Aquietava-se a noite mais uma vez. O pouco de luz que restava aninhava-se no colo do jardim de lápides. Chegava a ser uma grande ironia, o fato daquele campo tão iluminado ter um ar tão sombrio. E de enfeite, um velho esqueleto de casa se destacava timidamente, com suas madeiras e buracos bem expostos. No cerne de todo aquele universo havia um corpo, deitado pelo chão. Seu semblante era de quem perdeu o alarme e acabou por dormir demais. Logo acima, orbitavam dois olhos castanhos de uma maneira apaixonada. Uma paixão platônica. Contraposto ao constante movimento de suas luas, o corpo encontrava-se parado, congelado no tempo. A partir daí, normalmente, a pequena terra que ali não se mexia deveria ganhar o título de cadáver, porém, segundo o dono das esferas castanhas, somente seria um cadáver a pessoa que estivesse de fato morta. E, quando questionado, respondia sempre “Morremos mas continuamos vivendo em memórias, em lembranças. Até a última lembrança na qual se encontram nossos últimos pedaços de vida, de fato, desaparecer, então continuamos vivos”.

Assim pensava Lia, um jovem marmanjo nos seus vinte e poucos anos. Nunca ponderou o porquê do seu nome feminino. Não gostava nem desgostava, apenas aceitava. Para ele bastava ser, e apenas isso. Seu sobrenome havia fugido para o horizonte, arrastado pela brisa que chamamos de tempo.

-Conte-me sua história, meu amigo…

Silêncio foi a resposta obtida. Todavia, era como se a ausência de vocábulos fosse uma espécie de outra língua, na qual Lia parecia ser o mais fluente. Puxou uma corda que caía do céu escuro e ouviu um fraco clique. Então, tudo foi banhado por uma fraca luz bege. O cômodo era largo e vazio, mas aparentava ser pequeno. O contraste entre o cenário caído aos pedaços e o homem de terno em seu centro assemelhava-se a um palco de teatro, e o holofote certamente estava nele e em seu companheiro. Por fim, moveu-se para o cômodo ao lado e por alguns minutos ausentou-se. O monótono silêncio parecia ser mais alto em sua ausência. Voltou tão subitamente quanto partiu, e trouxe consigo um pequeno caderno de couro desgastado, com páginas amareladas. A peça, que mais parecia ter sido furtada de um set de um filme de terror, era manuseada com um cuidado desigual por Lia. Puxou uma cadeira e sentou.

-Não fique tímido, vamos, conte-me!

Parecia ouvir uma melodia. O jovem reagia ao silêncio como uma valsa, e dançava em sua cadeira. A sua frente, a tinta negra atingia o vasto amarelo como tiros de uma arma. As palavras eram escritas rápidas, e pouco levou para finalizar sua história. Ou melhor dizendo, a história do seu “amigo”.

Click. Submergiam na escuridão novamente. Agora o visitante encontrava-se nos braços do anfitrião, como uma noiva que acabara de se entregar ao seu marido. Rumaram para fora e o casebre inundou-se de solidão. A última gota de som audível foi o metálico bater de uma pá.

Novamente a irradiante luz empurrava a quieta escuridão para longe.

-Bem-vinda ao meu singelo lar.

Recebia-a com o mesmo cuidado de sempre. Desta vez era garota, loira, e não tinha mais que dezesseis anos. Parecia uma boneca de porcelana, toda pintada de carmim. Exalava o odor de todo um cemitério, porém não era nada que incomodava o anfitrião da casa. Lia sentou-se e apanhou novamente a sua peça amarela. A escuridão era solitária, o preto era solitário. Nada melhor que a melancolia para acompanhá-la, e sua cor era a amarela, pensou certa vez.

-Já ouvi tantas histórias, desde ladrões cujo tiro saiu pela culatra até meninas más que fugiram do seu lar e nunca mais voltaram. Quanto a essa última, não acho sincera. Se fugiram, é porque de lar o lugar tinha pouco. Calma, menina. Contar-te-ei essa história e muitas mais. Temos tempo de sobra, afinal! E depois, por que não me conta a sua também?

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