O círculo quebrado
1 Capítulo 1
O círculo quebrado
Já passava das duas da manhã quando Conrad abriu sua caixa de emails. Para ele, ler seus emails era sempre algo interessante. O que é normal uma vez que recebia em sua caixa de entrada todas as mensagens enviadas pelos leitores de seu blog sobre fantasmas e ocultismo. Boa parte dos emails lhe tirava risadas na madrugada e poucos deles eram dignos de atenção enquanto investigador. Conrad fora investigador federal até seus 28 anos de idade. Depois de exercer essa função por sete anos na polícia ele acabou sendo afastado de seus serviços, pediu exoneração. Desde então passou a se dedicar a outros tipos de investigação e serviços. Alguns de seus clientes entravam em contato com ele pelo blog. Nesta madrugada não foi diferente. Em meio a inúmeros emails inúteis, um despertou sua atenção integral. Os relatos eram peculiares. Após ler detalhadamente a mensagem, Conrad ligou para o numero de contato indicado no corpo do email. Assim que uma voz feminina e sonolenta atendeu a ligação ele se desculpou pelo horário e disse aceitar o serviço. Mesmo com sono a garota perguntou sobre os custos, o investigador falou as cifras e educadamente encerrou a ligação e foi dormir o sono dos justos.
Conrad acordou no momento em que seu despertador deu o sinal, o trem que passava às cinco e meia da manhã servia como alarme para ele. O banho frio em seu banheiro de azulejos azuis o despertou de vez. Vestiu jaqueta preta de gola alta por sobre a blusa social que era alva como as barbas de Papai Noel. A calça jeans preta combinava com seu sapato de couro negro e reluzente. Com a indumentária pronta, pegou sua mala – que estava sempre pronta – não esquecendo a mochila – que também estava sempre alerta. A cidade de Rio Belo estava distante cerca de 2 horas de viagem. Conrad entrou em seu Lancer Evolution preto e acionou o motor. A rodovia estava movimentada, o que retardou um pouco mais o ritmo da viagem. Conrad aproveitou a situação para repassar os pontos básicos do seu novo caso. Um dos envolvidos no incidente era filho do delegado, isso facilitaria o acesso às informações. Pelo menos era o que Conrad esperava. Chegou a Rio Belo quando o locutor anunciava a hora.
- Bom dia ouvintes! Não percam a hora, não se atrasem! – A vinheta com o som de um cuco servia de fundo – São exatamente 08:40. O sol brilha forte em nossa região, é hora de irmos à luta. – O som do cuco deu lugar a uma propaganda de uma farmácia.
Conrad ligou mais uma vez para sua cliente, na verdade eram dois os clientes, mas o telefone passado era da garota que prontamente atendeu e seguiu as instruções de Conrad. O local escolhido e indicado pelo investigador foi uma praça que ficava a três quadras da residência em que houve o incidente. Sentado na gangorra e bebendo água de côco, Conrad logo foi percebido pelo jovem casal que se aproximava de mãos dadas. A garota era uma loira de estatura mediana e olhos verdes, seus cabelos brilhavam como o ouro inca, era difícil saber se eles brilhavam mais que o sorriso apaixonado que nascia em seus lábios quando ela olhava para o rapaz. Ele, por sua vez, era alto, branco e com olhos castanhos, o cabelo tinha a mesma cor dos olhos e seu rosto demonstrava sinais de cansaço. Conrad sorriu para eles assim que se aproximaram, levantou-se a deu um forte aperto de mãos. Caminharam até um banco de madeira pintado – grotescamente – de marrom e se acomodaram nele.
- O caso de vocês é bem interessante. – Iniciou Conrad com voz polida e olhos fixos no casal. – Parece não haver dúvidas que o espírito revoltado é mesmo o espírito do amigo de vocês que morreu em sua casa, Cristina.
- Era o que eu mais temia. – O sorriso se apagou e deu lugar a um semblante rígido. – Mas ele tem que ir embora... tem que ir.
- Ele vai querida...ele vai. – Mário consolou sua namorada. – O senhor Conrad está aqui para isso. Ele vai nos ajudar a dá um fim nisso e espantar o fantasma de Péricles. – O tom era de certeza na voz de Mário. Ele tem muita convicção, mais que eu. – Pensou Conrad.
- Cristina, antes de irmos à sua casa, vamos revisar alguns pontos, tudo bem? — Ela aquiesceu meneando a cabeça. – Então vamos lá. Péricles, Mário e você, foram à sua casa para invocar um espírito goético. Lá, algo deu errado e um dos espíritos matou o amigo de vocês. Estou certo até aqui? – Indagou.
- Sim. – Responderam uníssonos.
- Depois disso, seu avô foi morto de forma misteriosa, não foi Cristina? – Não esperou ela concordar e continuou. – Você afirma em seu email para mim que viu Péricles, ou melhor, seu espírito.
- Juro que vi o fantasma dele...juro...- Quase gritou para toda a cidade ouvir.
- Sei que viu. Não duvido. Você relata que em alguns cômodos da casa a temperatura está muito baixa se comparada a outros locais da residência. Certo? Analisando friamente, é certo que Péricles não entrou no barco para fazer a passagem. Ele está aqui. Mas a questão é, se foi acidente, por que ele está aqui? – O tom da pergunta era uma acusação. – Deve haver alguma peça solta que vocês não encontraram. Por isso estou aqui, para encontrá-la. – O casal não sabia o que dizer diante do raciocínio de Conrad. – Vamos à sua casa Cristina. Acompanhem-me, estou de carro. — Entraram no Mitsubishi Lancer de Conrad e foram até a casa da jovem. Assim que chegaram uma coisa chamou a atenção de Conrad, o medo de Mário. O investigador pegou alguns pequenos equipamentos no porta-luvas, dentre eles: um termômetro comparativo em forma de relógio. Conrad registrava a temperatura inicial no termômetro e assim que ela caia dois graus ele bipava duas vezes. Era o bastante para ter cautela. Entraram na casa que estava vazia. Conrad pediu que os jovens o mostrassem o caminho até o cômodo em que fizeram o ritual. Eles ficaram esperando na sala, quietos e ansiosos.
- Então foi aqui.... – Disse para si mesmo quando chegou ao quarto. A temperatura havia caído apenas um grau. – Onde você está Péricles? Passeando? – Fitou os desenhos no chão, ainda estavam lá... o círculo, o triangulo e o selo... o circulo está quebrado – observou. Um grito veio da sala acompanhado pelo estilhaçar de vidros.
- O que... – Conrad viu a janela quebrada e seu “relógio” bipou. – Cristina...cadê o Mário? – Ela estava sentada no sofá com o rosto escondido por trás da almofada e joelhos dobrados. Conrad correu até a janela e viu...
- Fo...foi e...ele. – Balbuciava apontando em direção ao centro da sala. Claro que foi ele, quem mais seria?
- Péricles está aqui? – O relógio respondeu com mais dois bips, o espírito estava se aproximando de Conrad invisivelmente, ele não havia feito o ritual para trazê-lo à visibilidade forçada. – Não adianta Péricles. Nem tente me jogar pela janela. Tenho prata dentro do corpo, operação cirúrgica. – Sorriu para tentar aliviar a tensão. – Apenas peço que pare com isso... – Cristina correu para fora da casa, desceu as escadas pulando os degraus e foi ao encontro de Mário que estava estatelado no chão. Discou o numero da emergência e da polícia. A temperatura começou a normalizar na sala. Conrad avaliava tudo em silêncio. Em minutos a ambulância chegou com suas sirenes atordoantes. Levou Mário para o hospital sem muitas perguntas. A policia chegou depois, Conrad se apresentou como ex-investigador federal e disse está ali a serviços, não especificou o tipo de investigação, obviamente. Tudo teoricamente explicado, Conrad ficou a sós com Cristina e aproveitou para tirar umas dúvidas.
- Qual era a relação que você tinha com Péricles? Amizade?
- Sim, éramos amigos. Namoramos um tempo, sabe? Coisa de criança. Mas namoro sério mesmo só quando fizemos 15 anos, nos separamos há oito meses...
- E como ele encarou isso? — Conrad a interrompeu.
- Com normalidade, disse que já esperava por isso e que seria melhor assim uma vez que ele morreria em breve devido a seu câncer. – Uma informação desconhecida por Conrad que fez seus olhos brilharem.
- Câncer? Entendo. Me fale como foi que você reagiu quando viu o pescoço de Péricles ser estraçalhado na frente de vocês no ritual. – Frieza reinava na voz de Conrad. – Mas antes me diga o que buscavam no ritual.
- A cura. Eu vi em um site de magia o ritual e mostrei a Mário. Ele ficou feliz e falou disso pra Péricles que topou de imediato. – Estranho, pensou. – A verdade é que ele já...
- Fazia rituais, certo? – Outra intervenção.
- Sim...mas aquele ritual não podia ser feito só. O mago deveria ser alguém diferente do que receberia a dádiva, escolhemos Mário. Afinal ele queria sanar qualquer dívida imaginária com Péricles. – Claro, afinal ele roubou você dele. – Mário desenhou o circulo, o triangulo e o selo. Fez a conjuração mas...o circulo foi quebrado, acho que ele arrastou a mão e o giz apagou.
- Deixando vocês sem proteção... faz sentido. Toda a vez que alguém tenta invocar espíritos de tamanha força acaba atraindo outros espíritos. Maléficos, na maioria das vezes. São parasitas que ficam fora do circulo à espera de um descuido. Posso ver o site? Tem um computador que eu possa usar? – Ela o levou até seu quarto e ligou o seu computador. – Por favor Cristina, um copo de água gelada. Não tema, ele gastou muita energia por hoje, ainda não é tão forte assim. Não te fará mal. Cristina desceu, receosa, mas confiante no que Conrad a dissera. O investigador viu o site. De fato, ali estava o ritual. Cristina não mentira. Em todo o momento disse a verdade. Mário estava no hospital.
- E então? Viu? – Deu água para Conrad. – Fizemos tudo direitinho.
- Exatamente. Preciso descobrir como vou tirar Péricles da sua casa antes que...- Bebeu a água. – Antes que ele a mate ou mate sua avó. Não posso queimar os restos mortais dele. Ele não vai querer fazer um acordo. Vocês eram novatos em ocultismo não é mesmo? – Ela concordou quase chorando. Conrad pediu que ela ficasse fora da casa por alguns dias e que não deixasse sua avó entrar na residência até que tudo se resolvesse. Ele continuaria no caso.
Passou três dias em um hotel. Foi à delegacia a fim de colher informações, mas a tarefa não foi tão bem sucedida, não conseguiu nada além de uma conversa com um dos delegados. Acessou inúmeros sites de ocultismo e blogs com noticiais do assassinato de Péricles. Visitou um blog que a vítima havia feito para sua turma na escola. Olhou as fotos. Ele parecia feliz quando estava junto com os colegas. O anel dourado que usava em seu indicador esquerdo reluzia mesmo naquela foto digital. Tomou a decisão mais difícil, queimar os restos mortais de Péricles. Tentou subornar o coveiro, mas ele era um cristão protestante firme em seus princípios e ameaçou denunciar Conrad. Mário já estava melhor, mas pioraria assim que soubesse que Conrad havia descoberto seu real papel no ritual e que o seu acidente não amenizaria em nada sua situação. Na noite de sexta feira, Conrad convocou a todos, inclusive o pai de Mário, delegado da cidade, não era responsável pelo caso do homicídio de Péricles mas foi convocado por Conrad. Todos estavam na luxuosa casa de Cristina na hora marcada.
- Mário, espero que esteja melhor. – A queda havia sido feia, mas ele andava com auxilio de muletas e do pai. – Ah, não precisa me apresentar a seu pai, nos conhecemos essa semana na delegacia. – O cumprimentou.
- Sentem-se todos. – Disse Cristina que usava um vestido rosa que tocava seus tornozelos. – Vou pegar suco para todos. Ela cumprimentou um a um. Conrad beijou sua mão, um gesto elegante. Que coisa mais fora de moda, pensou a moça.
- Cristina, não demore. – O investigador sorriu para acalmá-la. – O colar que te dei vai protegê-la. Formaremos todos aqui um circulo imaginário, nada nos acontecerá. — Ela foi até a cozinha sem medo. Quando Cristina voltou e serviu os sucos Conrad iniciou sua explanação.
- Todos já sabemos como ocorreu a morte de Péricles. Foi em uma ritual de ocultismo, conforme eu expliquei ao senhor. – Falou diretamente para o delegado Josué Rosário. – Os três jovens fizeram um ritual de magia a fim de curar um deles, o Péricles. Mas algo deu errado, o circulo foi quebrado e o espírito que foi invocado atacou ao rapaz, estraçalhando seu pescoço de uma forma que humano nenhum faria. Por isso mesmo a perícia não achou provas contra Cristina e Mário. Analisei os fatos e pensei que tinha sido um acidente. Mas o circulo não foi quebrado por acidente. Mário...
- Eu...eu o quê? – O rapaz estava nervoso.
- Você era o mago e sabia dos riscos.- Sim Mário, apesar de sermos novos nisso de ocultismo e magia, sabemos que quem comanda o ritual se torna senhor dele, assim como o mago. Conrad, você é muito esperto. Cristina quis dizer o que seus pensamentos gritaram. O investigador continuou sua explanação, agora em pé indo para o centro da sala. — Você possuía a baqueta. – Apontou para Mário. – Você, ninguém mais. O espírito deveria está sob seu comando após recitar o mantra de invocação. Logo, você o matou, acha que foi por acaso que ele o jogou janela a fora? Achou que eu não notaria isso? Que ficaria comovido com o acidente? – Sorriu. – Seu acidente foi a chave para minha compreensão de tudo isso. Além disso você não foi atacado mesmo com o circulo quebrado.
- Não...não eu não o matei. Eu juro, eu fiz tudo o que vi no site. Tudo. – Lágrimas de desespero rolavam no rosto de Mário. – Também...também não sei o que... o que me protegeu do ataque. – O nervosismo aumentara.
- Exatamente. Você fez Tudo o que viu no site. Quando acessei o site eu percebi que tinha algo errado. O espírito que invocaram não era de cura. Era de morte. Invocado para assassinatos. Trocaram o nome e o selo propositalmente. No hotel reli o email de vocês. Invadi o painel de controle do site e o que descobri? Que o IP da máquina que postava os textos é o mesmo IP da máquina que me enviou o email. E claro, tenho o costume de olhar IP’s de cada máquina que uso, por sorte tenho esse defeito. O computador que alimenta o site é o seu computador Cristina. – Olhou para ela e viu seus lindos olhos o fitando. — Então vamos ao pensamento correto. Mário, você não quebrou o circulo, Cristina quebrou e aposto meu salário se ela não gritou algo do tipo enquanto Péricles morria.
- Ela..ela gritava que a culpa era minha...mas...- Se calou.
- As ultimas palavras que ele ouviu acusavam você. Direcionava a fúria dele pra você. Ela planejou isso tudo. Trocou o nome dos espíritos para te incriminar. E tem mais.
- Mais? – O delegado estava boquiaberto. Não sabia se acreditava ou não naquela história.
- Sim, o avô de Cristina morreu para um fim. Deixar sua herança o quanto antes. A morte não foi tão violenta, mas foi causada por Péricles. Ele sempre a amou, a amou em vida e em morte. – Cristina estava pálida. Sussurrava algo. – Não adianta invocá-lo Cristina. Tirei seu anel quando beijei sua mão e o guardei em minha Pandora. – Ele tirou do bolso uma caixa do tamanho de um isqueiro feita de prata e mostrou para ela. – Você não percebeu, não foi? Vi esse anel na foto de Péricles que ele tirou junto com a turma de vocês do 3° ano. Lembrei que quando você saiu para socorrer Mário, a presença de Péricles se extinguiu momentaneamente. Você o controlava. Achou mesmo que eu incriminaria Mário e que não descobriria um meio de me livrar do espírito de Péricles. Mas eu disse que tinha vindo para encontrar as peças soltas. Você era a maior delas. Agora veja bem, você pode confessar que matou seu avô o empurrando da escada ou...posso invocar Péricles em um local longe daqui e contar a ele toda a verdade. Não acho que o amor dele perdoe você depois disso. O que me diz? – Ela não disse nada. – Senhores, meu serviço acabou. Vou providenciar a passagem de Péricles caso Cristina contribua com a justiça. Mas de toda a forma, não me preocupo se ela vai ou não ser presa. Meu serviço não faz de mim um policial. Agora vocês conhecem a verdade, a verdade que não constará nos autos do processo. – Olhou mais uma vez para o rapaz. — Mário, você e a Cristina não foram atacados porque usavam algum item de proteção,no seu caso um pentagrama. Esse seu cordão salvou sua vida. E Cristina deveria estar usando outros totens protetores. Ela não é tão iniciante assim, como disse que era. – Guardou Pandora em seu bolso novamente. – Outra coisa, não confie em tudo o que a internet lhe diz. Peço desculpas por ter te pregado um susto. Delegado, me ligue para dizer o que Cristina decidiu. Levantou-se e saiu. Todos na sala estavam atônitos. Não sabiam o que pensar. Cristina gritava em sua defesa.
Alexis Conrad ligou a chave de seu Camaro, lançou um ultimo olhar para a rica residência de Cristina e sorriu. Um sorriso que expressava seus pensamentos. Peças encaixadas.
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