O conto da Princesa Vermelha
3 Capítulo 3
Você esperou que os preparativos para uma festa daquele porte fosse durar perto de um mês, mas qual não foi sua surpresa quando avisaram que em menos de duas semanas o castelo começaria a receber os convidados. Todas as festividades durariam em torno de uma semana, finalizando com Baile de noivado, que deveria entrar para a história e ficar na memória de todos os convidados.
Como Euphemia faria aquilo em tão pouco tempo? Claro que ela não faria. Mary chegou na manhã seguinte a reunião dizendo que a rainha estava preparando aquilo desde que foi resolvido os tramites do casamento com sua irmã, ela estava alocando comida e preparando o castelo para os convidados, planejando as festividades, os jogos, as danças, tudo o que teria e eles estavam apenas sendo corteses, não querendo jogar você em um mundo desconhecido, por isso lhe deram algumas semanas para que você se acostumasse com tudo aquilo.
Você não estava acostumada, isso era evidente.
Você conhecia todas as pessoas do seu reino, porque você nasceu nele e cresceu vendo todos aqueles rostos. Era querer demais que você se lembrasse de todas as pessoas que tinham sido apresentadas naqueles dias, mas era exatamente o que eles até queriam, só que sua memória não estava colaborando. Por sorte – ou azar – a rainha percebeu isso durante o jantar, quando você não conseguia lembrar-se do nome do Embaixador Doge. Por isso durante todas as manhãs vocês ficavam na biblioteca, onde ela a ensinava sobre todas as pessoas e coisas que você deveria conhecer.
— A culpa é minha. — A rainha disse, você viu os olhos dela vagarem pela biblioteca, havia uma tristeza em seu rosto que ela tentava disfarçar.
— Do que a senhora está falando?
— O rumor de um possível herdeiro surgiu anos atrás, há quase duas décadas para ser precisa. Fleamont e eu nos casamos jovens, todos acreditavam que um herdeiro viria, mas logo após o casamento ele ascendeu ao trono, havia tantas coisas a serem feitas, tantas arranjos e problemas a serem solucionados. Eu ouvia murmúrios por todos os lados, maldosos, zombeteiros e receosos. A principal função da rainha é prover herdeiros para a coroa, quanto mais deles melhor, mas... Você conhece a lenda dos Peverell?
— Hã... Os três príncipes estavam caçando uma noite, era noite de lua cheia e havia perigos em toda parte, então eles avistaram uma criatura, ela era alta, vestia um manto sombrio e uma capa escondendo seu rosto, mas os príncipes eram homens fortes e corajosos e não se amedrontaram diante da criatura, ela surpresa com tamanha demonstração de coragem resolveu presenteá-los, dissera que lhes daria qualquer coisa. Antioco, o príncipe herdeiro e futuro rei, pediu uma arma invencível que pudesse derrotar todos os inimigos de seu reino, a criatura lhe deu uma espada que brilhava como se tivesse sido feita a partir de uma estrela, ela era tão afiada que poderia ter sido feita por feiticeiros. Cadmus que vivia entristecido pela perda de sua jovem esposa pediu uma forma de tê-la de volta, a criatura deu-lhe um espelho, onde ele poderia ver o reflexo de sua amada, Ignotus, o terceiro filho, aquele que nunca sonhara com o trono pediu a capa da criatura dizendo estar com frio. A criatura foi embora e os príncipes voltaram para o castelo em segurança.
— Dizem que os príncipes foram amaldiçoados, Antioco e Cadmus morreram pouco depois desse encontro.
— Antioco foi assassinado e Cadmus... — Havia vários contos sobre o segundo filho do rei Peverell, todas as histórias eram trágicas. As mais bonitas diziam como Cadmus amou sua esposa e que a perda dela partiu-lhe o coração e ele definhou em tristeza, nem mesmo seu filho foi capaz de dar-lhe um motivo para viver. — Cadmus simplesmente morreu, mas Ignotus viveu até estar bem velho, então não há como ter uma maldição.
— Oh querida... Dizem que Ignotus nunca retirava a capa que recebeu da criatura, porque ela era mágica e o protegeu. Quando ele estava já muito velho despiu-se da capa e deu ao seu filho mais velho e disse que este deveria passar a capa para seu filho mais velho, desde então há apenas um herdeiro do trono, o portador da capa.
Você esperou pelo momento em que ela começaria a rir e diria que aquilo era apenas uma história para crianças, como sua mãe costumava fazer, mas ela não riu e você também não, pois tudo aquilo parecia real demais para ser só uma história.
— Dez anos se passaram e eu não tive nenhum filho, muito antes disso os nobres já estavam de orelha em pé, sei que Fleamont foi aconselhado a tomar uma nova esposa e eu não o julgaria se ele tivesse feito isso, talvez ele devesse ter feito.
— Mas se a lenda estiver certa a culpa não é sua, a linhagem de Ignotus está marcada, o rei é o responsável. — Você afirmou categoricamente, porque aquilo soava absurdamente injusto.
— Nós somos as guardiãs da vida, ela não existe, exceto se nós permitirmos ela existir. Nós abrigamos a esperança do mundo, está dentro de nós a chave para a continuidade, então, quando eles procuram alguém para culpar é para nós que eles olham.
— Mas...
— De qualquer forma o rei rejeitou qualquer hipótese de anulação e continuou comigo. Tudo estava bem, Charlus foi escolhido como herdeiro e os ânimos pareceram calmos por um tempo.
— Charlus?
— Ah, irmão de Fleamont.
— Mas pensei que só se pudesse ter um filho. — Você se sentiu boba fazendo essa afirmação e o sorriso complacente da rainha a fez corar.
— É apenas uma história, criança, mas você está certa, as pessoas gostam tanto de prender-se a ela que muitos livros se esquecem de citá-lo. Ele era um jovem adorável, tão cheio de vida, amava o irmão, o seguia por toda a parte, chegava a ser irritante às vezes. Mas tudo estava se encaminhando bem, logo depois que Charlus foi escolhido para ser o herdeiro começamos a procurar uma noiva adequada, alguém digno para assumir o fardo da coroa com ele, quando ele nos aparece com uma menina dizendo querer casar-se com ela e que não aceitaria ninguém mais. Por sorte a garota era uma Black, você deve imaginar como eles ficaram felizes com a perspectiva dela ascender como rainha, todos os ganhos que eles teriam.
— Eles se ressentiram de James então? Quando descobriram a gravidez Charlus deixou de ser o herdeiro.
— Não, não. Charlus nunca chegou a conhecer James, ele morreu antes que eu pudesse dar a notícia. Teve um inverno, ele foi terrível, havia tanta neve que era impossível sair de casa, muitas pessoas morreram por não conseguirem chegar ao castelo. Charlus e Dorea ficaram doentes, fizemos tudo para ajuda-los, mas eles não viveram para ver a nova estação. Eu descobri a gravidez alguns meses depois.
Um silêncio desconfortável se instalou.
— Senhora, sobre esse outro herdeiro... Vocês nunca procuraram mais informações sobre ele?
— Nós percorremos toda a árvore genealógica. Cadmus deixou um filho, isso é certo, quando Antioco e Cadmus morreram a criança era só um bebê, naquele tempo passar por um período de instabilidade como uma regência não era aceitável, por isso a coroa passou para Ignotus, mudando a linha de sucessão do trono. Podemos acompanhar a linhagem de Cadmus até os Gaunt, o nome se perdeu, assim como aconteceu conosco, a não ter filhos homens para leva-lo adiante, o último Gaunt registrado é Morfino, que como você disse-
— Morreu sem esposa ou filhos. — Você pensou durante longos segundos e a rainha esperou que você analisasse tudo que tinha ouvido até ali. — Senhora, é possível que os Gaunt tenham tido uma filha, que a linhagem masculina tenha se perdido, mas continuado com uma mulher?
— Bem, sim, mas precisaríamos de livros muito específicos, muitos historiadores não se importaram de relatar a linhagem feminina em seus livros.
— Precisamos perguntar as pessoas certas, mas sem alardear todo o reino por nossa busca. Vou pensar em algo. — Você anotou aquilo no seu bloquinho, junto com todas as outras informações que você tinha tomado aquela manhã.
— Eu sei que o momento da sua vinda não foi o mais fortuito, mas saiba que estou muito feliz por tê-la aqui.
— Eu também estou, majestade. — E quase não foi difícil sorrir e só talvez você estivesse sendo sincera.
Tinham lhe colocado em um vestido verde majestoso, Mary disse que faziam seus olhos brilharem e Marlene que o leve bronzeado na sua pele acentuava a beleza do vestido, Dorcas ficou lhe olhando embasbacada e você entendia o sentimento. Quando lhe colocaram em frente a um espelho você passou um bom tempo apenas escarando seu reflexo, porque você nunca esteve tão linda e tão principesca.
Não importava que ele apertasse tanto que você não conseguisse respirar direito, a maioria dos seus vestidos era assim, mas esse deixava seus braços livres, o que já era muito bom. A rainha lhe deu uma bonita tiara, disse que era um presente de boas-vindas, era uma joia delicada e refinada, composta de esmeraldas e pérolas que a fazia ainda mais bonita.
O salão do baile era muito maior do que o do castelo em que você cresceu e estava ricamente decorado em tons de vermelho e dourado, as cores da coroa, as cores que passariam a serem suas quando dissesse sim ao príncipe. Todos que estavam lá foram se curvando diante da sua presença, você não deveria entrar desacompanhada, o que era inusitado e você percebia os olhares curiosos, mas não havia ninguém ali para entregar-lhe aquela nova família e você não aceitaria que um estranho ocupasse o lugar de seu pai, sendo assim, como a mulher forte que foi criada para ser, você mesmo iria se entregar.
O príncipe curvou a cabeça, a sombra de um sorriso querendo aparecer e você se irritou, porque aquilo deveria ser algo sério e o estúpido estava se divertindo. De qualquer forma você fez sua parte, curvou-se diante de Sua Alteza Real, demonstrando, como todos ali fizeram um dia lealdade ao futuro rei, fez a mesma coisa diante do rei e da rainha, dessa vez sua reverência foi maior e mais longa, você baixou sua cabeça expondo seu pescoço, demonstrando que confiava naquelas pessoas, que sua vida estava em suas mãos, você estava dando sua lealdade ao rei Fleamont e a rainha Euphemia.
O príncipe a ajudou a levantar e ficou ao seu lado enquanto o rei fazia um discurso de boas-vindas e depois dizendo o quão feliz estava com essa união, como se sentia sortudo por ganhar uma nova filha, o príncipe ainda tinha sua mão, mas você ignorava isso dando toda sua atenção ao rei, as palavras dele foram lhe tocando. Ele soava muito mais como um pai do que como um rei, exatamente como seu próprio pai soaria e com todas as coisas que tinha para fazer você nem estava mais pensando na sua família tanto assim e só ali você notou como ainda sentia falta deles.
James apertou sua mão mais forte, de forma dolorosa até.
— Se você chorar vai sair todo tipo de rumor daqui, esse não é o tipo de atenção que estamos procurando.
— Posso estar emocionada com o noivado.
— Ou pode estar triste por ser forçada em um casamento que não deseja. — Ele falou entredentes. Oh, os rumores tinham chegado até ele.
Mary lhe falou sobre aquilo há alguns dias, algumas senhoras estavam comentando como você parecia sempre irritada, mal humorada e desgostosa, algumas delas afirmavam que você tinha sido vendida tal qual uma égua reprodutora e se lamentava por sua sorte de cair em um casamento com alguém que mal suportava.
Como elas sabiam disso você não fazia ideia. Tinha tomado cuidado para não praguejar contra o príncipe na presença de ninguém exceto suas damas e sabia que nenhuma delas teria falado nada, logo as suposições daquelas mulheres era apenas isso, suposições.
— Não dê atenção a tudo que escuta, as pessoas adoram falar sobre coisas que não tem total conhecimento.
O rei e a rainha já tinham acabado de falar e uma suave música acabara de começar a tocar quando um dos gêmeos Prewett se aproximou. Você ainda não sabia diferenciar os dois, eles tinham aquele jeito de que poderiam arruinar qualquer ocasião com uma brincadeira sem sentido, mas tinha ouvido falar que eram guerreiros valorosos e tinham que ser muito bons para estarem no pequeno conselho como estrategistas de guerra.
— Alteza, gostaria de apresentar minha irmã, Molly.
Molly era uma coisinha ruiva cheia de sardas que parecia muito estupefata por estar ali.
— Olá, Molly. Apreciando a festa? — Você aproveitou o momento para tomar distância do príncipe, ouviu um suspiro irritado, mas não se virou para olhá-lo. — Vou lhe apresentar minhas damas, você irá adorá-las.
— Então, você conhece todos por aqui?
Molly deveria ser alguma coisa mais velha que você, mas ela era baixinha e tinha esse ar de timidez que fazia com que você quisesse protege-la.
— Se a senhora quiser saber sobre a corte deveria perguntar ao Sr. Lupin, ele vive no castelo desde que é um menino e é pupilo do Alto Conselheiro. Ele sabe tudo sobre todos.
E aí você percebeu que ela também era sagaz e que embaixo de todas aquelas sardas teria uma aliada inteligente.
— Você se refere a Remus Lupin?
— Sim, aquele ali. — Ela apontou discretamente para o rapaz que naquele momento estava ao lado do príncipe.
Você lembrava-se dele, ele foi um dos jovens que acompanhou James quando ele visitou seu reino. Ele não era nobre ou rico, você não sabia qual era a função dele junto ao príncipe, só que eles estavam sempre juntos, mas ao contrário de Black e James, Lupin era silencioso, gostava de ficar na biblioteca e uma vez você o ouviu ralhando com o príncipe. Não ficou para ver o castigo que ele receberia por essa afronta, sua irmã gostava de maltratar suas damas com beliscões e você achava aquilo tão repugnante. Naquele dia pensou que James seria igual, mas agora não sabia, na verdade agora você via que não, a forma como ele tratava as pessoas era decente, ele sorria com Lupin e aceitava o humor debochado de Black, eles eram amigos, como você era amiga de suas damas.
Você ficou circulando pelo salão, sendo parada a todo o momento e sorrindo tanto que suas bochechas começavam a doer, mas naquele dia você era uma noiva feliz com seu casamento e naquele salão você descobriu muitas outras coisas sobe James. Todas as pessoas tinham coisas boas a falarem sobre ele e não elogios comuns para nobres e realeza, pareciam reais.
Você soube que ele ajudou um fazendeiro a arrumar a cerca que protegia sua propriedade em um dos seus passeios pelas terras da coroa, ele também já tinha tomado muitas funções oficiais e agora era o responsável por ouvir os súditos e levar os problemas até o rei, soube que ele era justo e ponderado, sempre tentando ir pelo caminho da conciliação, mas que também tinha mão firme quando percebia que alguém estava sendo malicioso e leviano.
Você soube mais sobre as medidas de igualdade, tinha ouvido sobre elas antes, na sala do conselho, o nome era autoexplicativo, mas agora entendia melhor o que era tudo aquilo e descobriu que tudo partiu de James. Mais escolas para as cidades mais distantes, mais dinheiro para os hospitais, melhorias nas casas, tendo obrigado alguns lordes a melhorarem a forma como tratavam seus vassalos. Nada daquilo a fazia lembrar-se do garoto grosseiro e irritante que conheceu quando tinha onze anos, talvez suas amigas estivessem certas. Talvez James não fosse mais essa pessoa.
— Alteza, soube que gostaria de falar comigo? — Remus tinha curvado a cabeça levemente na sua direção e a olhava curioso.
— Ande comigo, Senhor Lupin. — Ele estendeu o braço e você o pegou. Ele era apenas um plebeu e você estava lhe dando a honra de acompanha-la, tocando-o como se ele fosse alguém importante.
— Talvez fosse melhor-
— Não se preocupe com eles, vamos dar algo para eles comentarem durante o jantar. — Você sorriu, Remus ainda parecia acanhado. — Você é um querido amigo do meu futuro marido e rei, soube também que é o pupilo do Alto Conselheiro, imagino que ele o esteja treinando para que assuma a posição no futuro.
— Isso nunca foi debatido, Alteza. Eu sou apenas um estudioso e o Sr. Dumbledore tomou-me como pupilo quando meus pais morreram, tem pessoas mais capacitadas aqui, nobres mais-
— Sim, nobres. Você e James são amigos há muitos anos?
— Desde os onze anos, Alteza. Foi quando Dumbledore me trouxe para o castelo e me colocou na posição de pajem do príncipe.
— Vocês parecem muito próximos.
— Eu gosto de pensar que somos.
— Então ele lhe disse das últimas notícias que chegaram até nós.
Você viu a postura dele se tornar mais tensa.
— Sim, eu sei, Alteza.
— Lilian, Remus ou Lily, como você preferir.
— Desculpe, Alteza, mas nossas posições não permitem que eu-
— Considere isso uma ordem então. — Você sorriu e deu uma batidinha suave na mão dele. — Eu padeço do terrível mal chamado ignorância, Remus. Eu sei o nome dessas pessoas, mas não as conheço e eu preciso conhecê-las.
Vocês andavam pelo canto do salão, caminhando aos sussurros conseguia apenas imaginar o tipo de coisas que estava passando pelas mentes buliçosas daquela gente.
— Os mais importantes são os Black e Malfoy.
— Me fale sobre eles.
— O chefe da família Black é Orion, elitista até a última gota do sangue, ele tem sede por poder e acredite, se tivesse uma filha a teria forçado numa união com James.
— Mas existem mulheres Black, não?
— Sim, as três filhas de Cygnus, mas o homem não tem a ambição do irmão, sem contar que elas são mais velhas, a que mais se aproxima de idade é Andrômeda, que posso confessar ser a melhor das três, porém a mais desinteressada. Narcisa se tornou noiva do herdeiro de Abraxas Malfoy muito nova, eles devem se casar em pouco tempo e é uma família tão rica que Cygnus não viu porque jogá-la em cima do príncipe. Ela será uma condessa quando Abraxas morrer de qualquer forma.
— Estranho Black ter permitido que Sirius passe tanto tempo na corte, mesmo sendo uma posição privilegiada ele deveria estar sendo educado para receber o ducado quando o pai morrer.
Aí você percebeu que tinha tocado em um ponto sensível.
— Sirius desligou-se da família há muito tempo, mantém o nome puramente pelas aparências, mas ele não fala com os pais há anos. Eles têm métodos muito... Conservadores. A forma como eles tratam qualquer um que não seja da nobreza é desumana, Sirius não abraçava esses valores, as brigas eram constantes e também havia agressões. Agora ele é praticamente um segundo filho para Fleamont e Euphemia. Regulus, o segundo filho, deve herdar a posição.
Por isso Sirius parecia tão chateado com a ideia de rever os parentes e você achando que era apenas implicância. Quanto mais você vinha ignorando em sua birra infantil? Remus continuou falando e quanto mais ele falava mais assustador aquele lugar parecia ser, tudo ali vinha com uma segunda pele por trás, cada palavra era cheia de veneno e os apertos de mãos vinham seguidos de punhalada nas costas.
Você cresceu em uma corte e talvez seus pais tivessem super protegido você de todas as coisas horríveis que aconteciam quando havia pessoas ambiciosas e poder envolvidos, mas não conseguia acreditar que tudo aquilo que ouvia podia acontecer dentro do lugar que por tanto tempo você chamou de lar.
Seu tempo com Remus acabou quando Marlene se aproximou, ela se juntou aos dois, mas Remus logo entendeu que deveria se retirar e após uma reverência o fez.
— Esse lugar está cheio de cobras. Esse é confiável?
— Ele é um dos amigos mais próximos de James, devo acreditar que seja.
Você via Dorcas entretida em uma conversa agradável com lady Amélia, uma fonte inesgotável de histórias e Mary rodeando o salão despretensiosamente, ouvindo tudo que podia e absorvendo como uma esponja.
— Por falar em seu adorável noivo, ele parece irritado com algo.
Você o viu andando sem seu costumeiro sorriso, agradecendo as felicitações com educação e secura. James não era alguém que usava uma máscara, que fingia e escondia seu desgosto, mas aquela noite, onde eles estavam rodeados de possíveis traidores tudo que eles não podiam ter era um príncipe irritadiço e volátil. Outra coisa chamou sua atenção também, um homem e uma mulher que você já tinha visto, mas agora os vendo claramente e a forma hostil como eles olhavam para seu primogênito você foi capaz de entender o desprezo na voz de Remus.
— Lene, vá até o Sirius. Tire-o de lá, arrume a desculpa que for.
A garota não questionou aquele estranho pedido, fez uma vénia, como devia fazer por estarem em público e partiu. Você tomou outra direção, seu olhar estava focado no seu objetivo e se a semelhança poderia ser um indicativo, aquele era o jovem Regulus, mas não era atrás dele que você estava indo.
— James, querido. — Você chegou perto demais, segurou braço dele e passando a mão gentilmente, como uma carícia. — Você prometeu que dançaria comigo a próxima canção. Ah, lorde Black, eu presumo.
— Sim, Alteza. — Ele curvou a cabeça, com um esgar contrariado.
— Perdoe-me, mas terei que roubar meu príncipe.
— À vontade, Alteza.
Você saiu puxando James, que a essa altura não entendia o que tinha acontecido e porque você estava agindo como uma noiva apaixonada.
— Você bebeu? As cidras são doces, mas possuem muito álcool.
— Você está olhando para todos como se quisesse descobrir quem matou seu coelho, você deveria estar feliz, é seu noivado, você será rei em breve, enquanto isso está irritado e bravo. — Você admoestou ainda mantendo um sorriso suave em seu rosto, aquilo não era fácil, mas era um gesto que você vinha aperfeiçoando com o tempo.
— Essas pessoas podem estar tramando a queda da minha família.
— Sim, mas não queremos que eles saibam das nossas suspeitas. Venha, vamos dançar.
— Por que você está fazendo isso? — Ele perguntou.
Por que estou fazendo isso?, você se perguntou e a resposta era bem complicada, pois para responde-la você precisava ser sincera e não apenas com James, mas principalmente consigo mesma. Já fazia mais de um mês que você chegou até aquele lugar e você ainda não o conhecia totalmente, mas já sabia qual caminho levaria mais rápido até a cozinha e com quem deveria falar se quisesse dar um recado de forma urgente e quais pessoas deveria ignorar, pois tudo que elas diziam era cheio de veneno e mentiras.
Você conheceu Euphemia e Fleamont e mesmo que tivesse se mantido afastada da James você sentia que o conhecia também. Sabia que ele acordava muito cedo de manhã e passava longas horas no escritório com o rei, aprendendo tudo que precisava aprender, andaria a cavalo pela região indo até os súditos vendo se suas queixas eram realmente válidas, nunca bebia mais do que duas taças de vinho no jantar e detestava carne de veado.
Você nunca o viu falar alto com ninguém, nem mesmo os empregados do castelo, sabia que ele ainda fazia brincadeiras, mas todos encaravam isso com diversão. Havia pessoas no castelo que o chamavam pelo nome, porque ele as conhecia a tanto tempo que trata-lo formalmente parecia desnecessário. James era filho de seus pais e seria um rei tão bom quanto Fleamont demonstrava ser.
— Porque vocês são a minha família agora e eu faria qualquer coisa para protegê-los. Portanto, pelo resto da noite mantenha os olhos em mim e sorria, meu caro príncipe.
— Como você quiser, minha querida princesa. — Ele sorriu lisonjeiro.
Aquela noite foi esclarecedora de muitas formas, a principal era que vocês tinham inimigos poderosos e muito influentes e o risco que corriam se tornava mais real quando você olhava no rosto daquelas pessoas e não conseguia ver nenhum resquício de bondade. Foi assim quando você conheceu a família de Sirius.
Você olhou para Bellatrix, viu a ambição e malícia nos olhos escuros, sabia que ela era uma dessas pessoas que fariam qualquer coisa para conseguir alcançar seus intentos, nem que tivesse que sacrificar vidas inocentes em uma guerra. Você não sorriu, usaria sua posição para demonstrar que ali ela era a criatura inferior.
— Deve curvar-se quando chega à presenta da realeza, lady Lestrange.
Foi saboroso vê-la fazer a mensura, mesmo com a expressão raivosa, mesmo que ela a olhasse com tanto ódio. Aí você sorriu
Ela e o marido não permaneceram muito tempo depois disso, pelo que você era muito grata.
— Pensei que devêssemos ser corteses. — James reclamou, mas você sabia que era apenas porque ele tinha se comportado a noite inteira quando queria ter tido a chance de ser grosseiro e sarcástico com alguns convidados.
— Sim, mas sempre lembrando a eles que a coroa repousa sobre nossas cabeças e que suas vidas estão em nossas mãos, nunca o contrário.
Uma rainha precisava do amor de seu povo, mas eles deveriam ter um temor saudável, saber que qualquer um era passível de punição e desrespeito a alguém da realeza era desrespeitar a coroa e todo o reino. Essa foi uma das primeiras lições que sua mãe lhe ensinou e ela nunca pareceu mais real do que naquele momento.
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