O campo
1 Campo
O campo era vasto, ia até o horizonte, a grama curta molhada pela nevoa era vista em todas as direções. A lama escondida por de baixo dela grudava nas botas daquela figura que se destoava da paisagem, deixando seus passos cada vez mais pesados. Coberto de sangue e lama, ele repetia para si mesmo qualquer coisa que viesse a mente, o cansaço o consumia, agarrado aos seus ossos. Deitar no chão e simplesmente dormir era uma ideia tentadora.
Tentadora mas perigosa. Ele sabia que podia estar sendo seguido, descansar era um luxo que ele não podia aproveitar no momento. Cada passo o fazia querer urrar de dor, todas aquelas feridas ainda sangravam.
Ele ao longe avistou uma casa, mas não conseguia acreditar, não queria se agarrar a mais uma esperança falsa, mas mesmo assim caminhou naquela direção. Sua voz fraca e rouca era a única coisa que se ouvia naquele campo, o fazia perder a noção de tempo, poderia estar vagando por horas ou dias que não saberia a diferença, a casa aos poucos foi tomando forma.
Era uma casa grande, de tijolos de barro, vigas cresciam desde o chão até o teto quebrando as paredes com sua força sutil, a natureza a cada segundo reivindicava aquela estrutura, faltavam pedaços do teto e tinta das paredes, as madeiras eram corroídas por cupins e umidade, pequenos muros de pedras apareciam em formações do que algum dia foram currais, sem sinal que qualquer animal. A figura rapidamente abriu a porta velha e entrou na casa. O chão da sala mostrava buracos que levavam a uma escuridão tremenda, talvez houvesse comida no porão.
Ele se esgueirou pelos corredores, as fotos nas paredes eram irreconhecíveis, mostravam silhuetas de uma família, uma que já não mais existia. as escadas que levavam ao porão ficavam na cozinha, esta não oferecia nada em especial além de uma solitária faca enferrujada e uma mesa vazia. Ele desceu as escadas que rangiam assustadoras, mas ali embaixo era seco. Se pôs a vasculhar as prateleiras, a esperança que tanto lutava em conter crescia assim como os barulhos de seu estômago.
No entanto, tudo parou; a esperança, a reclamação do estômago, seu coração. Ele sentiu a adrenalina voltar a correr em suas veias ao escutar aquilo — passos, vindos da sala. Bem acima de sua cabeça a luz fraca formava o formato de um homem, grande e forte, capaz de quebrar seu pescoço com um golpe. Ele gelou, estava encurralado naquele porão. quieto, se esgueirou até o canto mais escuro, sua vida estava em jogo mais uma vez e tinha que pôr a cabeça pra pensar.
O que tinha? uma espingarda que havia roubado do cadáver de algum pobre diabo, havia, com sorte, duas ou três balas. A faca enferrujada estava na cozinha, justo onde a figura do homem parecia estar indo, a entrada do porão estava aberta. Não o tinha como vencer numa luta direta num espaço tão pequeno nem no cenário mais otimista. Estava fraco, sujo e faminto, ainda podia sentir cada um dos ferimentos abertos. Estava com uma desvantagem tremenda. O homem agora não podia mais ser visto, os passos viraram em direção da cozinha.
De maneira impensada, ele subiu pelo buraco que dava a sala, mordendo os lábios para segurar os urros de dor que a tarefa lhe causava, depressa agarando sua arma e aparecendo na cozinha. O homem devia ter quarenta anos, barba mal feita junto de algumas cicatrizes pequenas, usava um uniforme com camuflagem feita para florestas, sujo e rasgado. Não tinha armas de fogo, mas uma faca estava na sua mão. O garoto apontou sua espingarda para ele, que levantou suas mãos. E riu.
—Oha, o que você vai fazer com isso? -Ele ria mais de maneira que fazia o rosto do menor se contorcer de nojo e raiva -Ah você não quer atirar em mim, acredite.
—Solta… a faca -Queria ter soado ameaçador, queria ter controle da situação, mas a voz saíra tão fraca e mirada que o faziam parecer um gato assustado, fazendo aquele homem asqueroso sorrir mais uma vez -SOLTA A PORRA DA FACA!
—Calma calma, você tá com fome, não tá? eu tenho comida, posso te dar um pouco -Ele começou a se aproximar, o garoto se assustou erguendo a espingarda como reação, mas antes que pudesse sequer disparar sentiu uma dor aguda no ventre, por um momento achou ter sido atingido pela faca, mas antes de atingir o chão percebeu que havia sido o punho.
Ambos caíram no chão, o peso daquele homem sendo jogado em cima de si faz o menor perder a arma que foi jogada pra longe, o baque na cabeça o deixou desorientado quase sendo acertado no rosto pela faca. O garoto tentou chutá-lo para longe, a adrenalina era a única coisa que o movia, ele segurou o braço do homem quando este tentou acerta-lo de novo. Seu outro braço estava sendo preso pela mão do maior.
Era assim que ia terminar? era o que parecia, não tinha como aguentar segura-lo, o corpo estava fraco e mal conseguia se focar no que estava acontecendo. Por um momento ele olhou nos olhos daquele homem, eram negros, transmitiam uma raiva profunda que ele não sabia explicar. Do que ele tinha raiva? Nunca o tinha visto, mesmo assim ambos disputavam pela vida no chão de uma casa imunda. guiado por um instinto quase animalesco o garoto soltou a mão que segurava a faca a fazendo cravar no chão ao lado do seu rosto, com a mão livre agarrou a gola do uniforme daquele cara e acertou a testa em seu nariz com toda força que tinha, o fazendo dar um urro de dor.
Aproveitando a desorientação dele, o chutou para que saísse de cima, o garoto tentou se arrastar pra longe mas o corpo pesado o impedia de fazê-lo rápido, sentiu sua perna ser segurada selo homem, agora com o nariz sangrando, tentava tirar a faca da madeira. A espingarda estava ao alcance dele que não exitou em pegá-la e apontar pra cara daquele desgraçado. O medo que viu naquele rosto o fez hesitar, mesmo assim, ele atirou. O rosto se desfigurou ao ser atingido direto pelos chumbinhos, jogando sangue na parede, o aperto da mão que segurava sua perna se desfez, o fazendo recuar o máximo que podia.
A massa desforme que ele, aquilo havia se tornado parecia encarar o garoto no mais profundo de sua alma. Aquilo o julgava, era a prova real da vida tomada, havia matado alguém. Não pode evitar das lagrimas escorrerem do rosto, estava sozinho, era um assassino. Mais do que nunca desejava que tudo voltasse ao normal, que pudesse de novo estar com sua família, queria de volta o calor daqueles dias. Mas nunca mais os teria.
Encarrou aquele cadáver ao mesmo tempo que a adrenalina o deixava, o fazendo lentamente cair no sono.
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