O causo do roubo em Yotsuba
1 Contra fatos não há argumentos
Ao escolher ser policial, Sanji imaginou que combateria o crime e chutaria a bunda de malfeitores diariamente, mas a verdade é que seus dias eram preenchidos com reclamações sobre vizinhos barulhentos, velhinhos com dores nas costas pedindo para serem levados para casa, itens perdidos e bêbados que não lembravam o próprio nome. Às vezes, quando tinha sorte, aparecia alguém pedindo ajuda para encontrar uma mascote perdida e Sanji podia colocar em prática algumas das habilidades policiais que tanto se esmerou em polir. Ou era chamado para separar alguma briga envolvendo Cavendish, um boto-cor-de-rosa que seu único crime era seduzir pessoas comprometidas.
Porém, finalmente um crime de verdade aconteceu no bairro de Yotsuba! Ou pelo menos era o que o idoso de constituição forte afirmou ao entrar no posto policial com afobação. Nesse momento Usopp tinha ido ao banheiro, Koby estava fora fazendo a ronda e Rosinante, o sargento de sua unidade, estava em uma chamada de vídeo com o neto.
Como somente Sanji estava disponível, o idoso parou em frente a sua mesa. Sanji ergueu o olhar para ele, tendo o cuidado de manter a expressão neutra para não denunciar o tanto que ficou surpreso (e secretamente animado). O homem a sua frente tinha barba e cabelo completamente grisalho e possuía uma presença consideravelmente intimidante. Além disso, levando em consideração sua alta estatura e os muitos pelos visíveis em seus braços e peito graças a camiseta havaiana aberta que usava, podia-se supor que se tratava de um homem-urso.
O homem-urso rangeu os dentes. “Algum maldito pervertido anda roubando minhas cuecas! Exijo que ele seja encontrado e preso!”
Sanji piscou. Hã? “Acalme-se, senhor. Agora me diga quando foi que isso aconte—”
De repente uma mulher tão alta quanto o idoso e tão corpulenta quanto — apresentava um certo nível de flacidez por sedentarismo, mas Sanji jamais prestaria atenção nisso, pois além de policial, ele era um cavalheiro — adentrou o posto, limpando a testa molhada de suor. Ela respirava forte como se tivesse ido até ali correndo. “Pelo amor da deusa, Garp. Que tipo de pervertido ia querer as cuecas folgadas de um velho?” A mulher, que parecia ter uma idade aproximada do homem-urso, era obviamente uma troll de pele vermelha e tinha os cabelos ruivos bem volumosos. Ela colocou as mãos na cintura ao se virar para Sanji. “Não ligue para esse velhote, policial. Diferente dele eu tenho uma séria denúncia a fazer. Um maníaco sexual tem roubado meus sutiãs!”
Garp, o homem-urso, cruzou os braços, batendo o pé com impaciência. “Então um pervertido não pode se interessar pelas minhas cuecas, mas um maníaco sexual se interessaria por aquelas sacolas que você chama de sutiã, Dadan?”
Dadan estreitou os olhos. “O que você quer dizer com isso, seu velho senil? Eu ainda estou na flor da juventude, é óbvio que eu ainda atraio muito olhares e muitas pessoas lutariam por roupas minhas!”
“Bah. Sua flor da juventude já murchou e caiu há muitos anos.”
Sanji ergueu uma sobrancelha, ignorando a discussão que seguia a todo vapor. Dois casos não podiam ser simplesmente coincidência, mas a existência de um terceiro caso confirmaria um padrão e, por consequência, confirmaria a presença de um ladrão de roupas íntimas naquele bairro. A bem verdade, não era bem o tipo de crime que esperava trabalhar quando virou policial, mas não deixaria de se esforçar ao máximo para capturar o responsável.
“Irei investigar o caso. Onde e quando aconteceram os roubos?”, perguntou ele, satisfeito de chamar a atenção da dupla que pausara a discussão há poucos instantes.
Aliás, como aqueles dois pareciam estar com tanto calor em pleno final de outono?
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Quando descobriu que as vítimas eram vizinhas, Sanji começou a investigar a partir dali. Visitou os demais vizinhos, sempre perguntando acerca de roupas desaparecidas dos varais e também as datas que isso aconteceu para ver se algo mais coincidia. Com isso descobriu a terceira e a quarta vítima. Uma golem chamada Robin lembrou-se de não ter visto mais um de seus vestidos favoritos desde a última vez que o lavou e Nami, uma bruxa humana, afirmou que sua calça da sorte desaparecera durante a noite anterior.
Porém, ninguém havia visto sequer a sombra do meliante e não havia câmeras próximas dos locais. Além disso, o padrão de roubo de roupas íntimas se perdeu quando se acrescentou uma calça e um vestido na lista de itens roubados. Por que de repente o criminoso mudou o tipo de roupa que roubava? Isso era algum tipo de evolução? Poderia ficar pior?
Sanji pensava sobre essas questões e outras mais, rabiscando suposições em seu bloquinho de notas, quando ouviu o som de uma moto se aproximando. Ergueu o olhar, avistando uma moto de entregas parar na frente da casa de Nami. O entregador desceu e retirou uma sacola ecológica repleta de limões de dentro do baú plástico acoplado na traseira da moto. Depois, ele se aproximou da entrada da casa, sem nem se preocupar em tirar o capacete, e em vez de apertar a campainha como qualquer outra pessoa faria, ele gritou o nome de Nami uma única e potente vez. Pouco depois uma irritada Nami imergiu da porta e os dois começaram a discutir enquanto a troca de limões e dinheiro era feita.
Somente quando Nami entrou com a sacola em mãos, emitindo pequenas faíscas de irritação a cada passo, e fechou a porta na cara do sujeito, foi que Sanji se aproximou do entregador.
“Ei, você! Espere”, Sanji mirou diretamente a lente escura do capacete dele. “Sou policial e estou investigando um crime que aconteceu nas redondezas. Tire o capacete, por favor.”
O homem não obedeceu de imediato, mas logo bufou e tirou o capacete revelando um cabelo curto e verde. E além de ter um pequeno alargador preto em cada orelha, ele tinha uma cicatriz que cortava bem em cima do olho esquerdo que, como permaneceu fechado até então, Sanji supôs ser cego. A aparência geral dele não era exatamente ruim, mas aparentava indícios de que em algum momento esteve envolvido em coisas erradas. Talvez gangues ou quem sabe algo mais perigoso como ser traficante ou matador de aluguel. Os braços dele eram fortes, poderia facilmente conter uma pessoa contra a vontade dela, por exemplo... Sanji sacudiu a cabeça, tirando essas ideias da cabeça. Ele precisava de concentração.
O entregador, entretanto, parecia examiná-lo tanto quanto Sanji o tinha avaliado. O olhar dele foi minucioso ao subir dos pés a cabeça descaradamente, dando um meio sorriso depois de se demorar um pouco nas suas sobrancelhas encaracoladas (Sanji tossiu para afastar o leve constrangimento que o acometeu). “Diga, policial.”
Sanji franziu o cenho, sentindo um cheiro levemente apimentado no ar quando a brisa mudou de direção. “Seu nome.”
“Roronoa Zoro.”
“Mora nesse conjunto, Roronoa?” Ao ver o outro assentir, Sanji anotou no bloco de notas. “Certo. Tenho algumas perguntas para você.”
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“Então, você acha que esse tal Roronoa é o ladrão? Mas não tem nenhuma evidência indicando isso, Sanji...” Usopp ajeitou os óculos sobre a ponte do nariz, as asas farfalhando quando ele se moveu para se acomodar melhor na cadeira de rodinhas.
Dessa vez tanto Rosinante quanto Koby estavam fora, então Sanji levantou-se da própria cadeira, começando a andar de um lado para o outro enquanto gesticulava para organizar melhor a linha de pensamento.
“Ele vive em um complexo de apartamentos perto das vítimas, conhece todas elas e sabe o endereço de todas por causa do trabalho de entregador. Não há padrão nas linhagens dos atacados e nem semelhança física entre eles, o único ponto em comum que encontrei foi o fato deles fazerem pedidos no supermercado do bairro e optar por entrega expressa. Além disso, presenciei o Roronoa discutindo abertamente com a senhorita Orenji. Talvez, além de ser um pervertido, ele tenha algum rancor com essas pessoas. Viu? Tudo se encaixa!”
“... Você sabe melhor do que eu que sem evidência não podemos acusá-lo de algo.” Usopp pareceu hesitar por um instante, mas acrescentou: “E eu, uh, conheço Nami e ela me disse antes que os dois são amigos. Talvez você esteja entendendo tudo errado, Sanji.”
Sanji dispensou as palavras dele com um gesto. “Você não entende. Assim que o vi, senti que é ele, sabe”, ele fez um estalido com a língua. “Só podia ser um demônio mesmo fazendo isso.”
Um silêncio estranho se formou entre eles e ao encará-lo, Sanji viu uma inusual severidade na expressão de Usopp.
“Cara, isso foi bem racista”, seu colega tengu apontou. “Povos como o seu, o meu e os próprios demônios sofrem até hoje com o estigma social por causa das histórias que foram propagadas no antigo mundo humano. Ainda tem mães que afastam seus filhos de mim como se eu fosse raptá-los de repente.”
Sanji voltou a sentar na cadeira, que rangeu com o súbito peso, sentindo a empolgação de antes arrefecer quase totalmente enquanto deixava a cabeça cair para trás. Havia muita verdade nas palavras de Usopp, ele mesmo ainda lembrava das dificuldades que enfrentou quando iniciou a academia de polícia e também quando foi designado para aquela unidade. E apesar de estar ali há vários meses ainda tinha algumas pessoas que o olhavam com desconfiança quando percebiam que ele era descendente do povo feérico.
Sanji suspirou, corrigindo a postura. “Você está certo. Acho que a possibilidade de encontrar rápido o criminoso subiu a minha cabeça. Vou reavaliar a situação com mais calma e fazer mais algumas perguntas por aí. Alguém deve ter visto o verdadeiro responsável.”
Usopp sorriu, aliviado. “Sim. Vou ajudar também quando for minha vez de fazer rondas. Não é como se você precisasse resolver sozinho, Sanji. Afinal, trabalhamos na mesma unidade, não é?”
Sanji assentiu com um sorriso leve. O assunto ‘Zoro é o ladrão’ parecia ter sido encerrado ali, porém, mais tarde, quando seu turno acabou e seu substituto já estava de prontidão para o turno da noite, Sanji se viu tomando o mesmo rumo que tomou tantas outras vezes naquela semana. Tinha trocado seu uniforme de policial por roupas casuais antes de sair do posto com a desculpa de que iria sair para beber um pouco. Mas, seu real objetivo era verificar Zoro uma última vez antes de reiniciar a busca pelo ladrão.
Diferente do que Usopp parecia ter entendido, quando Sanji falou que sentiu que Zoro tinha algo a ver com o desaparecimento das roupas, não era uma simples suposição. Era, na verdade, um sexto sentindo mágico que herdara de algum dos muitos parentes fadas que tinha e que o fazia ter uma pequena premonição. Ou seja, Zoro estava relacionado de algum modo com o ladrão de roupas, Sanji só não sabia exatamente como.
Sanji diminuiu o passo quando a grande fachada luminosa do supermercado entrou em seu campo de visão, mas não parou de andar. Apenas ajeitou o gorro na cabeça e puxou o cachecol para cima a fim cobrir sua boca e nariz, em uma tentativa deliberada de disfarçar a própria identidade enquanto entrava no supermercado sem vacilar.
De tanto observar Zoro nos últimos dias, Sanji aprendeu que além de entregador, ele também trabalhava repondo os itens das prateleiras, as vezes ajudava como empacotador no caixa e também auxiliava a carregar os caixotes pesados. Quando o viu pela primeira vez, em frente da casa de Nami, Sanji não imaginou que ele seria tão trabalhador. Quer dizer, Sanji tentava não julgar as pessoas pela aparência — apesar do episódio com Usopp mais cedo parecesse indicar o contrário —, mas foi difícil não imaginar que, com aqueles alargadores e uma cicatriz reta sobre um dos olhos, Zoro seria tão diligente em suas funções. Ele parecia mais uma pessoa que tinha sido presa ou ao menos que tivera uma adolescência complicada.
De todo modo, Sanji pretendia apenas verificar uma última vez (afinal é melhor prevenir do que remediar) para no dia seguinte reanalisar tudo o que coletou e complementar com a ajuda de Usopp. Cumprimentou as pessoas que cruzavam seu caminho, andando lentamente entre os corredores do supermercado para procurar Zoro de forma discreta. Passou ao lado de um conjunto de cavalinhas enlatadas que estavam organizadas uma sobre a outra para formar a imagem de um peixe gigante, parando rápido ao perceber que Zoro estava no corredor de óleos e comida instantânea logo depois. Sanji então se escondeu na esquina do corredor, espiando a lateral de Zoro enquanto este organizava fileiras de produtos provavelmente bagunçados pelos clientes.
Estava bastante concentrado tentando captar algum comportamento suspeito em Zoro, mas um ruído próximo chamou-lhe a atenção e Sanji virou-se a contragosto para ver o que era. Perto do grande peixe formado de enlatados estava um homem humano, visivelmente bêbado, agarrado a duas garrafas de vinho novinhas. Com passos trôpegos o homem se aproximou perigosamente das latas de cavalinha, esquivando-se das tentativas que um funcionário fez para segurá-lo e guiá-lo para fora dali.
“Senhor, por favor devolva as garrafas e se retire do supermercado. Já chamamos a polícia”, informou o funcionário, mas sua juventude e inexperiência tirou qualquer peso de autoridade de sua voz.
Sanji mal teve tempo de pensar que aquilo poderia resultar mal quando tudo aconteceu muito rápido. O homem alcoolizado tropeçou nos próprios pés, caindo com força contra o grande peixe de enlatados e fazendo com que o amontoado de latas caísse para o lado oposto, onde infelizmente havia uma criança humana paralisada pelo susto.
Movido pelo instinto, Sanji correu e se jogou na direção da criança com a mão já estendida para tocá-la. Como sua magia precisava de contato direto para funcionar, ele somente se preocupou em alcançar o ombro da criança para fazê-la rolar para longe com a ajuda de uma barreira menor de vento. Entretanto, ele próprio ficou sem ter como escapar das latas, até porque sua magia não funcionava em si mesmo. Restou-lhe, então, se abaixar e cobrir a cabeça com os braços pra evitar maiores danos.
De repente um peso se assomou contra ele, mas em vez de sentir o impacto das latas contra sua pele, Sanji sentiu-se abraçado por um corpo muito quente. Ainda houve o som de diversos objetos metálicos se chocando contra o chão e o ruído de vidro se estilhaçando, além de um cheiro picante mesclado com vinho que dominou o ar e encheu suas narinas, mas a dor em si não veio. Achando isso bem peculiar, Sanji abriu os olhos e se deparou com um Zoro muito perto de si. O cabelo verde dele estava alguns tons mais escuros, chifres negros despontavam da lateral da sua cabeça e seu corpo estava notavelmente mais quente. Ah, havia também o discreto detalhe das enormes asas coriáceas que, ao estarem abertas ao redor deles, sombreavam os dois.
Sanji deu-se conta nesse momento que era a primeira vez que via a forma demoníaca de Zoro, por esse motivo ficou distraído com sua aparência, que colaborava ainda mais com a imagem de criminoso, e demorou a perceber que o cheiro picante que provinha do demônio o fez se aproximar ainda mais de Zoro e descansar as mãos sobre o peito dele.
“Confortável, policial?” Zoro perguntou com um brilho indisfarçável de diversão nos olhos.
Sanji arregalou os olhos, afastando-se dele num átimo, como se o corpo quente de repente estivesse queimando seus dedos. Porém, por estar agachado e vinho estar espalhado por todo o chão, Sanji acabou escorregando e caindo sentado não muito distante de Zoro. Sua calça logo umedeceu e colou-se desconfortavelmente em sua pele, além de ter ferido uma das mãos em um caco de vidro quando se apoiou no chão.
Um filete de sangue escorreu do corte quando o pedaço de vidro foi retirado, misturando-se ao vinho em sua pele. Sanji pigarreou, sacudindo a mão úmida e ferida. “Obrigado pela ajuda”, ele respondeu, contrariado. A vontade que tinha era de sequer agradecer ao sujeito que parecia gostar de vê-lo constrangido, mas Sanji não podia ignorar que havia sido poupado de sentir muitas dores inconvenientes mais tarde.
No entanto, Zoro não deu sinais de ter ouvido sua resposta, pois estava muito ocupado em encarar a mão de Sanji com uma atenção exagerada. Então, como se fizesse isso todo dia, Zoro pegou a mão machucada, puxou em direção a própria boca e lambeu a palma de Sanji sem demonstrar o menor receio.
Sanji só não guinchou porque sua reação involuntária foi prender a respiração e ficar muito quieto enquanto assistia Zoro deslizar a língua quente sobre sua palma. O contato devia tê-lo feito sentir nojo, não? Porém, Sanji só conseguia olhar hipnotizado para o gesto tão inesperado. Bem, agora ele meio que entendia o porquê de o imaginário humano ter uma tendência a relacionar demônios a tentações. Nada demais estava acontecendo ali, mas Sanji sentia-se como um padre sendo convencido a pecar.
Quando terminou seja lá o que estivesse fazendo, Zoro lambeu os lábios e sorriu malicioso. “Você combina com vinho.”
O rosto de Sanji ardeu tanto que ele nem precisava verificar seu reflexo em algum lugar para saber que estava ruborizado até a raiz do cabelo.
Ele puxou a mão para junto de si com rudeza. “Que merda foi essa?!”
“Minha saliva é cicatrizante”, Zoro disse, recolhendo as asas e endireitando a posição com um joelho apoiado no piso. “O que achou que eu estava fazendo, policial?”
Não apenas o sorriso provocativo permanecia em seu rosto, como o tom utilizado por ele dava a entender que sabia bem o tipo de pensamentos indecentes passou por sua cabeça. Ademais, a situação alcançou um novo nível de constrangimento quando o funcionário de antes se aproximou deles para perguntar se Sanji estava bem. Até então Sanji havia deixado em segundo plano o detalhe de onde estavam, mas agora que foi relembrado que tivera um público assistindo-o o tempo todo, seu cérebro alcançou o limite de embaraço que podia suportar de uma única vez.
Sem falar mais nada, Sanji se levantou e partiu do supermercado com o passo mais rápido que conseguiu fazer sem transformar aquilo em uma corrida. O calor em seu rosto era tanto que nem mesmo a friagem noturna foi capaz de arrefecê-la por boa parte do caminho para casa. Nem mesmo a roupa úmida e a perda do gorro, que deixou cair em algum momento da confusão, chegou a incomodá-lo.
Ele não teve tempo para gastar com ventos frios e roupas manchadas de vinho, pois seu cérebro fervia com o quão malditamente atraente era a forma demoníaca de seu principal suspeito.
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Zoro bocejou longamente enquanto esperava o café terminar de passar pelo coador. Havia tomado meia garrafa de vinho de arroz durante o tempo de fervura da água, mas para ele o dia só começava depois de tomar um café bem concentrado para espantar o sono. Após isso Zoro seguiu sua rotina normal: saiu para correr, comeu mais um pouco em uma lanchonete de sua rua e voltou para casa. Somente quando foi procurar uma roupa confortável para vestir depois do banho foi que ele percebeu que seu haramaki não estava pendurado na janela onde deveria estar.
O haramaki em si não tinha nada de especial, mas era uma das primeiras peças de roupa que Zoro comprou com dinheiro limpo assim que abandonou a vida do crime e, por manter sua barriga aquecida em dias como aquele, ele tinha se apegado a peça — diferente de sua forma demoníaca, sua aparência mais humana tinha uma sutil sensibilidade ao frio.
No fim, quando cansou de revirar a casa em busca do haramaki e aceitou que tinha sido roubado, restou duas opções de como podia resolver aquilo: Ou ele retirava sua espada do esconderijo sob o piso falso e usava uma última vez suas habilidades de matador de aluguel, ou levava o caso para a polícia e deixava eles lidarem com isso usando seus próprios meios.
Bom, Zoro não levou mais do que alguns segundos para escolher a segunda opção. Como poderia escolher outra quando a segunda envolvia ir no posto policial onde tinha um loirinho bonito que ultimamente o espiava sempre que podia? Zoro achou curioso como o policial até inventou uma desculpa sobre estar investigando um caso de roubo no bairro para iniciar uma conversa com ele naquele primeiro encontro. Sanji, esse era o nome do policial, estava todo bem vestido em seu fardamento azulado e, a fim de parecer mais autêntico, até fez anotações em um bloquinho de notas à medida que Zoro respondia suas perguntas. Zoro achou o fingimento um esforço inútil, pois preferia quando as pessoas eram diretas e diziam o que queriam dele desde o começo, mas a sobrancelha enroladinha e o jeito como ele franzia os lábios enquanto escrevia foram um charme que Zoro não conseguiu ignorar.
Por isso, quando Sanji começou observá-lo por aí, Zoro fingiu não vê-lo. Anos atrás ele teria achado irritante ter um policial em seu encalço daquele modo, mas agora Zoro não achava a ideia tão ruim assim, principalmente se fosse presenteado com expressões envergonhadas como as que o policial fez no supermercado. Só de lembrar das bochechas vermelhas e da raiva nos olhos azuis Zoro ficou com o humor melhor. E, enquanto caminhava para o posto, um meio sorriso se formou já imaginando possíveis reações constrangidas do policial quando o visse.
Porém, ao adentrar a unidade policial ele não foi recebido pelo comportamento que esperava. Primeiro Sanji piscou surpreso com sua presença, mas depois apenas indicou que Zoro sentasse em uma cadeira diante da mesa dele, sequer mostrando qualquer sinal de rubor. Zoro não queria admitir, mas ficou um tanto frustrado com isso.
Sanji sorriu, presunçoso. “Então, Roronoa. A culpa pesou e decidiu confessar seus crimes?”
Agora foi a vez de Zoro piscar surpreso. Ele sabia sobre o seu passado? “Que crimes...?”
“O roubo de roupas, é claro”, o policial ergueu as sobrancelhas. “Ou tem outros crimes que queira confessar?”
Porém, Zoro sequer ouviu a última pergunta. O questionário feito por Sanji no primeiro dia em que se viram de repente voltou a sua memória, fazendo sua mente inesperadamente interligar certas coisas. “Espere... Aconteceu um roubo mesmo? É por isso que você esteve me seguindo desde aquele dia?”
“Ah, você percebeu... Mas, uh, era por isso mesmo”, disse ele parecendo um pouco desconfortável. E depois de verificar se o sargento ainda cochilava sentado em sua própria mesa, complementou em um tom mais baixo: “Por qual outro motivo eu te seguiria?”
As pecinhas na cabeça de Zoro começaram lentamente a se encaixar. Então, a primeira vez que foi abordado, Sanji realmente estava interrogando acerca de um roubo? E todas as vezes que Sanji o espiou no supermercado (e fora dele) não era um flerte a distância e sim uma vigilância de suspeito? O semblante de Zoro fechou.
“Não sou a porra do ladrão que você procura. Eu só vim aqui porque fui roubado”, ele fuzilou com o olhar o policial tengu que assistia a conversa deles e fez um ruído de desgosto, levantando-se para sair dali. “Eu mesmo resolvo isso.”
Não havia sentido em pedir ajuda a alguém que já suspeitava dele. Além disso, Zoro ficou duplamente mais frustrado ao descobrir que entendera tudo errado sobre a perseguição. Era pior do que a sensação de ser ludibriado pela bruxa ruiva! Marchou irritado para fora do posto, mas mal alcançou a calçada quando seu braço foi agarrado.
Zoro virou-se para Sanji, ficando de costas para a rua.
“Espere! O que te roubaram?”
Zoro bufou, pouco interessado na expressão culpada do policial. “Meu haramaki.”
Um momento de silêncio se passou.
“Um haramaki... Nos dias de hoje...” Sanji pareceu um tanto incrédulo, mas pigarreou como se para evitar dizer algo mais crítico sobre a vestimenta. Quando ele abriu a boca para falar outra vez, algo atrás de Zoro chamou a atenção dele, fazendo-o piscar confuso. “Por acaso esse seu haramaki é verde?”
Zoro uniu as sobrancelhas. “É.”
“E ele tem listras na vertical?”
Zoro confirmou, começando a suspeitar que o policial era quem tinha roubado seu item. Afinal, de que outro modo ele saberia tantos detalhes? Mas suas suspeitas foram por água abaixo quando Sanji o empurrou pelo ombro e apontou para uma criatura que passava pela rua, voando baixo. A criatura nada mais era do que um grifo-pequeno-das-montanhas que levava um tecido familiarmente verde bem preso em suas patas dianteiras.
“Hm. É meu haramaki”, Zoro concluiu.
“Então corra, cabeça de mato”, gritou Sanji, já disparando na mesma direção que o grifo seguiu voando. “Precisamos descobrir para onde ele está indo!”
Embora uma veia tenha saltado em sua têmpora com o apelido ruim, Zoro logo correu para alcançar Sanji. A corrida durou menos do que esperava, com o grifo sempre mantendo uma boa distância deles. Os dois acabarem sendo guiados até uma casa abandonada que ficava localizada entre duas casas grandes, tão mirrada em comparação as construções vizinhas que causava um estranhamento apenas de vê-la ali. Dizia-se também que o lugar era assombrado por espíritos malignos, então a maioria das pessoas fazia o possível para evitar chegar perto demais dela. Zoro achava tudo isso uma bobagem.
Zoro seguiu Sanji de perto enquanto ultrapassavam o jardim tomado pelas ervas daninhas, tendo o cuidado de não tropeçar nas bolas caídas ali e jamais recuperadas, e espiaram o interior da residência através de uma janela que esteve permanentemente aberta há um bom tempo se o nível de deterioração pudesse ser um bom indicativo. Lá dentro, no centro de um quarto destituído de móveis, estava o grifo-pequeno-das-montanhas aconchegado em um ninho feito com diversas vestimentas. Em meio aos itens mais superficiais do ninho via-se o seu haramaki, mas se olhasse com atenção veria também cuecas, lenços, vestidos, uma calça de couro, cobertor de bebê e outros tecidos de variados tipos e formas.
Os dois ficaram em silêncio observando o grifo se aconchegar ainda mais em cima do ninho para tirar uma soneca. Zoro cogitava espantar o animal para poder recuperar seu haramaki quando Sanji começou a rir ao seu lado. O policial ria tanto, um riso tão incrédulo e cristalino, que pareceu a Zoro como se tudo ao seu redor começasse a perder a importância. Uma brisa fria agitou os fios claros de Sanji. O nariz e a ponta das orelhas avermelhadas pelo frio, algo bastante perceptível em sua tez clara, fez os dedos de Zoro formigarem com vontade de tocá-lo.
Sanji era tão bonito que o demônio até se esqueceu do tanto que queria recuperar o haramaki.
“O ladrão que eu tanto procurei era um mini grifo!” Sanji sorriu. “Acho que te devo um pedido de desculpas, Sr. Roronoa.”
Zoro o encarou emudecido, mais uma vez se perguntando se realmente entendera errado sobre o flerte. Lembrava-se de que, em diversos momentos da observação ao longe, a pele de Sanji emitia um suave brilho etéreo que era característico dos feéricos. Zoro ouvira falar que eles só brilhavam assim quando estavam excessivamente felizes, satisfeitos ou excitados — o que não faria muito sentido se Sanji estivesse apenas observando um suspeito. Além disso, Zoro tinha quase certeza que o policial fungou e muito o seu pescoço no episódio do supermercado.
“Policial”, Zoro chamou.
Quando Sanji virou o rosto para ele, Zoro desceu contra seus lábios o mais suavemente que conseguiu. Foi um beijo leve e experimental apenas com os lábios, pois era um simples teste de receptividade. Como Sanji não o empurrou de imediato e até retribuiu de uma forma mais contida, Zoro considerou que havia um pouco de verdade em sua especulação.
Satisfeito, ele começou a romper o beijo, mas Sanji não permitiu que se afastasse mais do que alguns centímetros antes de puxá-lo de volta para um beijo mais fervoroso. Zoro, é claro, não tentou mais se conter, aproveitando para empurrá-lo contra a parede da casa abandonada. Mordeu e puxou o lábio inferior, chupou a língua macia e lambeu o céu da boca dele como se essa fosse sua última oportunidade na vida. Quando Sanji ficou sem fôlego, Zoro desceu saboreando a pele até chegar no pescoço pálido, onde sugou uma porção e depois mordeu com força, arrancando um suspiro do policial.
Zoro distanciou-se apenas o suficiente para analisar a aparência do outro. Os lábios inchados dele pareciam ainda mais apetitosos, dando-lhe vontade de beijá-lo depois de Sanji ter bebido vinho para saber se sua língua seria ainda mais doce e saborosa assim como sua pele. Havia também um leve rubor em sua face, mas o mais importante era o brilho etéreo da pele de Sanji que acentuava ainda mais a beleza dele, quase o tornando irreal demais para estar ali.
Bem. Isso foi melhor do que esperava e ainda provava seu ponto.
Sanji deu um tapa no braço de Zoro. “Não deixe marcas em mim, imbecil! Ainda preciso voltar para o posto”, reclamou ele.
O único trecho que o cérebro de Zoro deu ênfase foi no ‘ainda’. Hm.
“Mais uma vez?” Zoro perguntou, voltando a aproximar suas bocas, mas não completando a distância de meia polegada que faltava.
Sanji pareceu pensar e demorar a responder de propósito. “Uma vez”, assentiu por fim, unindo as bocas.
Zoro não sabia bem o que poderia ter com aquele policial, mas sentia que era uma oportunidade promissora que não devia perder. Os dois poderiam ter um relacionamento proveitoso para ambas as partes, somente era preciso que Zoro continuasse mantendo em segredo o seu passado obscuro. Afinal, por ser policial, talvez Sanji não visse com bons olhos alguém que trabalhou como matador de aluguel por tanto tempo.
Mas ele não iria se preocupar com isso agora. Ninguém nunca desconfiou sobre suas atividades passadas e não seria agora que descobririam. Além disso, Zoro vinha treinando uma aura de bom moço que viu alguns ex-colegas seus usando para escapar de complicações com a polícia. Ele até se considerava um ator decente a essa altura.
Zoro sorriu em meio ao beijo, mudando para a sua verdadeira forma quando percebeu Sanji estremecer devido ao vento que esfriava cada vez mais.
É, tudo dará certo.
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