O conto de um zumbi

1 Capítulo unico


Eu acordei ciente de que eu estava morto.

Mas o assustador para mim não era estar morto. Assustadora era a parte de que eu estava ciente disso. Isso está errado, não é? Um zumbi é um ser apenas semiconsciente de suas ações. Eu devia pensar algo como “cérebro, cérebro” e começar a vagar inconscientemente por ai atrás de carne. Mas não foi isso que aconteceu.

Eu comecei a andar, a procura de meus amigos. Olhava de vez enquanto para o meu corpo, a procura de sinais de que eu estava me decompondo, mas não encontrava nada além do meu braço mordido e sangrento.

Encontrei o meu grupo depois de meia hora, nas quais havia percorrido duas quadras. Quando meçamos, éramos cerca de quinze pessoas, estudantes, trabalhadores, cidadãos comuns e em pânico. Agora não passamos de cinco pessoas com a aparência suja, mentes cansadas e olhos assustados. Se nós não morrêssemos por fora, em breve estaríamos mortos por dentro.

Quando eles me viram após ser mordido, e mesmo assim chama-los pelo nome, entraram em pânico e depois em felicidade extrema. Aquilo era sinal de que eu era imune ao vírus! A cura era eu! Eles me abraçaram. Era a primeira vez que eu os via felizes desde que essa epidemia do “vírus zumbi” começara, cerca de três meses atrás.

Mas só eu soube que isso era mentira. Eu deveria apenas ter algo no meu sangue que retardava o vírus, não uma imunidade total. Eu sabia de tudo isso por um simples motivo: Enquanto minha namorada me abraçava, o cheiro de sua carne era irresistível.

Fiquei por perto, mesmo sabendo que eu era uma ameaça. Se nós encontrássemos ajuda, talvez alguém pudesse me por em observação. Tirar o que retardava o vírus do meu organismo, e usar isso para fazer uma cura. Se isso fosse possível, eu poderia ser curado. Poderia estar do lado dos vivos novamente.

Cada dia que esse grupo passa fugindo a procura de ajuda, eles estão menos seguros. A minha consciência está fugindo de mim e eu tenho mais dificuldade de manter os pensamentos em ordem. “Quanto tempo vai demorar até que eu perca totalmente a consciência?”, eu fico me perguntando. Essa é uma questão que seja lá qual for a resposta, eu tenho medo. Fico com medo de perder a consciência logo e esquecer quem eu sou, as minhas experiência e quem eu amo. Mas tenho mais medo de não perder a consciência logo e começar a matar as pessoas sabendo o que eu estou fazendo.

A minha pele já está muito decomposta. Mas é inverno, e faz um frio muito rigoroso na cidade onde estamos, por isso eu posso esconder as partes decompostas do corpo baixo dos casacos grossos e das luvas. Mas é cada vez mais difícil de esconder. A minha bochecha é apenas um pedaço de pele que ira se rasgar a qualquer momento e a parte interna do meu olho esquerdo também começou a se decompor, já sou incapaz de enxergar com ele.

Também tem o cheiro de carne podre, mas não é tão difícil de esconder. Há milhares de cadáveres andando lá fora que tem o mesmo cheiro. E como há uma necessidade urgente de armazenar toda água potável, ninguém toma banho. Tudo fede.

Mas o pior de tudo é a fome. Eu sentia uma fome enorme, uma fome incontrolável. O fato de eu saber quem eu ter consciência do mundo ao meu redor apenas tornava isso pior.

O primeiro que comi foi um cão de rua. Todos estavam do lado de dentro de uma velha casa, esperando que a manhã chegasse para continuar a viajem. Eu sai escondido da casa e da presença deles. O cheiro da carne deles estava me deixando louco. O cão era apenas um pobre coitado que vagava pelas ruas fugindo de outros zumbis. A carne dele tinha um gosto ruim, mas minha fome era tanta que isso não fazia diferença. Quando eu me alimentava a minha linha de consciência ficava tão fina que quase se rompia.

Consegui sobreviver os dois primeiros dias desses animais sem sorte. Mas na noite seguinte, um dos membros do meu grupo me apanhou de surpresa em um beco enquanto eu me alimentava. Quando me viu fazendo aquilo, o homem congelou no lugar que estava e a minha consciência sumiu. Eu o ataquei. Eu o comi. E tudo que eu podia pensar era em como eu queria mais carne.

Quando minha consciência voltou já era tarde. Olhei para os restos do homem. Ele se chamava Ned, eu acho. Era empresário. Estava voltando do serviço quando a epidemia do vírus zumbi começou. Achou esse grupo por sorte. Me achou comendo por azar.

Mais duas pessoas além de Ned morreram naquele dia, minha namorada foi uma delas. Ela estava fraca de mais devido a falta de recursos e de paz, morreu louca e doente. E a outra havia saído pra procurar Ned, e por descuido tinha sido atacado por um grupo de zumbis.

Agora somos eu e um garoto de catorze anos. E nesse exato momento estamos todos escondidos em um carro parado no meio da estrada. O menino mais novo esta no banco do passageiro e eu do motorista. Ele olha fixamente para o lado de fora do carro. Deve estar pensando na família, nos amigos ou em qualquer coisa da sua vida antiga.

Eu não me lembro mais da minha vida antiga. Não sei se tinha irmãos ou se meus pais haviam morrido antes da epidemia começar. Não consigo me lembrar de como era o nome da minha falecida namorada. Nem qual é o nome daquele garoto. Eu nem ao menos me lembro de como vim parar neste carro.

Mas eu me lembro que eu fui tão egoísta, mesmo sabendo que eu já era um zumbi eu insisti na mentira que ainda estava vivo. Eu devia ter ficado longe deles, para a segurança deles. Mas eu queria tanto estar do lado dos vivos... fingia que estava do lado dos vivos. Queria estar do lado da minha namorada. Queria reencontrar a minha família. Queria ser curado.

Mas agora eu só me lembro de que quero carne. A carne do garoto cheira tão bem... ele está tão próximo... que fome... que fome...

Eu acho... acho que eu estou perdendo a consciência...

Eu preciso ser forte...

Eu preciso ser for...

Eu preciso de carne...

Eu quero carne...

“Me mata, cara! Rápido!” tento dizer, mas minha garganta não obedece.

Carne...

Eu preciso ser morto...

Sim...Carne

Só morto... Sem a parte do vivo.

Carne...

Só morto...

Carne ...

Morto...

Carne...

Carne...

Carne...

Notas finais
Quando eu li essa historia pela segunda vez, eu pensei "Que bosta hein." Mas eu não tenho nada a perder se eu postar.

Espero que você tenha gostado. Até porque nunca escrevi algo do tipo, então foi uma aventura interessante para mim como escritora.

Criticas, elogios, ameaças de morte, pedidos de casamento e qualquer outro tipo de comentário são bem-vindos.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!