O castelo de mármore

1 O ônibus encantado


Notas iniciais
Espero que gostem, eu adorei escrever cada palavra. Eu não costumo descrever detalhadamente os personagens, eu prefiro deixar que a imaginação de cada um aja de forma livre.

Estava cedo, o sol já havia saído e havia um ar fresco matinal rondando o bairro. As nuvens macias e brilhosas deslizavam no céu. O ônibus estava calmo e com pouquíssima gente, sentei na janela perto da porta de saída. Estava com uma música na cabeça, ela combinava perfeitamente com o clima. Quando eu estava na parada antes da minha, todos saíram até mesmo o cobrador. Fui até a catraca:

— Senhor, o ônibus está indo para a garagem?

—Não senhora.

Eu não pude ver o rosto dele, mas sua voz era calma. Ele continuou dirigindo como se nada faltasse. Os ônibus são um tanto barulhentos para se conversar com o motorista, então eu sentei de modo que ele podia perceber que eu estava ali. Eu puxei a corda e esperei o ônibus parar, mas ele não parou e tomou um rumo diferente do habitual. Fiquei muito nervosa e comecei a falar bem alto ‘’senhor, a parada, abra a porta’’, mas ele não dava sinal de preocupação com meu requerimento. Talvez eu estivesse sendo raptada, mas o que fazer nessa situação?

Olhei pelas janelas e tentei acenar para alguém, enquanto isso eu ligava para a polícia. Duas coisas: um é que não tinha sinal, dois, não tinha ninguém na rua. Minha última opção foi tentar abrir as janelas com as traves de segurança, mas elas estavam tão malfeitas e enferrujadas que não se mexiam. Voltei a avaliar a paisagem e as casas foram sumindo, as casas, os prédios, a calçada... Até que estávamos rodando no meio do nada, numa imensa pradaria e no horizonte só havia nuvens pacatas, impassíveis ao que estava ocorrendo.

—Senhor, eu tenho família, tenho filhos para cuidar (na verdade só oito gatos) não vale a pena me raptar!

Olhei para o banco do motorista e no lugar do homem baixinho e meio careca de antes tinha um ser preto, transparente nas bordas com uma grande máscara branca sorridente. E a paisagem mudara novamente, desta vez era um imenso lago cristalino com várias espécies de coníferas nas margens. O céu continuava tão fresco quanto antes, mas havia esfriado bastante. Já que aquilo estava acontecendo, eu nada tinha o que fazer, mesmo que eu saísse dali eu não saberia retornar.

Calmamente, sentei no banco traseiro e me recolhi de frio. Olhando para o horizonte eu percebi a mudança desta vez. O lago se estreitava no ônibus cada vez mais e a floresta de coníferas se aproximava grandiosamente. Eu nunca tinha visto esse tipo de vegetação antes, apenas nos livros de biologia e ciências naturais. A floresta começou a ficar mais densa, folhosa, úmida... De repente estávamos em outro tipo de vegetação. Quando deram cinco horas da tarde, porque essa viagem demorou muito mesmo, mas eu tinha comida na minha bolsa, então não morri de fome, o ônibus finalmente parou.

—Estamos indo para a garagem agora, está é a última parada.

As portas abriram. A voz agora era... Como posso dizer? Translúcida, clara, quase que melodiosa. Antes de sair eu olhei para o banco do motorista mais uma vez e ele tinha sumido. Eu desci do ônibus e ele continuou sua viagem para algum lugar desconhecido em meio a nevoa que se formou.

Olhei em meu redor... Nada, apenas o barulho das folhas, nem mesmo pássaros ou insetos, estava tudo quieto. Não tinha sinal, obviamente. Chamei por alguém, mas só meu próprio eco me respondeu. Quando de repente eu escuto ao longe, bem baixinho, uma música. Era alguma música tocada no piano. Andei procurando o foco do som. A música ficava mais e mais nítida. O céu laranja chamava os vaga-lumes que se escondiam de mim. A brisa retirava as folhas secas das árvores. Finalmente, quando o som estava nítido demais para ser mentira, o nevoeiro que atrapalhava minha visão abriu espaço e revelou um maravilhoso castelo de mármore branco. A floresta parava em certo ponto. As grades altas e negras, com detalhes lindos e pontas de lança rodeavam um jardim fabuloso, ao longe se via a base do castelo com detalhes.

Eu ia falar alguma coisa, mas minha boa não conseguiu pronunciar palavra alguma. De modo que eu fiquei por um minuto deslumbrando aquela visão. Aproximei-me das grandes portas para procurar uma campainha ou algo do tipo, mas elas abriram sem hesitar, como se o próprio vento as tivesse aberto. E, ao entrar e dar alguns passos, ele fechou. Andei mais e cheguei às portas do castelo. As portas pareciam muito pesadas, além disso, eram bem altas e pontudas. Usei o batedor em forma de morcego que estava rente a porta. A porta abriu. Nada.

—A senhora pode deixar sua bolsa comigo- Olhei para o lado num pulo enquanto ele falava. Eu tenho certeza que era o condutor do ônibus, pois a estatura e a voz eram iguais! -O mestre a aguarda no salão principal, não se preocupe com as vestimentas, logo seus aposentos estarão prontos. Subindo as escadas no fim do corredor.

Deixei a minha bolsa e segui as instruções, estava animada para reclamar por dinheiro para voltar pra casa. Enquanto andava pelo corredor eu via a rica decoração do local, os lustres de cristais reluzentes. A tapeçaria vermelha com vários detalhes provavelmente feitos a mão. Os móveis de uma madeira avermelhada que combinava muito bem com o tapete. As Janelas grandes com cortinas marrons escuro.

Ao chegar ao salão havia uma grande mesa com um castiçal dourado. Em uma ponta tinha um prato feito e uma taça com qualquer líquido dentro, do outro um homem jovem, bonito e bem vestido que segurava outra taça e acenou com a cabeça para que eu sentasse.

—A viagem foi longa, eu suponho que esteja com fome, sinto muito tê-la deixado sem nada para comer... Fui informado de que tinha alguma reserva no meio de seus pertences de modo que não desmaiou no meio do caminho. Creio que a comida será de muito agrado ao seu paladar.

Ele era educado, educadíssimo para falar a verdade, fiquei até um pouco nervosa quando fui falar com ele, como se eu estivesse entrando em contato com alguém que falasse outra língua:

—Obrigada, eu aprecio a gentileza, talvez meus modos não se equiparem aos seus, então eu espero não desrespeitá-lo, senhor.

Nossa, acho que nunca fui tão cordial assim, desceu até uma gota de suor frio pela minha testa. Ele disse que entendia então tudo bem eu agir do modo que eu considerava mais confortável. Eu limpei o prato, estava muito bom mesmo! A bebida, ainda bem, era só suco de morango. Conversamos enquanto eu comia, eu disse que a decoração era linda e ele disse que foi a avó dele que tinha planejado a decoração todinha. Ele me perguntou várias coisas, como era a minha cidade, pra onde eu estava indo naquele ônibus, se eu estava bem, essas coisas. Com essa conversa eu pude notar seu sotaque, era um sotaque muito bonito, mas eu desconhecia de todo modo a origem...

Quando eu acabei, agradeci ao cozinheiro. O rapaz me olhava fixamente enquanto eu limpava a boca. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ele levantou a mão próxima ao queixo pedindo deixa para falar.

—Eu sei que não faz idéia de onde está e o que faz aqui, mas teremos bastante tempo para conversar. Como está cansada, Alfred preparou, a meu pedido, um quarto para que fique por enquanto, então, depois de fazer o toalete e se vestir, poderemos conversar melhor na sala de estar. Por hora eu vou me retirar, com licença.

Eu levantei na mesma hora que ele, em filmes de época eles sempre fazem isso. Ele inclinou um pouco o corpo, abaixou a cabeça e pôs o braço abaixo das costelas. Eu não queria passar vergonha, então apenas fiquei levantada mesmo, não sei se é pra fazer algum gesto do tipo... Alfred me acompanhou até meu quarto.

—A senhorita vai se sentir muito melhor depois do banho, se tiver qualquer problema o senhor deixou este sino para que chame por auxílio. Chegamos, vou me retirar agora, pardon.

O quarto era tão bonito quanto o resto da construção. A cama era gigante e tinha cortinas rosadas com detalhes de flores estampadas. Havia um lustre no teto. A mobília era branca com alguns detalhes rosa e o tapete redondo do chão era fofinho e branco. O banheiro era destoante com o resto do castelo, era bem moderno, ainda bem! Honestamente, a higiene antigamente não era muito boa e se seguisse os mesmos padrões do resto do lugar eu não estaria tão à vontade.

Tomei banho de água quente, pois o clima era frio ali. Usei os produtos que estavam ali, tinha um perfume muito bom em um frasco lindo sobre a pia. Ao sair tinha uma muda de roupa sobre a cama, com roupas de baixo. Era um vestido muito lindo branco, rodado com as bordas com detalhes dourados. A parte do busto era bem simples, tinham duas alças delicadas e o tronco não era tão apertado. Coube muito bem. Arrumei meu cabelo e fiquei perto da lareira pra que ele secasse. Será que já era pra descer? Não demorei muito no toalete, talvez tenha ficado uns vinte minutos no máximo me arrumando, então usei o sininho e chamei alguém. Alguém bateu a porta imediatamente, era uma mocinha jovem, mas com uma cara bem responsável.

—Oi, eu gostaria de saber se já é para descer ou se eu espero mais um pouco.

A garotinha pegou no meu cabelo e disse:

—Está bastante molhado ainda, pode deixar secando um pouco mais ainda.

Ela ficou comigo e me ajudou a secar meu cabelo.

—Ele é muito bonito... Você ficou linda nesse vestido.

—Ah, obrigada.

Ela sorriu e depois de mais meia hora ela olhou rapidamente para o lado.

—Muito bem, podemos ir agora, seu cabelo está bem mais seco.

Fomos até o fim do outro corredor e subimos a escadaria. Lá tinha uma sala com uma grande lareira e algumas poltronas. Nos cantos tinham estantes com livros, algumas escrivaninhas e cadeiras. Ele estava sentado perto da lareira lendo alguma coisa.

A empregadinha despediu-se.

—Aproxime-se.

Ele levantou e me mostrou aonde sentar. Depois de mim ele sentou ao meu lado. Olhou fixamente em meus olhos...

—Pode me perguntar o que queria saber antes.

—Ah... Sim- Fiquei um pouco perdida, os olhos dele me hipnotizaram, não porque eram bonitos, o que de fato o eram, só que tinha alguma coisa a mais que atraia- Eu queria saber o seu nome.

Ele levantou as duas sobrancelhas surpreso como se dissesse ‘’ah, era isso que eu estava me esquecendo’’.

—Perdão senhorita, como sou distraído, meu nome é Lorde Von Wolfram IV.

—Muito prazer, meu nome é Beatrice, mas pode me chamar de Trice.

Ele parecia saber meu nome, aliás, ele parecia saber mais de mim que meus pais. Conversamos bastante, mas eu não tive coragem de perguntar o que eu estava fazendo ali e nem pedir pra voltar para casa. Senti muito sono e nem percebi quando adormeci em seu ombro, era como se as palavras dele, em um certo tom, agissem como um sonífero super potente.

Notas finais
Obrigada por ler, comente algo e diga o que achou.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.