O cão do Central Park
2 Capítulo 2 - Perseguidor
Capítulo 2 – Perseguidor
Joan despertou de um sono bom e tranquilo, sentindo-se muito confortável com o calor e o peso do coberto. Abriu os olhos e percebeu que não estava mais na sala e sim no quarto que ficava ao lado da cozinha. Sherlock devia tê-la levado. Sorriu ao pensar no quanto ele vinha sendo gentil e compreensivo, um lado dele que somente ela conhecia e entendia. Outras pessoas jamais pensariam que Sherlock podia ser carinhoso com alguém, ainda que demonstrasse isso com ações tão simples, mas que vinham fazendo uma boa diferença do Sherlock arredio que ela conhecera ao se tornar acompanhante. Lembranças vaguearam por sua mente, em especial o momento que ela nunca esqueceria, aquelas palavras que haviam ficado marcadas eternamente em seu coração, “Eu sou melhor com você”.
Voltou à realidade ao perceber que o sobrado estava imerso no mais puro silêncio. Sherlock devia ter saído. Pensava em se levantar quando o ouviu abrindo a porta da frente, jogando papéis sobre a mesa e caminhando para seu quarto. Ele abriu a porta com cuidado, tentando evitar qualquer barulho.
– Está acordada... Como se sente?
– Não sei... Acho que minha pressão tá meio baixa, mas só isso. E não me diga que sou pesada.
– Não é anormal. Eu vou esquentar o chá e fazer algo salgado para alimentá-la. E você é leve como uma pluma, Watson. Estou sendo sincero – ele tentou reforçar o que dizia, e ela pode ver que era verdade.
– Por quanto tempo eu dormi?
– Quase duas horas. Eu não queria deixa-la sozinha, mas você parecia bem, então dei um pulo até a delegacia o mais rápido que pude. Sente alguma dor? Reflexologia nos seus pés pode ajudar bastante.
– Não, brigada. Eu tô bem, Sherlock. Encontrou alguma coisa?
– Ocorrências estranhas que se acumularam ao longo dos anos nos arquivos do departamento. Além de nunca terem sido provadas, há quem pense que as vítimas estavam confusas, fosse por bebida, sono, cansaço, neblina ou chuva numa noite de inverno.
– Que tipo de ocorrências?
– Você não vai acreditar! Agora entendo porque o senhor Mortiner tem medo, apesar de não ser supersticioso. Alguns habitantes, visitantes e trabalhadores do Central Park que passavam próximos a estátua de Balto a altas horas da noite, alguns de madrugada, relataram ter ouvido uivos, latidos, ganidos de deixar os cabelos em pé. Mas esses só foram procurados pelo departamento por causa dos que foram lá primeiro.
– Onde quer chegar?
– Precisamente cinco pessoas relataram ter visto na escuridão da noite, enquanto o parque está praticamente vazio, uma criatura gigantesca e medonha, que parece saída do inferno. Um cão enorme de olhos brilhantes. Alguns descreveram como um urso, outros como um monstro. Um dos caras estava meio bêbado, o primeiro, por isso só foi levado a sério depois dos outros quatro depoimentos. Como eu disse, se acumularam ao longo dos anos. Três das cinco pessoas nem estão mais vivas, eram de idade já quando aconteceu. Uma delas ficou tão aterrorizada que morreu meses depois por causa do choque que afetou sua saúde. Se parece muito com o que o senhor Mortiner nos contou. E todos esses relatos coincidem com as datas das mortes de herdeiros recentes da família Baskerville. A mansão deles não fica tão distante da estátua de Balto.
– Então acha mesmo que pode existir um monstro? Nem eu acredito. Se for uma armação, acha que o criminoso pode estar tentando culpar Balto?
– Pra quem acredita em contos de fadas e pra um criminoso que quer encobrir a verdade se aproveitando da crença de algumas pessoas no sobrenatural, talvez. Já há a lenda dos Baskervilles para confundir suas cabeças. Por que não acrescentar à equação o espírito de um mestiço de lobo e husky, ainda que ele tenha sido um herói? É muito cedo pra concluir qualquer coisa. Quando você estiver melhor, amanhã, vamos visitar as duas vítimas vivas. E é muito provável que em breve aparecerão vítimas novas. Pedi que Bell nos ligasse quando acontecer. Agora, vou fazer algo pra você comer. Há algo mais que eu possa fazer? Algo que você precise?
– Não. Obrigada, Sherlock – respondeu com um sorriso gentil.
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– Senhora Catwright, pode nos descrever com precisão o que viu naquela noite e como tudo aconteceu?
– Eu era mais jovem naquela época – a senhora começou – Jovens lidam melhor com essas coisas estranhas, senão acho que eu teria enlouquecido. Quando penso naquilo hoje, chego a perder o sono. Quando aconteceu, eu estava passando pelo parque à noite, por volta das dez horas, era meu caminho pra casa. O lugar estava vazio. Eu estava cansada, estava frio, havia um pouco de neblina. Por isso pensei estar confusa, mas depois acabei indo à polícia quando soube que o pobre herdeiro dos Baskervilles havia sido encontrado morto naquela noite com ferimentos horríveis pelo corpo, apesar da morte ter sido atribuída a uma queda muito grande de uma árvore da mansão. Quando liguei os pontos pensei que um cão raivoso de rua pudesse ter feito. Mas nunca nada foi provado. E afinal, ele foi encontrado dentro da mansão. Eu vi a criatura fora.
– Pode ser mais precisa? – Joan lhe pediu.
– Como eu já disse, eu estava voltando pra casa ao fim do meu turno de trabalho, por volta das dez da noite. Sempre trabalhei próxima ao parque. Era uma noite muito escura, talvez de lua nova. Estava bem vazio, apenas algumas poucas pessoas. De repente ouvi um som horrível ao longe, parecia um rosnado horrível, alto, que ecoou perto da estátua do lobo Balto. A princípio ignorei, pensei se tratar de um cão de rua. Mas os barulhos pioram. Latidos, uivos, ganidos, som de patas enormes. Eu apressei meus passos pra sair o mais rápido possível dali. Então eu jurei ter visto um urso negro enorme. Ele olhou pra mim quando comecei a correr, seus olhos faiscavam, não sei dizer corres, só que era um animal gigantesco e horrível. Por alguma razão ou milagre, a criatura não me perseguiu. Eu poderia não estar aqui agora, senhor Holmes. Eu fiquei em choque por vários dias. Antes de procurar a polícia, contatei o zoológico das proximidades, mas me disseram que todos os animais estavam lá. Quando eu soube sobre o jovem morto, na manhã do dia seguinte, eu procurei a polícia. Isso é tudo que sei.
– Nós agradecemos. O que nos disse vai ajudar bastante.
– Por que vieram aqui me perguntar essas coisas? – Ela questionou com um olhar de pavor – A criatura tornou a ser vista tanto tempo depois? Que eu saiba o senhor Charles morreu por problemas de saúde. Pobre família, carrega uma trilha de tristezas.
– Não se preocupe. É apenas um caso que ficou em aberto. É comum que tentemos encerrá-los de tempos em tempos. Coletar informações é um procedimento vital, especialmente porque eu e minha parceira não conhecíamos o caso até ontem. Muito obrigado, senhora Catwright.
– Se houver repercussão de novas aparições ela vai ter um ataque – Joan falou quando caminhavam para encontrar Mortiner e Henry.
– Não haverá. Eu alertei o capitão e Bell de manterem total sigilo. Se há um criminoso por trás disso, como o pegaríamos? A senhora Catwritgh relatou basicamente o mesmo do homem que entrevistamos anteriormente, mas ela estava perto da estátua. Ele, mais próximo da mansão, onde um herdeiro morreu após cair do muro e sofrer uma lesão grave na cabeça naquela noite chuvosa. Nosso primeiro entrevistado não viu exatamente um animal, viu um vulto negro enorme e dois pontos luminosos que podiam ser seus olhos, mas também ouviu uivos e rosnados.
– Devemos esconder isso de Henry Baskerville?
– Até o momento certo. Alguma hora ele terá que saber, mas primeiro temos que conhece-lo e descobrir até onde ele sabe.
Henry Baskerville parecia um jovem exemplar, bem sucedido e que demonstrava uma aparência nata para os negócios. Vestia-se muito bem, camisa social e gravata, calça preta e sapatos sociais. Parecia ter a mesma idade do doutor Mortiner, tinha altura mediana, olhos castanhos e cabelos negros, e apesar da constituição robusta, do rosto sério e amedrontador à primeira vista, era uma pessoa muito gentil. Ele não tinha conhecimento ainda sobre a terrível lenda que assolava sua família até Mortiner lhe contar naquela manhã e agora buscava desesperadamente entender o sentido de uma mensagem misteriosa enviada ao hotel. A frase era forma por palavras recortadas de jornal, algumas pareciam vir de palavras cruzadas, devido ao sentido diferente de leitura. Apenas a palavra “mansão” escrita à mão.
“Se você valoriza sua vida e está em posse de sua razão, não deixe a mansão na lua nova.”
– Por que na lua nova?! – Ele perguntava pela segunda vez.
– Senhor Holmes, isso pode ter alguma ligação? – Mortiner questionou.
– Todas as que analisamos aconteceram numa noite sem lua.
– Como assim – Henry perguntou – O que eu não sei ainda?
– Tenha um pouco mais de paciência – Sherlock lhe pediu – Primeiro a mensagem.
O detetive olhou em volta, apanhando na mesa do quarto um exemplar do New York Times.
– Aqui está – ele mostrou e os outros observaram a página indicada.
– Você, valoriza, vida, posse, sua, razão, lua nova. São as respostas das palavras cruzadas. E as outras estão nos títulos das publicações menores – Joan notou.
– E se resta dúvida, veja que “não deixe a” estão coladas na mesma tira de papel.
– Como sabia de qual jornal isso veio? – Henry perguntou espantado.
– Reconhecer a tipografia é uma característica indispensável a consultores. Se ler minhas monografias saberá disso e que posso identificar muito mais tipos. Essa tipografia bem projetada é típica do Times. Também posso dizer que essa mensagem foi enviada por uma mulher bem instruída que temia ser interrompida durante a confecção da mensagem. Ela escreveu a palavra mansão porque não a encontrou escrita.
Os dois clientes ficaram em silêncio, boquiabertos.
– Ele quis dizer que a mensagem foi cortada com uma tesoura pequena, dá pra ver pelos piques no papel, provavelmente uma tesoura de unha. A letra está distorcida, aprece ser de propósito, mas dá pra ver que é feminina. Só uma mulher instruída leria o New York Times, e provavelmente não enviaria uma mensagem com recortes colados tortos como esses, apesar dos sentidos diferentes de leitura se não o fizesse com pressa. Mas por que? Quem pode ser? E por que enviou essa mensagem? – Joan concluiu.
– A mensagem não tem endereço além do deste hotel. Faz parecer que veio do correio, não de um intermediador, mas! Você disse que um funcionário daqui a entregou. Quer apostar quanto que ele ganhou alguma coisa pra isso ou que foi ameaçado? Se procurarmos, vamos encontrar também o jornal destruído do Times nas lixeiras de locais próximos a esse hotel.
– Acha que posso estar sendo seguido?
– É possível – Sherlock respondeu a Henry – Aconteceu algo fora do comum desde que chegou à Nova Iorque?
– Três luvas dos pares que tenho desapareceram do quarto ontem. Não entendo como. Não aguento mais brigar com os funcionários para que descubram o que houve.
– Luvas velhas ou novas?
– Um das velhas e o par novo.
– Tudo que posso lhe dizer agora é que quem enviou a mensagem não é aliado, mas também não pode ser inimigo, já que parece querer adverti-lo de algo. Você quer ir pra mansão da sua família?
– Quero! Eu quero muito continuar o que me tio Charles deixou. E não vou deixar uma lenda me impedir.
– Quando pretende fazer isso?
– Em três ou quatro dias. Estou apenas esperando que alguns assuntos sejam cuidados. Não vou ficar nesse hotel pra sempre.
– Senhor Mortiner... – Joan começou – Se algo acontecesse a Henry, quem herdaria a fortuna deixada pelo senhor Charles?
– Rodger, mas ele está morto. Talvez alguns parente distantes, mas acho que nem sabem tanto sobre a mansão e a história da família.
O casal de consultores deixou o hotel caminhando. Sherlock parecia distraído ou concentrado demais em alguma coisa.
– Watson...
– O homem de óculos escuro, cabelo preto e barba? – Ela sussurrou de volta – Parece estar covenientemente perto do hotel.
– E atento demais a nós dois pro meu gosto. Vamos tentar emboscá-lo e mais tarde vou pedir que Teddy visite esse hotel e tenha uma conversa com alguns funcionários.
Os dois pararam em frente a alguns jornais pendurados para venda, fingindo interesse, mas antes que pudessem se virar ou pensar em qualquer coisa, o homem misterioso sumiu e não puderam localizá-lo.
– Não é o fim do mundo, Watson. Ele jogou fora uma nota de compra quando passamos por ele – Sherlock dizia caminhando até a lixeira do outro lado da rua.
Felizmente não foi difícil recuperar o papel e Sherlock deu boas gargalhadas ao lê-lo.
– Veja isso, Watson. Parece que Henry e Mortiner não são os únicos observados por aqui.
– O que?! – Ela surpreendeu-se ao ler.
“Cafeteria D’espresso (317 Madison Avenue, New York)
1 café amaretto
Mesa 4 – cliente, Sherlock Holmes”
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