Terminei, mas um dia de aula, abro o meu escritório e levo Lúcia até a porta.

— Até amanhã! Lúcia _ lhe dou um abraço e ela sorri

— Até amanhã! _ Lúcia fala sorrindo e vai em direção ao seu carro.

Não posso frequentar uma escola, por conta do meu sobrenome, Ana Alicia Pérez Bañuelos, sou criada pelo meu irmão Davi. O meu pai abandonou a minha mãe quando ela estava grávida de mim, levou os meus três irmãos, mas Davi preferiu ficar comigo e mamãe. Infelizmente a minha mãe não resistiu ao parto e acabou falecendo, isso não fez com Miguel, meu pai, me assumisse, então Davi passou a cuidar de mim. No início Miguel não queria me dá seu sobrenome, mas impôs uma condição, ninguém poderia saber que eu era sua filha, o meu irmão acabou aceitando, então passei a estudar em casa.

Davi era advogado, a gente vivia bem, com o passar dos anos passei a chamar Davi de pai, no início ele me corrigia falava ser meu irmão e que meu pai morava no Brasil, mas eu não me importava, então ele desistiu. Como eu estudava em casa ele resolveu fazer um escritório para mim, fiquei bastante feliz, eu e Davi sempre fazíamos surpresa um para o outro no nosso aniversário, sempre íamos ao cinema nos finais de semanas, visitávamos várias bibliotecas e adorávamos competir quem lia mais livros. Resumindo, eu tinha uma vida perfeita, até a chegada daquele doloroso dia que lembro como se fosse hoje.

Flashback on* 29/11/2015

— A minha fadinha, tem algum problema, você fica sozinha?_ Davi pergunta um pouco apreensivo.

— Não, tudo bem? _ pergunto sentindo um aperto no peito

— Tenho que ir para o tribunal, encerrar o caso da Mia!

— Está chovendo muito lá fora, você não pode resolver amanhã?

— Não dá a minha linda, infelizmente tem que ser hoje _ ele fala com a mão na maçaneta da porta

— OK _ Davi larga a maçaneta e se agacha ao meu lado

— Li _ ele diz acariciando o meu rosto _ nunca mude o seu jeito de ser para agradar alguém, você é a razão pela qual existe felicidade na minha vida, e não tenha medo de conhecer totalmente as pessoas _ ele falou com os olho cheio de lágrimas, ao ouvir aquilo uma sensação horrível preencheu o meu corpo e o meu coração gelou

— Porque você está falando isso para mim _ falo com os olhos cheios de lágrimas _ vamos ter a vida toda para você me dá conselhos!

— Nada minha linda, só que... te amo de mais _ uma lágrima escorreu no meu rosto _ se cuida linda e não importa o que aconteça sempre vou esta com você _ ele beijou o topo da minha cabeça e saiu.

— Pai _ gritei fazendo ele voltar, sai correndo do sofá e agarrei-me nele, não sei por quanto tempo, só sei que não queria deixar ele escapar dos meus braços _ te amo papai, amo muito

— também te amo, filha _ ele falou escapando dos meus braços _ e se lembre, não importa onde a gente esteja sempre estaremos conectados através das estrelas _ ele fala sorrindo e logo após fecha a porta

Ele sempre saia, sempre chegava na hora de altas tempestade, mas dessa vez foi diferente, quando vi ele em pé na porta uma onda fria subiu pelo meu corpo, algo me fazia querer chorar sem parar, e nunca mais deixar ele sair de casa.

Quando o relógio marcou 17:30 da tarde de um domingo, a campainha tocou, ele sempre falou para olhar no olho mágico antes de abrir a porta, mas meu coração estava apertado, não pensei duas vezes e abri a porta.

— Oi Alicia _ Ana, a namorada do meu irmão falou com os olhos inchados

— Cadê o meu pai! _ falei, enquanto escorria lágrima nos meus olhos

— O carro dele... Capotou e infelizmente ele não resistiu _ cai no chão gritando, e antes o que era apenas um aperto, se tornou com um vazio enorme _ ele não resistiu li... Ele morreu _ eu estava sentada sobre as minhas pernas com a testa encostada no chão gritando descontroladamente e Ana me abraçou encostando sua cabeça nas minhas costas enquanto soluçava, a gente ficou ali não sei quantas horas, só levantamos após uma mulher de terno entra no apartamento que se encontrava aberto.

Levantei a cabeça, a encarando com os olhos inchados, enquanto lágrimas escorriam no meu rosto, perguntei

— Quem é você? _ Ana me levantou e olhou nos meus olhos

— Essa é Brenda, o meu amor _ ela falava entre leves soluços _ assistente social... Vai levar você para o Brasil

— Brasil! _ olhei para a assistente social perdida _ como assim Brasil, não tenho nada para fazer lá

— Conheço o seu caso, Ana Alicia, e lhe entendo, mas infelizmente você tem que ir, é a lei _ pelo seu olhar sabia que ela me entendia, sabia estar apenas cumprindo a lei

— Eles nem se importavam com a gente!

— Entendo...

— Mas tudo bem, tudo que eu tinha já perdi _ falo olhando fixamente para nada _ só vou depois do velório!

Brenda vai embora, Ana entra comigo no quarto, não tomamos banho, apenas vestimos uma roupa branca. Visto uma calça moletom branca, vou até o quarto do meu irmão pego a sua mala de galáxia e coloco todos os seus moletons, livros, e desenhos na mala, o meu irmão adorava desenha as paredes do nosso apartamento era todos cheios de personagens de desenhos. Por fim, pego um moletom branco dele e visto, enfio o seu perfume e a sua bolinha de pingue-pongue no bolso do moletom e saio do seu quarto. Encontro Ana vestida com uma camisa branca enorme do meu irmão e uma calça Jeans branca, nos olhamos deixando as lágrimas escorregarem pelo nosso rosto, abrimos a porta e saímos em direção à mansão que Miguel tinha aqui, e estava fechada há anos. Por incrível que pareça depois de 15 anos, "a minha família" apareceu para visitar o meu pai, que estava deitado no caixão!

* flashback off

Eu estava em um dos aviões particulares de Miguel, rodeada de pessoas completamente estranhas, Ana veio comigo, a sua família morava no Brasil, Ana me falou que não queria ficar na Espanha, não tinha mais sentido, na verdade, ela veio passar só uma temporada na Espanha só que acabou conhecendo meu irmão e resolveu morar aqui. Para a minha surpresa, Miguel escutou ela falando que vinha para o Brasil, e falou que ela podia vir com a gente, ela não queria aceitar, mas acho que só aceitou por mim, quando me viu chorando ao lado do caixão.

— Não quero me separar de você li _ Ana disse deitando sua cabeça no meu ombro

— Nem eu de você _ falei deitando a minha cabeça na dela, a última visão que vi antes de adormecer foi Miguel fitando-nos com um olhar indecifrável.

《》

Acordei com alguém tocando delicadamente no meu ombro, enquanto fazia o mesmo com Ana, mas quando abri os meus olhos tomei um susto.

— Davi…