O cego era eu
1 Prólogo
Notas iniciais
Benny dirigia o carro em alta velocidade na avenida, em plena madrugada. Ao seu lado assentava-se Ade bebendo energético com whisky. Ele estava agitado e sem noção, havia fumado umas "pedras da pesada" antes de entrar no carro.
No banco detrás, estava eu, Ned e Tony. Este último estava ouvindo funk a toda altura no celular e fazendo gestos com as mãos. Ned estava sentado ao meu lado fumando maconha, encontrava-se "loucão" pelo uso exagerado de drogas. Seus olhos e nariz estavam vermelhos, e ele parecia no mínimo quatro anos mais velho, estava detonado pela maconha.
Eu estava em parte bêbado e em parte lúcido, sabia que o carro estava em uma velocidade além da conta, mas o que valia era a adrenalina. O cheiro da maconha de Ned misturado com o whisky de Ade dentro carro estava me deixando zonzo.
— Quer um gole? — perguntou Ade colocando o energético com whisky em frente ao meu rosto.
O cheiro entrou rasgando minha garganta e fez minha cabeça girar. Desde que Alice virou minha amiga, não conseguia beber como antes, uma culpa me invadia a cada gota de álcool que colocava em meu corpo, mas não queria parecer um "frutinha" diante de meus amigos. Encarei o copo com whisky dividido entre beber e não beber , mas meus pensamentos foram interrompidos pela fala de Ade.
— Vai tomar ou Alice te deixou um fraco? — indagou ele e todos riram.
Uma raiva me invadiu. Desde que conheci Alice, comecei a ser a piada para meus amigos. "Quer saber!? Não estou nem aí, Alice, para seus conselhos. Não vou ser piada para meus amigos", pensei.
— Dá isso aqui! — exclamei pegando o copo e tomando um grande gole.
A bebida entrou queimando minha garganta, minha cabeça latejou e tudo girou por alguns segundos. Meu coração começou a bater forte.
— argh! — fiz quando tirei o copo da boca.
— É isso aí, cara! Esse é o Nick que a gente conhece — disse Ned dando batidinhas no meu ombro.
— É isso aí, bebida nenhuma me derruba! — gritei batendo no peito.
— Somos os donos do mundo! — brandimos juntos.
Depois de alguns segundos, minha cabeça girava tanto que eu não sabia mais onde estava. O cheiro de maconha estava deixando todos tontos, Ade não parava de beber e Benny já estava sem noção, cantando músicas e falando coisas sem nexo. O carro girava de lado a outro e buzinas soavam por onde passávamos. As pessoas nos xingavam quando nosso carro passava de raspão no delas.
Estávamos desafiando a morte pela milésima vez, aquilo para nós era como um passatempo e era eu que sempre dava as ideias mais arriscadas... mas naquele momento eu não estava me divertindo, pelo contrário, estava com medo. As conversas que tivera com Alice passavam em minha mente como um filme. Um arrependimento me tomou ao lembrar de seu convite para o culto daquele dia. Eu tinha prometido à ela que iria, mas lá estava eu, desafiando a morte mais uma vez.
A dor em minha cabeça aumentou, tudo girava e eu não suportava mais aquele cheiro de maconha no carro.
— Para de fumar essa merda, Ned! Já chega! — esbravejei empurrando a maconha da boca dele.
Antes que ele respondesse ou tivesse qualquer reação, uma luz forte invadiu o carro e em seguida tudo ficou escuro. Meu corpo girou como um boneco de pano. O carro pareceu girar por uma eternidade, enquanto meu corpo doía e a ardência de cortes graves me consumia. Um vento forte passou por todo meu corpo e pensei estar voando por alguns segundos até minhas costas bateram em algo levemente macio. Um baque forte soou em meus ouvidos e tudo parou, demorei alguns segundos até conseguir abrir os olhos e ver Ned preso dentro das ferragens do carro. "Como parei fora do carro ainda consciente?", me perguntei atordoado. Benny estava preso nas ferragens do banco da frente. Não conseguia ver Ade ou Tony.
Benny e Ned não se moviam, e um desespero me tomou. Minha cabeça começou a girar enquanto lágrimas desciam por meu rosto. Seria ali o nosso fim? Por que aquilo aconteceu se éramos tão jovens? Um filme de minha vida passou em minha mente: drogas, baladas, bebidas, relação sem proteção, rebeldia, teimosia etc.
Escolhas que eu fiz que me levaram até ali. Nós tomamos a decisão de nos autodestruir. "Se estivesse no culto não estaria nessa situação, nenhum de nós...Eu os trouxe até aqui." o peso da culpa me consumiu.
— Senhor, tenha piedade de nós! — falei com dificuldade.
"Quantas chances tu me deste para salvar à mim e à eles, e eu desprezei..." pensei, enquanto lembrava de Alice.
— Puna à mim, senhor, e não à eles! — exclamei em meu último fôlego, enquanto um zumbido alto invadia meus ouvidos e tudo ficava escuro.
Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor.
Mateus 24:42
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