Notas iniciais
*Obs: Essa historia foi criada para um desafio sobre as estações do ano, esse não é o fim, a continuação será feita quando o próximo tema sair. Será a mesma historia e os mesmo personagens, mas seguindo as estações.

O sol já esta alto no céu, seus raios atravessam pela janela de cristal enchendo a sala de cores. Estou sentada no sofá lendo um livro, tentando fugir do calor ou das pessoas, não sei exatamente. Minha mãe esta na cozinha preparando e embalando lanches ,sucos naturais e colocando com cuidado dentro da cesta de palha depositada em cima da mesa. Ela decidiu que gostaria de passar uma tarde em família, mas no final essa tarde se transformou em um final de semana todinho. Minha família é composta por mãe e pai ambientalistas que estudam espécies de animais marinhos e três irmãos que surfam dia e noite, tradução uma família unida pelo mar, areia e peixes. Mas sempre existe uma ''ovelha negra'' em toda casa, e na minha, a ovelha sou eu. Não odeio o mar, na verdade amo a água, quando ela sai do meu chuveiro, não gosto de terra, nem pessoas ao meu redor. Me sinto mal quando vou a praia como se fosse um peixe tirado do lago que sufoca e morre cozido pelo sol, é assim como me sinto, e não e nada legal, não mesmo.

Mas acho que essa batalha eu perdi, e estou sendo obrigada a perder todo meu final de semana, onde eu poderia fazer vários nadas e ler muito, quem sabe até dormi. Estou sendo obrigada a viver, isso é justo? Não!

Minha mãe anda de um lado para o outro na cozinha resmungando e dizendo palavrões que nenhuma outra mãe diria. Levanto-me e deixo o livro no sofá, vou ate ela que coça a cabeça olhando para a cesta como se ela lhe revelasse algum segredo obscuro.

—O que houve? — Digo ao pegar uma maçã na fruteira do balcão.

—Seu pai acabo de ligar. — Mamãe passa a mão no cabelo. — Acho que atrasaremos a viagem algumas horas.

—Que trágico...- Murmuro escondendo um sorriso ao morder a maça. — Não acha que devíamos, seila...Marcar para outro final de semana? Tipo do ano que vem?

—Filha? — Me olha indignada. — Sei que odeia praia, mas poderia não demonstrar tanto, só quero passar uns dias em família.

—Não odeio praia...- suspiro.- Só não amo, e tenho coisas melhores para fazer por aqui.

—Você lê todos os dias, e dormir também. — Ela me da as costas e volta a mexer na cesta. — É só um final de semana, por que é tão difícil? Vai ser legal! — Ela sorri.- Vamos pescar, andar de jet-ski, beber... suco no seu caso.

—Esse é seu tipo de diversão, o meu é deitar ouvindo musica clássica com um bom livro e...

—Uma xícara gigante de café.- Ela completa sorrindo. — Não nesse final de semana.

—Mais mãe!

—Sem mais, vá logo arrumar sua bagagem. — Ela vem ate mim e beija minha testa e avalia minha pele.- Protetor solar, não se esqueça.

Saio batendo o pé e subo escada a cima para o meu quarto, nem sempre vamos vencer uma batalha certo?

Cinco horas depois meu pai chega atrasado por conta de uma tartaruga ferida que ele e sua equipe resgatou essa tarde, mesmo cansado e passando dias a pôs dias em praia eles querem dar a volta na cidade por conta de uma outra praia, isso tem logica? Não! Com as malas equipadas de duas blusinhas, dois shorts, saias, calcinhas e muitos protetores e repelentes coloco meu fone de ouvido e entro na mine vã da família, meus irmãos mais velhos se estapeiam e dão socos uns ao outros, falando aquelas gírias idiotas de garotos igualmente idiotas, já mamãe e papai fazem um discurso sobre como se conheceram na praia, de como foi amor a primeira vista e toda aquela historia de carochinha. Aumento o som da musica até o ultimo e não escuto mais nada, vejo as arvores passarem por nós em disparada, a musica é clar de lune, fecho meus olhos e tento dormir mesmo que meus irmãos as vezes me chutem ou beliscam minha costela, Richard de 18, Miguel 20 e Diego 23 que mais parecem crianças de 5,6 e 7.

Diego cutuca meu ombro resmungo e do um safanão em sua mão, sem demorar muito ele volta a me cutucar, então pronta para dizer um belo palavrão ele tira meu fone de ouvido.

—Ouviu?- Ele me encara.

—Sim, agora me deixe. — Coloco o fone e ele retira. — Qual é! Me deixa seu...

—Opa! Sai da defensiva maninha. — Diz Miguel abrindo uma lata de refrigerante.

—Deve ser o calor. — Constata Richard. — Ela fica com um humor terrível no calor.

—Vai se ferrar Richard! — Olho para Diego. — Você tem um minuto antes que eu te mande para...

—Delicada como uma rosa. — Richard fala e ignoro.

—Então. — Diego sorri.- Vamos a uma festa essa noite.

Richard esfrega as mãos com cara de safadeza, enquanto Miguel sussurra um ''é''

—E eu com isso?

—Só vamos se voce for... — Ele olha para nossos pais. — Regra deles.

—Pois então sinto muito. — Sorrio internamente. — Nós não vamos.

—Por favor Bruh! — Diego suplica.

—Eu sabia!- Miguel desaba no assento.

—Garota chata! — Richard me olha com raiva.

—Vai ser ótimo vocês passarem uma noite com nossos pais, afinal, não era para ser um final de semana em família? Só estou seguindo as regas.

Diego me olha de cima a baixo e passa a mão nos meus cabelos, como sempre fazia quando queria bancar '' o irmão mais velho maneiro''. Já funcionou quando eu era mais nova, só que agora no auge dos meus 17 anos, esta bem difícil usar essas táticas comigo. E ele meio que se da conta disso e bufa, falando baixinho em meu ouvido.

—E aniversario de casamento do papai e mamãe.

—Eu sei.

—Você não esta entendendo, papai armo um jantar para os dois e nós...- Ele aponta para nossos irmãos que nos encaram. — Estamos ajudando, é uma noite para eles, só deles.

—Tudo bem, ficamos bem sozinhos em casa. — Declaro sorrindo.

—Vamos a festa de qualquer maneira. — Miguel sussurra.- Com ou sem você, mas se ficar mamãe não irá querer sair, e você será a causadora do estrago de aniversario deles.

Cada um se vira para uma janela me deixando digerir a informação sozinha, e constatando que eles tem razão. Nossos pais nunca obrigariam eles me levarem para festas, por que sabem que não gosto. E que mamãe não iria para canto algum sabendo que eu estaria sozinha em casa, principalmente em uma cabana de praia que nem conheço.

E tudo começa a fazer sentido, se fosse apenas um passeio de família eles não nos tirariam de casa, essa praia é a praia deles. Papai passou o dia fora, e se me lembro bem, o instituto dele só trabalhava ate o meio dia nas sexta feira. Tradução: Ele passou o dia planejado essa surpresa para ela, e eu estou prestes a estragar tudo, não é sempre que se comemora 25 anos de casado.

—Eu vou com vocês. — Digo derrotada.

Miguel abafa um sorriso, e Richard revira os olhos, enquanto Diego acaricia meu cabelo e beija minha testa.

—Eu sabia que seria sensata maninha.

Ao chegarmos em nossa moradia de um dia e meio já são sete da tarde, me arrepio ao entrar em uma pequena pousada construída de algum tipo de barro muito vermelho e com teto de madeira, o calor mesmo de noite é infernal. Com o livro que li durante o restante da viagem me abano enquanto os meus pais acertam os papeis para hospedagem.

Assim que entrei no quarto quase enfartei e me senti sufocando ao ver o quão pequeno era, pelo menos seria só para mim. Um dos privilégios de ser a única menina em meio a irmãos homens, já eles teriam que dividir um quarto, quase gargalhei ao pensar neles se espremendo em beliches com aqueles corpos de quase 1,80 de altura.

Jogo minha mochila no chão enquanto eles saem e não deixo de provocar Richard mandando um beijo e dizendo, boa sorte e ele como sempre me responde com um olhar de ódio.

As pessoas pulam e dançam pela praia como loucas, o que na verdade eles estão, loucas de bebidas e outras drogas. Assim que chegamos meus irmãos me deixaram sozinha e entraram no meio de todas essas pessoas. É uma festa típica do verão, onde as pessoas se encontrão em uma noite quente dançam e se agarram na beira de uma fogueira. Estão todos usando branco e descalço, como naqueles comercias de champanhe para o final de ano, as meninas usam arcos de flores em seus cabelos e os homens andam sem camisas, mostrando seus tanquinhos de surfistas sem conteúdos e gostosos, o que? Eu também aprecio um bom tanquinho, mas ninguém precisa ficar sabendo.

Ergo meu saiote rodado igualmente branco, quando passo por uma poça de cerveja e me sento em um tronco estrategicamente colocado em frente a fogueira, bem ao lado de um casal que estão prestes a ficarem pelados. Beberico um pouco da minha cerveja quente olhando para as formas que o fogo faz, ao fundo vejo meu irmão Richard arrastando uma garota para o mar, ela da gritinhos enquanto ele enlaça sua cintura rindo. Patético!

A noite já esta bem quente, e a fogueira me parece bem desnecessária no momento, sinto minha pele suando e minha garganta seca, jogo o resto de cerveja quente no fogo e vou ate o barriu com torneira e reencho meu copo com cerveja geladinha e barata. Não sou de beber, mas nessa noite quente é melhor tomar cerveja do que morrer de sede, exagerada? Sim, sou.

Um garoto bêbado chega por trás de mim segura em minha cintura e roça seus nojentos lábios com hálito de cerveja podre em minha orelha e diz '' Qual é a boa gata?''. Empurro com facilidade e me afasto, tento ficar o mais longe possível de toda essa gente bêbada.

No lado oposto da praia vejo uma pequena passarela e um barco na ponta, caminho ate ele tomando o cuidado de ninguém me ver e entro, é um barco de pescaria, como sei? O cheiro de peixe podre esta forte e no meio esta uma rede de pesca toda enrolhada, sento-me e seguro no remo, tentando me afastar um pouco mais da praia indo para o meio do mar. Quando alcanço meu objetivo, subo os remos e me deito, olho as estrelas e pego no sono.

—Acorda! — O elefante em meu sonho fala. — Acorda agora!

Alguém segura meus ombros e me balança fazendo minha cabeça bater fortemente no chão de madeira, abro meus olhos e me assusto com a imensidão da noite e principalmente com um cara de cabelo escuro e olhos azuis em cima de mim.

—Acorda! — Ele grita.

—O que foi? Quem é você? — Me levanto bruscamente e o barco agita. — Saia já daqui!

—Eu? Saia você! — Ele segura meu braço. — Esse barco é meu e você roubou!

—Eu!? Não tinha ninguém perto dele! — Tiro meu braço de sua mão. — Não roubei nada.

—Então meu barco te sequestro e veio aqui sem sua ajuda?

—Não é isso! — suspiro — Desculpe, eu nem pensei na hora, só queria sair daquela festa idiota.

—Vamos voltar. — Ele parece bem irritado e nem um pouco afim de conversa. — Bêbada louca.

—O que foi que disse?

Uma explosão soa muito alto e o barco treme violentamente, fazendo-me cair na água. Eu sei nadar, mas pelo susto engulo e respiro água, meu nariz arde e meu pulmão parece estar prestes a explodir, não fiquei muito tempo embaixo da água, pois logo uma mão me segurou e me puxou para o barco, mas meu peito ardia como se eu tivesse ficado anos ou décadas sem tomar um folego.

O moreno me olha assustado e passa a mão em meu rosto segurando em um ponto de minha testa que arde, e sua mão volta vermelha de sangue.

—Você se machucou, precisamos voltar.

—O que foi isso? — Pergunto.

—Não sei, não faço a menor ideia, mas precisamos sair daqui.

Algo brilhante cai no meio da rede de pesca, azul e muito chamativo. Nos encaramos por alguns segundos, ele se agacha e pega o objeto, é um colar em forma de concha. Olho para os lados como se alguém o tivesse jogado, mas não á ninguém além da imensidão do mar e as estrelas. O homem coloca o objeto em seu bolso e segura os remos, quando um outro estrondo soa, mais forte e alto, uma onda nos atinge, virando o barco e nos dois caímos na água.