— Pode devolver isso, não quero ver esta lista novamente. — Elsa estendeu a lista de futuros pretendentes a uma empregada. — Já dei minha bênção ao relacionamento de Anna, Kristoff é um bom rapaz.

Elsa olhou para os conselheiros, estes eram compostos por três homens de aparência severa e cansada. Havia o William de cabelos brancos e olhos pretos, aparentava estar na meia-idade e era um amigo de longa data dos pais de Elsa.

Bertrand era o segundo com maior desaprovação ali, ele era reconhecido por todos os reinos por seus ensinamentos a príncipes e princesas excelentes, ele havia sumido nos últimos anos, mas reapareceu aqui, com o papel que o designava como conselheiro em mãos.

E, por fim, tínhamos o Duque Gram, ele havia vindo das ilhas do Sul após ser convidado pelos pais de Elsa e trouxe o décimo terceiro príncipe com ele.

Quanto a Hans... Ela não sabia exatamente com qual propósito ele havia vindo, além de espioná-la.

Ela não confiava em nenhum ali.

— Me desculpe pela intromissão, majestade, mas ser um bom homem não será suficiente para a satisfação do reino. Há décadas, são feitos casamentos de príncipes e princesas com o intuito de beneficiar ambos os reinos e isso inclui o povo... — Duque Gram falou em apoio às ideologias que eles ali compartilhavam.

— Eu não vou retroceder nessa decisão. — Ela reafirmou, massageando a testa.

— Isso pode demorar, mas vai se espalhar pelo Reino como um vírus e as pessoas começarão a questionar suas decisões, pode acabar se tornando motivo de revolta. — Alertou William.

Elsa ergueu a mão, finalmente se irritando.

— Qual parte do que eu disse você não entendeu? — Franziu o cenho, verdadeiramente irritada com todos sempre a questionando. Queria agir com raiva às vezes, mas, graças aos indesejados poderes que tinha, precisava se controlar.

Sempre se controlar...

Suspirou, acalmando-se ao ver William parado, olhando-a sem saber como agir.

— Minha decisão está tomada, não quero mais discutir sobre isso novamente. — Ela concluiu.

As pessoas não precisavam de casamentos reais, mas agora entendia por que eles sempre aconteciam em Arendelle, todos pareciam tratar aquilo como o ápice de reinado.

Sendo que tudo que precisavam era só de um bom reinado, isso seria o suficiente para prosperarem.

Ela acenou para os conselheiros saírem.

Eles se inclinaram em respeito e, de má vontade, se retiraram.

— Mary? — Elsa chamou.

— Sim, majestade?

— Prepare a carruagem. — Ela pediu, encaminhando-se para a porta de saída.

Hans, que escutava toda a reunião acima das escadas, desceu para não ser visto por Elsa e fingiu surpresa ao vê-la.

— Rainha Elsa. — Cumprimentou.

— Príncipe Hans.

— Ouvi dizer que haverá a inauguração da fonte hoje, posso acompanhá-la? — Ele se ofereceu e ela pareceu não escutar a pergunta.

Hans já se preparava para repetir a pergunta quando ela finalmente concordou.

— Claro, vamos. — Ela entrou na carruagem e ficou surpresa e aliviada ao constatar que Hans permaneceria em silêncio. Havia mandado o Duque Gram adverti-lo a não tocar mais em nenhum funcionário do castelo e Hans parecia ter aceito aquilo com uma docilidade quase desconcertante.

Ela detestava o fato de ter que lidar com ele, mas havia tantos problemas para resolver que simplesmente ainda não tivera tempo para pensar em como mandá-lo embora.

Até lá, era melhor mantê-lo por perto.

Ela suspirou, olhando pela janela.

Não conseguia parar de se preocupar com o que faria se o povo não confiasse nela. Sua reputação era neutra, eles não aprovavam nem desaprovavam seu reinado, afinal, ainda era muito jovem, mas sentia que havia uma inclinação natural à rejeição, alavancada por sua infância reclusa e longe dos olhos de todos.

Ao chegarem, Anna já estava no local. Era uma grande praça ao ar livre e no centro estava a fonte que agora funcionaria todos os dias pelo mês todo.

— Elsa! — Anna acenou animada, mas seu sorriso diminuiu ao ver que Hans também desceu da carruagem.

Os guardas que estavam nas proximidades também pareciam surpresos.

Elsa desviou da fita vermelha.

— Não chegou ninguém ainda? — Elsa indagou, espantada.

Os carrinhos que ela encomendou já estavam ali, cheios de bolinhos bem embalados e prontos para serem distribuídos.

— Já é tarde, era pra ter pelo menos alguém, não? — Hans perguntou, olhando para o relógio de bolso.

— AINDA são seis horas, nem Kristoff chegou e olha que ele disse que sairia mais cedo do trabalho para vir hoje. — Anna explicou e Elsa a observou. Por mais que estivesse frustrada, ela percebia que Anna estava finalmente mais contente do que já esteve nos últimos anos e a confiança dela a motivou.

Os minutos se passaram e se transformaram em horas, Elsa andou de um lado a outro, estava com raiva, mas não sabia dizer de quem ou do que.

Anna tocou o ombro da irmã.

— Elsa, talvez... Talvez seja melhor voltarmos para casa. Não sei por quê, mas nem mesmo Kristoff veio, talvez tenha acontecido alguma coisa. — A ruiva sugeriu.

Elsa olhou ao redor e cruzou os braços, não conseguia evitar de se sentir um pouco humilhada.

— Vamos esperar mais um pouco. — Pediu com um suspiro pesado e então, como se seu desânimo houvesse surtido efeito, ela ouviu crianças conversando e depois várias outras. Todas vestiam um pijama quente enquanto vinham com expectativa pela rua central do vilarejo.

— Kristoff! — Anna exclamou quando viu o rapaz loiro em cima de Sven tocando um bandolim e cantando.

(...)

Algumas horas antes.

— O que é isso? — Jack indagou ao terminar de ler uma carta que havia encontrado no chão.

Sentiu a boca seca e precisou ler de novo para ter certeza de que não estava vendo coisas.

Era uma crítica à decisão de Elsa de não casar a irmã com um príncipe e nas linhas seguintes citava as decisões que Elsa tomara nos últimos meses, questionando sua autoridade e suas motivações,

" ...Uma tradição de anos terá que ser quebrada agora para a rainha saber da indignação do povo ao seu reinado libertino. Em protesto, sugerimos que ninguém compareça à inauguração da fonte este ano. A rainha demonstrou claro desprezo pelas tradições de Arendelle."

Jack amassou a carta com as mãos e a colocou no bolso, aquilo era um monte de merda.

— Ei, ei, garoto! — Ele gritou, chamando o menino que estava distribuindo aquelas cartas várias casas adiante.

O menino o olhou assustado e começou a correr.

Jack o perseguiu por duas quadras até finalmente conseguir segurar o menino pelo capuz.

— Eu não fiz nada! Por favor, não me machuque, eu nem sei o que está escrito! — O menino implorou, os olhos procurando por todos os lados alguém para pedir ajuda.

Jack se inclinou para ficar do tamanho do menino.

— Ei, calma, calma, certo? Eu não vou machucar você. Agora me diga, quem te mandou entregar essas cartas? — Jack perguntou, fazendo contato visual com os olhos pretos do menino. Ele hesitou e balançou a cabeça.

— Foi... Foi alguém do Palácio, não sei quem foi, pois usava capuz, mas tinha cabelos ruivos, ele só me deu a bolsa e umas moedas e pediu para que eu distribuísse as cartas. — O menino respondeu, tocando nos próprios cabelos pretos em sinal de nervosismo.

Jack não tinha certeza se aquela era a verdade, mas não queria pressioná-lo, então teve de se contentar com aquela resposta.

— Essas cartas são uma acusação muito grave contra a rainha, você entende o que isso significa? — Jack indagou e o menino concordou, assustado. — Certo, vamos indo, vou deixar você na sua casa. — Falou de modo casual.

Levantou-se, pegou a bolsa do garoto e fez sinal para o menino andar.

Então continuou:

— Você não deve sair pelos próximos dias, tudo bem? — O rapaz pediu e o menino o olhou com os olhinhos temerosos.

— Eles virão atrás de mim? — Jack demorou para responder, pois estava checando se alguém os seguia. Constatou que não.

— Não, não virão, nada vai acontecer com você. — Jack disse, dando um sorriso reconfortante. O menino pareceu relaxar, mas Jack não tinha certeza sobre o que acabara de dizer. Teria que ficar próximo pelos dias seguintes para garantir isso.

— Obrigado. — O menino agradeceu hesitante ao parar na porta de sua casa.

— Não precisa me agradecer, aliás, só mais uma pergunta, onde você ainda não entregou essas cartas? — Jack quis saber e se despediu após ouvir a resposta, indo em direção ao castelo.

Não havia dúvidas de que o mandante era do castelo e a única pessoa em quem ele confiava para conversar sobre isso era Mathias.

Ele entrou no castelo. Precisava ficar mais atento agora que sabia disso.

Subiu as escadarias e ficou surpreso ao ouvir a voz de Hans vindo da sala do tenente.

— Isso é um absurdo, precisamos fazer algo sobre essas cartas! — O ruivo exclamou exasperado e Jack ficou aliviado por ter a porta entre ele e os dois homens.

— Não se preocupe, príncipe Hans, estamos fazendo o possível para achar o culpado. — Mathias disse cordialmente, um modo que Jack não sabia que ele poderia ter.

O silêncio que se seguiu fez ele agir, temendo que este fosse por sua presença atrás da porta, ele bateu com o dedo antes de entrar.

— Tenente. Príncipe Hans. — Jack se inclinou.

— O que te traz aqui? — Perguntou Mathias.

— Vim falar sobre as cartas. — Jack explicou, retirando a bolsa do ombro e a colocando na mesa. — Achei esta bolsa cheia delas na rua, mas vejo que você sabe do que se trata, então vou me retirar. — Finalizou, indo até a porta.

— Vou aproveitar para me retirar também, tenente Mathias, me avise se tiver alguma informação— Jack ouviu Hans dizer e, quando ele estava perto da escada, o ruivo o chamou:

— Livreiro!

Jack parou e esperou que ele o alcançasse.

— Majestade. — Jack murmurou sem o reverenciar.

Hans ignorou seu ato e pediu:

— Poderia não comentar sobre isso com a Elsa? Ela está animada para a inauguração e acredito que isso acabaria com o bom humor dela.

Jack quase pediu para Hans repetir o pedido, não pôde deixar de achar engraçado e sem sentido aquela solicitação. Conhecia pessoas como Hans, pessoas que achavam que estavam em um jogo e que podiam tratar os outros como bem quisessem.

— Por que está pedindo isso para mim? — Jack quis saber, tentando conter o irritamento.

— Bom, agora com toda essa história da Anna... É possível que Elsa seja pressionada pelo povo a se estabilizar em breve, e como ela deve estar procurando um bom candidato, só quero evitar que ela seja pressionada por boatos ou decisões apressadas. Ela merece escolher com calma. Você entende, não é? — Hans falou e foi como se um tapa tivesse atingido Jack, ele nunca pensara sobre isso, em nenhum momento lembrou disso.

Elsa se casaria em algum momento e se sentiu profundamente ferido por aquilo.

— Jack. Hans. — Era a voz de Elsa, ela estava ali ao lado de Hans, parecendo surpresa por ver ambos ali juntos, ele não havia notado sua presença se aproximando.

A visão dela ao lado de Hans ou de qualquer outro homem, em todos os sentidos, lhe dava um aperto terrível no peito.

— Rainha Elsa, onde está indo? — Hans perguntou calmamente.

— Estou indo até a sala do trono, os três conselheiros querem falar comigo. — Ela respondeu casualmente.

— Jack, você está bem? — Ela quis saber, os olhos azuis que ele sempre admirou o olhavam agora com preocupação genuína.

Jack fechou a mão em punho e disse:

— Preciso ir, vim só devolver uma coisa que Hans perdeu na cidade. — Retirou a carta amassada do bolso e entregou a Hans, que rapidamente a escondeu no bolso.

Sabia que era uma acusação perigosa, mas ele não se importava.

Desceu as escadas.

— Jack? — Elsa o chamou.

Ele parou e se virou para ela.

— Você irá à inauguração hoje? — Ela o olhou com expectativa, os cabelos loiros estavam soltos delicadamente e desciam até sua cintura, era a primeira vez que ele a via usar os cabelos assim.

Ele se sentiu desarmado, seu coração doía de um jeito doloroso e viciante, ele precisava admitir, estava perdido, devotado pelo que sentia e não havia como retroceder.

Já que ele não podia auxiliá-la a respeito dos conselheiros, ajudaria na inauguração.

Só lhe restava esperar que, em algum momento, Elsa começasse a sentir o mesmo que ele.

— Eu não perderia nem se a pior nevasca caísse. — Ele sorriu minimamente.

Elsa devolveu-lhe o gesto.

(...)


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.