O caminho do Sábio
2 O que você fez semana passada?
– Mas será que você não pode comer apenas as suas batatinhas?
– Estive por três dias em um manicômio, comendo sopa sem sal. Você acha que não vou devorar tudo o que é oleoso que eu encontrar pela frente? — Cris River tirou a mecha do cabelo preto cortado na altura do ombro que caia pelo rosto que não via sol há algum tempo. Os olhos grandes e castanhos tinham um brilho misterioso que os irmãos não conseguiram decifrar. Talvez fosse apenas fome.
– Também preciso de batata frita, mana. — Dean puxou de volta a cesta.
– Calma, crianças. Vamos recapitular. Você disse que sonhava conosco?
– Aham
– E por que diabos uma estudante de medicina foi parar em um manicômio?
– Isto sim, é do departamento de vocês — Cris disse, com a boca cheia — Um demônio matou meus colegas de quarto... Mas não precisam se preocupar. Eu mesma o matei.
– Como você fez?
– Uma faca especial comprada pelo e-bay. Quem diria...? — Cris pôs o dedo no queixo, pensativa, enquanto Dean roubava as batata-fritas da cestinha.
– Como aconteceu...?
Cris enfiou o cabelo atrás da orelha, visivelmente incomodada com as lembranças.
– Escuta, não precisa falar, se não... — Sam começou.
– Não, tudo bem. — e bebeu mais um gole do milkshake. — Eu já estava na pista deste demônio há alguns dias. Coisas estranhas estavam acontecendo na cidade e mal me passaria pela cabeça que tratava-se de algo sobrenatural, se não fossem aqueles sonhos. Primeiro o Sr. Walter, que matou a esposa e os filhos, mas não se lembra de nada; depois a enfermeira exemplar que passou a estrangular garotinhos e então o padre que conduziu um mini assassinato em massa na igreja. O cara que sobreviveu àquela loucura disse que percebeu que o padre ficara com as retinas completamente pretas.
"Procurei na internet sobre isso e encontrei as causas daquela loucura e encontrei. Depois foi só usar a faca que, segundo a internet, poderia matar demônios e que com certeza eu a lembrava de ter em casa."
– Como a conseguiu?
– Meu tio Michael. Deu-me de presente de Natal quando eu tinha 15 anos. Confesso que achei meio inútil na época. Pois bem: comecei a andar com a faca para todos os lados, fiz linhas de sal nas portas e janelas e passei a andar com um frasco de água benta e alho na bolsa...
– Mas alho não funciona para...
– Foi quando estava voltando da universidade que percebi algo estranho. Saquei a faca da bolsa e, ao chegar no apartamento, vi uma confusão de sangue e corpos. Minhas duas colegas estavam estiradas na cama, com as gargantas cortadas e o sangue ainda pingando. Quando percebi o movimento nas minhas costas era tarde demais. A terxeira colega de quarto estava retalhando minhas costas. Os médicos disseram que se fosse um pouco mais fundo teria me matado. Ou pior: eu poderia ficar paraplégica.
– Você tem um incrível senso do que é pior ou melhor.
Cris mais uma vez ignorou o comentário de Dean.
– Depois que cai no chão, virei-me para ver o demônio no corpo de Ana se aproximar e joguei a faca em seu peito. Não me pergunte como fiz isto. Nunca atirei uma faca na minha vida. Só depois disso eu desmaiei, nem sei como pude aguentar viva tanto tempo, aliás. A polícia não encontrou nenhuma digital na faca. Talvez eu tenha imaginado tudo isso — Cris riu — Ou penso isso apenas para me tirar a culpa de ter matado uma das minhas melhores amigas.
Sam e Dean se entreolharam.
– Ah, por favor, não façam essa cara. Eu meio que surtei depois daquele dia e disse à polícia que o culpado pela morte de três colegas foi um demônio. E assim parei no Hospital Psiquiátrico Monte Carlo. E poderia ter saído de lá antes, se não fosse a chegada de vocês.
– Afinal, por que a pressa? Na falta de provas, você seria liberada em menos de dois dias. Não tem lógica em...
– Eu tive mais um sonho. Não, um flash. Eu estava acordada quando aconteceu. Ouvi dois caras falando sobre procurar uma tal chave — a quinta chave, se não me engano — e não acho que o que queiram fazer seja algum gesto filantrópico. Só sei que preciso achar a tal chave antes deles.
– Pois onde você pensava em ir?
– Seatle. Eu poderia pedir uma carona para vocês, se me contassem sobre aquela história de sermos parentes.
– Desde que você não roube mais batatinhas...- Dean deu de ombros — Trato feito.
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