O canto que não uiva

1 De volta ao trabalho


O barulho do mar invade meus ouvidos de forma gradual e sutil.

Abro os olhos para uma vista deslumbrante. Um pedacinho do oceano pacífico diante dos meus olhos, o sol brilhando no centro do céu que estava completamente limpo, sem nuvens, completamente azul. Um dia lindo. Meu último dia de férias.

Conserto minha postura na espreguiçadeira devagar enquanto suspiro.

- De volta ao trabalho, né... — Pensei alto enquanto observo meu celular piscando com o nome do meu chefe na tela.

Pego meu dispositivo que insiste em vibrar mesmo sabendo que ainda estava de férias por algumas horas. Atendo.

- Alô.

- Alice? Como vai? — Falou animado do outro lado da linha. — Como está sendo o último dia de férias? Pronta pra voltar?

- Oi, Murilo! — Falei sorrindo com tanta animação à minha volta. — Estou tentando curtir o último dia, dá licença?!

Falei sarcástica e piadista.

- Desculpa a ansiedade! — Falou dando risada do outro lado. — Estamos muito animados com essa nova etapa do projeto de pesquisa!

- Tudo bem, Murilo, também estou! Mas realmente estava precisando desse tempo para descansar.

- É verdade, Alice! Espero que tenha aproveitado bastante!

- Ah, dormi pra caramba! — Falei engraçada.

Ele deu uma gargalhada.

- Então, sua passagem está comprada, tudo está organizado, ok?

- Certo. Que horas o carro vem me buscar para o aeroporto?

- Ás 14h! Seu vôo parte às 15h! Não se atrasa, hein? — Murilo falou brincalhão.

- Deixa comigo! Beijo, querido!

Desliguei sorrindo. Suspirei novamente olhando pro mar.

- Ai ai... Me despeço desse lugar incrível. A aventura agora é outra!

Termino minhas férias que passei nessa praia incrível e aconchegante, irei partir em breve para o cerrado brasileiro. Essa pesquisa finalmente está pronta para se concretizar. Fase final.

Estava empolgada. Volto para o hotel onde minhas malas já estão prontas. Entrando pela recepção, encontro um funcionário que me olha sorrindo.

- Oi, dona Alice! — Ele falou sorridente. — Posso ligar no seu quarto quando seu carro chegar?

- Oi, meu querido! Por favor, te agradeço!

Entro no quarto, tomo um banho e logo o tempo passa. O carro chega. Me dirijo para o aeroporto. Embarco. A viagem foi rápida.

Assim que desembarco, encontro um responsável para me levar até o Instituto de Pesquisas de Biologia. Aceno e ele acena de volta.

- Olá, Doutora Alice! Sou o Marcos! Irei te conduzir até meus superiores do Instituto!

Ele falou enquanto estica os braços para pegar minhas malas.

- Olá, Marcos! Muito obrigada! Vamos lá!

O caminho era surreal, a natureza me encanta. Chegamos ao Instituto e avisto uma pessoa na entrada principal. Enquanto desço, ele se aproxima.

- Doutora Alice Carvalho! Muito prazer! — Ele fala animado.

- Olá, Doutor Rodrigo! O prazer é meu! — Respondo educada.

- Deixe-me apresentar o local e seus aposentos, espero que seja de seu agrado!

O Doutor Rodrigo me mostra onde vou morar por alguns meses até a pesquisa ser concluída. É um chalé muito lindo e próximo do laboratório, com muitas árvores e um lago em volta.

- Sua pesquisa é importantíssima para a revolução de várias doenças relacionadas ao sangue! Estou muito empolgado para o que está por vir! — Rodrigo falou enquanto caminhávamos pelo campus.

- Ah, tem razão, Doutor! Estou muito animada para os resultados também! Mas, deixa eu perguntar... — Falei cuidadosa. — Está tudo certo com o conselho de ética e o IBAMA para utilizar o objeto de estudo nas pesquisas?

- Você diz o lobo-guará? — Ele pergunta.

- Sim. — Respondo tímida.

- Claro! — Ele fala rapidamente com um sorriso aberto. — Aqui é o santuário dos lobos-guará, mas obtivemos a permissão para fins científicos. Fique tranquila, está tudo nos conformes!

Sorrio mais tranquila. Meu ceticismo nunca me impediu de ter grande respeito e admiração pela natureza e a relação dos humanos com os animais, que deve ser harmônica sempre.

- Bom... Vou te deixar descansar da viagem! Hoje é sexta-feira e sempre tem uma feira no centro da cidade. Pode ser um programa interessante para conhecer os costumes daqui. O pessoal do Instituto sempre vai, se houver interesse, nos encontramos às 19h para ir, ok?

- Ah, muito obrigada pelo convite! — Falo forçada. — Vou tentar ir!

Por mais interessante que seja, a última coisa que eu queria agora era integir mais. Estava cansada.

- Você que sabe! Tem o final de semana todo pra descansar! Nos vemos daqui a pouco!

Rodrigo saiu andando e eu entrei no chalé. Observando o lugar, senti que ali poderia ser um bom lugar para encontrar a paz depois de um dia cansativo de trabalho.

Vamo lá, Alice. Você precisa conhecer o pessoal daqui! Se enturmar!

Decido ir à essa feira. Observo que na mesa, tinha um banquete com algumas flores e um cartão. Pego.

"Que sua chegada seja cheia de boas surpresas! Seja muito bem-vinda ao Instituto!

- Equipe do Institudo de Pesquisas de Biologia"

Sorrio com tal delicadeza. Aproveito a comida e já faço minha ceia antes de sair. Me arrumo rapidamente, nada muito elaborado. Me agasalho e parto ao encontro do Rodrigo.

- Alice! Você veio! — Diz Rodrigo ao me ver se aproximando.

- Vamos sextar antes de começar a trabalhar, né?! — Digo engraçada.

- Com certeza!

O Rodrigo me apresentou alguns professores e rapidamente partimos até a cidade, o que durou uns 15 minutos de carro.

Chegando lá, encontro um lugar que parece que parou na era medieval. Uma fogueira no meio do pátio me chamou atenção. As pessoas dançavam enquanto um grupo de músicos tocavam instrumentos lindos, melódicos e harmônicos, dando a sensação de estar num filme da Idade Média. As barracas da feira estavam espalhadas por todo canto. As pessoas conversavam, dançavam, bebiam, sorriam e o luar estava limpo e mágico. Uma noite escura e animada.

Os professores já se sentaram em algumas mesas onde se serviram de cerveja e mais conversas com outras pessoas. Eu decidi andar pelo lugar, olhar de perto os objetos que estavam sendo vendidos. Tudo muito lindo e feito com muito cuidado, objetos artesanais, comidas, roupas e acessórios. Parei numa barraca onde via incensos acesos, ervas medicinais penduradas, colares e lambedores.

- Posso te ajudar?

Uma voz doce e macia entrou pelos meus ouvidos. Olhei na direção da dona daquela voz e me deparei com a pessoa mais bela que já conheci em toda vida.