original que pareça ser evidência de alguma adulteração ou pista. A cópia é perfeita, apesar de deixar claro que é uma cópia.

Os dois estavam no banco de trás de um táxi, seguindo para o outro lado de Nova Iorque. Laura Lyons vivia consideravelmente longe da mansão. Joan entrelaçou seus dedos e deitou no ombro de Sherlock, que a olhou rapidamente e apoiou sua cabeça contra a dela. Ele a queria bem mais perto, mas conteve-se, estavam no banco de trás de um táxi. Acariciou de leve a mão dela com o polegar e ficaram em silêncio pelo restante do trajeto.

Chegando ao local, deixaram o táxi e localizaram a casa e escritório da mulher que procuravam algumas ruas depois. Uma funcionária do local os levou para dentro. O local de trabalho deveria tomar a parte de baixo da casa e a casa em si se localizar no andar de cima. Sherlock e Joan passaram por uma sala de recepção e adentraram outra maior, onde encontraram um escritório. Duas mesas grandes, uma delas vazia, armários, dois computadores, papéis, tintas, máquinas antigas e todo tipo de materiais para escritas e criação. Uma mulher linda, cabelos castanho claros e olhos da mesma cor, rosto sardento e corado, lábios cheios e bem desenhados. Seu olhar era de alguém triste que vinha sofrendo bastante nos últimos meses, talvez anos. Ela levantou-se sorrindo simpaticamente ao perceber a presença deles, mas ficou séria ao ver que não os conhecia.

— Posso ajudar? – Perguntou, tinha uma voz marcante, mas suave.

— Nós tivemos o prazer de conhecer o seu pai — Sherlock sorriu simpaticamente, tentando ao máximo ser o menos sarcástico possível na palavra “prazer”.

— Diga logo que não foi agradável. Eu e o mundo sabemos que meu pai não é um amor de pessoa. Devo deixar claro que não temos nada em comum e se não fosse o senhor Charles Baskerville e outras boas almas caridosas, teríamos morrido de fome e meu pai pouco se importaria. É com a ajuda que o senhor Charles me ofereceu que tenho conseguido viver até agora.

Os três sentaram-se à mesa vazia e Sherlock deixou claras suas intenções.

— É sobre o senhor Charles Baskerville que viemos falar.

— O que quer saber? – Questionou com uma expressão agitada.

— Acreditamos que você e o senhor Charles trocavam correspondência. Pode nos falar a respeito? – Joan perguntou.

— Eu lhe escrevi algumas vezes para agradecer por tudo, mas não sei exatamente quando. Nos encontramos uma ou duas vezes discretamente, ele fazia caridade sem mostrar isso aos outros. Era um homem muito bondoso e modesto.

— Se conheciam pouco... – Sherlock começou – Como ele soube de sua situação? Seu pai falou algo?

— Não... – ela riu – Meu pai jamais moveria um dedo pra me ajudar. Muitos me ajudavam antes. Foi um vizinho próximo do senhor Charles, Stapleton, que lhe contou minhas condições. Ele também chegou a me ajudar um pouco.

— Escreveu para ele nos últimos meses? – Joan perguntou – Marcaram algum encontro?

Laura ficou muda. Seus olhos se agitavam e ela se mexeu nervosamente na cadeira.

— Laura, tem que nos dizer – Joan pediu – Precisamos fazer justiça, pela memória do senhor Charles. Chegou a encontrá-lo no dia de sua morte? – A chinesa perguntou, tentando ser o mais suave possível.

A mulher a sua frente ficou pálida, seus olhos se perturbaram da raiva à tristeza, e por um segundo os dois consultores se entreolharam, achando que ela passaria mal, mas ela tomou algumas respirações e falou um “sim” tão baixo que quase não puderam ouvir.

— Mas não cheguei a encontrá-lo. Nem saí daqui na verdade. Eu precisava de ajuda, achei que seria melhor conversarmos pessoalmente. Eu soube de repente que ele viajaria à Miami no dia seguinte e eu não podia sair daqui mais cedo. Tanto eu quanto ele preferíamos que seu ato de caridade fosse feito discretamente, por isso acertamos nos encontrar fora da mansão – ela dizia tudo de uma vez nervosamente – Mas por razões estritamente particulares eu sequer cheguei a sair daqui.

— Então escreveu para que se encontrassem e não compareceu na mesma hora e local em que ele perdeu a vida? – Sherlock perguntou – Precisa nos contar tudo. Se a polícia souber disso, a senhora se tornará a principal suspeita.

— Vocês sabem sobre a carta, então devem conhecer meus motivos – ela continuou quase chorando.

— Não sabemos. Ele queimou a carta como pediu, mas o Ps permaneceu intacto, só se desintegrando quando tentaram remover os restos do papel da lareira.

— Eu não posso dizer nada. É muito pessoal.

— Mais uma fortíssima razão para querer a polícia longe – Sherlock insistiu.

— Laura... – Joan a chamou da maneira mais gentil que pode – Sei que não vai entender como, mas nós dois sabemos que você tem um bebê aqui ou em algum lugar. Se não pelo senhor Charles, mas por sua filha, precisa nos contar mais pra que possamos te ajudar.

A mulher respirou fundo, com uma expressão assustada diante das palavras de Joan. Ela e Sherlock haviam percebido a presença de uma criança no lugar no exato momento em que olharam para Laura Lyons pela primeira vez. Estava escrito em sua expressão e gestos que era uma mãe há pouco tempo, Joan percebeu imediatamente que ela era uma lactante, além do olhar de Sherlock captar uma chupeta cor de rosa em um canto da outra mesa, junto ao computador em que Laura trabalhava.

— Meu ex-marido está me perseguindo. Minha vida tem sido um inferno. Ele quer tirar a Alex de mim. Eu não tenho condições de arcar com as despesas de um processo que conclua meu divórcio e nos dê proteção. O senhor Charles queria ajudar. Eu não fui até ele porque outra pessoa ajudou primeiro. Escreveria ao senhor Charles no dia seguinte, mas então vi a tragédia na TV.

— Quem ajudou? – Sherlock perguntou.

Ela parecia cada vez mais nervosa, mas não houve tempo para qualquer resposta. O choro de um bebê, vindo da sala seguinte, os interrompeu. Laura levantou-se e seguiu para dentro. Os dois a seguiram até a porta discretamente, percebendo que a casa já começava ali. Laura tirou a criança de um carrinho de bebê e a balançou de leve tentando acalmá-la.

— Talvez esteja com fome ou precisando de uma nova frauda – a mulher falou.

— Não, só está nervosa – Sherlock lhe disse.

Laura o fitou como fosse maluco e depois encarou Joan.

— Ele é capaz de identificar as necessidades dos bebês pela entonação do choro – Joan explicou.

— Vocês têm filhos? – Ela perguntou de repente, fazendo os dois engasgarem e corarem momentaneamente.

— Não – Sherlock disse.

— Ficaria espantada se soubesse quantas coisas estranhas mais ele pode fazer – a oriental falou simplesmente e se aproximou das duas.

A menina loura tinha pela branquinha, olhos castanho claros e rosto sardento como a mãe. Era uma criança linda. Joan sorriu, seguindo até o carrinho de bebê, pegando a manta cor de rosa lá dentro e a estendendo em uma mesa.

— Será que eu posso? – Ela perguntou, estendendo as mãos para Laura.

Após alguns segundos a mulher permitiu que Joan tomasse sua filha nos braços. Sherlock observou maravilhado a cena que se seguiu, e pensou no quanto Joan daria uma excelente mãe. A detetive recebeu a criança com todo o cuidado e carinho do mundo, sorrindo para ela, ainda que continuasse chorando, e a carregou até a manta na mesa, colocando a bebê sobre ela e a enrolando, como se acomodasse a pequena em um saco de dormir, explicando a Laura cada passo do que estava fazendo. A menina parou de chorar instantaneamente e Joan a colocou outra vez no colo de sua mãe.

— Até os dois meses de idade os bebês são incapazes de controlar o movimento dos membros, isso os irrita e impede que durmam bem. Também sentem insegurança e desconforto no novo ambiente, fora do útero da mãe. Pra elas é mais frio, muito grande e espaçoso demais, além de não escutarem mais o tempo todo os batimentos cardíacos ou a circulação do sangue da mãe. Sempre que ela chorar e nada funcionar, tente isso. Pode embrulhá-la assim pra dormir e usar um lençol mais fino quando estiver quente.

— Obrigada – ela disse com sinceridade, balançando a filha de leve e a acomodando novamente no carrinho quando a criança caiu no sono – Estudou medicina?

— Eu fui médica. Há muito tempo.

— Alex nasceu há um mês e meio. Meu marido me deixou no sétimo mês de gravidez. Não apareceu desde então, mas quando foi embora disse que ainda veria a filha. Escolhi o nome de Alex e dei a luz sozinha, apenas com a ajuda do 911 minutos depois que ela chegou. Vivo com medo a cada segundo.

Infelizmente nada mais conseguiram tirar de Laura Lyons, não podiam obrigá-la a falar ou se defender, então deixaram a casa, procurando por um táxi no caminho. Joan revirou os olhos ao ver Sherlock metralhar com o olhar alguns jovens que olharam para ela com ar de admiração e quase riu quando ele a envolveu pela cintura possessivamente e quase rosnou para um homem mais velho que a olhava.

— Sherlock Holmes está com ciúmes? – Ela provocou, divertindo-se com a situação.

— Você é minha, e somente minha, amor. Os outros devem estar cientes, aceitar isso, e morrer de inveja sozinhos, sem ousarem pôr os olhos em você.

Ela finalmente riu e o beijou na bochecha, vendo o olhar dele ficar tão manso e feliz que a fez sorrir. Joan finalmente conseguiu um táxi e os dois se encaminharam de volta para a mansão.