O canto da morte

1 Capítulo único


Durante as noites quentes e abafadas de verão, nas quais até mesmo a luz artificial criada pela lâmpada parece queimar e propagar todo aquele calor insuportável, minha voz e a de meus companheiros pode ser escutada por todas as partes.

Aqui no mundo debaixo, onde fui criado e vivo a maior parte de minha vida, há rumores que os humanos não gostam de nossa música, sendo chamada por eles de alta e irritante.

Não bastasse isso, os moradores lá de cima também costumam nos difamar contando para suas crianças que somos seres preguiçosos, que só sabem cantar e festejar. Quem me dera se o nosso canto fosse de alegria.

Diferentes daqueles seres estranhos que moram lá no mundo de cima, não cantamos para festejar nada, e muito menos temos tempo de ficar cantarolando por aí como muitos deles fazem, nosso canto é alto e agudo, e mais de tudo, obstinado.

Obstinado para poder cumprir com o nosso propósito de vida: prolongarmos nossa espécie e termos filhos, os quais nunca poderemos ver e nem criar, pois nossa vida é frágil e efêmera.

Ás vezes eu gostaria de ser um humano. Apesar de muitos deles serem incompreensíveis à minha lógica, eles podem cantar sem morrer. Eles podem apreciar uma noite de verão sem preocupar-se com seu final fatídico. E o mais de tudo, eles podem ver seus filhos e terem famílias.

Apesar de tudo isso, dizem que os humanos não sabem apreciar toda sua sorte. Muitos dos meus colegas me falaram que eles preferem ficar separados uns dos outros usando estranhas caixinhas de metal chamadas celulares.

Além disso, eles interessantemente não gostam de suas vidas. Sempre estão reclamando de algo, maldizendo isto, criticando aquilo. Isto quando não tiram a vida dos outros, ou pior, a de si mesmos!

Deve ser por isso que vivem tão pouco!

Sei que não estou no lugar de dizer uma coisas dessas, pois vivo no máximo até dezessete anos, o que para eles deve parecer algo ínfimo. Mas, acredite, diferente dos humanos, nós cigarras sabemos o “como viver” nossas vidas.

Dizem que os humanos costumam morrer de tanto pensar. Ei! Sei que isso não deve ser verdade, mas se para eles nós explodimos de tanto cantar, para nós eles morrem de tanto pensar!

Pelo menos, se não morrem de tanto raciocinar, esta com certeza deve ser uma das causas de suas mortes. Durante o dia, enquanto estou grudadinha na minha raiz, sugando alegremente sua seiva, costumo ouvir suas vozes.

“Não acredito que ela me fez refazer todo o trabalho! Deu vontade de morrer!” ou “Eu não vou conseguir! Prefiro morrer a ter de fazer isso!” e até mesmo o “Não aguento mais essa vida!”

Acredite, humanos somente reclamam de suas vidas, sem parar para ao menos pensar e ter compaixão com nós que temos uma vida tão curta. E não só isso, suas ninfas humanas não possuem nem um pouco de respeito para conosco, usando nossos cadáveres em estranhos tipos de brincadeiras, correndo para lá e para cá com a casca de um de nossos colegas.

Não é como se eu os odiasse, é só que não consigo compreendê-los. Mesmo tendo uma mente de cigarra, muitas vezes consigo ser mais racional que eles, os conhecidos seres pensantes do mundo lá de cima.

Para me entenderem melhor, vou lhes contar uma história da época em que eu ainda era uma ninfa pequenininha de uns dois anos, que gerou muita repercussão entre nós no mundo aqui debaixo da terra.

Há entre nós o conhecimento de que lá no mundo de cima existe uma espécie de folha para a qual os humanos dedicam suas vidas, parece que a chamam de “dinheiro” ou algo parecido. Pois bem, a história mal começou e tudo isto já parece meio sem sentido, não? Afinal, quem serviria a um pedaço de folha, não é mesmo?

Pois então, parece que os humanos o fazem. Não é como se montassem altares e reverenciam a folha, mas é sabido que eles escravizam-se para outros humanos em troca de algumas destas folhas, quando não enganam os de sua mesma espécie para poder obtê-la.

O caso que quero lhes contar é do segundo tipo.

Pois bem, é conhecido entre nós cigarras que os humanos vivem em colônias chamadas cidades com um líder ao qual chamam de prefeito. Este tem uma função, que é a de tomar decisões pelo grupo, já que os mesmos não conseguem acertar-se entre si.

O homem chamado prefeito aumentou a taxa de impostos, um tipo de valor fixo de folhas, as quais os habitantes da colônia deveriam pagar para ele, para que pudesse reverter isso em benefícios futuros para eles.

Os moradores acharam ruim, porém pagavam mensalmente a quantia determinada, que curiosamente, aumentava cada vez mais, diferentemente de seus salários que permaneciam estagnados. Algo similar aos seus benefícios, que nunca estavam disponíveis quando precisavam.

Ao passo em que os humanos daquela colônia sofriam com o trabalho excessivo e o desgaste para conseguir pagar seus impostos sonhando com seu retorno que nunca chegaria, o líder aparentemente enriquecia a suas custas, comprando com esse dinheiro diferentes tipos de objetos inúteis, mas estranhamente necessários para sua vida cotidiana.

Este homem, assim como algumas outras espécies, também atua em bando, juntamente com membros de sua família e outros colegas, os quais chamam de vereadores, que possuem uma função similar à do mesmo, a de parasitar seus semelhantes.

Gostaria de abrir um pequeno parênteses rápido nesta história. Que tipo de espécie parasita sua mesma espécie? Quanto mais ouço sobre os humanos, menos consigo entendê-los.

Continuando, depois de um longo tempo nesta situação, os moradores da cidade descobriram a verdade, ou melhor, apenas confirmaram o que já sabiam. Seus benefícios nunca chegariam. E mais! Todo seu dinheiro estava sendo usado pelo prefeito, sua família e vereadores para comprar objetos inúteis e fazer viagens extravagantes.

Furiosos com tal situação, os humanos explorados decidiram tirar o prefeito do poder através de um longo processo, o qual não resultou em nada, pois suas leis não faziam o menor sentido, pois nunca beneficiava o lado certo, só o lado que tinha mais folhas.

Como o diálogo não funcionava neste tipo de situação, e muito menos os meios legais, um pequeno grupo dentre os explorados resolveu secretamente entre eles que era hora de eliminar o mal pela raiz, ou melhor, assassinar o prefeito.

Neste momento,sinto-me tentada a abrir mais um parênteses. Que tipo de espécie mata os seus semelhantes? Por que eles não conseguem resolver as coisas sem que a morte tenha que ser uma das soluções?

Como eu ia dizendo, o pequeno grupo de humanos armou uma emboscada para que o prefeito fosse morto minutos antes de entrar em sua casa, lugar onde os humanos costumam viver, e conseguiram com êxito o que tanto sonhavam: o fim da vida dele.

Com o fim da vida do homem, surgiu no coração dos moradores uma estranha sensação de esperança. Juntamente com este sentimento, acompanhava-os o dever de escolher um novo representante o qual estaria incumbido de proporcionar-lhes uma vida melhor.

Logo vários grupos entre eles começaram a fazer campanhas a fim de conseguir o poder sobre a colônia. Embora diferentes entre si, todas eram semelhantes em suas promessas de melhoria das condições de vida dos seus colegas.

A disputa pela liderança entre eles aumentava ao passo em que as eleições se aproximavam. As promessas de cada grupo que antes eram tão semelhantes, tornavam-se cada vez mais escandalosas e inatingíveis.

O dia decisivo chegou, e com ele a escolha do novo líder e a promessa de uma nova era. A qual, ficou somente ficou no papel, pois o comportamento do novo prefeito não divergia em nada da do antigo. Ou seja, mudaram para não mudarem nada!

O ciclo de vida dos humanos é algo intrigante e confuso. A própria vida deles é algo estranho e perplexo! Pensando bem, acho que prefiro a minha vida de cigarra. Eu posso viver menos, mas vivo bem melhor! Afinal, as coisas são mais simples para mim.

É por isto que digo para vocês minhas caras amigas: Temos sorte de sermos cigarras.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!