O caso Kane

1 Capítulo 1


Eu continuava com os pés na mesa,apesar da cadeira continuar ameaçando a virar para trás.Mas,sabe,a sensação de viver no limite,o “frio na barriga”...eu gosto dessas coisas.Tanto,que foi por esse exato motivo que decidi vir trabalhar como perito em homicídios,no departamento de polícia daqui de Brighton; tudo bem que não é como trabalhar em Londres – já que Brighton não é uma cidade tão grande assim –, mas é tão gratificante quanto.

Faltava meia hora para o fim do expediente e eu continuava com os pés em cima da mesa,distraído; até alguém subitamente entrar na minha sala e eu acabar me desequilibrando e virando com a cadeira para trás :

– Levante daí Arthur,não é hora para mais uma de suas gracinhas. – Disse,aquele homem de cabelos grisalhos,ombros largos e pelo menos 1,87 de altura.

– Desculpe sargento Brooks...foi,realmente,um acidente. – Disse me levantando e ajeitando a cadeira. Aiden Brooks,ou como ele impõe,“sargento Brooks”,era o homem mais mandão do departamento; particularmente eu o odiava,mas preferia manter distância e fazer de tudo para não irritá-lo – Tem alguma coisa que eu possa fazer pelo senhor?

– Por mim não,esse é o seu trabalho e quem recebe o salário é você,garoto. – Aiden disse,dando um sorriso de canto e jogando uma ficha em cima da minha mesa. Jogar coisas em cima da minha mesa e ainda me chamar de “garoto”,ele também não facilitava.Ter 27 anos me fazia mais do que um “garoto”.Peguei a ficha da mesa e dei uma folheada,sem prestar atenção,só para ganhar um pouco de tempo para poder falar que já estava dando o fim do expediente e que eu resolveria as coisas amanhã,sem que parecesse tão ruim :

– É,sargento...parece ser mesmo importante,por isso,acho melhor resolvermos isso amanhã,já está dando o fim do expediente e... – Ele me encarava com um olhar tão mortal que eu decidi voltar atrás – Mesmo assim,é melhor eu olhar logo. – Disse voltando a abrir aquela ficha.

Como de costume,olhei primeiramente as fotos antes de ler qualquer coisa. As imagens mostravam uma casa que fora arrombada pela polícia e pelo o que se via,haviam pregado as portas e as janelas : era o tipo de indivíduo que não queria que ninguém entrasse. Tiraram fotos de um cômodo com várias fotografias iguais do que parecia ser a mesma pessoa : não estava muito nítido,mas as fotos mostravam a imagem de alguém dos ombros para cima,e apertando os olhos para enxergar,diria que eram retratos de uma mulher – isso era no mínimo doentio – ; e também, uma pequena mesa com uma cadeira no canto do mesmo quarto. Continuei passando as fotografias,que até então não tinham nada de anormais,até chegar nas últimas. A penúltima imagem,mostrava um homem morto dentro de uma gaiola,no que parecia ser o porão. Era de se deduzir que ele morreu por passar muito tempo ali.

E a última foto,mostrava outro homem,que havia se enforcado improvisando uma corda no seu próprio closet,que de alguma forma,haviam feito com altura suficiente para que isto fosse possível :

– O nome do infeliz era Edric Kane. Um psicopata,eu diria. Matou cinco pessoas em menos de um mês,além de fazer um homem de refém no porão da própria casa.Depois de deixar o refém morrer,se enforcou. – Disse o sargento Aiden,me encarando.Levantei os olhos e disse :

– Estou indo para lá.

Deixei a ficha em cima da mesa,peguei minhas chaves e saí pela porta do escritório.

Para ser um perito em homicídios,ou melhor,para trabalhar com qualquer coisa que envolva a morte,era necessário que você não se apegasse.Não se emocionasse,agisse somente profissionalmente,se isentando de qualquer sentimento humano que poderia lhe ocorrer. Era necessário agir assim. Mas,de alguma forma,aquilo tudo,aquelas imagens...mexeram comigo. Não sei como,mas mexeram. E isso é um erro enorme.

Certas vezes,não dá para evitar o fardo que é ser “humano”.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.