O chefe
40 Inferno de capítulo final
Notas iniciais
Inferno de capítulo final
▬ Bella ▬
— BELLA – Edward gritou assustado correndo até onde Sony e eu estávamos – TIRA ISSO DA BOCA DELA.
Sony tossia engasgada com o cordão, Edward foi mais rápido, pegou a menina dos meus braços e puxou o cordão pela corrente de sua boca. Sony tossiu mais algumas vezes piscando nervosamente seus olhinhos verdes. Ela estava visivelmente assustada, eu estava dez vezes mais assustada e logo ela começou a chorar.
Quando ela começou a chorar assustada, foi como se a ficha do que aconteceu tivesse caído, me senti a pior das piores mães do mundo, totalmente incapaz de fazer algo e com grande potencial de matar minha própria filha. Como ela estava aparentemente bem e agora longe de mim, corri para fora do quarto das gêmeas indo me trancar no meu próprio quatro.
Fechei a porta atrás de mim com força girando a chave duas vezes para me certificar que estava realmente fechada. Escorreguei até o chão abraçando em seguida meu corpo com força sentindo-o balançar devido aos soluços do meu (não tão) silencioso choro.
Como eu posso ser tão imprudente, péssima e horrível mãe assim? Eu ainda nem entendi direito o que aconteceu, foi tudo tão rápido, não deu tempo de assimilar. Por que todas conseguem as mães, menos eu? Eu sempre soube que essa história de engravidar, ter filhos e essas coisas eram furada, sempre soube que isso não era pra mim. Eu não tenho a menor condição de cuidar de um bebê, sendo assim, por que eu tive duas? Por que eu?
Não sei por quanto tempo fiquei ali sentada no chão refletindo sobre eu ser a pior mãe que existe no universo e sobre o quanto eu não merecia esse título. Tudo bem que agora que eu já era mãe eu as amava mais do que tudo e ficava muito feliz em dizer que era mãe, mas eu não merecia ser chamada assim. Tantas mulheres por aí que seriam mães melhores do que eu e não podem ter filhos, enquanto isso, eu pude ter e quase mato uma delas...
— Bella – as batidas na porta me trouxeram de volta a realidade – Abre a porta – a voz de Edward preencheu o silêncio.
— Não, me deixa aqui sozinha, eu não quero falar com ninguém – respondi com a voz fraca.
Estava me sentindo inútil e a pior pessoa do mundo.
— Abre a porta, Bella. Tem alguém que quer falar com você.
— Não quero receber visitas. Foda-se a merda do natal. Eu nem queria comemorar essa porcaria mesmo.
— Você estava super animada pro natal.
— Isso foi antes de eu descobrir que sou uma assassina em potencial – solucei alto – Me deixa aqui sozinha, Edward.
— Bella, se você não abrir, eu vou arrombar a porta – apesar de sua voz soar tranquila, o conhecendo do jeito que conhecia, era bem capaz de ele tentar mesmo fazer isso.
— Boa sorte, a porta abre pra fora, vai te dar um puta trabalho – ri.
Ele só ia tentar mesmo. Apesar de ele ser todo gostosinho e ter um corpinho malhado, ele é relativamente fraco. Bom, não exatamente fraco, mas fraco o suficiente pra ter dificuldade em arrombar uma porta que abre pra fora. No máximo ele ia conseguir dar um jeito no braço e depois passar a semana reclamando disso.
— Eu sou inteligente Bella, vou dar um jeito, nem que eu chame um chaveiro.
Ok, ele era inteligente e isso ele faria.
— Não quero conversar Edward, só quero ficar sozinha – pedi novamente.
— Você sabe que eu vou encher sua paciência até você abrir essa maldita porta, pouparia sua paciência e minha voz se você adiantasse logo o processo.
INFERNO.
Eu não posso nem ficar em paz curtindo o fato de eu ser a pior pessoa do universo.
Levantei irritada, enxuguei as lágrimas que estavam em meu rosto e abri a porta. A primeira coisa que eu vi foram os olhos verdes de Sony, e nossa, como eram grandes. Ela sempre teve olhos grandes assim? Vai ver era assim que Edward me via quando eu usava lentes de contato e dizia que eu ficava assustadora. Não que Sony seja assustadora, ela é linda, mas... seus olhos eram grandes demais e isso era assustador. Pessoas de olhos claros tem olhos grandes.
Vai ver é pra esfregar melhor a boa genética ocular na cara das pessoas que não tem olhos claros.
— Alguém queria te dizer oi – Edward pegou uma das mãozinhas gordas dela e levantou a forçando a dar ‘tchau’.
— Ela não fala nada que não seja ‘ababababa’ – revirei os olhos.
Lhe dei as costas indo me sentar na cama, baixei a cabeça olhando para minhas próprias mãos, ainda estava mais triste do que conseguia mensurar. Senti o colchão se afundar, não precisei levantar o olhar para saber que era Edward sentando ao meu lado. Ele sentou Sony em seu colo e ela ficou totalmente entretida em tentar babar o relógio em seu pulso.
— Isso não acontece só com você, sabia? – ele quebrou o silêncio.
— O que? Quase matar minha filha? Acho que é só comigo sim – bufei irritada.
— Bella, não acontece só com você. Por mais surpreendente que seja, isso é mais comum do que você imagina – ele ajeitou Sony em seu colo para que a segurasse com um braço e com o braço livre, passou por meus ombros me trazendo mais para perto dele – Quando Nat era bebê, Rosalie inventou de lhe dar pão pois ela estava ‘pedindo com os olhos’, Nat se engasgou, Rosalie ficou desesperada e saiu correndo sem a acudir. Quando Nat tinha uns 7 meses, Alice lhe deu uma uva, a uva era grande e estava inteira, passou pela garganta dela direto e por sorte, Alice a deu sem a casca já que isso ajudou a ela não ficar engasgada por muito tempo. Quando eu era bebê, esme usava um brinco de pérolas e eu acabei arrancando da orelha dela e pondo na boca, tive que ser levado ao hospital pra tirarem da minha garganta. Semana passada, Rosalie após amamentar a Meg esqueceu de lhe por pra arrotar e deitou com ela, a coitada se engasgou no próprio golfo. Nenhuma criança está a salvo dessas coisas, infelizmente.
Não pude deixar de rir da imagem de um Edward bebê no hospital com um brinco de pérolas preso na garganta, podia até ter sido triste e desesperador na hora, mas pra mim, agora, depois que já passou e ele estava bem, só era engraçado.
— Essas coisas muito possivelmente vão acontecer de novo – ele continuou falando – Pode ser que daqui uns dois dias você resolva que é hora de elas começarem com as frutas, achar que amassou bem e quando ver, elas se engasgarem, é uma possibilidade.
— Eu sempre soube que seria uma mãe horrível – me lamentei.
— Você não é uma péssima mãe por isso. Se isso te fizer uma péssima mãe, então eu nem sei a que nível de péssimo pai eu cheguei pois Alice e Rosalie já fizeram Nat se engasgar com quase tudo que existe no mundo e ainda assim eu a deixava sob os cuidados das tias – ele pareceu refletir – Vendo agora, eu fui corajoso pra caralho. Puta que pariu – não pude deixar de rir – De qualquer forma, apenas tome isso como uma forma de aprendizado. Hoje você aprendeu que ao lidar com crianças, se for usar cordão, deve usar um com a corrente mais forte, além disso, aprendeu a estar sempre mais atenta pois criança quando está descobrindo o mundo, leva tudo à boca – apontou com a cabeça para a bebê em seu colo que babava seu relógio.
— É... – ainda estava triste e não tinha muito a dizer.
— Além do que, ela não está magoada com você, ela ainda te ama – falou.
Desviei meu olhar para a bebê sem seu colo. Ela parecia bem entretida em pôr o relógio caro dele na boca e isso me preocupou. Se ela arranhar a gengiva nisso vai doer pra caramba e vai sangrar. Cutuquei sua pequena costela para que ela parasse de tentar morder o relógio. A coitada se assustou e deu um pequeno pulinho, não consegui segurar a risada, foi engraçada a carinha que ela fez. Sony fez biquinho e parecia que ia chorar, mas quando me viu, logo desfez o bico, ela ficou me olhando e enquanto eu a olhava, não deixei de me sentir mal por quase ter a matado mais cedo. Logo ela abriu um grande, banguelo e estranho, porém lindo sorriso para mim. O mais estranho de tudo foi ela se jogando em meus braços. Quanto tá no colo do pai e sem fome, ela nunca se joga pra mim, Sony é irritantemente grudada no pai.
— Tá vendo? Ela ainda te ama, mesmo você sendo meio louca – Edward disse – Sua mãe é surtada e você ainda a ama e por um milagre, ainda está viva.
— É, acho que sim – falei pegando a pequena nos braços e beijando seu rostinho – Desculpa por quase te matar, juro que foi sem querer, mas em minha defesa, a culpa é sua que é muito pra frente e tentou comer um diamante – minha fala só fez com ela sorrisse ainda mais – Eu amo você coisa pequena, por favor, não me mate mais de susto, eu não sei o que faria se perdesse você – a abracei com força – Ei, cadê a Nora?
— Tá com a Nat, eu seriamente desconfio que ela foi maquiar a irmã – ele coçou a nuca nervoso.
— Coitada – lamentei pela minha outra pequena.
— Você devia fazer o mesmo, daqui a pouco o pessoal estará chegando – Edward olhava pra mim e parecia querer prender o riso – Sabe, seu rosto está todo cagado, tem um negócio preto escorrendo nele todo.
— Vai se foder Edward, sai daqui – reclamei – Puta que pariu, que homem chato. Você adora perder a chance de ficar calado hein.
O filho da mãe apenas gargalhou ao levantar e pegar Sony dos meus braços. Ele murmurou um ‘te espero na sala’ e saiu do quarto. Revirei os olhos pro cinismo dele e fui me olhar no espelho. Ok, ele tinha razão, meu rosto estava mesmo todo cagado, chorei e esfreguei o olho, meu rímel borrou pela minha cara inteira. Esse é o preço que eu pago por ter preguiça de tirar o rímel a prova d’água e usar o normal.
Não me arrependo de nada.
[...]
— Ué, não me chamaram pra festinha? – brinquei ao entrar no quarto de Nat e ver Edward concentradíssimo fazendo a maquiagem dela.
As gêmeas estavam no chão brincando no tapetinho com alguns brinquedos, Nat estava sentada de frente para Edward em uma cadeira e ele estava todo atrapalhado com uns pinceis em uma mão e com a outra segurava uma paleta de sombras e entre os dedos um rímel, Edward olhava concentradíssimo para a filha.
— Não era do meu interesse chamar – Nat como sempre uma flor de pessoa respondeu simplesmente dando de ombros – Pai eu quero um delineado gatinho – exigiu.
— Tem certeza?
— Sim.
— Então aprenda a fazer e faça você mesma.
Own que amor. A diaba filha tinha mesmo a quem puxar em ser grossa. Até reprimi a vontade em lhe mostrar o dedo médio por ela ter a audácia de dizer que não era do interesse dela me chamar pra ajudar. Você ainda vai precisar de mim quando sua cara estiver toda borrada, sua ingrata ruiva.
— Vocês dois são dois grossos – respondi sem vontade indo sentar no chão com Sony e Nora.
Ou deveria chamar Nora e Sony? Ordem alfabética né.
Deus, minha alma está atribulada igual a de Edward.
— É que eu já estou ensinando pras duas como é a personalidade da família – Nat respondeu – Elas têm que crescer sabendo das coisas ou não vão durar um fim de semana com os Cullen.
Até pensei em rebater, mas Natalie estava coberta de razão. Coitadas das minhas pequenas, por isso que dizem que família não se escolhe.
Fiquei sentadinha ao lado das gêmeas vendo Edward ‘maquiar’ Natalie. Na verdade, ele deu duas pinceladas de blush rosa em cada lado do rosto dela, passou um batom lilás estranho nos pequenos lábios de Nat e agora estava concentradíssimo fazendo o tal de um ‘smokey eyes’ que a Nat passou a semana inteira enchendo o saco dele pra ele aprender e ele dedicadíssimo passou todos esses dias vendo o tutorial no Youtube.
Claro que o sabidinho não usou nenhum tom escuro, até porque Natalie é criança e ele não a deixa usar cores escuras, então, ele estava trabalhando apenas com marrom claro e rosa.
Que horas que eu digo que a combinação de cores dele é ridícula? Bem, deixa eles aí, como a pirralha ruiva disse... não é do interesse dela me chamar.
— Nossa pai, minha maquiagem ficou linda, obrigada – Nat sorriu sem graça quando Edward anunciou ter terminado.
Eu hein, a semana inteira olhando vídeo pra sair isso?
Tive vontade de rir quando vi que parecia que ela tinha levado uns tapas nas bochechas e que o rímel estava todo borrado em seus olhos.
— Gostou mesmo? Não sei se fiz direito – Edward parecia confuso.
— Sim, está lindo. Obrigada paizinho – ela abraçou o pai que sorriu que nem idiota todo contente.
— De nada filha – retribuiu o abraço dela.
— Edward, vai ligar pros seus pais e perguntar que horas eles chegam. Eu estou morrendo de fome, não como desde meio dia esperando a comida – peguei na minha barriga dramaticamente para enfatizar o que dizia.
— Tá – respondeu simplesmente já puxando o celular do bolso.
Fiz isso pois notei o desespero no rosto de Natalie e como ela foi malvada comigo quando entrei, vou ser malvada com ela também. Sim, eu estou me trocando com uma garota de 11 anos e não me arrependo disso. Acho até divertido na verdade.
— Não – falei assim que Edward saiu.
— Por favor Bella, olha como tá minha cara – a pequena diaba ruiva pediu chorosa – Vão dizer que eu levei um tapa na cara.
— Se não gosta das maquiagens que seu pai faz, por que ainda pede pra ele fazer?
— Eu gosto desses momentos com ele e ele fica feliz quando eu peço. Viu como os olhos dele brilham?
— Na verdade, ele fica uma alma bem atribulada – refleti – Ele passa a madrugada inteira vendo esses vídeos e depois amanhece de mal humor... hum, então enquanto eu trabalhava pra ele, acho que você era o motivo de eu querer me jogar da janela assim que ele chegava. Vish, agora que eu não te ajudo mesmo.
— Por favor? – insistiu mais uma vez. Sorri vitoriosa em poder recusar – Se você ajeitar meu rosto, eu não conto pra ninguém que você quase matou a Nora hoje... a vó Esme ia pirar.
Mas ela é mesmo a diaba filha. Estreitei os olhos pra ela e agora quem sorriu vitoriosa foi ela. Nat sabia que tinha me ganhado ali. Eu estou realmente ficando com a alma atribulada. Inferno.
— Vem aqui – a chamei sem vontade – Você é mesmo a diaba filha.
— Cada um que lute com as armas que tem, eu tenho a chantagem.
— E foi a Sony, não a Nora – a corrigi.
— Sério? – confirmei com um aceno de cabeça – Gente, então eu passei a noite chamando a Nora de Sony, ela vai crescer com a mente perturbada.
— Uma típica Cullen então – concordei
— Eu sabia que você ia fazer meu pai feliz – Nat soltou aleatoriamente enquanto eu tirava o excesso de blush do seu rosto.
A olhei confusa com sua colocação.
— Amada? Eu nem sabia que seu pai tinha a capacidade de sorrir, como você sabia sobre a ‘felicidade dele’? – questionei curiosa.
— Na noite anterior, quando meu pai falou que tínhamos que dormir porque ele ia trabalhar cedo, ele sorriu – ela explicou.
— Ah, então a bonita viu o pai sorrindo só porque ia pro trabalho e automaticamente imaginou que eu era a causa disso? – ironizei – Nat, fofinha, nós duas conhecemos seu pai, ele é compulsivo por trabalho, se você falar trabalho perto dele, ele sorri.
Natalie me olhava com um sorriso travesso no rosto e esse sorriso parecia dizer algo como ‘eu sei e você não sabe’. E eu realmente não sei, mas ela também não sabe muito pois eu aposto um rim que Edward não comentaria nada disso com ela e até hoje tenho certeza que ela descobriu sozinha sobre nós. Eu sempre quis perguntar, mas sempre esqueço de o fazer.
— Nat vê, Nat sabe – a ruiva piscou para mim sorrindo enigmática.
Eu até argumentaria com ela, mas a pequena ruiva realmente sabia de muita coisa. Apenas sorri pra ela como resposta e apenas me contentei em após ter sido chantageada pela diaba ruiva filha, tratar de consertar seu rosto que Edward fez questão de deformar.
É cada uma que sou submetida.
[...]
— Bella, desculpa a demora, é que eu quis fazer uma chegada dramática pra que todos notassem minha presença quando eu chegasse – Alice disse empolgada no momento em que abri a porta – OLÁ FAMÍLIA, EU CHEG... CADÊ TODO MUNDO? – ela perguntou frustrada ao observar que apenas eu, Edward e Natalie a olhávamos como se ela fosse louca.
— São 23:30, só você chegou – Edward revirou os olhos voltando a sentar no sofá – Para de bancar a doida e entra sem escândalo.
— MAD – Nat correu para abraçar a prima.
Era tão bonitinho ver as duas se amando dessa forma, nem parece que passavam uma boa parte do tempo com raiva uma da outra, bem aquele negócio de amigas e rivais ou iniamigas. Eu amo uma falsidade infanto-juvenil.
— NAT – Madison retribuiu o cumprimento com entusiasmo.
— Onde eu deixo isso? – Jasper questionou suspendendo a vasilha de vidro em suas mãos.
— Pode deixar em cima da mesa – apontei para a mesa atrás de mim.
Ele olhou para mim, olhou para a vasilha em suas mãos e após suspirar, concordou com um aceno de cabeça.
O que? Ele não achou que eu ia pegar e deixar lá por ele, não achou? Ele é da família, não visita. Ele que lute.
— Mas que merda você faz aqui? – me surpreendi com o tom aborrecido de Edward.
Me virei para olhar e ele estava porta da sala, parecendo bem aborrecido com as mãos apoiadas no quadril e olhando pra baixo, só então notei que Matt estava ali parado com um sorriso no rosto e várias sacolas em sua mão.
— Oi senhor Cullen, feliz natal pro senhor também. Eu lhe trouxe um presente – ele puxou uma sacola pequena de dentro das suas muitas sacolas e estendeu a Edward.
Qual a obsessão de gente rica com caixas de veludo? Se Matt tiver dado uma joia a ele, eu vou ficar ofendida.
Edward olhou desconfiado para o garoto e depois para o presente estendido pra ele. Me aproximei dele beliscando sua costela, ele me olhou de cara feia, mas aceitou o presente do garoto. Edward estava com uma cara de nojento quando abriu o presente, mas no momento em que viu o logo da Montblanc na caixa retangular de veludo seus olhos brilharam.
Era uma caneta elegante até demais e que parecia cara. Os pais desse garoto não desembolsaram menos do que 3 mil dólares nisso. Todo esse dinheiro pra um presente tão sem graça? Depois eu mostro pra ele uns lugares onde vendem umas canetas de 1 dólar que são excelentes.
— Feliz natal Matthew, pode entrar, Nat está no jardim com a Madison – Edward cumprimentou o garoto.
Lúcifer está se vendendo por muito pouco.
— O que? Imagina assinar um contrato usando essa belezura. É uma Monteblanc, os pais do garoto souberam escolher – se justificou ao notar meu olhar acusador.
— Depois eu jogo na sua cara como você se vendeu por uma caneta – me virei para o garoto – Calma aí meu jovem, cadê meu presente? Se não me der nada, eu nem te deixo entrar.
— Nunca eu ia esquecer de você Bella, tenho algo pra você também – Matt me ofereceu uma sacola.
Era um globo de neve que dentro tinha o Empire State Building e a Estátua da liberdade – E olha, aqui onde tem esse negócio que a moça da Estátua da Liberdade tá segurando, eu mandei escrevem seu nome, viu? Tá escrito Bella – ele apontou no globo.
Olhei encantada para o globo de neve. Uau, eu nunca ganhei nada com o meu nome escrito a não ser um emprego. Olhei irritada para Edward que pareceu perceber meu descontentamento com o chaveiro que ele não mandou escrever nada, nem meu nome.
— Some da minha frente, garoto – ele falou aborrecido.
Matt apenas sorriu sem graça e entrou no exato momento em que Natalie e Madison saíram do jardim e voltaram para a sala. Matt entregou a Madison como presente uma caixa de chocolates suíços e uma camisa escrito ‘feliz natal’. Ela ficou super feliz e animada.
Já para Nat, Matt foi mais caprichoso dando para a pequena diaba ruiva um buquê de lírios, uma pulseirinha dourada que espero eu que não seja de ouro já que o pirralho já torrou a grana dos pais com a caneta que deu pra Edward, uma caixa de chocolates iguais ao que deu para Mad e um cordão no qual o pingente eram as letras NM juntas justificando que eles eram amigos e fazia sentido. Nat foi muito eu e respondeu dizendo que isso era a coisa mais brega, mas agradeceu do mesmo jeito e para retribuir, lhe deu um jeito na bochecha. Nem preciso dizer que isso iluminou a noite do garoto
Madison pareceu triste com toda atenção que Nat recebeu do ‘amigo’ e ao perceber isso, Natalie arrancou duas flores do seu buquê e entregou a prima que sorriu agradecida, mas ainda pareceu triste.
Até prestaria atenção no que se sucedeu depois ou daria importância para o descontentamento de Edward em ver Matt idolatrando Nat, mas a campainha tocou e isso foi suficiente para me distrair. Assim que abri a porta, o resto do pessoal estava lá e Rosalie parecia braba com Carlisle.
— Tira esse bicho de perto do meu filho – ela olhava de cara feia pro pai que segurava seu fiel companheiro no colo.
— Rosalie, você é um bicho, o Chia é a sensação dessa festa – ele revirou os olhos.
O vira lata estava vestido de papai noel e usava até uma barriga grande falsa e um gorro, além disso, Carlisle pintou a cabeça do cachorro de branco para se parecer com cabelos brancos. Jesus, Carlisle estava cada vez mais surtado com as roupinhas do cachorro. Adorei.
— Que demora hein, faltam cinco minutos pra meia noite. Eu estou morto de fome – Edward reclamou quando a família entrou.
— Então, vocês trouxeram as comidas ou deixaram no carro? – questionei ao ver que todos estavam de mãos vazias – Eu também estou morrendo de fome. Estou desde meio dia de bucho vazio só pra me entupir com as comidas de natal. Estou há tanto tempo sem comer que se eu passar mais 10 minutos de barriga vazia, a Sony e Nora não vão ter mais alimento – peguei nos meus peitos para que entendessem do que eu estava falando.
— Hããããã... que? – Emmett perguntou confuso – Era pra trazer alguma coisa?
— Sim? – respondi, mas soou como uma pergunta – Falei semana passada para Alice repassar o recado de que eu faria todos os doces, mas vocês trariam a comida, eu fiz uma porrada de doces – apontei para a mesa de doces atrás de mim e me virei para a baixinha de olhos dourados que se encolhia em um canto – Alice, me diz que você repassou o recado.
— Então... – ela enrolou uma mecha de cabelo no dedo olhando para baixo – Eu meio que esqueci de repassar a informação, mas... eu trouxe arroz com passas.
— Eu não como uva passa – Edward respondeu azedo – Caralho Alice, como você não fala um negócio desses?
— Nós não vamos ter ceia no natal? – Charlie parecia ultrajado – Que bosta hein. Em Forks eu comia ao menos um peru.
— Tenho certeza que você botava muitos perus na boca – Renée provocou.
— Enquanto isso, ninguém queria pôr o peru na sua boca, sua ridícula – ele rebateu.
— Queridos, depois vocês liberam todo esse tesão reprimido entre vocês – Esme interrompeu a briga dos dois – Agora vamos tratar de algo sério aqui – ela se virou para Alice – Como assim você não repassa uma informação dessas, sua anã desgraçada? Eu vou ficar com fome? O que vamos comer?
— Eu trouxe arroz... – ela tentou se justificar.
— Enfia esse arroz no...
— Para, Rose – Jasper interrompeu a loira – Alice, você não falou isso nem pra mim.
— Eu ia mandar no grupo, mas daí eu vi o vídeo do Chia que Carlisle mandou e eu me distraí – ela gemeu as palavras como se falar isso em voz alta a causasse dor física.
— Se eu tivesse nesse grupo...
— Ninguém te quer no grupo Edward, se toca – Tanya revirou os olhos – Eu não como doces. Doces engordam, minha cota de doces de fim do ano é pro ano novo.
— Ninguém liga pra sua alimentação ridícula – Edward rebateu – E você já está gorda.
— Se servir de consolo, eu trouxe a ceia do Chia – Carlisle falou orgulhoso tirando do bolso uma sacola com uma comida muito feia lá de dentro.
— Mas por que porra você achou que isso ia servir de consolo, Carlisle? – Esme perguntou aborrecida.
— Alguém tem que se preocupar com ele – o loiro deu de ombros acariciando a cabeça do vira lata com o celular.
O candy crush brilhando na tela não foi nem novidade.
Ficamos todos olhando um pra cara do outro. Se eu soubesse que não ia ter nada pra comer, teria comido algo antes. Já era moralmente permitido chorar ou eu tinha primeiro que tacar meu sapato na cara de Alice? Eu definitivamente tacaria meu sapato nela.
[...]
Estávamos todos na mesa, em silêncio, cada um comendo um doce diferente. O único som que era audível era dos fogos de artifício que estouravam lá fora.
Nat se agarrou com os cannoli de chocolate, eu me agarrei com o cheesecake de frutas vermelhas, Edward comia o triffle dele e o que o resto estava comendo, não sei e não me interessava, mas estavam comendo. Toda vez que Alice tentava falar algo, alguém não deixava, era muito pedido de desculpa simultâneo em um curto espaço de tempo.
— Que vontade de enfiar esses foguetes no cu de quem está soltando – Rosalie bradou irritada largando seu talher na mesa abruptamente – Não quero saber se estão felizes por já ser dia 25, eu quero comer meu peru... e se você fizer alguma gracinha enquanto eu estou morrendo de fome, eu arranco o seu peru – apontou o dedo para Emmett que engoliu a risada.
— Pode enfiar arroz nesse pudim e comer ele todo – Esme se irritou novamente com Alice empurrando a vasilha com arroz para ela.
— Pessoal, vamos manter o esp...
— Eu vou enfiar o espirito natalino todo no seu rabo – Charlie ameaçou Jasper que se calou em seu lugar.
Bom, era natal, não teve ceia, todos passaram o dia sem comer pensando nas comidas que a data festiva proporcionaria e como fomos frustrados, obrigada Alice, fomos direto para os doces. Ninguém aguentou comer muito pois queríamos comida de verdade. Suspirei fundo empurrando meu prato para longe.
— Filha, você vai ficar sem comida hoje e a culpa é toda da sua tia Alice – falei para Noralie que estava em meu colo – Você também vai ficar sem alimento – olhei para Sony no colo de Edward.
— Ou vai ficar sem a tia e o responsável serei eu – Edward respondeu em um rosnado abafado.
Ai que delícia de natal, o primeiro que faço na minha casa e nem uma ceia decente tem, isso desanimou até pra troca de presentes, só quem estava animado era o Colidir que ganhou uma caminha nova e estava super feliz com seu suéter rosa natalino e o Chia que adorou o osso que eu dei a ele.
Ah, e o Conv estava uma gracinha com um suéter personalizado. Óbvio que eu não ia esquecer do meu primogênito que respira. Já meu primogênito master, John estava fofamente vestido de Rudolf, não me questionem, ele que quis ser vestido assim, eu só acatei.
[...]
Passamos uma boa parte do tempo sentados no jardim conversando e tentando não pensar no fato de que o natal estava bem bosta, por isso, enquanto Nora estava quase adormecida em meu colo, eu fiquei fazendo o que eu mais gostava de fazer: pondo o nome de Edward no macumbaonline.com.
— O que você tá fazendo? – ele questionou ao me ver concentrada demais no celular.
— Advinha? – arqueei uma sobrancelha pra ele.
— De novo? Você não cansa? – acenei um ‘não’ com a cabeça – Essa foi uma pergunta idiota. Dá pra pelo menos parar de pedir pra eu broxar durante o sexo? Esse é um pedido bem merda.
— Dá, eu só não vou parar – sorri – Mas como é natal, estou boazinha, estou pedindo apenas para que você se engasgue com sua própria saliva, o pedido de ‘passar raiva no natal’ que fiz ontem se realizou e todos passamos raiva graças a sua prima fada demoníaca e agora estou fazendo aquela macumba clássica pra você broxar durante o sexo. Simples, rápido e prático.
— Por que nós namoramos mesmo?
— Porque o destino quis assim – concluí com um sorriso vendo-o rolar os olhos frente a minha ‘ironia’.
Mas era ironia mesmo, ironia do destino porque ele acha mesmo que eu quis que nós namorássemos? Eu não quis nada, eu estava quietinha, no meu cantinho fazendo meu trabalho, ele que inventou de me levar pra Finlândia e a diaba filha que inventou de arrastar o pai pro cinema naquele sábado.
Me arrependo de termos nos envolvido? Só quando ele me faz raiva, mas de forma geral, não me arrependo de nada, mas também não posso dizer que “eu quis”. Mentira, posso sim. Eu quis e ainda quero.
Quando as gêmeas finalmente dormiram, Edward me ajudou a coloca-las no berço. Nat tinha razão, elas só viviam dormindo.
Após acomodá-las nos berços, saí puxando Edward pela mão para fora do quarto e sem muito pudor, tomei seus lábios nos meus. Ele pareceu se animar com o meu gesto pois logo suas grandes e firmes mãos estavam espalmadas em minha bunda.
Gemi baixinho quando o senti apertar minha carne sobre o tecido do vestido que eu usava. Eu ainda achava impressionante como meu corpo parecia que entraria em combustão espontânea apenas com o modo como suas mãos se moviam coordenadas sobre meu corpo. Era uma sensação incrível que eu tinha desde quando ficamos juntos pela primeira vez e que parecia não se dissipar nunca. Eu era eternamente grata por isso.
Edward me puxou para mais perto dele aproximando seu corpo do meu. Não contive um gemido ao sentir cada centímetro do seu corpo másculo sobre o meu, especialmente sua ereção pressionando meu baixo ventre. Agarrei-me aos seus ombros quando Edward puxou meu lábio inferior entre seus dentes e minhas mãos automaticamente se infiltraram em seus fios acobreados quando sua boca desceu por meu pescoço. Fechei os olhos me entregando às sensações que seus lábios provocavam em mim.
Seus lábios passavam por minha pele traçando um caminho que me incendiava de dentro pra fora, me deixava sedenta por ele. Sem mais conseguir me segurar, o puxei pelo cabelo de volta para minha boca em um beijo cheio de luxúria, tesão e principalmente: urgência.
Não vi muita coisa, mas senti quando Edward abriu alguma porta aleatória e me empurrou para dentro. Era melhor assim, seria péssimo sermos vistos por alguém enquanto estivéssemos transando.
Edward desceu as alças do meu vestido expondo o sutiã que eu usava, em seguida, desceu uma das alças do sutiã beijando minha pele. Fechei os olhos respirando fundo, o ar sempre me faltava quando estávamos juntos assim. Maldita asma.
— Abra os olhos, Isabella – Edward ordenou com a voz grave – Eu gosto de ver a expressão no seu rosto quando te dou prazer – dizia enquanto sua mão subia pela parte interna da minhas coxa infiltrando-se sob o vestido.
Abri os olhos encontrando seus intensos, penetrantes e apaixonantes olhos verdes. Seu olhar preso ao meu, me mantendo refém da imensidão esverdeada que eram seus olhos. Ergui uma perna passando-a ao redor do seu quadril e lhe dei meu melhor sorriso safado, eu queria fazer algumas coisas nada natalinas com ele, mas meu erro foi desviar o olhar para algum ponto atrás dele.
— AAAAAAAA – gritei o empurrando com força e subindo as alças do meu vestido com rapidez.
— Bella o que foi? – Edward questionou visivelmente confuso.
— EU QUERO MORRER – gritei atordoada.
— Bella...?
— ME AJUDA DEUS – cobri o rosto com as mãos – EU VOU FICAR PRA SEMPRE TRAUMATIZADA.
— Bella? – Edward me segurou pelos ombros e parecia realmente preocupado.
Não fiz questão de abrir os olhos ou o olhar pra ele, apenas apontei com o dedo para atrás dele.
— Puta que me pariu – pelo visto ele já viu também – Vocês estão de sacanagem com a minha cara?
— Oi... sumido, quanto tempo – a voz sem graça de Renée me fez querer vomitar.
Que delícia de natal. Primeiro não teve comida, segundo eu fui forçada a visão do meu pai, nu da cintura pra baixo, com as mãos cobrindo suas ‘intimidades’ e Renée nua da cintura pra cima, sua saia erguida até o meio das coxas e ajoelhada na frente de Charlie. Será que eu fui tão filha da puta assim nessa vida pra merecer uma visão do inferno dessas?
— Eu acho que não adiantou ficarmos parados – Charlie disse sem graça olhando para Renée – Acho que notaram nossa presença sim. Péssima ideia a sua.
— MAS QUE PORRA? – gritei confusa.
Renée esticou o braço pegando sua blusa a passando de forma desajeitada por sua cabeça e se cobrindo.
— Quando vocês estraram foi tão de repente, nós meio que achamos que se ficássemos parados e sem falar, vocês não iam nos notar aqui.
— Vocês iam ficar nos olhando transar? – Edward perguntou assustado – Que coisa mais...
— O plano não era esse – Charlie o interrompeu – Quando vocês se distraíssem, nós íamos sair.
— Pai, mas e a Sue? – perguntei preocupada.
Alguém tinha que se preocupar com a namorada de Charlie.
— Então, ela meio que me deixou, ela está com Harry agora – respondeu.
Um silêncio constrangedor se instalou no cômodo. É tarde demais para me jogar de uma ponte? Nesse momento eu acho que aceito até cortar os pulsos com uma faca descartável.
— Então, eu acho que já vou indo – Renée foi a primeira a quebrar o silêncio – Mas antes, se me permite dizer – seu olhar intercalou entre Edward e eu, até parar nele e ela sorrir estranho – Se você me fala um negócio desses na hora do sexo, com uma vez sexy dessas, eu faria estrago em você. Por isso a Bella é tã...
— Ok – Edward a interrompeu – Eu vou enfiar uma faca em meus ouvidos até sangrar e eu não ouvir mais nada e vou fingir que esse momento nunca aconteceu – ele segurou minha mão e saiu me puxando para longe dali.
Deus, eu só queria ser uma americana normal, com uma ceia normal e uma rapidinha natalina normal. Ao invés disso, o auge a minha noite foi eu quase transar na frente dos meus pais e eles ouvirem meu homem falando sacanagem no meu ouvido.
Olhei para a pulseira em meu braço onde o nome ‘Lilith’ brilhava. Só podia ser obra dessa filha da puta. Não é possível.
— Seu pedido pro site de macumba se realizou porque eu acho que depois disso, tão cedo meu pau não vai levantar – Edward falou quando voltamos para o jardim com o resto da família.
— Você nem brinca com um negócio desses, vai levantar nem que eu ponha viagra na sua comida – ameacei – Mas vamos pensar em levantar daqui uma semana, agora eu só quero me matar.
Ele assentiu concordando.
— O que vocês tanto cochicham? – Rosalie perguntou curiosa.
— Eu vi Renée com a boca no peru de Charlie – soltei sem querer.
— BELLA – Charlie e Renée me repreenderam.
— O QUE? – Esme, Alice e Rosalie.
Tanya gargalhou alto e estendeu a mão para Carlisle e Emmett que apesar de irritados, colocaram cada um 100 dólares em sua mão.
— O que foi isso? – Jasper questionou confuso apontando para os três.
— Eles estavam se esfregando a noite inteira, eu apostei que alguém os pegaria até o fim da noite – Tanya deu de ombros colocando o dinheiro no sutiã – Por sorte foram vocês, não eu – ela se virou para meu sogro novamente – Carlisle, o gorro do cachorro.
— Pra que inferno você quer o gorro do Chia?
— Aposta é aposta, Cullen, ou você não tem palavra? – ela o desafiou.
— Enfia essa porra no cu, então – Carlisle bufou irritado tirando o gorro do vira lata e entregando a Tanya – Agora meu favorito está descaracterizado.
— Eu tenho certeza que ele está agradecendo por isso – Edward ironizou e Carlisle lhe mostrou o dedo do meio.
Todos olhamos a cena sem palavras. Ninguém imaginou que Carlisle apostaria uma peça de roupa do adorado vira lata dele.
— Eu estou há séculos falando que isso é tudo tesão reprimido e parece que ninguém me escuta – Esme falou quebrando o silêncio – A tensão sexual era palpável.
— Era, não era? – Alice concordou.
Fiquei olhando eles conversarem tranquilamente sobre a ‘tensão sexual’ entre meus pais. Céus, essa família é insana e eu estou inserida nela. Eu acho que mereço mesmo um negócio desses, uma família insana para uma jovem insana, faz sentido pra mim.
Edward revirou os olhos para o rumo que a conversa estava tomando e logo sorriu pra mim. Um dos seus mais lindos sorrisos, daqueles que fazia meu coração acelerar, quando seus olhos me olhavam como se eu fosse a única pessoa existente não só no cômodo, mas pra ele e sendo honesta, eu acho que eu era mesmo.
Ele estendeu a mão para mim que não hesitei em a segurar. Mas eu não queria só a mão, queria ele inteiro, por isso me joguei em seus braços afundando meu rosto em seu peito. Fiquei na ponta dos pés para beijar-lhe os lábios.
— Feliz natal, querido lúcifer de olhos verdes – desejei a ele com minha boca ainda na sua.
— Feliz natal, ex assistente do satã.
[...]
— Tem certeza Tanya? – perguntei pela décima vez – Eu não sei se conf...
— Vai à merda, Isabella— ela me interrompeu impaciente – Já falei que elas estão bem, eu cuido direitinho delas e garanto que nenhuma está com saudade de você e não, nenhuma delas falou nada, absolutamente nada. Satisfeita?
— Não – respondi mal humorada.
Ok, talvez eu estivesse um pouco nervosa/ansiosa com o fato de que minhas meninas que um dia desses eram apenas duas nenéns de colo estavam começando a ficar em pé sozinhas e de vez em quando balbuciavam alguma coisa, elas estavam bem próximas de falar as suas primeiras palavras, eu podia sentir isso e se alguma delas falasse ‘papai’ antes de ‘mamãe’, eu ia surtar.
— Então foda-se, eu vou desligar agora. Se elas falarem eu te aviso, tchau.
— Tanya... – a filha da puta desligou.
Ódio.
Para o azar e desespero de Edward, Tanya se auto intitulou madrinha das gêmeas e de vez em quando, pegava as duas para passar uma manhã, ou uma tarde, normalmente era quando Nat não estava na escola, tipo hoje já que estavam as quatro no apartamento de Tanya.
Guardei irritada meu celular na bolsa e me irritei ainda mais quando após eu guardar e fechar a bolsa, essa porcaria começou a tocar de novo.
— Inferno – murmurei aborrecida – O que foi? – atendi sem olhar quem era.
— BELLAAAA— afastei o telefone do ouvido ao ouvir o grito estridente de Renée.
— Ai mãe, pra que isso?
— Compra o The Seattle Times agora, AGORA— repetiu gritando a última palavra.
— Pra que? Eu não vou ler.
— Compra a porra desse jornal e abre na página 7, depois me fala.
Antes que eu pudesse responder, ouvi o som da linha telefônica denunciando que a ligação tinha sido encerrada. Mas inferno. Hoje é o dia ‘desligue na cara de Bella Swan’ e ninguém me falou nada? Se for, eu nem atendo mais essa porcaria hoje.
Como eu estava indo para a confeitaria, não foi difícil achar uma banca de revistas. Droga, como era mesmo o nome do jornal que Renée mandou comprar? Minha mente é tão fraca...
— Moço – chamei o senhor de cabelos grisalhos que cuidava da banca – Eu queria um jornal, mas eu não sei o nome do jornal.
O senhorzinho me lançou um olhar divertido.
— Oh minha filha, então veio ao lugar certo – ele sorriu simpático – Posso sugerir o TST?
— Moço, você está usando códigos para me xingar? – questionei fazendo seu sorriso crescer ainda mais.
— Perdoe-me, não era essa minha intenção – se desculpou – Me referia ao The Seattle Times?
— Esse era o nome, era sim, eu lembro. Quero esse jornal, por favor.
— Certo – concordou.
Ele foi até uma estante, pegou um dos jornais me entregando logo em seguida. Lhe dei uma nota de 5 dólares afirmando que ele poderia ficar com o troco. Sempre quis fazer isso, mas sou mão fechada demais para o fazer, agora surgiu a (milésima) oportunidade e eu aproveitei.
Movida pela curiosidade, me escorei em um poste da rua para ler o jornal. Pensando melhor, eu podia ter feito isso na banca de revistas, acho que seria uma leitura até mais confortável, sabe, às vezes, até eu mesma questiono minha capacidade cognitiva para as coisas, não é possível.
Dane-se, já estou aqui abraçadinha com meu poste, vou ler essa porcaria, não sem meu primogênito master, claro. Tirei John de dentro da bolsa, ajeitei o uniforme da confeitaria que ele usava e o abraçando, fui procurar a tal página 7 que Renée ligou surtada para que eu lesse.
Uau, a criminalidade cresceu em Seattle.
Bom, eu deveria ter ido direto pra página 7, mas é que eu me distraí com umas notícias de uns assassinatos, eu gosto de ver a foto das pessoas e o motivo que as levou a perderem a vida. Bizarro eu sei, mas dane-se. Após ler algumas notícias sobre assassinados, mortes e outras coisas aleatórias, só percebi que estava na página 7 quando no final da página, em um cantinho destacado meus olhos captaram a frase que o conjunto de letras formavam:
“Top 10 lugares incríveis para conhecer em Seattle, 3º lugar: Confiserie Sucrée en Cascade”.
Arregalei os olhos sem acreditar no que eu estava lendo. Reli o título mais umas dez vezes só para confirmar que eu estava lendo mesmo certo. Caralho, é o nome da minha confeitaria e não só o nome, tem fotos da minha confeitaria também. Por dentro e por fora.
Inspirei e soltei uma lufada forte de ar para me dar coragem e começar a ler o que a pequena matéria dizia.
“A Confiserie Sucrée em Cascade é uma verdadeira fábrica de sonhos que explodem docemente na boca causando uma deliciosa explosão de sabor. Em um ambiente vintage e extremamente aconchegante, a confeitaria localiza-se no centro de Seattle. Lá os clientes podem desfrutar de variados estilos de sobremesas, onde a cada dia há uma vasta variedade dos doces que são servidos fugindo da mesmice e o cliente pode todo dia desfrutar de um doce de diferente nacionalidade por dia. A dona Bella Swan também investe em servir opções veganas e livres de glúten e lactose para quem possui restrição alimentar, isso tudo sem perder a qualidade do sabor e você ainda pode contar com uma equipe pronta para te atender da melhor maneira possível e esclarecer dúvidas. Vale a pena conferir.
Fiquem atentos, amanhã retornamos com a segunda posição do nosso Top 10 lugares incríveis de para conhecer em Seattle.”
Redação por Maria Welch
ALGUÉM. ME. BELISCA.
PUTA QUE PARIU.
Já é permitido surtar? Eu já posso surtar? Isso é moralmente aceito?
— CARALHO – gritei na rua sem me importar com o que poderiam pensar de mim – MEU NOME SAIU NO JORNAL E NÃO FOI PORQUE EU MATEI ALGUÉM OU ASSALTEI UM BANCO – sacudi o jornal no ar.
Algumas pessoas que passavam na rua me olhavam como se eu fosse louca, outras desviam seu caminho evitando passar perto de mim, mas eu estava pouco me importando com eles.
— EU SAÍ NO JORNAL – gritei para uma adolescente que passou ao meu lado.
— Caguei – ela respondeu simplesmente sem dar importância para a minha felicidade.
— MINHA CONFEITARIA SAIU NO JORNAL – ok, eu estava mesmo louca por gritar na rua.
— Louca – uma mulher ranzinza murmurou.
— Foda-se – dei de ombros.
Abracei John com mais força que o necessário e mais uma vez, sem me importar com o que as pessoas na rua pensariam de mim, saí correndo pela rua, eu tinha que mostrar isso a Edward. Se eu não mostrasse eu ia explodir e eu realmente não quero explodir.
Na metade do caminho, eu já estava morta de cansada, tinha esquecido que o prédio empresarial da empresa dele ficava longe pra uma porra, agora eu só estava suada, descabelada, provavelmente fedendo e morta de sede. Eu devia ter vindo de carro.
— Bom dia senhora Cullen – só percebi que já estava na empresa quando ouvi me cumprimentarem – Em que posso ajudar?
Fiquei um tanto quanto sem palavras ao ver Jane parada na entrada do prédio. Ela não usava mais suas roupas elegantes que ela tanto gostava, ao invés disso, usava uma calça social azul marinho, um blazer da mesma cor e uma camisa branca por dentro. Seu cabelo loiro estava preso em um coque elegante e ela usava um lenço vermelho no pescoço.
Não acredito que ela foi rebaixada para a moça que fica na entrada anotando para qual setor as pessoas que entram no prédio estão indo. Edward não estava brincando quando disse que a rebaixaria para uma posição cinco vezes inferior a que ela ocupava. Quer dizer, Jane recebia quase dez mil e ocupava um cargo bem alto. Isso que é ir ladeira abaixo.
Óbvio que eu ficaria surpresa, eu não tenho o costume de vir na empresa, especialmente porque eu não tenho porra nenhuma pra fazer aqui, então...
— O-Oi Jane – consegui dizer por fim.
— Então, em que posso lhe ajudar? Veio ver o senhor Cullen? – ela usava seu tom profissional.
Devo dizer que o que mais me surpreendeu foi o fato de que apesar de ela já estar bem na merda, ela não perdeu seu olhar acusador e de deboche ao olhar para mim, a palavra ‘interesseira’ ainda estava estampada em sua testa ao me olhar e isso ainda me incomodava como o inferno.
— Sim – respondi desconfortável.
Os olhos azuis de Jane desviaram para a aliança em minha mão esquerda e um sorriso debochado surgiu em seus lábios.
— Claro – apesar de sua voz ser bem profissional, ainda era possível perceber a acusação em seu tom – Aqui – Jane me entregou o crachá de visitante temporária do prédio – Pode pegar o elevador, precisa de ajuda para chegar a sala do CEO ou conhece bem o caminho, senhora Cullen? – ok, nessa sua última palavra ela ainda deixou a ironia bem evidente.
Estreitei os olhos pra ela. Como é possível que alguém que já está tão fodida na vida ainda tente agir como se estivesse por cima e fosse melhor que alguém? Tem gente que não muda mesmo, mesmo estando por baixo quer mostrar que está por cima.
— Sabe Jane, você está nessa situação, não porque eu te ferrei, mas porque você é escrota e gente escrota merece se foder muito nessa vida – a respondi com desprezo.
— Realmente, nem todos tem a oportunidade de casar com o dono da empresa para deixar de ser uma fodida – o sorriso profissional e irritante estampado em seu rosto estavam me irritando.
— Olha aqui sua filha da puta – perdi a paciência, foda-se, não sou de ferro – Eu nunca fiz nada para ferrar contigo, isso sempre foi contra tudo que eu acredito, mas abre sua boca nojenta e imunda pra falar de mim de novo e eu juro que eu mesma dou um jeito de te ferrar, mas não sem antes quebrar essa sua cara branca irritante. Qual seu problema? Não se fodeu suficiente na vida e quer se foder mais? – ironizei – Se você não tem ninguém que te ame e precisou se envolver com um homem casado para mendigar um pouco de atenção e depois foi chutada e descartada como uma qualquer e sem importância alguma, o problema é seu, ninguém tem culpa da vida miserável que você escolheu levar e quer saber mais? Enquanto você só de fode e afunda mais ainda na sua escrotidão, eu estou investindo meu tempo em algo que realmente importa – abri o jornal em cima do balcão a sua frente e apontei para a matéria com minha confeitaria – Tá vendo? Mérito próprio, estão falando de mim, do que eu faço e de como minha confeitaria é boa. Somos o terceiro lugar mais incrível de Seattle.
— Terceiro lugar? Que grande merda – ironizou.
— Não querida, grande merda é o que você faz aqui tendo que ser rebaixada de um cargo importante para um muito inferior e tendo que aturar todos rindo e falando de você pois perdeu toda moral por pura burrice. Isso é uma grandessíssima merda e uma merda na qual você já se lambuzou toda, isso – apontei para o jornal – É algo realmente interessante, relevante e importante. Agora se me der licença, eu vou ir ver meu marido, o CEO da empresa, como você bem gosta de lembrar. Boa sorte com sua vida de merda, pois vai precisar... e muito – lhe dei meu melhor sorriso vitorioso.
De onde eu estava, podia sentir daqui a fúria e inveja de Jane, mas eu não poderia me importar menos, agora eu era uma pessoa importante e reconhecida. Durante o caminho até a sala de Edward, encontrei com alguns ex colegas de trabalho e como o habitual, alguns cochichavam enquanto eu passava, outros se limitavam ao educado ‘Bom dia’ e honestamente, apenas Jess e Ang pararam para falar comigo e me parabenizaram pela confeitaria. Jess ainda reclamou que eu apareci lá sem levar nenhum doce para elas e disse que da próxima vez que eu fizesse isso, ela mesma ia realizar meu sonho de me jogar pela janela e me arremessaria daqui de cima. Ai ai, bons tempos.
— Isso aqui tá uma porcaria, você não sabe fazer nada direito? Olha essa merda, vai refazer essa porra. Se você voltar com um trabalho de porco desse novamente, nem precisa se dar ao trabalho, basta ir direto ao RH— ouvi a voz de Edward assim que entrei na sala que antes era minha.
Ele possivelmente devia estar fazendo seu novo assistente chorar. Ah eu lembro quando era minha época, a cada novo dia era uma nova vontade de morrer. Respirei fundo me sentindo nostálgica. Essa era uma raiva que eu não mais passaria.
Seu novo assistente saiu da sala dele com os olhos brilhantes, provavelmente queria chorar, cheio de pastas nas mãos e uma xícara na mão derrubando café no chão.
— Merda – xingou ao ver que tinha sujado o chão – Ele vai me matar.
— A título de informação – falei fazendo o rapaz pular sobressaltado com o susto – Aqui, ele é conhecido como o próprio lúcifer de olhos verdes, o demônio manifestado, as dez pragas do Egito, filhote de cruz credo, lúcifer em pessoa, você escolhe qual é o mais apropriado.
— Moça, pelo amor de Deus, só some daqui, você vai me causar mais problemas – pediu com a voz chorosa – Se ele gritar comigo de novo eu me jogo daquela janela – apontou com a cabeça para a janela que por muitas vezes eu considerei me jogar.
— Se você for se jogar, tem que ser pra morrer, já pensou ficar viva e ele ir até o hospital gritar com você dizendo que não se matou direito?
— Isso parece algo que esse filho da puta faria – concordou.
— Isso e muito mais. Ele reclamou que o café tá frio?
— Frio, horrível, intragável, dentre outras coisas, a lista é longa – suspirou cansado.
— Compra uma xícara que aquece sozinha, vai te poupar umas raivas – aconselhei.
— Obrigado, vou fazer isso. Agora por favor, vai embora. Se ele te ver aqui, eu vou me foder muito.
— Não vai não – sorri tentando o passar confiança – Tem alguém lá com ele? Preciso falar...
— Ele não está – me interrompeu parecendo transtornado.
— Amado, eu acabei de ouvir a voz dele.
— Ele não está. Ele foi bem claro ao gritar comigo que ele não estava pra ninguém e que se alguém entrar, eu irei conhecer a fúria dele pessoalmente.
— Você sabe que eu vou entrar de qualquer jeito, não sabe?
— Eu vou chamar os seguranças.
— Eu sou a mulher dele – falei ultrajada – Ninguém vai me pôr pra fora, eu vou entrar.
— Você podia ser até a mulher do papa, mas não vai entrar – o novo assistente jogou as pastas e a xícara em cima da mesa de qualquer jeito e correu para se posicionar em frente a porta da sala de Edward – Minha vida literalmente depende disso.
— Minha vontade de surtar por um jornal também depende disso, então ou você sai da frente, ou nós vamos pra porrada aqui – me estressei.
— Você não vai entrar – ele foi firme ao afirmar.
Inferno!
— Algo me diz que se em dois minutos você não trouxer um café quente e decente, você vai ser demitido.
Ele intercalou olhares entre a xícara de café em cima de sua mesa e eu. A indecisão em seu rosto até ele suspirar vencido.
— Eu falei que ia entrar – disse me sentindo vitoriosa quando ele se afastou da porta indo pegar a xícara.
— O que é um grito a mais para quem já é atormentado todo dia? – ele falava consigo mesmo.
Eu te entendo amiguinho. Mesma vibe por quase três anos.
— AAAAAAAAAAA – entrei gritando na sala de Edward com o jornal nas mãos o sacudindo freneticamente.
Ele pulou de susto em sua cadeira e me olhou furioso, até perceber que eu quem estava ali.
— Mas que porra, Bella – fechou a cara – Por que entrou gritando?
— PORQUE EU QUIS – estava feliz demais para não gritar – OLHA ISSO, OLHA ISSO.
Corri até sua mesa colocando o jornal praticamente em sua cara apontando para onde ele deveria ler. Edward me olhou estranho antes de o puxar da minha mão. Conforme ia lendo, um sorriso orgulhoso se formava em seus lábios.
— Eu sempre disse que você era boa nisso – falou quando terminou de ler – Parabéns, Bella, isso é incrível.
— Incrível foi eu ter que ir quase pra porrada com seu assistente, isso é sensacional.
— Espera, o que? – Edward questionou confuso – Ele te ameaçou?
— Não, mas ele não queria deixar eu entrar, quase tive que descer o braço nele.
— Você é louca de pedra – ele balançou a cabeça com um sorriso nos lábios
— Eu sei, de qualquer forma, a confeitaria saiu no jornal e ainda citaram meu nome. Tá, foi em terceiro lugar, mas mesm...
— Foda-se – ele me interrompeu – Não importa se foi em primeiro, terceiro, ultimo. O que importa é que saiu, isso dá visibilidade e seu negócio é novo. É novo e já está tendo este tipo de reconhecimento, não menospreze suas conquistas.
— Tem razão, foda-se. Isso é maravilhoso, é perfeito, é divino e eu sinto que vou explodir a qualquer momento. Eu estou que nem a Alice quicando pelos lugares
— Vem – Edward segurou minha mão – Vamos pegar as meninas com a Tanya e vamos pra casa, temos que comemorar.
— Você é um fingido sabia? – acusei – Acha que eu não sei que você só queria uma desculpa pra tirar as meninas da Tanya?
— Elas podem crescer achando que gostar da Tanya é uma coisa boa – ele fez uma careta.
Revirei os olhos pra ele. Esses dois nunca vão deixar de implicar um com o outro. Tenho certeza.
[...]
— Que pena, mas a vida tem dessas coisas e eu estou arrasado – Edward nem desgrudou os olhos da tv ao falar.
— O senhor é um insensível, paizinho – Nat fungou – Eu acho que o Oscar morreu mesmo.
— O nome dele é Convergir – a corrigi pela milésima vez.
Olhei para meu primogênito peludo em sua gaiola. Ele não respirava, estava duro e não se mexia já tinha meia hora. Nat e eu tentamos fazer algo para que ele acordasse, se mexesse ou desse algum sinal nem que fosse de fumaça, mas ele nada fazia e Edward se recusou a fazer uma respiração boca-a-boca no pequeno hamster.
— A expectativa de vida desses bichos não é alta, ele ter passado mais de um ano e meio com vocês já foi o maior milagre da infeliz vida dele. Agora joguem no lixo ou na privada e não esqueçam da descarga – o lúcifer sem coração não deu a mínima para nossa dor e sofrimento.
— Nat – solucei alto – Diga para Gianna olhar as gêmeas, nós vamos ao cemitério, temos que fazer um enterro decente para o Conv.
— Tá bom – a pequena ruiva concordou.
— Tá de sacanagem, não tá? – Edward me olhou incrédulo – Não me diz que você pretende fazer outra cova ilegal pra mais um bicho?
— Eu vou ver como fazer uma cruz – o ignorei.
Fui até a cozinha procurando por uns palitos de dente e ao achar, fui atrás de cola e esmalte. Consegui color os palitos de forma que formassem uma cruz e quando a cola secou, pintei a cruz de branco. Enquanto o esmalte secava na cruz de madeira, fui até meu quarto procurando por um uma blusa e uma calça preta, passei um batom vermelho e coloquei no rosto um óculos que cobria metade do meu rosto. Ninguém precisava ver meu sofrimento.
— TÁ PRONTA, NAT? – gritei da sala para que ela escutasse.
— TO INDO – ela respondeu de volta.
Natalie veio do seu quarto usando um vestido preto, seus cabelos amarrados em um rabo de cavalo e ela também usava um óculos escuro.
— Eu fiz uma cartinha pra deixar no túmulo do Oscar – ela desdobrou o papel que estava em sua mão – Ele merece uma homenagem.
Edward olhava tudo de longe, com a boca aberta e uma expressão de horror no rosto.
— Vocês planejaram mesmo um funeral pra um rato encardido?
— Vamos Nat, deixa ele aí sozinho. Ele não tem coração pra amar um ser tão puro como o Convergir – segurei na mão da minha filha mais velha a puxando para a porta.
— O senhor só me decepciona papai – Nat olhou de cara feia pra ele.
Edward fechou os olhos respirando fundo.
— Eu vou com vocês nessa merda de funeral.
— E vai comprar flores também – a diaba filha exigiu – Um buquê de rosas brancas e margaridas.
— Eu gosto de margaridas – refleti.
— Você põe as margaridas e eu ponho as rosas.
— Combinado – concordei.
— Alguém me mata.
Bom, eu não podia o matar, mas podia dar uma cotovelada em sua costela e foi isso que eu fiz. Ele gemeu de dor, mas mereceu e ninguém pode me culpar.
No caminho, paramos em uma floricultura e Nat foi bem enfática em pedir que a moça fizesse os arranjos das flores com os arranjos mais caros, eu sei que essa era a vingança dela por Edward não se importar com a morte do Convergir.
Dentre tantas coisas que meu peludinho poderia ter morrido e depois de todas as experiências de quase morte dele, a morte natural foi o único meio que eu não o imaginei morrendo... e olha que Nat já o esqueceu na geladeira.
Chegamos ao cemitério e após uns bons 20 minutos procurando onde a Aquarela estava enterrada, eu finalmente achei o lugar ideal para enterrar o Conv: ao lado da peixinha colorida que morreu de causas não tão naturais assim.
Puxei uma colher grande da bolsa que eu trazia comigo. Os olhos de Edward só faltaram saltar da cara dele com a surpresa. Ignorei sua reação e tratei de cavar um buraco fundo o suficiente. Nat segurava a caixa de sapato em que Conv estava, esse seria o ‘caixão’ dele.
— Moça, o que você está fazendo? – um dos funcionários do cemitério questionou quando me viu fazendo um buraco no chão – Você não pode fazer isso.
— Mas eu quero enterrar meu hamster – justifiquei.
— Você não pode fazer isso aqui – o funcionário repetiu – Eu vou ter que chamar os seguranças.
— Mas moço... –
— Eu te dou 100 dólares se você fingir que não viu nada – Edward me interrompeu para subornar o funcionário.
— 200 e eu não deixo ninguém vir aqui por 10 minutos.
Edward olhou para mim e para Nat de forma acusatória, mas puxou a carteira do bolso tirando duas notas de 100 e entregando ao funcionário que sorriu feliz e saiu dizendo que nós tínhamos exatos 10 minutos.
— Esse rato mesmo depois de morto consegue me causar prejuízo.
Depois de cavar a cova que o Conv seria enterrado, colocamos a caixa no buraco e Nat que chorava emocionada, pediu para ler sua cartinha.
— Querido Oscar, você foi muito importante na minha vida, eu te amo e nunca vou te esquecer. Por favor, volte pra roer o pé do meu pai pra ele pagar por todas as vezes que foi malvado com você e perdoe a Bella por te dar um nome ridículo. Se seu espírito sentir saudade e for aparecer pra mim, por favor que não seja de madrugada ou então eu vou morrer. É isso, amo você e vá em paz – Nat suspirou alto e depositou o papel em cima da caixa em que o Convergir estava.
— Eu também quero falar – me manifestei – Conv, você vai para sempre ser meu peludinho e quando estiver no paraíso dos animais, lembre-se: seu nome não é Oscar, é Convergir.
Nat e eu ficamos abraçadas chorando nos lamentando pela partida prematura do Convergir. Edward nos olhava e a expressão de incredulidade nunca deixava seu rosto. Olhamos pra ele esperando que ele falasse alguma coisa, afinal de contas, ele estava em um enterro e conhecia o falecido, tinha que falar também.
— Vocês esperam mesmo que eu fale alguma coisa? – nós duas assentimos concordando – Inferno. Tá – ele pigarreou desconfortável – Caro rato encardido, você já foi tarde e mesmo depois de morrer, continua infernizando minha vida. Saiba que sua morte foi eu quem desejei sim e que se você aparecer pra roer meu pé como a Nat pediu, eu vou pisar em você e dessa vez vai ser pra matar você e seu espírito, não que animais tenham um. É isso, já foi tarde.
— Que discurso merda hein, antes não ter falado nada.
— Eu não queria falar nada.
— Foda-se.
Como castigo, o obriguei a cobrir o caixão improvisado do Convergir com terra. Nat e eu colocamos as flores por cima da pequena cruz de palito de dentes e após chorarmos mais um pouco pela sua partida, deixamos o cemitério abraçadas e tristes pela perca do nosso querido peludinho.
[...]
— Eu não quero mais assistir nenhum filme da Barbie, nós já assistimos 5 filmes em sequência – Edward reclamou quando Nat pediu para assistir ao próximo.
Estávamos Nat, eu, as gêmeas e ele no chão da nossa sala. Forramos o chão com um edredom macio, espalhados travesseiros pelo chão e tínhamos algumas besteiras para comer enquanto assistíamos. Natalie e eu estávamos focadíssimas no filme, já Sony de vez em quando ficava em pé e Noralie vendo a irmã, também ficava em pé. De vez em quando balbuciavam alguma coisa, mas não era nada que fosse compreensível então, ainda estávamos atentos para quando falassem alguma coisa pela primeira vez.
Edward passou a maior parte dos filmes brincando com as gêmeas e tentando as incentivar a andar, mas o máximo que as duas faziam era fica em pé e depois de alguns segundos, sentavam de novo... ou caíam de bunda no chão.
Um dia desses nasceram e agora já estão quase andando, eu só consigo estar chorosa.
— Edward, você mora numa casa cheia de mulheres, é pais de 3 meninas e sua mulher tem o mesmo gosto que sua filha mais velha. Vai ter muita Barbie nessa casa sim – sorri largamente para ele – Não sei como ainda não se acostumou.
— Também não sei – ele que estava deitado de peito pra cima no chão, cobriu o rosto com o uma almofada – Podemos assistir pelo menos Vida de Inseto?
— Sim – Nat e eu concordamos em simultâneo.
— Eu vou ao banheiro me esperem – a diaba filha anunciou, mas antes de levantar, se virou para as irmãs – E vocês duas, não se atrevam a andar ou a falar enquanto eu não estiver aqui ouviram? Lembrem que vocês me adoram.
— Babababa – Nora respondeu a irmã esticando os bracinhos pra ela.
— Eu sei que você me ama, mas eu também amo você, as duas – Nat abraçou as irmãs – Não vou mais ao banheiro, vou ficar aqui e não tem problema se eu me mijar, eu não quero ficar longe.
— Lembra do inferno que você fez na minha vida quando ficou com infecção urinária por prender xixi? Não quero repetir aquela experiência, por ir ao banheiro agora – Edward brigou com Nat.
— Não sei como você aguenta Bella, ele é muito mandão – ela revirou os olhos.
Nat levantou, mas não sem antes lembrar as irmãs que elas não poderiam fazer nada enquanto ela estivesse fora.
Assim que ela saiu do nosso campo de visão, Edward rastejou até mim deitando sua cabeça em meu colo. Minhas mãos automaticamente foram para sua cabeça onde mexi nos seus fios macios -graças a mim- e me permiti me perder na imensidão esverdeada que eram seus olhos.
— Eu amo você – sua voz suave quebrou o momentâneo silêncio.
Sorri em resposta.
— Eu amo você também – toquei seus lábios com a ponta dos dedos seguindo o contorno de sua boca.
— Obrigado por ser minha família, por me dar duas filhas lindas e por amar e cuidar da Nat como se fosse sua – agradeceu colocando sua mão sobre a minha que estava em seu rosto.
— Do que você está falando? A Nat é mais minha do que sua, se toca – brinquei, Edward riu junto comigo – Eu a amo desde o momento que falei com ela... bom, não desde o exato momento que falei com ela, mas gostei dela desde a primeira vez que conversamos.
— Obrigado por nunca ter se demitido, mesmo eu sendo um filho da puta com você.
— Eu tentei, você que se recusou a assinar minha demissão.
— Verdade – concordou – Mas você podia ter recusado e dito que não ficaria, aí eu seria obrigado a assinar.
— Eu gostava do emprego, querido chefe, próprio lúcifer de olhos verdes.
— Você tinha uma queda pelo chefe.
— Tinha um chefe e tinha uma queda. Era eu que queria que ele levasse uma queda da escada – falei o fazendo rir alto.
Foi totalmente contagiada por sua risada. Estava me sentindo tão feliz.
Me inclinei para tomar seus lábios em um beijo suave. Começou com nossos lábios se tocando suavemente, mas quando sua mão subiu para minha nuca me puxando mais para perto, abri a boca para aprofundar nosso beijo.
Beijar Edward era doce, era salgado, era calmaria e era confusão. Todas as vezes que nos beijávamos eu sentia tudo e nada ao mesmo tempo. Era uma infinidade de sensações, emoções e meu corpo inteiro se acendia, mas ao mesmo tempo, era como se nada mais importasse, como se fosse apenas nós dois no mundo. Era confuso e esclarecer, mas acima de tudo, era algo nosso e de mais ninguém.
Quer dizer... mais ou menos, já que agora tinham quatro mãozinhas batendo em mim e em Edward querendo chamar atenção. Rompemos o beijo rindo das duas que engatinharam até nós para nos lembrar que não estávamos sozinhos.
— Você também quer beijo do papai meu amor? – Edward falou pegando Sony no colo – Papai dá então – ele beijou a barriga da menina a fazendo rir.
Nora engatinhou até ele subindo em seu colo.
— Papai também dá beijo em você, papai dá beijo nas duas.
Peguei Sony no colo para que ele pudesse pegar Noralie e assim como fez com Sony, também beijou a barriga da mais velha das gêmeas. As duas riam alto exibindo a gengiva quase banguela com apenas dois dentinhos sendo visíveis.
— Edward, vai mais lá pra trás, deixa elas aqui no meio e vamos chamar, ver com quem elas vão – sugeri.
Ele concordou deixando Noralie no meio da cama improvisada no chão e eu deixei Sony ao lado da irmã. Edward ficou em uma ponta e eu na outra.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Vem com a mamãe, vem – chamei.
As duas me olharam e começaram a rir.
— Ou vocês podem vir com o papai, vocês gostam mais do papai – Edward chamou fazendo as duas se virarem para o olhar.
— Eu passei uns bons meses com vocês na barriga, vocês têm que me amar mais.
Nora e Sony olhavam de Edward para mim e isso parecia uma grande diversão para as duas já que elas não paravam de rir um segundo sequer.
— Vocês são uns amadores – Nat voltou para a sala e isso atraiu a atenção de todos.
Ao ouvir a voz da irmã mais velha, as duas bateram palmas animadíssimas. Nat sentou-se no sofá e ficou olhando pras duas que sorriam pra ela batendo palmas, ela esticou os braços e as chamou.
— Vem com a mana, vem – chamou – Vem com a mana.
— MANA – Sony falou alto.
Edward e eu arregalamos os olhos para a bebê, Nat gargalhou alto.
— Isso, mana, vem com a mana.
— Mana – Noralie repetiu.
— Só pode ser brincadeira com a minha cara – bufei irritada.
— Você só se fode – Edward riu da minha cara.
— Vocês duas, podem parar de graça, é pra falar mamãe.
— Mana – repetiram novamente.
— Você está expulsa dessa casa, Nat – olhei feio para a diaba ruiva que só riu mais alto ainda.
— Vem com a mana – Nat chamou novamente.
Imaginem a minha cara de tacho quando Nora ficou em pé e de forma desajeitada, deu quatro passos em direção a Natalie.
— Mana – ela repetiu.
— Elas me amam mais do que amam vocês – Natalie se vangloriou.
— Você está oficialmente expulsa dessa casa. pode pegar suas coisas e ir – repeti mais uma vez – Eu estou magoada.
Edward passou os braços ao redor da minha cintura me abraçando por trás e apoiou o queixo no meu ombro. Ficamos olhando Noralie cair de bunda no chão e em seguida levantar e dar mais um passo em direção aonde Natalie estava. Sony já foi mais preguiçosa, ela simplesmente engatinhou até a irmã mais velha chegando até ela antes de Noralie.
Nat brincava com as duas e tentava fazer Sony andar também, mas esta estava disposta a não agradar ninguém no momento.
— Amo você – Edward sussurrou no meu ouvido enquanto assistíamos a interação das três irmãs.
— Eu também – repeti o que ele costumava me dizer.
Ele revirou os olhos, mas acabou rindo também.
Quando penso em como cheguei aqui, dá até uma vontade de rir. Primeiro porque Edward nada mais era do que meu chefe, o próprio lúcifer de olhos verdes que tinha como missão de vida tornar meus dias um inferno na terra. Quando nos envolvemos, eu meio que lutei muito contra esse sentimento, na verdade, eu acho que negava isso até para mim mesma. Então eu decidi aceitar o que sentia e me entregar a isso. Não vou dizer que é fácil e que todos os dias são perfeitos jardins floridos, pelo contrário, há dias em que eu seriamente desconfio que irei o matar com minhas próprias mãos, tem dias que ser mãe é tão difícil que tudo que eu quero é largar tudo e sair correndo para bem longe, mas acho que se eu for analisar de forma geral, eu não abriria mão de nada do que eu tenho hoje.
Aliás, acho que o maior plot twist da minha vida foi eu ter virado mãe. Nunca me imaginei como mãe e hoje em dia eu não me imagino sem minha família. Diversas vezes na vida, eu achei que era feliz, mas acho que eu abracei a verdadeira felicidade quando parei de lutar contra tudo de bom que tentava acontecer na minha vida e quando apenas me entreguei ao que sentia. Quando me entrei a amar Edward, quando me entreguei a minha paixão pela minha confeitaria, quando me entreguei ao meu amor pelos meus bichinhos, quando me entreguei ao meu amor pelas minhas meninas, as três, e especialmente, quando parei de dificultar minha própria vida. Esse negócio de autossabotagem, sei lá, nunca foi pra mim.
Olhei para Edward me perdendo mais uma vez no mar verde dos seus olhos, mar esse que estava para sempre eternizado nos olhos das nossas filhas, na prova mais concetra do nosso amor. Eu estava em seus braços e sim, aqui era meu lugar e ninguém poderia me convencer do contrário. Fechei os olhos inspirando seu cheiro sendo inebriada pelo seu aroma, como eu amo esse cheiro.
Olhei novamente para Nat, Sony e Nora brincando juntas e num cantinho no fundo da sala, o Colidir estava encolhido atrás de uma mesa, provavelmente com medo de ser arrastado para a brincadeira também. As meninas judiavam o coitado.
Todas essas pessoas que estavam aqui (inclusive o John e o Colidir) eram meu paraíso na terra, meu tesouro particular, minha vida e a razão de eu continuar existindo todos os dias. Por eles eu daria minha vida ou faria uma guerra se necessário fosse, mas por favor universo, que não seja necessário, isso é tudo que eu te peço, colabora comigo pelo menos dessa vez.
Sentindo toda essa felicidade transbordar por mim de dentro para fora, eu só tinha uma coisa a dizer que me deixaria ainda mais feliz do que eu já estou...
— Vamos ver Vida de Inseto.
F I M
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