César tinha acabado de receber um novo carregamento da fazenda. Seus colegas de trabalho estavam ajudando ele a juntar todos aqueles bichos em uma fila organizada.

Depois de toda a confusão já arrumada e cada bicho em seu devido lugar, começou todo o preparo para o abate e a separação das carnes. Prendeu as vacas leiteiras no maquinário e as que estavam separadas em outro canto.

Assim que todos os animais estavam posicionados, Cesar pegou um bastão e se preparou. A primeira vaca, amarrada de cabeça pra baixo estava passando. O homem a acertou na cabeça deixando-a inconsciente. Mas não podia matá-la ainda. A carne ficaria dura.

A máquina arrancou todo o couro do bicho inconsciente, deixando toda a carne viva exposta. E então, César matou-a, passando o cadáver para que outra pessoa trabalhasse com os cortes e entregasse para os açougues.

Ele não achava o trabalho bom nem ruim. Não se divertia fazendo o que fazia, mas também não sentia pena dos animais. Enxergava aquilo apenas como parte da cadeia alimentar.

Depois de mais ou menos umas 4 horas de serviço e uma pilha de corpos já cortados, César os levou para o frigorífico. Geralmente, ele só precisava dar a pancada e o tiro no animal, mas, como alguns funcionários faltaram nos últimos dias, tem sobrado trabalho pra cima dele.

O frigorífico era alto e extenso. Cesar sempre achou que aquilo poderia ser muito bem um salão, extenso e com neve, a não ser pelas várias peças de carne espalhadas pelo local, e o chão e as paredes manchados de sangue.

Ele começou a separar as peças para cada cliente conforme a lista que foi passada pra ele. O trabalho cansava e deixava ele ainda mais manchado de sangue, mas era feito de uma forma quase automática. Assim que tirou o carrinho de carnes, viu algo estranho no chão.

Tinham algumas marcas no sangue, como se fossem pegadas de uma pessoa pequena. Cesar achou estranho. Era a única pessoa ali. E não usar nenhum tipo de calçado em um local frio e sujo como aquele? Isso não era comum.

— Quem está aí? – ele disse, tentando intimidar, forçando uma voz grave, mas acabou com ela falhando. Não teve resposta. – Alguém?

O homem então se agachou, sem tirar os olhos do caixote em que as pegadas se direcionaram. Pensou em pegar alguma arma, então pegou um osso de uma das vacas mortas que estava ao seu redor. Começou a ir em direção ao caixote, hesitando a cada passo, com a curiosidade vencendo o medo.

Ao chegar mais próximo, foi ágil e deu a volta pela caixa, girando o osso como um bastão de beisebol, golpeando o que quer deus que seria aquilo. Não havia nada.

E então, atrás de César, surgiu uma labareda. Um fogo tão intenso que era questão de tempo até dar pane no frigorífico.

Ele olhou pra trás, sentindo o calor e viu aquela chama viva olhando de onde ela vinha. Ele foi recuando bem devagar, na direção contrária do fogo, enquanto ainda tentava assimilar o que era aquele fogo todo. O osso quase escorregou da sua mão e ele precisou de muita força para mantê-lo firme empunhando.

Então, o fogo pulou.

César caiu de costas e tentou olhar praquela coisa que estava parada em sua frente em cima da caixa.

O fogo na verdade estava na cabeça de uma pessoa, como se fosse o cabelo dela. O garoto estava agachado, olhando pro funcionário do matadouro com um sorriso, mostrando dentes de piranha. Em seu pescoço, um colar tribal, com vários dentes.

O que chamou mais a atenção de César, era como os pés da criatura estavam. Era como se alguém tivesse os quebrado, e, por algum tipo de diversão sádica, colado-os ao contrário.

Ele estava atônito. Se revirava no chão tentando ignorar aquilo. Sentia seu estômago se encolher e ferver. Sentia esse calor de uma maneira tão intensa que não saberia mais dizer se ainda estava em um frigorífico. Não era possível que algo assim estivesse na frente dele. E ele sabia exatamente o que era, afinal todo mundo ouve falar sobre ele na escola, quando é pequeno. Aquele silêncio assustador foi cortado com uma risada gutural vinda do garoto.

— Bom. Medo é bom. Assustado. Em pânico. – o garoto desceu da caixa e foi avançando em direção a ele. Com muito esforço, César começou a puxar seu próprio corpo para longe, se arrastando pelo chão. Cada passo do garoto fazia o chão queimar, quase evaporando o sangue que estava estancado nele. As mãos tremendo do homem não impediam com que ele tentasse cravar as unhas no chão para ter algum apoio de fugir daquela visão horrenda. – Você merece. Causou sofrimento aos animais. Tempo demais.

— Mas esse é o nosso alimento – disse César, gaguejando e quase encostando na parede, tentando falar com o resto de racionalidade que ainda não o havia abandonado.

— Não. Uma vaca. Duas. É alimento. Isso. Genocídio. Você. Pago pra matar. Não vê erro?! – a cada passo que o garoto dava, o fogo em seu cabelo ficava mais vivido. — Vocês. Sem preocupação com alimentação. Sem cadeia alimentar. Vocês. Buscam lucro. Dinheiro. Em cima de cadáveres. – Cesar conseguia sentir o hálito do garoto. Seus dentes estavam quase cortando sua pele só de encostar. Seus olhos, queimavam como uma supernova. Era impossível olhá-los naquele instante.

Por fim, o garoto disse:

— Não mais.

E o frigorífico inteiro entrou em combustão enquanto vislumbres de espíritos animais ficavam ao lado do garoto.

Essa foi a última coisa que César viu, antes de sua morte.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.