O caminho dos vagalumes
1 Vagalumes e blasfêmias
Notas iniciais
Eu e minha amiga, Haru, escolhemos o caminho dos vagalumes.
Sei que essa frase é estranha, mas foi isso que escolhemos.
Pra que você entenda, preciso contar toda a nossa história: eu e Haru somos amigas desde a minha primeira primavera, pois moro no interior e os pais de Haru gostam de passar a estação na minha cidade (que tem as mais belas cerejeiras de todo o mundo.)
Haru e eu somos muito diferentes, não só por ela ser loira com os olhos azuis, e eu morena de olhos castanhos, mas sim pelo fato de, antes de ter escolhido o caminho dos vagalumes, eu nunca ter se quer pensado em sair da minha cidade, em quanto a minha amiga já viajou para mais lugares do que se possa contar com os dedos das mãos.
Não mais do que os dedos das mãos e dos pés, pois isso seria uma blasfêmia. Palavra que a própria me ensinou a usar (por que Haru sabe de muitas palavras, símbolos e histórias), significa uma ofensa á Deus.
Haru sabe de muitas coisas, mas não sabe como não se apaixonar (isso eu também não sei). Lembro-me com certas borboletas no estômago quando, sentadas em sua cama, na casa de praia de seus pais, demos nosso primeiro beijo.
Lembro-me de sua mão sobre a minha, seus lábios macios e nossos corações que batiam tão fortes que poderiam ser ouvidos da China. Eu não sabia se era errado, não sabia se era certo, só sabia que era bom e que era aquilo que eu realmente queria.
Depois de encontrar o céu em seus lábios, encontrei o inferno nas palavras do padre da igreja local (o qual fui pedir conselhos), que disse que aquilo era uma blasfêmia (a palavra saía rude e nojenta de seus lábios, se comparada de como saía dos lábios de Haru) que Deus iria nos castigar com seus olhos sempre atentos, que iríamos para o inferno e assim que o sol abaixasse iria contar para meus pais.
Cheguei chorando á casa de Haru, mas ela não se abalou, apenas subiu as escadas, pegou uma trouxa de roupa e me mandou fazer o mesmo.
Em quanto o sol se punha eu e Haru corríamos bosque á dentro e eu simplesmente não entendia o porquê. Quando nossas pernas não agüentavam mais, paramos em um lago, com uma vista serena da lua.
– Haru, não adianta fugir de Deus. Vamos para o inferno! – disse, em desespero.
Ela apenas passou a mão pelos meus cabelos e sorriu. – Hotaru, está vendo o que está ao seu redor? –
Eu pisquei várias vezes, mas tudo que eu conseguia ver eram vagalumes, estrelas e a lua. – O que têm? –
– Os vagalumes são os olhos de anjos, assim como as estrelas e a lua, que é o olho de Deus. – explicou, entrelaçando sua mão á minha. – Veja, Hotaru, como os vagalumes brincam ao seu redor! Deus não nos castigou, Deus nos ama! O ódio daquele padre que faz com que os olhos do Deus dele nos odeiem, mas nós podemos criar nosso próprio Deus. –
Apesar de não ter entendido muito bem, fiquei mais calma. Deitamos-nos na grama fofa e apoiei minha cabeça em seu ombro. Assim dormi como um vagalume-anjo.
E foi assim, que começamos a trilhar o caminho dos vagalumes
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