O cão do trovão
3 Capítulo dois
Arien farejou o ar, procurando o cheiro característico e pungente de locais com grande quantidade de água. Arrancou o que restava da larga veste que usava como camisa, encarando os ferimentos que sangravam. Nada de muito preocupante pelo visto. Enquanto pensava em como e quando iria cuidar de suas feridas, as árvores começaram a rarear, e logo o lago apareceu com todo o seu esplendor na frente do cão do trovão. Límpido e calmo, parecia ser o local perfeito para lavar-se e descansar um pouco. Com um suspiro, o garoto despiu-se e deu um salto gracioso para dentro do lago, que imediatamente tingiu-se de vermelho. Um choque gelado percorreu o corpo de Arien, tornando a dor quase insuportável. Inconscientemente, ele soltou um latido agudo e encolheu-se, batendo as três caudas com força contra a superfície vermelha do lago cristalino.
Lentamente, o frio começou a entorpecer os membros do rapaz, que fechou os olhos dourados e deixou o corpo boiar em meio a água gelada. Seus enormes cabelos avermelhados flutuavam a sua volta e os pelos que antes tinha sido tingidos de sangue, agora retomavam a cor branca normal. Abrindo os olhos, ele nadou lentamente em direção a margem, onde sacudiu-se e deitou ao sol. Quando abriu os olhos novamente a lua já ia alta no céu, e ele tremia de frio. Droga. Vestiu lentamente as calças largas e penteou os cabelos que desciam até o meio das costas com pente feito de ossos que tirou de um dos bolsos. Hora de seguir em frente e procurar ervas que pudessem ajudar em sua recuperação, que aliás, tinha que ser rápida. Batalhas eram algo frequente na vida de Arien e ele sabia que lutar naquelas condições seria suplicar pela morte, principalmente se o oponente não fosse um humano.
A caminhada do cão recomeçou como um trote tranquilo, sem direção nem por que. Ele abanava as três caudas enquanto corria, e mexia as orelhas de tempos em tempos, tentando captar sons diferentes daqueles que eram normais de uma floresta. Depois de muito caminhar, o garoto parou e sentou-se ao lado de uma moita de ervas amareladas. Arrancando algumas delas, ele mastigou-as e aplicou nas feridas , que imediatamente ficaram dormentes. Ótimo. Agora o risco de infecção já tinha diminuído barbaramente. Hora de seguir viagem e encontrar um lugar seguro para passar alguns dias, o que não deveria ser muito difícil.
Pobre Arien. Não sabia o quanto ele poderia estar enganado. Levantando-se e seguindo viagem, o garoto sentiu algo vibrar nas almofadas de suas patas. A própria terra parecia estar lamentando e gemendo com o peso de algo que se movia sobre ela. O cão do trovão torceu para estar errado, mas se aquilo realmente fosse o que ele pensava... Imediatamente ele começou a correr. O que não foi de muita ajuda. Uma imensa serpente verde brilhante surgiu a sua frente. Uma serpente não. O tronco era de um homem com a pele descascada e feia, com pavorosos olhos fendidos e vermelhos.
Ele estava tremendamente encrencado.
Serpentes-Esmeralda não eram oponentes fáceis nem quando se estava saudável, imagine quando se estava ferido como ele. Sem pensar duas vezes, Arien saiu correndo na direção contrária. Infelizmente ele não foi feliz com sua corrida. A cauda da serpente apanhou suas patas feridas e jogou-o no chão, para depois apanhá-lo é começar a apertar. As costelas estalaram e o ar foi expelido dos pulmões do cão. Seus olhos dourados começaram a perder o brilho e a visão ficou turva.
Patético. Ele ia morrer por que não conseguira correr de uma Serpente-Esmeralda.
Quando acordou, era observado por um ser que usava uma caveira de lobo como máscara. O cão saltou para longe e agachou-se, mostrando os caninos e rosnando. Seu cabelo eriçou-se e fez com que ele parecesse ter o dobro do tamanho normal.
– Acalme-se cachorro. — O mascarado falou.
– Quem é você? O que quer comigo?
– Acalme-se cachorro! — O mascarado repetiu, aumentando o tom de voz.
– Responda! — Arien latiu com mais força.
– Como você é chato cachorro. — O ser mascarado suspirou. — Mas se quer tanto saber... Quando ele tirou a máscara, o garoto perdeu o fôlego.
– Um humano! Uma mulher humana!
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