Olhos meigos. Se o perguntassem o que ele lembrava daquele baile, era que ela tinha olhos meigos. Não recordava seu nome, muito menos de onde veio. Devia ser de família rica, caso contrário não estaria lá, mas é tudo que podia dizer.

Isso, e que tinha belos olhos. E um sorriso encantador.

Eles dançaram até o entardecer, juntos ou separados, alternando-se entre os tantos outros que também aproveitavam o baile. Comeram, beberam, riram, beberam um pouco mais. E rodopiaram e deslizaram como se pairassem sobre o ar, como se o resto do mundo fosse uma ilusão, uma névoa chata de fundo abafada pela conversa e risos dos outros dançarinos.

Porque bailes são feitos para dançar.

Dançar até parar de sentir os próprios pés. Sorrir até que seu rosto esteja dormente. E então continuar bailando e continuar sorrindo. Deixar que o entorpecimento de sua alma seja personificado por seu corpo. Então dar mais e mais voltas pelo salão.

Uma mecha rebelde se sobrepunha ao brinco dela. Era adorável. Ela riu disso. Seus lábios pintados com um batom discreto, mas de bom gosto, se repuxaram do modo que conhece tão bem. Ele se perguntava se o sorriso dela estava dormente também.

Na verdade não, não se perguntava. Porque era um lindo dia e eles apreciaram o cantar dos pássaros enquanto a música os embalava no salão.

Ela tinha mesmo belos olhos.

Suas mãos macias arranharam suas costas enquanto dançavam. Unhas bem feitas acariciando de leve. Tantos assuntos banais para encher o ar de conversa e divertimento, para prover aos outros casais a mesma névoa de fundo.

Suas bochechas rosadas a davam um ar contente enquanto girava pelo salão.

Espera, essa não era ela.

Seus cabelos negros e curtos caíam sobre sua testa.

Essa também não.

Ora, quem ele queria enganar?

Elas também rodopiavam, então tudo bem.

A verdade é, ele não ama uma mulher. Nem duas, nem três.

Ele ama o baile, a névoa, a euforia dormente.

E, se elas riem e bebem e dançam com ele, se entretém essa fantasia torpe e disforme, bem, dá pra fingir amá-las um pouco, não? Só mais um pouco de teatro, máscaras, fantoches; um preço barato a se pagar em um baile da burguesia. Qualquer preço é barato por essa sensação.

Estar no meio de um salão tão cheio de gente tão vazia tão cheia de si.

E dançar, dançar, dançar, como se o resto do mundo fosse uma mentira cruel.

Ela tinha olhos meigos, claro. E um olhar bonito e um sorriso encantador. Belos brincos e penteados. Ela tinha todos eles. Ela, e todas as outras dançarinas naquele salão. Todas rodopiando e rindo e girando e falando, todas tão diferentes e tão iguais, se fundindo na abençoada névoa que entorpece tudo e todos.

Depois de giros o bastante, os casais separados se tornam um só, os rostos e corpos e mentes tão únicos são o mesmo ser. Um ser rico, alegre, falso, impessoal. Mas isso é a perfeição. Não há nada como deixar sua vida medíocre e se juntar a esse ser. Ser abraçado pela névoa e deixá-la engolir seu corpo torpe e risonho.

Ele ama os bailes.

Havia muitos olhos meigos e sorrisos doces e peles macias e brincos e colares e tiaras e chapéus. Mas só havia um baile. Todo baile era o baile.

O evento da burguesia. A exclusividade. O status. No fim, era tudo mentira, uma ilusão fina e opaca como a névoa que os dividia do mundo. O verdadeiro valor era dançar até se tornar um, deixar de ser, abraçar a massa dançante de carne e música e risos.

Porque pés dormentes casam com uma vida dormente. Sorrisos falsos para pessoas falsas com vidas de porcelana.

Não se precisa de um coração ou uma alma para ser o coração e alma da festa.

E esse, mais que qualquer outro, é o valor de um baile.

Como ele ama dançar.

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