O azul dos olhos teus
1 Capítulo 1: Todo tempo é tempo de sonhar

— Um ano passa rápido —disse Gustavo —antes de você perceber já estarei de volta, enchendo seu saco.
— Esse ano vai ser o mais demorado da minha vida, filho. Mas se você está feliz, eu também estou.
— Não fica assim mãe, eu vou te ligar todos os dias, além disso, também podemos nos falar por skype. Vou pedir pro Alan te ensinar a mexer direitinho.
—Não sei o que é isso, mas se for pra falar com você, vou mandar ele me ensinar imediatamente. Esse ano fora de casa vai te fazer muito bem Gus, a escola no Rio de Janeiro tem o maior índice de aprovação do estado. Além disso, seus tios adoraram o fato de você passar um ano morando com eles, você sabe como eles te adoram.
— E como sei. Nunca vi tios mais babões —disse, em tom de brincadeira. De fato, ele adorava os tios.
Os dois ficaram em silêncio por um tempo, depois Rita continuou falar, com um toque de melancolia na voz.
—Meu coração está tão apertado, meu filho indo para longe de mim, se tornando independente. Quando foi que você cresceu e eu não percebi?
Gustavo franziu o cenho. "Mães" pensou consigo mesmo. “Sempre tão dramáticas." Fez—se uma pausa até que ele disse que a amava e ela retribuiu dizendo que também o amava muito. Gustavo nunca havia ficado muito tempo longe da mãe, por um lado estava muito triste, mas por outro, não contava as horas para partir.
— Acho que tá na hora de eu ir mãe, põe um sorriso nessa cara vai, num piscar de olhos eu estou de volta.
E dizendo isso, deu um abraço apertado nela e foi embora, com uma mala nas mãos e vários sonhos no peito, tinha uma nova vida lhe esperando e ele não via a hora de começar a vivê—la. Buscava uma vida melhor, onde tivesse a oportunidade de realizar seus sonhos. Sua mãe não sabia, mas ele pretendia continuar morando no Rio de Janeiro mesmo depois de terminar o terceiro ano, seguir a carreira de jornalista e publicar um livro. Vislumbrava a cidade grande como a oportunidade de realizar seus sonhos, criar novos amigos, e encontrar uma garota legal. Estava cansado da cidade pequena e de sua vida medíocre. Não que ele não estivesse feliz ali, mas felicidade, pensou certa vez, deve ser maior que aquilo. Deve ser algo que te faça transbordar dentro de si mesmo. Deve existir algo a mais. Tem que haver.
(...)
"Não sei o que as pessoas tanto veem em tomar banho de mar, sinceramente não vejo a menor graça" pensou Isabelle, observando a multidão que se encontrava um pouco a sua frente. Estava sentada com Luke em uma barraca, não vendo a hora de acabar com aquilo. Fazia tempo que queria terminar o namoro, por isso escolheu um local público para fazê—lo. Ela sabia a fama de violento que o namorado tinha e por isso preferiu não arriscar. Ele nunca chegou a agredi—la fisicamente, porém, sempre levantava a voz quando se irritava. Como na festa de fim de ano do colégio, que Luke a pegou conversando com outro rapaz no bar e gritou com ela na frente de todos, chamando—a de vagabunda oferecida, logo antes de surrar compulsivamente o garoto, que por sinal nunca mais se atrevera a olhar para Isabelle desde então.
— Meu amor, você não sabe a saudade que senti de você nesses dois dias que ficamos sem nos ver. —disse Luke, aproximando sua língua para dentro da boca dela. Sendo surpreendido quando ela se afastou, impedindo—o de realizar o que estava desejando, e virou o rosto para o outro lado.
— Luke, te chamei aqui por que quero ter uma conversa séria contigo. —disse cautelosamente, tentando encontrar o melhor jeito de dar a notícia.
— O que foi amorzinho? — disse, daquela forma melosa que Isabelle detestava.
— Já tem um tempo que quero fazer isso então finalmente tomei coragem de fazê—lo. –fez uma pausa e então continuou— Você já deve ter percebido que estou distante nos últimos meses e deve estar se perguntado o motivo. Então, o motivo é que eu não estou mais a vontade no nosso namoro.
Isabelle notou a expressão de espanto no rosto de Luke, como se ele temesse o que ela iria falar a seguir.
— Não estou entendendo aonde você quer chegar com isso. Eu realmente tenho notado você um pouco diferente. Não conheço o motivo, mas seja o que for, tenha calma, você deve só estar passando por uma fase difícil.
— A questão é que não é uma fase Luke, eu pensava que era, e por isso esperei um bom tempo para tomar essa decisão. Percebi que quando uma coisa não está bem por muito tempo, é exatamente assim que ela continuará. Não existe forma de reconstruir o amor quando ele acaba. E o nosso, meu bem, acabou faz tempo.
— Isso não faz sentido amorzinho, eu te amo tanto que nem sei como é possível. E sei que você também me ama, um amor não acaba assim. —Luke tentou segurar a mão dela, não tendo sucesso. Isabelle notou a expressão de tristeza e preocupação no rosto dele, como se estivesse prestes a perder um bem precioso. Sentiu péssima por estar fazendo isso, mas não podia continuar o namoro. A verdade é que faz um bom tempo que ela não o ama mais. Chegou a se perguntar se algum dia já o fez. O que sentia por Luke havia se transformado com o tempo, como uma flor mal regada esquecida em um quintal inabitado. Estava ficando com ele por puro costume. De certa forma, era bom ter alguém que era louco por você, que fazia tudo para lhe agradar e lhe ver feliz. Um amor morno era melhor que nenhum amor. No entanto, agora ela se sentia cada vez mais presa por seu ciúme doentio e comportamento violento. Odiava o fato de ele ser tão meloso em certas circunstâncias e em outras tão rude. Ele era um mistério e ela estava cansada de tentar entender suas várias personalidades e faces diferentes. Já viu muitas vezes no jornal a mesma história, com um desfecho que não queria vivenciar.
— Isso se ele existiu um dia. Desculpa Luke, eu sei que você me ama, mas se eu continuar contigo será por pena, e não há nada pior que estar com alguém quando o amor não é recícopro. Você merece mais que isso, encontre alguém que te ame assim como você me ama. Do jeito que eu nunca conseguirei amar. Alguém que seja louca por você. Seja feliz. Sem mim.
— Você não entende? Eu só sou feliz contigo. E não tem ninguém melhor que você, amorzinho. Você é o amor da minha vida, por favor, eu vou encontrar um jeito de fazer você se apaixonar por mim. —Disse Luke, aumentando o tom de voz, quase gritando e sem perceber que muitos na praia estavam observando a cena. Seu rosto já estava cheio de lágrimas. Isabelle ficou assustada ao perceber o desespero de Luke, o garoto que ela namorava chorando descontrolavelmente, suplicando por seu coração, coisa que ela nunca conseguiria lhe entregar. — Fica comigo, Isabelle, sem você eu não sei viver. Por favor. Por favor. Eu te amo. Escuta. Eu sempre vou te amar. — Isabelle teve vontade de enfiar a cara debaixo da areia, estava constrangida com todos os olhares na praia vindo em sua direção.
— Luke, se toca, para com essa cena ridícula que eu já estou ficando constrangida. Isso aqui não é novela mexicana. — E, nesse momento, ela se levantou sem olhar pra trás, deixando Luke gritando sozinho. Aquilo era demais para ela, sentia—se péssima por ele, ao mesmo tempo em que tinha vontade de estrangula—lo por não aceitar o fim, por não entender que ela não iria continuar com ele de nenhuma maneira. Nesse momento, sentiu algo puxando seu braço, quando virou e, percebeu que era ele, ainda com o rosto vermelho marcado por lágrimas.
— Isabelle, não vá embora, por favor, não termine assim. —disse Luke apertando ainda mais forte seu braço — desculpe por gritar e me desculpe pelo comportamento violento nos últimos dias. Sei que estou te assustando, mas eu não sou assim. Ou pelo menos não quero mais ser assim. Juro que eu vou mudar, de agora em diante tudo vai ser diferente, vou segurar meu ciúme e minha agressividade, te prometo.
— Luke, quantas vezes você já disse isso? Entenda, não tem mais jeito, está acabado.
Ela soltou—se dele e foi embora, pegando o primeiro táxi que aparecera. Finalmente aquilo acabou. Sentia—se livre. E acima de tudo, leve.
(...)
Faltava um dia para começar as aulas. Isabelle já estava de saco cheio das férias, que, só fez piorar depois do término do namoro com Luke, o garoto ligou a semana toda e em todas as ligações tentava voltar. "Coitado" pensou Isabelle, se perguntando como ele não cansou de receber tantos foras.
Isabelle se sentiu muito mal por toda aquela cena de desespero que ele fez na praia. E que continuou fazendo nas ligações.
— Estou com tanta pena do Luke que até pensei em reatar o namoro. Mas sinceramente, ele não faz falta mesmo, parece que tirei um peso das minhas costas. Só não sei por que ainda continuo triste assim. Eu não esperava essa reação dele. Mas por outro lado, eu fui tão rude, deveria ter conversado com mais calma.
— Não amiga, se você não tivesse sido rude ele não ia aceitar, ia insistir muito mais e você ia acabar cedendo. Vocês eram tão fofinhos juntos, mas você não gostava mesmo dele né? Te entendo. Se não faz falta, você tá bem melhor sem ele. Nada de voltar, te proíbo! — respondeu Vanessa.
Ela tentou de todas as formas animar a amiga nos últimos dias, mas desistiu depois de Isabelle ter recusado ir com ela à algumas festas. Esse era o combustível de Vanessa: festas e encontros sociais. Adorava uma oportunidade de se exibir, estava sempre na moda e era o centro das atenções, não trocaria sua popularidade por nada. Às vezes as duas discutiam por Isabelle não gostar muito de ir a essas festas que Vanessa considera obrigatórias.
— Belle — continuou Vanessa — amanhã vai ter uma social na minha casa para comemorar a volta das aulas, toda a galera vai aparecer lá, incluindo você viu! Estou só avisando.
— Vanessa, você sabe que eu odeio essas festas idiotas. E além disso, não estou muito animada.
"sinceramente, não sei como ela não cansa de dar tantas festas." pensou Isabelle.
— Você vai de qualquer jeito, nem adianta. Quem sabe você não conhece um garoto novo e para de ficar se torturando por ter acabado um relacionamento que como você disse não faz nem falta. Sinceramente, eu não te entendo, se você não gosta dele não deveria ficar triste por machuca—lo.
— Machucar alguém é péssimo Vanessa, me odeio por ter feito isso, e a cara que ele fez, aos prantos pedindo perdão, foi de partir o coração. Quer dizer, eu parti o coração dele, não sei explicar, mas, é como naquela frase: "Fico triste quando alguém me ofende, mas ficaria mais triste ainda se eu fosse o agressor."
(...)
É dia 20 de fevereiro, início das aulas letivas. Gustavo não conseguiu pensar em outra coisa a semana toda. Seus tios o receberam muito bem, e, apesar de só ter ido visita—los duas vezes na vida, já se sentia em casa. Sua mãe ligou os sete dias da semana, mesmo sem ter muita coisa para falar (que o interessasse), e suas respostas consistiam em: "sim" "não" "ahã" "beleza" "foi?" (nada melhor para responder quando alguém te conta algo que não te interessa em nada), "tô bem" "também estou com saudades" (afinal, fazem o quê, 3 dias?), "também te amo" "ok" "sim" "ok" "beijo". Gustavo amava demais sua mãe, o problema era que as vezes ela sabia ser bem cansativa e um pouco exagerada, do tipo que passa meia hora contando o que a vizinha fez no verão passado, ou do filho da Dona Maria que chegou de viagem, o que fazia ele se perguntar: afinal, quem é essa dona Maria e o que eu tenho haver com isso?
— Já tá pronto, Gustavo? Como hoje é seu primeiro dia de aula e eu estou de folga, vou te levar na escola. Mas não se acostuma viu? — disse tio Marcos, esbanjando um sorriso bobo.
— Deixa eu só escovar os dentes e pegar meus livros tio. Um minutinho.
Na verdade, foram sete, mas o tio nem se incomodou.
Demoraram uns 20 minutos da casa dele para a escola. Gustavo se despediu e desceu do carro, encantado com a beleza daquela escola, que, fazia até vergonha comparar com a sua antiga de Maceió.
Gustavo demorou um pouco para encontrar sua sala, que ficava no segundo andar, em um corredor estreito. Sentiu—se recompensado assim que entrou, pois o clima quente e sufocante deu lugar ao frio vindo do ar condicionado. Sentou—se na terceira banca da última fileira, observando sua nova turma que ainda não estava completa, tendo em vista as varias bancas vazias. Olhou seu relógio e viu que ainda faltavam trinta minutos para a aula começar, odiando—se por ter chegado tão cedo. Depois do que Gustavo jurou ser uma eternidade, o professor chegou e se apresentou como o professor de Biologia, Carlos. Mas foi só na metade da aula que as coisas começaram a ficar interessantes, quando uma aluna entrou na sala toda sorridente, pedindo mil desculpas por seu atraso. Ela era linda, observou Gustavo, uma beleza realmente impressionante. Loira, dos cabelos encaracolados, alta, não era nem gorda, nem esquelética; o peso ideal. Tinha lábios de damasco e os olhos azuis da cor do mar. Além disso, era muito simpática e divertida, pôde perceber pelas vezes em que interagia na aula, fazendo questionamentos ao professor ou contando alguma história que ela vivenciou, relacionada ao assunto da aula. Todos os garotos olhavam para ela com ar de encanto, o que não era de se estranhar. Gustavo não conseguiu desviar o olhar dela durante a aula toda, sendo surpreendido quando uma morena magricela que sentava atrás dele chamou sua atenção:
— Aí novato, quer que eu te arrume um babador?
— O quê?
— Garotos... Sempre tão... Idiotas... Loucos por uma sem sal como essa aí. Sinceramente, não sei o que todo mundo vê nessa biscate.
— Aí, deixa o cara Valéria. Liga não novato, eu te entendo. — Disse o menino sentado lado da "garota—anti—bicates". Ele usava óculos fundo de garrafa, tinha um cabelo a base de gel e falava todo desajeitado. Realmente era um cara engraçado. —Prazer, meu nome é mauro, e essa gracinha atrás de você é a Valéria, como eu já falei.
Gracinha. Gustavo não se lembrava da última vez que tinha ouvido essa palavra.
— Prazer, meu nome é Gustavo, ou Gus, como muitos me chamam —disse ele, estendendo a mão para Mauro e em seguida dando um beijo na bochecha de Valéria. Fazendo—a franzir o rosto.
*
No final da tarde, assim que o professor de Inglês saiu da sala, a garota (que passou a tarde inteira retocando a maquiagem e se olhando no espelho) subiu em uma cadeira e começou a gritar para todo mundo esperar antes de ir embora. Ela era realmente muito bonita, observou Gustavo, mas de uma forma diferente. Não era natural como a loira que chegou atrasada na primeira aula, sua beleza era algo forçado por suas roupas de marca, cabelo montado e maquiagem exagerada. "Ela ficaria mais bonita se não tentasse parecer tão bonita", pensou ele.
— Galeraaaaaa, a questão é a seguinte, hoje a noite eu vou dá uma festa na minha casa pra comemorar o começo do nosso último ano, que vai ser DEMAAAIS. Podem anotar, entraremos na história como O MELHOR TERCEIRO ANO DE TODOS. — Nessa hora todos começaram a gritar e bater nas bancas, vibrando com cada palavra que ela dizia. Alguns rapazes até gritaram: “É ISSO AÍ.”
— A presença de todos é extremamente obrigatória. Quem faltar, anota aí, vai tá na minha lista negra. — disse ela em tom de brincadeira e autoridade. — Bem, todo mundo sabe onde é minha casa... Ah, outra coisinha, levem bebidas, BASTANTE BEBIDAS. A festa começa às 23h e não tem hora pra acabar.. Quero ver todo mundo de ressaca amanhã!
Notas finais
Comentem abaixo o que achou.
Críticas e sugestões são bem vindas.
Espero que tenham gostado ;)
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