O casamento do meu melhor amigo
1 Capítulo Único
Notas iniciais
— Qual é o seu problema? – perguntei, suavemente, enquanto estamos sentados no seu carro, observando o pôr do sol no nosso lugar de costume. — Não no sentido geral, tô falando de hoje mesmo.
O vento agradável que vinha da praia balançava nossos cabelos e eu podia sentir o cheiro de tabaco tão característico dele, enquanto trançava meu cabelo.
— Vou sentir falta disso. As coisas nunca mais serão como são agora. – Ele responde com aquela voz preguiçosa. É engraçado como não percebemos quando as coisas estão prestes a acabar, como os primeiros sinais do fim do mundo ou pelo menos, no fim do nosso mundo quando este fenômeno está prestes a acontecer.
— Besteira, — Respondo sem me dar conta de que as coisas realmente nunca mais seriam as mesmas. – as coisas estão sempre nunca mais sendo as mesmas o tempo todo e continuamos como estamos. Somos como a porra de uma instituição. – E sorrio com os olhos quase fechados enquanto observo sua cara com o mesmo pesar preguiçoso de sempre e com aquelas malditas calças que parecem uniforme de paraquedista. Deus, como eu odiava aquelas calças.
Mas você nunca esteve tão correto. Eu já deveria ter aprendido, desde a primeira vez, que você estaria sempre certo sobre tudo. E, definitivamente as coisas nunca mais seriam as mesmas.
— Eu nem acredito ainda que você está se casando, Shika. – Digo, enquanto observo meu melhor amigo preguiçoso beber um pouco de cerveja do outro lado do jardim onde aconteceria o casamento. Percorro o olhar pelo recinto e não consigo encontrar nenhuma falha na decoração, na alegria e no momento. Não que eu estivesse, de fato, buscando algo para criticar, mas toda aquela situação estava mexendo com algumas coisas dentro de mim e, como sempre, não sabia exatamente como reagir. E como se fossemos atraídos magneticamente, nossos olhares se cruzaram.
Ele sorriu da minha mesura exagerada, cruzando as pernas por trás e segurando a barra da saia florida que combinava com o ambiente primaveril e eu não pude deixar de sorrir também, principalmente quando vejo os lábios dele dizerem um “espetacular” e seu polegar encontrar seu indicador, no gesto universal de “o.k.”, com o restante dos dedos esticados enquanto eu reviro meus olhos.
— Preparado para o grande sim? – Pergunto assim que Shikamaru chega perto o suficiente.
— Você sabe como é.
— Ainda me impressiona o fato de tudo isso estar acontecendo – comento, enquanto alinho sua gravata. Seus cabelos estão bem arrumados no típico rabo de cavalo que mais parece a coroa de um abacaxi.
— Você tem tão pouca fé assim em mim, loira? – E eu percebo, com uma leve pontada em meu peito, que o tradicional “problemática” não mais me pertence. Pertence à ela agora, deixando de ser uma característica exclusiva minha. Sorrio e respiro fundo.
— Você sabe que sim. E é bem a sua cara somente continuarem morando juntos, como já estavam fazendo. Seria, como posso dizer... menos problemático. – Digo, sorrindo de lado, como uma provocação e Shikamaru não impede uma grande gargalhada romper de seu íntimo, juntamente com um abraço apertado.
As coisas realmente mudaram entre nós, entre todos os nossos amigos. Pessoas que cruzaram nossos caminhos e permaneceram por algum tempo. Pessoas que apenas nos deram pequenos “olas” ou nos fizeram aprender alguma coisa no nosso percurso. Mas haviam poucas pessoas que seriam para sempre um porto seguro, um abraço aconchegante. Shikamaru era o meu porto-seguro.
Por isso, aproveitei o abraço e antes mesmo que pudesse me repreender, já molhava sua camisa de linho com minhas lágrimas e amarrotava suas costas com meu aperto.
— Shiii, está tudo bem – E com essas palavras doces, o choro apenas continuou, mesmo eu sentindo a pequena pressão de seu queixo no topo da minha cabeça e provavelmente meu cabelo estaria uma zona por causa da sua barba e minha maquiagem estaria ligeiramente bagunçada por causa da fricção do meu rosto na camisa dele.
— Você sempre esteve certo. – digo, por fim, após recuperar meu fôlego. – E não pense que eu não estou feliz. Eu sou a primeira pessoa a lhe desejar felicidade, Shika.
— Não, você que sempre esteve certa, Ino. Ela é perfeita para mim. – Ele responde e eu me lembro de uma conversa que tivemos a muitos anos atrás.
— Eu disse que você encontraria ela. Você tem tão pouca fé assim em mim? – Repito suas palavras de minutos mais cedo, mas eu ainda não estava preparada para me libertar do abraço. – As coisas mudaram tanto em tão pouco tempo.
— Não tenha medo da vida, Ino. Você é uma mulher tão maravilhosa, deveria escutar seus próprios conselhos.
— Eu não tenho medo da vida. – Resmungo, ainda contra seu peito, que vibra numa risada.
— Então porquê tem tanto receio assim de viver? Você simplesmente ignora as oportunidades que tem por medo das consequências.
— Acontece que eu estava certa quando disse que eu não era a garota perfeita para você – O repreendo.
— Ok, você possivelmente estava certa sobre isso, mas e sobre todas as outras coisas? Eu te amo e eu sempre estarei aqui por você, querida, mas eu não posso viver por você. Quantas oportunidades você já deixou escapar por causa do receio de não ter controle sobre as coisas? Estávamos fadados a passar por várias coisas e eu confesso ter confundido alguns sentimentos em relação à você, mas até quando você vai esperar que os outros tomem decisões sobre a sua vida e tome as rédeas das escolhas que deveriam partir apenas de você?
Escondo minha cabeça em seu peito novamente, sentindo o peso de suas palavras.
— Você está falando demais para um preguiçoso. – um momento se passa sem nenhuma conversa – Sinto falta do tempo em que você me buscava na faculdade sem motivo algum e passávamos por aqueles caminhos vazios e todas aquelas casas com cercas brancas que nunca mudavam e todas aquelas músicas estrangeiras que você me obrigava a tentar guardar os nomes para depois escutar em casa, mesmo que eu nunca mais as escutasse. E sinto falta daqueles dias em que saíamos e comíamos tudo que conseguíamos comer e depois você ria de mim enquanto eu não parava de reclamar que minhas roupas estavam apertadas ou do calor que estava fazendo ou do quanto eu estava com preguiça de andar e você me carregava nas costas. Sinto falta dos sucos de laranja e dos sanduiches naturais que você me fazia comer. Naquele tempo eu não sabia valorizar essas coisas da forma que eu deveria ter valorizado.
— Ino, não confunda as coisas agora.
— Não estou confundindo nada. Eu ainda te amo, assim como eu te amava naquele tempo em que passávamos pela orla com as janelas abertas e o vento embaraçando meu cabelo. Você é o irmão que eu nunca tive e você já me salvou tantas vezes que eu tenho medo de seguir meu caminho sem você perto de mim. Nós nunca mais matamos tempo juntos desde aquele dia e eu acordei hoje pensando naquele fatídico dia. Relembrando o quanto você estava esquisito, mais do que o normal. Eu não havia entendido ainda. Hoje eu compreendo. As coisas nunca mais serão como eram naquele dia. E eu tenho medo disso. Tenho medo de perder você também.
— Nós nunca estaremos separados. Nós somos a porra de uma instituição, Ino. E eu também te amo.
Nosso abraço foi desfeito exatamente no momento em que Shikamaru foi chamado para ocupar seu lugar de honra no altar. Acenei com convicção que estava tudo bem e, enquanto todos observavam Temari entrar em toda sua glória e seus all-star converse verdes, eu olhava diretamente para o rosto de Shikamaru e toda sua alegria estampada em seus olhos.
As vezes, as mudanças, por mais que dolorosas, eram benéficas e eu sabia muito bem disso. Eu estava feliz com a felicidade do meu melhor amigo, por mais que eu estivesse apavorada por não mais poder contar com ele como eu havia contado até agora. Talvez seja isso que ele estivesse sentindo naquele dia, onde observávamos o por do sol do seu carro, a algum tempo atrás.
Limpei uma lágrima teimosa dos meus olhos enquanto ouvia ele declarar que seria eternamente fiel à sua problemática e eu estava ok com isso. Talvez fosse hora de finalmente crescer e seguir à diante, encarar a vida.
— Gostaria de fazer um brinde à uma pessoa. – A voz de Shikamaru interrompeu meu fluxo de pensamento, enquanto brincava com um pedaço de bolo no meu prato. – É assustador pensar que, em uma fração de segundos você pode se ver preso num tipo de amor que pode demorar uma vida inteira para superar. Mas, talvez, a gente não deva tentar superar. Talvez esse “amor” pode ser algo diferente do amor romântico que estamos acostumados. Ele pode ser algo mais próximo de um amor fraternal. Então, esse brinde é para todos os amores possíveis, em suas mais variadas formas. Uma pessoa me disse uma vez que um dia eu encontraria uma garota perfeita pra mim nessa vida e, que no momento em que eu a conhecesse, eu saberia que ela seria um problema. Ela seria esquisita, ela teria atitude, ela me faria fazer coisas que eu nunca pensaria em fazer por vontade própria, que ela me faria sentir. Sentir coisas que eu nunca havia sentido antes. Que eu a amaria eternamente. Eu tive o azar de passar por isso duas vezes, tive o azar de amar duas loiras problemáticas nessa vida. Uma eu tenho, hoje, o prazer de chamar de esposa. Outra eu tenho o prazer de chamar de irmã. Obrigada por tudo. – Finalizou ele, erguendo seu champanhe e todos acompanharam. Temari sorriu para mim e eu me senti bem, sorrindo de volta para ela. Shikamaru estava em boas mãos. – E agora isso vai para essa mesma pessoa que me disse isso, anos atrás. Não fuja quando você se ver nessa mesma situação. Pois, se você fizer isso, eu te prometo, você se arrependerá todos os dias da sua vida, passará o resto dos dias olhando para trás e desejando ter caído de cabeça naquela chance que a vida lhe presenteou. Apenas encare as situações, de frente, pois você saberá as respostas assim que encarar as dificuldades. A vida vale a pena ser vivida.
E, dessa vez, ele olhou diretamente em meus olhos.
Fale com o autor