O barquinho de madeira.

1 O barquinho de madeira.


Notas iniciais
♥ Essa é a minha primeira stenbrough e eu espero muito que gostem porque foi um quebra cabeça desgraçado. Eu passei dias desenvolvendo; ♥ créditos da imagem: quipcrly (tumblr)

Bill Denbrough apoiou-se no mármore de uma das seis ou sete pias do extenso banheiro do Jade do Oriente. A torneira jorrava como um cano furado, e ele encarava a água descer pelo ralo como um fenômeno encantador. Depois do turbulento reencontro de vinte e sete anos, Bill foi o primeiro a correr para o caixa para pagar a sua parte da conta e deixar um fundo de garantia no cofrinho do restaurante pelo estrago que

(pennywise)

ele e outros haviam feito no seu salão alugado. Jogar aquela grana em cima do balcão foi como se livrar de um peso das costas. Estava com uma preocupação a menos e quando teve a chance, deu dois tapinhas nas costas de Mike e avisou que precisava ir ao banheiro antes de ir embora dali.

Seus pensamentos pareciam uma britadeira furando sua mente sem controle. Bill levantou a cabeça lentamente, ainda ouvindo o barulho da água bater nas laterais da porcelana da pia, e encarou-se no espelho. Estava com olheiras e uma cara extremamente cansada. Havia enfrentado uma viagem turbulenta e ganhado lembranças que eram inexistentes até olhar fundo nos olhos de Beverly Rogan, ou até ouvir a primeira piada atravessar a sala e sair da boca de Richie Tozier. Não lembrava de seu irmão morto até abraçar Mike Hanlon e muito menos de Henry Bowers até ver o sorriso de Ben Hanscom. Bill não fazia nem ideia do barulho que uma bombinha de asma podia fazer até ouvir Eddie Kaspbrak fazer suuuuup com a sua. Bill não sabia nada até a caixa de lembranças de vinte e sete anos atrás cair do fundo da estante e se espatifar no chão do seu consciente. Foi um soco. Um soco que o valentão chamado

(pennywise)

Derry havia lhe dado. Ei, amigão! Acorda!, Derry estava dizendo, Olha o que você está perdendo! Você esqueceu todas essas coisas aqui, mas estou te devolvendo! Guardei elas para você, Big Bill!.

Bill deu um riso embargado e um tapa na pia, afastando-se dela. Passou as mãos no rosto quando sentiu lágrimas juntarem e chutou o lixo do banheiro com raiva, dando um grito frustrado. As lembranças estavam doendo, piscando e oscilando, sem parar. Não conseguia se livrar. Sentia-se no pico da loucura. Um esquizofrênico, vítima da própria mente. E tudo havia piorado quando olhou para a cadeira vazia na mesa redonda e juntou o enigma dos biscoitos da sorte. Quando se deu conta que Stan Uris não estava lá. Quando descobriu que Stan Uris provavelmente nunca mais estaria lá.

Com as mãos enterradas no rosto, escondendo a cara de choro e abafando os soluços, Bill se encostou na parede e deslizou lentamente até o chão. Foi ali, novamente, depois de vinte e sete anos, que percebeu o quão Stan era importante em sua vida, e culpou-se amargamente ao se esquecer de quando

Stan empurrava sua bicicleta rua Kansas acima, e o sol quente de Derry fazia as mãos de Bill suarem no guidão de Silver. Era tarde, e apesar de lento, o tráfego ainda estava perigoso. Carros roncavam nas duas mãos da rua, e os meninos foram surpreendidos quando um caminhão Freightliner passou zumbindo por perto deles, perto o suficiente para agitar suas calças e a barra de suas camisas.

Caminharam e empurraram as bicicletas até o Parque Memorial em silêncio, com apenas o barulho do estalo baixo das cartas de baralho das rodas de Silver marcando o ritmo. Eles cortaram o parque na diagonal, e cada vez que se aproximavam mais e mais da Torre de Água, ela parecia crescer e crescer até engolir o sol. Stan largou a bicicleta no gramado e pegou a dianteira de Bill. Ele andou rapidamente até a Torre de Água enquanto Bill amarrava a roda de Silver em uma árvore. No meio do caminho, os passos de Stan diminuíram quando viu um pássaro cruzar sua visão. Ele pousou no bebedouro de pássaros e Stan procurou observar melhor. Acreditava ser um papa-capim-americano, mas não podia ter certeza. Não estava com seus binóculos e muito menos com seu livro sobre pássaros. Tentadora, a curiosidade era alta, e Stan procurou erguer o rosto e espremer os olhos para ajudar a observar o animal melhor, mas caiu de bunda na grama ao trombar nas costas de Patrick Hockstetter.

Do chão, Henry Bowers parecia mais alto e Arroto Huggins mais largo. Eles estavam atrás da Torre de Água, e por causa da sombra que a estrutura fornecia, seus rostos pareciam mais tenebrosos. Henry abaixou e agarrou Stan pelo colarinho da camisa, forcando-o a levantar.

— O que você pensa que tá fazendo aqui, seu anticristo de merda? — Henry perguntou. Saliva voou no rosto de Stan.

Como se tivesse lembrado de algo muito importante, Henry parou por um momento e afrouxou o punho que segurava Stan. Seu rosto ficou neutro, vazio. Apenas segundos depois ele olhou para Stan de novo, e seus olhos obtinham o ódio habitual. O punho pesou de novo, e Stan ficou na ponta dos pés, sentindo a gola da camisa apertar seu pescoço.

— Eu sei porque você tá aqui — Henry concluiu. Ele sorriu e soltou Stan, que passou a mãos no pescoço para aliviar a dor. — Isso aqui é seu, não é?

Por mais que quisesse sair correndo dali, quando Henry Bowers se afastou, Stan sentiu como se seus pés estivessem grudados no chão. As mãos suaram quando sentiu as mãos pesadas de Patrick apoiar em seu ombro, e o coração disparou quando Henry virou para ele de novo. Bowers segurava o barco em miniatura que Stan havia feito de presente de aniversário para Bill Denbrough como um troféu. O mastro principal estava tombado, com as cordas estouradas e a vela mestra rasgada.

— Estávamos brincando um pouco com o seu barco — disse Patrick. Ele apertou os dedos contra o ombro de Stan — Foi você que fez, foi?

Stan afirmou lentamente com a cabeça.

— Nós não gostamos do visual dele — Henry continuou e tirou a sua faca de dentro do bolso. A lâmina saltou pra fora —, e aí o Arroto deu a ideia de a gente mudar a cara dele um pouco. O que você acha, anticristo?

Henry Bowers segurou o barquinho de madeira com um braço só, envolvendo toda a estrutura entre o seu antebraço e o bíceps. Ele deslizou a lâmina da faca no casco do barco, de fora a fora, ralando a pintura e desestruturando a madeira. Fez isso como se estivesse pintando um desenho com lápis de cor, deslizando a lâmina de um lado para o outro, machucando a madeira lixada e envernizada. Naquele momento, Stan Uris sentiu uma imensa vontade de chorar. Ele gritou, soltando-se de Patrick Hockstetter. Nervoso, correu até Henry Bowers, e antes que pudesse reagir, Arroto socou a sua boca. A força levou Stan a girar e cair como uma bigorna. Sangue escorreu pela lateral do lábio, assim como lágrimas de seus olhos. Encolhido no chão, viu os três garotos se juntarem na sua volta. Henry sorriu com satisfação.

— Quer saber de uma coisa? Acho que essa merda não presta, então eu vou fazer um favor pra você.

Sentindo-se como o ser mais poderoso do mundo, e apreciando toda a situação como pura diversão, Henry ergueu o barco acima da cabeça

— Não!!!

e o jogou com força no chão. A miniatura se espatifou em pedaços, uns maiores e outros menores. Um dos mastros quebrou no meio. Patrick e ele começaram a rir.

— B-Ba-Bowers! — Henry ouviu chamar.

Como um gato surgindo do beco, Bill Denbrough apareceu. Esguio, enfiou-se entre os meninos e empurrou Henry com força. Henry tombou para trás, equilibrando-se para tentar se manter em pé e, com raiva, revidou. Ele empurrou Bill com toda a força de seu corpo

— V-Vai se f-f-fo-foder, BOWERS!

E Bill lhe revidou um soco na fuça.

Seus peitos desciam e subiam de forma pesada. O nariz de Henry pingou sangue. Ele chutou os restos do barco e começou a andar para trás. Puxou Patrick para acompanhá-lo e gritou:

— Eu juro. Eu JURO que vou matar vocês dois. EU VOU MATAR AS DUAS BICHAS, EU JURO QUE VOU!

Henry então virou de costas e seguiu caminho. Patrick Hockstetter e Arroto Huggins o acompanharam. Quando a gangue de Henry Bowers estava longe o suficiente, Stan começou a chorar. Bill o observou por um momento e agachou. Ele passou os braços pelo ombro do amigo e, ficando de joelhos, o abraçou. Em meio aos soluços, Stan agarrou Bill pelo pescoço e retribuiu o abraço.

— S-St-Stan…

— Eu sinto muito, Bill. Eu sinto muito mesmo.

— S-St-Stan, tá tudo b-b-b-b

— Não! — Stan soltou Bill e engatinhou até o os destroços do barco — Não tá!

De joelhos, ele pegou o bordo rachado.

— Era uma surpresa. Eu passei dias fazendo ele, Bill. É o seu aniversário e agora eu não tenho mais presente nenhum pra te dar — Stan voltou a chorar — Era pra ser especial, Bill. Eu fiz com as minhas próprias mãos. Eu aprendi sobre barcos por sua causa. Era pra te fazer feliz e agora…

— S-St-Stan — disse Bill. Ele ficou de frente para o amigo e apoiou a mão em seu ombro — você não p-p-precisa me dar um p-p-presente pra me fazer f-fe-feliz.

Stan ergueu o rosto e encarou Bill.

— Olha o que v-v-você fez pra m-m-mim. Você p-pensou em mim, c-c-construiu um barco s-s-sozinho, e-e-enfrentou o H-Henry. Você s-s-sempre esteve c-comigo — Bill fez uma pausa e respirou fundo — S-St-Stan, você me f-fa-faz feliz, n-não um p-presente. T-Ter você na minha v-vi-vida me f-fa-faz feliz.

Bill apoiou a mão carinhosamente na bochecha de Stan e sorriu.

— V-Você é o meu p-p-p-presente.

Stan deu um riso triste.

— Eu achei que você gostasse da Beverly.

— E e-e-eu acho que tá na h-h-hora de v-v-você calar a b-b-boca.

Bill o beijou no canto da boca, com lábios quentes e secos. Sua mão deslizou delicadamente da bochecha para a nuca de Stan, com a surpresa de um novo beijo tímido, e Stan passou os braços ao redor do pescoço de Bill, retribuindo. Conforme aqueles beijos apaixonados ficava cada vez mais ousado, o sol se punha e Bill se inclinava para cima de Stan, deitando lentamente na grama. A leve brisa de fim de tarde ninava as árvores e os arbustos floridos do Parque Memorial aquela altura.

— S-St-Stan… eu t-t-t-te

Bill Denbrough suspirou, com o choro entalado na garganta. Os olhos ardiam e ele podia sentir as olheiras inchadas. Mesmo com o barulho da água jorrando na pia, Bill ainda conseguia ouvir vozes do outro lado da parede do banheiro. Famílias rindo, amigos brindando, tudo por cima da música suave que tocava no auto-falante do restaurante. Quando levantou do chão, sentiu as pernas bambas. Apoiou as mãos na pia e lavou o rosto, enxugando-o com papel toalha.

Bill olhou para o espelho mais uma vez e por mais um momento se sentiu culpado. Penso que talvez, se não fosse insistente, se não tivesse levado seus amigos direto para a boca do lobo, se tivesse aproveitado aquele verão como todas as outras crianças, talvez Stan ainda pudesse estar vivo.

(ou talvez estivesse morto com catorze anos de idade)

Bill balançou a cabeça e enfiou a mão no bolso da calça. Retirou de dentro dele, com dificuldade, o papelzinho do biscoito da sorte de Beverly Rogan.

(Era pra ser especial, Bill)

(Era pra te fazer feliz)

Ele sorriu, e depois riu. Um riso vazio e triste, que lhe doeu o coração.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!