O beijo da morte
1 Capítulo Único - Mortífero.
Notas iniciais
** Há citações da mitologia nórdica aqui.
O beijo da morte
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Capítulo Único – Mortífero.Solidão agarrava-se com o Esquecimento, que era um dos elementos dela; Morte andava com a Esperança, eram amigas bem incomuns; Vida estava em seu trono ao lado do Tempo, seu marido. Tudo reinava bem, se não fosse por Morte.
- Esperança, já te imaginas viver como os humanos? – Morte perguntou olhando para baixo, vendo todos os movimentos das pequenas e frágeis criaturas. Ela via o Amor atacando dois casais, que selaram os lábios – ela ficou confusa com aquele ato -, via também a Doença vagar pelo o que chamavam de Hospital; ela teria que agir em breve. A pergunta da Morte fez a Curiosidade, que dormia em um tronco de árvore, acordar e soltar pedaços de si ao ar, sorrindo alegremente.
- Alguém daqui despertou-me! – Cantarolava a Curiosidade, sendo ignorada por quase todos; menos Esperança e Morte.
- Não, nunca imaginei. – Esperança fez uma cara manhosa e deitando-se no chão – Eles são admiráveis.
- Porque será que eles fazem isso? – Pergunta Morte, enlouquecendo mais ainda a Curiosidade que agora batia o rosto na árvore que dormia; ainda olhando para o casal de beijando.
- É uma forma de mostrar afeição. O Amor me disse. – Esperança levantou e observou com Morte. – Porque será que não fazemos isso? Seria tão legal. – E Morte concordou com a cabeça. Curiosidade a abraçou e ela o jogou para o mundo dos humanos.
- Criatura patética. – Resmungou, vendo a Curiosidade cair perto de um garoto; ela ficara invisível. A morte focou no garoto ruivo ajudando uma senhoria á atravessar a rua, fixou em seus olhos e derreteu-se. O garoto era lindo.
Após isso, durante meses ela ia para a beirada com Esperança só para ver o garoto. Ele sempre fazia algo de bom á alguém, diferente dela que só fazia o bem quando clamavam seu encontro; e isso sempre fazia alguém chorar.
A garota era pouco compreendida; não, ela não sentia nada ao matar os outros. Era seu dever cumprir as ordens e não ter sentimentos. Desde que todos os mundos foram criados e ela idem, foi ensinada a seguir a ordem e cumprir as tarefas. Não lhe ensinaram á respeitar as raças, nem sentir pena ou qualquer coisa do tipo, não a ensinaram a cultura de todos os mundos e nem para onde eles iam depois dela. Morte só sabia o que escutava dos que eram mais sabidos; que depois dela, deuses iam para Valhalla (ou então, para o lado de Hela) e os humanos, para o Céu ou para o Inferno. Ela não acreditava no céu e nem mesmo no inferno, para a Morte, os humanos apenas deixariam de existir ou iriam para o Vale das almas e esperariam até Vida lhes dar mais uma chance. Era tudo tão injusto.
Ela continuava a ver o garoto, agora já sabia seu nome: Era Sebastian Iron.
Ouviu um chamado de seus superiores, tirando-a de seu total foco. Ela se levantou totalmente sem vontade e foi até eles, batendo os pés firmemente naquele chão escamoso e macio.
- Dama Morte, temos trabalho para ti em terra, as dos humanos. Deves levar Benjamim Iron. – Tempo disse e Vida pigarreou.
- E depois, aprender bons modos e reverenciar seus superiores. – Disse cheia de ódio, ela odiava Morte pelo simples fatos dela ser a destruição do que lhe era criado com tanto suor e mágica. Tempo a cutucou. A garota arrepiou ao ouvir o sobrenome, não seria possível ter parentesco.
- Só isso, agora vá. – Tempo soprou e Morte sentiu chão firme em seus pés descalços, ela trajava um vestido comprido e negro; sim, ela possuía capuz e a foice.
Andou pela residência humana até chegar á um cômodo onde o homem — possível Benjamim estava caído – com uma faca no estômago, um garoto de cabelos de fogo estava encolhido, chorando enquanto outro homem de aparência repugnante lhe mirava uma arma na cabeça. Morte tocou Benjamim, tirando a dor dele e sua alma também, o cômodo ficou gélido e ela viu o homem ao seu lado.
- Você é a morte. – Ele afirmou ainda meio incerto, porém tentando passar segurança em si. Ela riu.
- Sim, sou.
- É bem melhor do que eu imaginava. Morrer e a Morte. – O homem lhe sorriu, ela viu que sua alma era boa.
- Não acredite no que os filmes contam, eu ouvi muitas teorias.
- Para onde vou, majestade?
- Eu não sei. Quando descobrir, me conta? – Os olhos da garota brilharam e o homem assentiu, olhando para o garoto. – Ele não vai morrer. – Afirmou e o homem soltou o gatilho, mas a arma estava sem balas e o garoto esfaqueou o homem, que caiu agonizando.
- Vai levá-lo?
- Sim, mas deixe-o sofrer um pouco. – Ela sorriu sadicamente. – Nunca fui um espírito de bondade. – E ela tocou no rosto de Sebastian, que adormeceu ao seu toque.
- O que você fez?! – O homem gritou.
- Pegue seu filho no colo e o ponha para dormir, vai ser a última vez que você fará isso. – E o homem lhe sorriu.
- Você é sim, um espírito de bondade quando quer. – O homem correu até o filho e o pegou no colo. – Como posso fazer isso, se estou morto?
- Você pode fazer tudo que eu lhe deixar fazer, pela última vez. – Ela seguiu o homem que subiu as escadas e abriu um cômodo, revelando uma mulher dormindo tranquilamente... Talvez seja sua esposa, não fez questão em perguntar. Ele acomodou o garoto na cama, olhando para ele como se quisesse gravar cada detalhe de seu amado filho único. Bem derramou uma gota de seus olhos e, Morte o olhava curiosamente. Queria tanto saber como ele se sente, mas só disse o que sempre fala. – Eles ficarão bem.
O homem sacudiu a cabeça e limpou as lágrimas, sendo abraçado pela morte e sumindo do lugar. Era um pouco incomodo para ela.
Aproximou-se de seu amado humano; aquele que ela nutria uma queda secreta, um amor avassalador do que não sabia como sentia, pois não podia sentir. Agachou-se ao lado dele e tocou seus fios de cabelo, o cobriu e deixou sua bochecha. Ela queria fazer algo, mas não sabia se podia.
Viu os lábios dele brilhar com a luz lunar que vinha da janela, ela se inclinou e selou os lábios com o dele como havia visto antes. Ela podia imaginar que seu coração batia se tivesse um.
O máximo que Sebastian sentiu foi um vento gelado em seu rosto, porém não o incomodou já que estava em seu terceiro sono.
Morte atravessou a porta com um sorriso e pegou a última alma que restara.
Um dia depois.
Os superiores a chamaram e ela simplesmente foi, de bom grado.
- Traidora! Ela quebrou as regras! – Esperneava Vida, apontando para Morte em forma acusativa – nem parecia uma dama assim -.
- Por favor, diz que não beijou aquele humano! – Tempo a segurou pelos ombros e se ajoelhou para ficar de sua altura e fazer uma súplica; ele era uns dois metros mais alto que ela.
- Eu... Eu... – Ela começou a gaguejar.
- Ela é culpada! Vamos puni-la! – A superior ainda gritava, agora fora do trono.
- O que houve com meu humano? – Ela cometeu o erro de lhe chamar de meu.
- Você se apaixonou por um humano... – O rei disse para si mesmo, de cabeça baixa como se aquilo completasse um pensamento dele.
- Ele morreu com seu beijo. – Disse por fim e então a Morte se desestabilizou.
O amor de sua vida estava morto por sua culpa.
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