O caso em Bernabot
1 Acerto de contas em Bernabot
Foi em dois dias antes do Natal quando eu estava na confraternização de fim de ano na empresa em que eu trabalho e eu estava reunido com gerentes de outras filiais na parte superior da loja em que trabalho. Estava tudo tão animado, eu até reencontrei uma tal moça com quem já havia trabalhado antes, porém ela era subgerente e eu tinha um cargo mais abaixo que o dela na época. Ela até ficou surpresa em me reencontrar e me ver no cargo que estou agora. Parece que ela ficou muito feliz. Eu fiquei bem feliz por ela também.
Pra falar a verdade, já havia um tempo que eu não tinha mais ânimo pra festas de fim de ano e principalmente pro Natal. Desde que eu cresci e as coisas foram mudando, aquela magia natalina com qual eu tinha costume desde pequeno foi desaparecendo. Mas aí, pessoas boas foram aparecendo na minha vida, me incentivando a continuar, a seguir em frente. Por isso que cheguei aqui.
— "Preciso admitir: pra gente chegar inteiros este ano foi um desafio e tanto. Eu quero parabenizar cada um de vocês, gerentes, pelo desempenho e dedicação que exerceram ao longo do ano. Não é porque nós temos um cargo alto que temos pouco trabalho. Existem vários e muitos. Quero pedir uma salva de palmas pra todos nós. Feliz Natal e Feliz Ano Novo também." —
disse um dos gerentes de uma outra filial, inclusive bem distante da minha para parabenizar a todos pelo árduo trabalho.
Todos começaram a bater palmas e a comemorar bastante com orgulho da vitória de mais um ano concluído e apesar das dificuldades para obter a realização de bater metas.
Eram várias pessoas. Dentre elas, algumas pessoas que eu conhecia, algumas que não. Também tinham aquelas, ou melhor, uma tal pessoa que me olhava torto. Mesmo a gente não querendo perceber ou acreditar que existam pessoas próximas assim, sempre tem aquelas que nem sempre estão felizes pelo nosso suceso.
Mas isso é algo que não ligo. Pelo menos não mais, eu acho. Eu só queria brindar e poder aproveitar aquele momento tão feliz e importante pra mim e pra todos depois de tanto trabalho e satisfação por meses.
Estava tudo muito tranquilo e animado, todos nós conversávamos sobre diversos assuntos muito além do que só sobre a empresa, até que do nada, surge um enorme barulho vindo do andar de baixo, que é onde fica a loja aberta para clientes que inclusive estava aberta com alguns funcionários trabalhando lá.
"POR FAVOR, AJUDA! SOCORRO! ALGUÉM MAIS AJUDA AQUI!"
Gritou uma das funcionárias, desesperadamente.
Quando eu desci as escadas para ver o que tinha acontecido veio o susto. Uma das prateleiras posicionadas no meio da loja havia caído inteira e tudo estava no chão, bem do mesmo jeito como se um carro tivesse capotado, sabe?
Mais de perto eu fui averiguar o que tinha ocasionado a queda do móvel, mas não fiz alarde. Apenas pedi a um dos meus funcionários me ajudar a reergue-la e repor todos os objetos nos lugares, pois a loja ainda estava em funcionamento na hora do ocorrido. A sorte é que ela estava vazia na hora. As vendas online deram uma acalmada na movimentação nesses dias.
Foi bem nessa hora, bem nesse exato momento quando íamos fazer então acontece um tremor. Tudo em volta começa a tremer bruscamente. "É um terremoto", assim pensamos, mas é muito raro terem casos de terremotos em Bernabot. A nossa parte externa do visual da loja é toda repleta de vidros: paredes, portas. Elas vibravam intensamente, mas tão intensamente que pensamos que em algum momento elas poderiam quebrar. Mas não foi o caso. Felizmente em questão de segundos os tremores pararam. A razão foi o que veio e seguida.
O chão da loja vai se rompendo por causa das rupturas que vão tomando proporções cada vez maiores. É uma cratera que se abre, um vazio escuro que se vê. Todos ficam abismado com o que se é mostrado, com medo do até então pequeno evento que se tornou. Eu mais ainda, porque aconteceu com algo que é meu, de propriedade minha, que está sob minha responsabilidade. Eu poderia receber ajuda, mas eu que teria que dar o primeiro passo pra ajeitar tudo depois. Como eu poderia fazer isso?
— Todos estão bem? — pergunto aos presentes.
— Sim — eles respondem.
Nem demorou tanto depois do susto que tomamos e em seguida teve algo mais surpreendente ainda. Até agora não sei como isso foi possível de acontecer, mas um telefone gigantesco saiu de debaixo do chão da minha loja. Um enorme telefone preto, porém brilhante. Ele era daqueles sem fio mesmo e com antena, porém era diferente dos que a gente conhece. O design era mais moderno e futurista, com luzes em volta dos detalhes da moldura dele.
Enquanto ele subia, um toque de sinos meio que abafados começou a tocar. E não só isso, um ruído metálico foi tocando ao memso tempo. Era um som estranho, desconfortante, como um rangido de algo arranhando. Não sei explicar direito.
No objeto também acontecia algo interessante e curioso: a sua cor mudava. A princípio trascendeu uma luz amarela, depois foi para rosa, verde... até que ele ficou ali, parado, levitando no ar bem no meio da minha loja.
Ninguém falava nada. Apenas ficamos incrédulos com tudo o que acontecia. Parecia que ninguém via nada do lado de fora. Era como se quem estava dentro da minha loja pudesse ver tudo. E apenas a gente.
E assim nós todos saímos. Fomos para fora porque aquele enorme telefone colorido não parava de levitar, atravessando o teto e finalmente pairando no ar afora. Não havia nada puxando ele do lado de fora, não havia nada segurando. Então, como isso poderia acontecer?
Durante algum tempo nós ligamos para a polícia, pedimos ajuda, mas parece que não levaram a gente a sério. Acho que eles pensaram que estávamos intentando tudo, certamente. Alguns dos meus colegas gerentes conseguiram pegar seus carros e saírem dali pra ver se conseguiam ajuda de autoridades maiores, bombeiros, exército, seja lá quem pudesse ajudar. Porém, eu tive que ficar, já que eu era responsável pela loja e também eu queria ver o que poderia acontecer em seguida.
Ficamos nos perguntando o que estava acontecendo e o que se sucederia. Parecia que éramos só nós e aquela situação, aquele evento que estava acontecendo perante aos nossos olhos. Olhei para os lados e ninguém estava do lado de fora das casas ainda para olhar. Não sei se porque a minha loja fica no meio de uma grande estrada e a movimentação é alta. Talvez as pessoas nem estivessem vendo nada mesmo ou até pensando que poderia fazer parte de uma nova decoração.
Em meio a isso mais uma vez o objeto sobre a loja mudou de cor e daí não se mexeu mais. Parecia que era ali onde ele queria ficar. E então... todas as luzes da cidade apagaram.
— Ótimo. Agora toda a cidade está sem luz — disse um dos meus que estava comigo — Espera. O que é aquilo vindo acima?
Quando ele perguntou isso, o céu mudara de cor. Agora complementando a total escuridão que estava, também ele estava pintado de roxo. As nuvens do nada ficaram carregadas, densas, como se preparassem para uma forte tempestade. Raios e trovões ecoaram e mais uma vez o som dos ruídos metálicos e sinos. Eis que surge uma figura misteriosa. Não sei se ela veio do céu ou de algum outro luga bem ao lado de onde estávamos.
Ele vai aterrisando devagar enquanto flutua. Seu olhar sério e de raiva era de dar medo. Sua fisionomia escura, olhos azuis bem claros e marcantes. O corpo parecia estar coberto por musgos ou como se fossem cipós marrons. Mas estranhamente parecia tanto que eu já tinha visto essa figura em algum outro lugar.
"Isso é uma invasão alienígena!", nós pensamos. "Vamos todos morrer essa noite."
Nós entramos em total desespero. Eu já não sabia onde que estavam as outras pessoas que estavam comigo. Apenas eu vi o Bob, o rapaz que estava comigo. Ele era um dos meus funcionários. Não trabalhava na empresa ou na minha loja realizando vendas, na parte administrativa ou organizando a loja. Mas ele era tipo meio que meu guarda-costas, coaching motivacional. Resunindo, meu amigo pra todas as horas. Ele era engraçado e divertido. Me alegrava sempre nas horas em que tudo parecia difícil, tornando o meu dia e o modo de viver mais fáceis.
Nós nos escondemos atrás de uma van abandonada na beira da estrada só pra ver a movimentação daquela figura estranha que flutuava e olhava tudo em volta. Parecia que oor alguém procurava. Parecia que estava planejando a melhor forma pra atacar a qualquer momento. Era um momento de muita tensão e temor. Parecia um filme de ficção científica. Ou até de terror, não sei. Quando jamais eu pensei que poderia viver algo assim?
Eu não sei como e porquê, mas Bob teve uma ideia absurda e totalmente fora de sentido.
— Você vê? — Bob pergunta.
— O quê? — eu retribuo com outra pergunta.
— Você tá vendo aquele bumbum molenga? Ele parece um pedaço de carne crua.
— Mas do que você tá falando? Essa coisa estranha invadiu a cidade e você tá de olho na bunda dele?
— Desculpa, mas é porquê não tem como não prestar atenção. Olha, ele tá bem perto. Eu só quero dar um tapa e sair correndo. Daí a gente vê o que ele faz em seguida.
Eu não sei porque ele fez isso. Foi uma ideia absurda, estranha e fora de contexto, mas foi o que aconteceu. Eu tentei impedir o Bob, avisei sobre o perigo de o tal monstro reagir de tal forma que talvez nós pudéssemos nos arrepender depois, mas... ele não deu ouvidos. Ignorou o meu pedido e assim o fez.
É claro. Depois que Bob conseguiu dar o tapa na nádega do "Vecna do nosso mundo", ele atacou. Fogo saindo das mãos dele começaram a ser arremessados para todos os lados. Fomos pulando de um carro para outro se escondendo, fugindo do ataque. A cidade era só nós ainda. Eu, Bob, o "Vecna" e... um mendigo.
Era o senhor Dalua. Personagem crucial pra história.
Tudo em volta de nós estava em chamas, a maior parte daquela área já estava destruída. Dali em diante ele foi avançando pras demais partes. Ele nem precisava se mover, ir dali daquele lugar pra um outro atacar. Conseguia fazer tudo do mesmo ponto sem precisar se deslocar.
Imagine com um Apocalipse fim do mundo, tudo em chamas, destruição. Mas éramos apenas nós quatro. Foi incrível. Claro, incrível no sentido mais eufórico possível. Não sei se posso descrever assim. Como toda a população da cidade havia sumido dessa maneira? Ninguém via nada, porque não tinha mais ninguém além de nós.
Depois de um tempo nós percebemos que o tal monstro só atacava quando fugíamos dele, então num ato de coragem e decisão, alguém tomou a frente da situação e se propôs a conversar.... Foi nesse momento quando soubemos sobre o que tudo aquilo se tratava.
— "Eu não quero o que está nos cofres da prefeitura. O ouro de vocês é frio e sem gosto. Eu vim cobrar uma dívida de longo prazo. Uma dívida de ganância. Lembra-se de quantas vezes você ignorou a mão estendida de quem não tinha nada, apenas para acumular um pouco mais para o seu próprio banquete? A falta de esperança que você espalhou por este vale foi o que me abriu o caminho. Eu sou o eco dos seus próprios atos. Mas... hoje, algo mudou." — ele se aproxima em pequenos passos, soltando uma risada rouca e com fumaça saindo de suas narinas — Sinto um gosto novo em você. É... felicidade?"
Eu senti na hora que aquela mensagem era pra mim quando ele veio na minha direção. Eu não consegui responder nada de tanto medo que fiquei. Mas quem fez isso foi... o senhor Dalua.
— "Pensei que você se alimentasse apenas de punição."
Dalua disse. E logo depois a figura respondeu.
— "Punição é o prato principal, mas a felicidade de uma alma que finalmente encontrou a paz... ah, isso é o tempero mais raro. É um banquete que eu não posso recusar. Quero levar sua alma agora, no auge do seu triunfo."
— "E se eu recusar?"
— "Se recusar, eu congelo o coração de cada criança que restou nestas ruínas e no restante da cidade. E saiba que a culpa será totalmente sua. Elas crescerão sem esperança, assim como você foi um dia. Mas... se você se entregar, se me der essa sua alma 'brilhante' e cheia de vida, eu retiro minhas sombras. Deixarei a cidade em paz. Eles terão o Natal que você sempre fingiu celebrar."
Bob e eu ficamos perplexos, sem ação, apenas observando Dalua, um pobre mendigo conversar com a criatura.
— "Eu sou um pobre mendigo que já tive de tudo nesta vida. Minha ganância me fez fazer coisas pra chegar onde cheguei e assim conseguir tudo o que eu sempre quis. Mas não posso deixar que você destrua uma cidade e uma população inteira e eu ficar de braços cruzados como se nada estivesse acontecendo.
— "Então, pequeno herói... você vai morrer com sua ganância ou vai se sacrificar para que o resto deles possa, enfim, ter esperança? Escolha."
Nisso ele ergueu as mãos para o senhor Dalua. Ele olhou pra gente. Eu fiquei sem reação mais uma vez enquanto que Bob dizia que estaríamos perdidos e que mesmo depois disso o "Vecna" ia levar a gente e atacar o restante do mundo. O que faria no momento? Será que eu intervinha ou procurava alguma outra alternativa?
Dalua começou a dizer que apareceu na hora e no momento certo e que parecia que tinha chegado a hora dele arcar com tudo o que havia feito na vida e que era hora de pagar pelos seus erros. "Como que um homem que eu mau conhecia poderia se sacrificar por mim, pelo Bob e por todo o resto da população apenas por achismo?"
Mas então foi isso. Os trovões que ecoavam pelo céu se intensificaram depois que a proposta foi iniciada. O monstro tentou levar a mim e a Bob junto, mas parece que de alguma forma, pelas palavras de Dalua, a sua ida foi o bastante para ele.
No momento em que Dalua apertou a mão do tal monstro, o tempo pareceu congelar. Não se ouviu mais nada. Apenas de uma breve brisa gélida que passou tocando a minha nuca. Não teve ataque nem tentativa de revidar. Parecia que Dalua fazia questão de que isso fosse necessário acontecer. Eu olhei para Bob e ele parecia feliz. Uma lágrima caía do olho, acredito que bastante emocionado pelo altruísmo.
Num abraço, Dalua e o monstro desintegraram. Acho que essa é a palavra que eu posso usar pra descrever o que eu vi. Tanto um como o outro viraram luzes brancas desenhadas nas suas formas de seus corpos e... simplesmente desapareceram. Em seguida eu escutei um som de uma corrente bem próximo e, quando olhei para o lado para ver como estava Bob eu vi que o som da corrente era da mesma que me prendia à ele...
— Então foi assim que você e o senhor Bob chegaram ao hospital?
— Isso. Foi exatamente desse jeito.
— Entendo... — o doutor para por alguns segundos — Ele está em coma nesse momento. Ja está assim há bastante tempo.
— E por quanto tempo mais você acha que ele vai ficar desse jeito?
— Isso vai depender de você. Mas sinceramente eu espero que ele fique assim pra sempre.
— É. Isso seria... o certo.
— Eu admiro sua coragem e determinação. Seu ato de altruísmo foi muito importante pra salvar aquela gente e toda cidade. Fico feliz que você tenha deixado a pior parte de sua personalidade ir embora. Esse foi o ponto crucial pra que o Krampus pudesse ir embora. Pelo menos... dessa vez...
— Dessa vez? Então quer dizer que ele pode voltar e amedrontar a cidade?
— Ele sempre volta. Pois infelizmente sempre existirão pessoas que possuem características não tão amigáveis que acabam chamando a atenção dele fazendo-o voltar. Essas pessoas precisam de um tempo de evolução e assim conseguirem deixar seu pior lado ir embora...
— É verdade. Eu acabei aprendendo isso da pior forma.
— E é por isso que você deve deixar uma mensagem de suporte e incentivo pra essas pessoas. Pra que elas não tenham que passar por isso de novo. Mas isso tem que ser de todo o coração.
"Eu... eu consigo sentir de novo.
Quando apertei a mão daquela criatura, eu pensei que o mundo tinha acabado em silêncio. Eu entreguei minha alma para que vocês tivessem um amanhã. Eu era uma sombra caminhando entre vocês, vendo suas cores, mas vivendo em cinza.
O Krampus me disse que eu era feito de ganância e falta de esperança. E, por muito tempo, talvez ele estivesse certo. Apesar de eu ter me regenerado e ter me tornado uma pessoa melhor, de alguma forma eu me senti como se tivesse em uma dívida com ele. Talvez porque algumas vezes meus piores lados se sobressaíam.
Que tolo eu fui.
Agora, do lugar onde estou, eu vejo as coisas de forma clara. A verdadeira riqueza não se mede em moedas, mas nos sorrisos que você compartilha, nas mãos que você ajuda, no calor de um lar que você construiu com amor, não com tijolos caros. O Krampus, ou qualquer escuridão que venha, não se alimenta do que você tem, mas do que você deixou de ser.
Não repitam meus erros. Não deixem que a sombra da ganância os cegue para a luz que já existe em suas vidas. Olhem para o lado. Ajudem uns aos outros. Encontrem a alegria na generosidade, não na posse. Construam pontes, não muros.
Este Natal, e em todos os dias que vierem, escolham a bondade. Escolham a esperança. Escolham o amor. É a única moeda que realmente vale algo, e é a única coisa que vocês podem levar consigo, para onde quer que a jornada os leve.
Que o espírito de um verdadeiro Natal ilumine o caminho de vocês."
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