O assassino do Cantor
8 Capítulo 8
Capítulo oito
1
Akanishi era inacreditável. Kame não conseguia deixar de se surpreender como aquele rapaz parecia mesmo viver em um mundo simples. Ele apenas fazia o que tinha vontade e na hora que queria sem se preocupar com as outras pessoas. Ele era mimado e egoísta.
Precisava de um banho e foi para o seu quarto. Tirou a camisa que usava e desabotoou o cinto, mas o celular tocou e ele foi atender. Era Maru.
– Koki entrou em contato. – explicou o jornalista – Disse que vai ter que ficar um tempo sem falar com a gente, mas que está tudo bem. Ele conseguiu escapar sem problemas.
– Isso é muito bom. Obrigado por avisar, Maru.
– Ele disse também que quando der ele fala com a gente de novo...
– E ele está bem mesmo, não é? Não foi ferido no tiroteio?
– Não, não. Ele está bem. Só reclamou um pouco de que agora vai ser solitário ter que ficar trancado dentro de um apartamento esperando a poeira baixar... Então se prepare, quando tudo estiver tranqüilo de novo, ele vai aparecer com a carência total! – Maru riu – Bem, vou desligar... Estou indo cobrir a morte de um estudante. Parece ser suicídio. Nos falamos depois.
– Até mais...
Kame tentou seguir novamente para o banheiro, quando se lembrou de algo. Solitário.
– Né, Kame... – Kamenashi parou de beijá-lo e manteve o rosto próximo para escutá-lo – Você não se sente solitário? Estando brigado com a sua família?
– Eu me sinto solitário muitas vezes... Mas acho que o melhor a se fazer seria comprar um animal de estimação do que tentar convencer uma família inteira de médicos antiquados e tradicionais. Os bichos nos amam incondicionalmente... Independente das nossas profissões, não é?
Aquele idiota... Tinha sido por isso então que ele comprou um animal de estimação? Sacudiu a cabeça, não tinha porque se sentir culpado. Akanishi fazia as coisas por impulsividade, então tinha que assumir os resultados. Nem tudo poderia ser do jeito que ele queria.
Pegou a toalha e seguia para o chuveiro, estava firme em sua decisão de ensinar a Jin que deveria pensar um pouco mais antes de agir, quando ouviu aquele trovão, lembrando que a temporada de chuva ainda não tinha cessado por completo.
Não tinha porque se preocupar. Do jeito que Akanishi era teimoso e distorcia a realidade, ele devia estar sentado na sua porta e não devia ter entendido que Kamenashi o havia expulsado. Certamente ele não estava nessa chuva com o filhote. E, mesmo que tivesse ido embora, teria o bom senso de esperar a chuva passar em algum lugar coberto.
Teria?
E se não houvesse um lugar por perto e ele estivesse correndo nessa chuva com o animalzinho?
E ainda tinha o ferimento da sua mão. Já tinha passado dois dias e o core não tinha sido grave, mas, do jeito que era relapso, Jin podia pegar uma infecção andando com o curativo molhado e... Sacudiu a cabeça, afastando esses pensamentos.
Foi para sala e espiou pela janela. A chuva estava bastante forte, mas era chuva de verão, logo deveria terminar. A temperatura nem ao menos tinha caído, ainda continuava bastante abafado, essa chuva não faz mal a ninguém...
... Não custava se certificar se ele continuava no corredor. Aproximou-se devagar do olho mágico. Não viu ninguém. É claro, ele devia estar sentado. Kamenashi se jogou ao chão para tentar espiar por baixo da porta, mas não tinha uma boa visão. Levantou-se, sentindo-se um idiota e abriu a porta bem lentamente.
Não havia sinal de Jin e nem do cachorro.
– Eu não acredito nisso... – Kamenashi movimentou sua língua com alguma irritação.
2
– Eu não acredito nissooooo!! – Jin choramingou, agachado debaixo de um toldo de uma loja, abraçado ao filhote que havia retornado ao interior de sua jaqueta. – Bem que o Pi falava pra assistir a previsão do tempo. Porque tá todo mundo com guarda-chuva, menos eu???
Era tarde, a maioria das lojas por perto estavam fechadas. Jin estava indo para o supermercado, que era um pouco mais distante da casa de Kamenashi, para comprar um pouco de leite. O filhote não podia ficar sem comer enquanto eles esperavam a raiva do jornalista passar, afinal. E de repente começou a chover e se tornou impossível continuar a andar e ele correu até ali.
– Espero que essa chuva passe logo... É chuva de verão, não é? Ei, não fique assustado, vai passar logo! – ele disse para o filhote, que estava tremendo. – Mou~... Mas que dia! E porque o Kame tem que ser tão nervosinho desse jeito? Qual o problema em termos a sua companhia, não é? Você é comportado, nem vai dar muito trabalho e...
Xiiiiiiiiiiiiii.
E Jin sentiu aquele líquido quente molhando a sua camiseta.
– Ok, você foi influenciado pela chuva... Eu te entendo porque eu também estou começando a ficar com vontade! Né? Dessa vez passa... Será que vai demorar muito pra parar de chover? Daqui a pouco nenhum de nós dois vai estar cheirando bem... E que droga, o Kame precisa mesmo deixar essa birra de lado, precisamos te dar um nome e... Nee~... Acho que a chuva tá aumentando! – suspirou.
3
Okura afrouxou o nó de sua gravata quando saiu da sala de interrogatório. Aquela apreensão de drogas e as prisões feitas no último instante o sobrecarregou de serviço, mas foi necessário. Era preciso o máximo de sigilo nessa operação e nem mesmo os envolvidos sabiam exatamente quando ela aconteceria.
Toda a operação foi um suspense para ele. Sabia que Subaru estava a par de tudo, mas ele não lhe revelou um único detalhe até finalmente estarem a caminho da operação.
– Nossa, quanta gente!
A máquina de café estava com uma fila imensa. Era natural, todos eles estavam fazendo hora extra por causa da operação. Okura cumprimentou a todos cordialmente, como era seu hábito, mesmo com aqueles que ele sabia que não era bem visto, por sua posição social. Não era fácil, nunca foi, a mistura das classes sociais. Muitos enxergavam a sua escolha profissional porque não tinha nada melhor a fazer, queria se divertir vivendo aventuras. Ele não se importava com essas opiniões, em todo caso. Fazia o seu trabalho e ponto final. Mas era um pouco triste que não o convidassem para o café.
Ele escolheu o café longo, sem açúcar e foi se sentar afastado e, alguém que chegou por trás, lhe estendeu uma caixa de doces, que eram os seus preferidos. Olhou para cima e sorriu. Ao menos se dava bem com seu parceiro.
– Arigatou, Baru!
– Precisa repor as energias. – ele explicou – Temos que voltar ao caso do cantor.
– Sim, é verdade, deixamos isso de lado por causa dessa operação...
–... Mas não foi por um motivo ruim...
– Não foi... Nossa, e não é que a denúncia anônima era mesmo verdadeira? Só me pergunto quem seria essa pessoa e como sabia sobre essa operação...
– Sim... Como essa pessoa poderia saber? Além do mais...
– Hã?
– Nada, estava pensando. – ele estava mexendo naquela moeda de ouro de novo.
– Né, Baru? – entre eles, Subaru não se importava com aquela intimidade. – Porque você gosta tanto dessa moeda?
– Ah, isso? Foi presente de um policial quando eu era criança... Ele fazia a ronda na área perto de onde eu morava e eu o achava incrível. Não sei de onde ele a conseguiu, mas ele me deu no dia em que eu contei que queria ser como ele. Pra me dar sorte... Em todo caso, nosso próximo passo é Inagaki.
– Acha mesmo que vale a pena? A essa altura, ele já deve ter sido orientado por Kusanagi sobre o que quer que seja que eles estão tentando esconder.
– Sim, isso deve ter acontecido. Provavelmente não vamos descobrir nada, mas não teremos certeza se não formos.
– Certo... Então vamos logo, já estamos muito atrasados.
4
– Não precisam se desculpar. O motivo do atraso foi de grande ajuda para a sociedade. Parabéns pela apreensão das drogas. – Inagaki disse sem perder seu jeito sério.
– Domo arigatou pela compreensão. – Okura se inclinou levemente – Bem, não desejamos tomar muito do seu tempo, por isso permita que eu seja direto.
– Por favor. – ele consentiu, olhando rapidamente para o outro policial, que parecia entretido com uma das plantas que decoravam a sua sala. – Não sei em como posso ajudá-los. Não posso dizer nada além do que já disse para o repórter do Diário Tokyo.
– A imprensa já esteve aqui? – Shibutani questionou.
– Sim. Mas definitivamente a minha briga com Kimura-san não pode ser considerado uma suspeita... Isso foi há tantos anos atrás...
– No dia do crime, onde o senhor se encontrava, Inagaki-san?
– Bem... Presumo que seja uma pergunta de rotina...
– Sim, por favor, não considere de outra forma.
–... Naquele dia eu tive uma reunião extensa no centro de Tóquio sobre novos lançamentos que pretendemos fazer para o próximo mês. Saí de lá por volta das dezoito horas e jantei e um restaurante italiano que havia lá por perto. Depois voltei para cá e continuei trabalhando durante até de madrugada.
– Tem certeza de que o senhor não passou próximo ao motel no seu caminho de volta? – Subaru quis saber.
– Absolutamente. Nunca estive nesse lugar.
– Que horas o senhor chegou aqui?
– Por volta das vinte e uma.
– A hora provável da morte é 21h30.
Inagaki voltou a olhar para Shibutani, depois do seu comentário.
– Os jornais estão dizendo que foi no começo da noite...
– Não acredite em todas as informações que a mídia divulga. Até porque, essa informação ainda não foi repassa para a mídia. – ele explicou tranquilamente – O senhor tem alguém que possa confirmar o seu álibi?
–... – ele uniu as mãos em cima da mesa e fitou seus documentos – Minha secretária me esperou porque tinha um recado para mim e depois eu a dispensei, ela já estava muito além do horário.
– Então... Ninguém pode confirmar seu álibi. – Shibutani disse.
– Isso não quer dizer que eu o matei. Não poderia chegar até o motel de carro em menos de trinta minutos para ter tempo de matá-lo...
– Mas o senhor não disse que nunca esteve no motel? Como poderia saber a distância de carro daqui até lá? – Subaru se virou e se aproximou da mesa para encarar Inagaki – Além disso, a minha memória anda um pouco atrapalhada. A hora da morte oficial foi 01h da manhã.
E, pela primeira vez, Inagaki demonstrou alguma reação. Ele olhou assustado para os detetives.
5
O filhote já tinha adormecido em seu colo e Akanishi estava seguindo o mesmo caminho. Seus olhos estavam pesados e as roupas molhadas já não eram assim tão incomodas. O ar ainda estava quente, apesar da chuva, e isso lhe deu sonolência. Bocejou.
Ele teria dormido se aquela buzina horrorosa não tivesse puxado sua consciência de volta. Tentou abrir um olho, mas a forte luz do farol o deixou cego por um momento. E a buzina soou de novo.
– Que coisa, que carro estúpido!
– AKANISHI!!!
– Oh-oh... Ele ainda tá bravo, mas que cara chato... E... Kamenashi? – ele franziu a testa e se levantou. E sorriu. – Você veio nos buscar! – disse, sabendo que ele não o ouviria direito.
Ele tirou a jaqueta por completo para enrolar o filhote nele e depois correu até o carro. Entrou no carro, molhando todo o estofado, Kamenashi percebeu, fechou a porta e se virou sorridente para o motorista.
– Porque tá rindo desse jeito, imbecil? O que você pensa que estava fazendo saindo na chuva com este filhote? Será que você não pensa nem um pouquinho?! Que coisa, você não é mais criança! Deveria ter um pouco de bom senso e... Porque não para de sorrir?
– Kame-chan pode dar a bronca que quiser porque no final não muda que você veio nos procurar porque estava preocupado com a gente! – foi a resposta feliz. Ele estava tão contente que seus olhos se apertaram e quase sumiram por causa do sorriso largo.
Kame piscou os olhos e corou.
– É claro que eu vim, esse cachorro não vai viver muito se só tiver você por perto, oras! E pare de sorrir, cretino e... Nossa, vocês estão fedendo!
– É claro, ele fez xixi em mim.
–... Você entrou mijado no meu carro?
–... Mas foi você quem veio me buscar! E pare de ser tão materialista, isso não leva a nada... Se bem que combina jornalista ser materialista porque vocês só pensam em matéria né? Há, há, há, há e... Ok, eu fico quieto... – disse e se encolheu em seu lugar.
6
Akanishi se aproximou usando uma calça moletom e uma camiseta branca e enxugando os cabelos. Ele trazia a maleta de primeiros-socorros. Agachou ao lado de Kamenashi, que estava observando o filhote tomar todo o leite de uma tigela e lhe estendeu o antiséptico e a sua mão machucada. Sorriu de orelha a orelha.
Kamenashi respirou mais fundo e puxou a mão de Jin. Ela era grande e forte, não parecia combinar com aquela personalidade infantil e mimada. Combinava mais com a de Jin sedutor e isso ficava mais evidente quando transavam. Sorriu de canto, notando o olhar curioso do outro rapaz, mas não lhe deu nenhuma explicação. Ele limpou o ferimento.
– Puxa, ele tava faminto! – Jin comentou, olhando para o cãozinho com carinho.
– Claro que tava... Você não deu nada de comer a ele! – Kame disse, bravo, enquanto enrolava a faixa na mão de Jin.
– A culpa foi sua, que nos expulsou! – Jin retrucou, com um bico e analisou o novo curativo. – Você podia ser meu enfermeiro particular! Nossa, Kame-chan, você podia se vestir de enfermeira pra mim!
– Você é um irresponsável mesmo... – ele suspirou.
– Ok, ok, ok. Eu me visto de enfermeira pra você. Eu fico muito bem com uniforme cor-de-rosa. – ele sacudiu a cabeça, orgulhoso.
Kamenashi não lhe deu atenção e Jin o olhou confuso. Sexo sempre funcionava com o jornalista e quando isso não acontecia, ele sabia que era algo a se preocupar. E ele teve a certeza com o que ouviu em seguida.
– Essa noite vocês ficam aqui e depois vão embora. Os dois.
Kamenashi se levantou enquanto Akanishi ainda processava aquela informação. O tempo que isso levou foi quase suficiente para o jornalista deixar a sala para o seu quarto. Quase.
– Ei! Kame-chan! – Jin se levantou e o olhou confuso – Que história é essa?
Kame não lhe respondeu. Olhou para o rosto irritado de Akanishi e admirou, por um momento, como realmente Jin acreditava em sua própria fantasia. Qualquer um que o visse naquele instante poderia dizer que o rapaz estava mesmo surpreso e indignado com o que escutou e que teria algum direito para isso. Se aquele tivesse sido o primeiro encontro deles, talvez Kamenashi cedesse ao tom de voz de alguém que se sentia injustiçado que Akanishi usava.
– O que você acha? Você não mora aqui. E pare de agir e pensar como se fosse o contrário.
– Mas Kame-chan...
– Nada de “mas”... Volte para a sua casa.
Jin abaixou o rosto e fechou uma mão, a que não estava machucada.
–... E o que você disse outro dia? Era mentira então? – perguntou, com um tom mais baixo, mas o suficiente para ser ouvido
– O que eu disse? – perguntou, mas era evidente que Akanishi se referia ao dia em que pediu para deixar de ser um cliente. Estava falando de sua declaração.
– Eu achei que... – mordeu os lábios, estava em dúvida se continuava. E aquele rosto indeciso era realmente bonito para Kamenashi –... Eu achei que você gostasse de mim.
Os olhos mimados deram lugar aqueles que sabiam intimidar Kamenashi. O jornalista, porém, foi firme. Sem desviar o olhar, respondeu:
– Eu gosto. Eu não sei como isso foi acontecer, mas eu gosto de você... Mas eu não te pedi em casamento, você não pode agir como bem entender. Você não devia estar morando aqui. Nós não temos um relacionamento. O que eu sinto ou deixo de sentir não muda isso porque, afinal, eu estou e suas mãos por causa de dinheiro, né? Eu disse o que eu sentia. E pronto, acabou. Entendeu?
– Ah... Entendi. – ele afirmou.
Jin caminhou em sua direção e Kame quis saber o que ele estava pensando. Teria mesmo entendido? Ele ficou surpreso quando a mão de Jin segurou em sua cintura e o puxou para perto de si. Então Kame o reconheceu, aquele era o sedutor e ele parecia muito maior visto daquele ângulo. A voz dele também soou muito mais séria e rouca quando disse:
– Você está chateado porque eu não te respondi? Você queria que eu respondesse a sua declaração?
– Não estou chateado com nada.
Ele tentou se afastar, mas a força de Jin também parecia maior quando ele agia daquela forma. Não conseguiu empurrá-lo, então recuou. Até encontrar a parede. Não tinha mais para onde fugir e Akanishi o olhava daquela forma que lhe fazia esquecer de respirar. Ainda assim, ele tentou se manter consciente. Virou o rosto para o lado.
–... Só quero a minha liberdade de volta. Sem surpresas, sem cachorros aparecendo do nada, sem ter que ficar pensando se você vai estar em casa ou se sumiu pra sempre, se vai se cortar de novo, se vai sair correndo na chuva, se vai matar o cachorro de fome ou o que vai aprontar da próxima vez. Eu não sou seu pai, não sou seu marido, não sou seu irmão, não sou nada seu... Então porque diabos eu tenho que ficar tomando conta de você?
Jin avançou. E como isso era possível, Kame não conseguiu entender. Não havia mais espaço entre eles e aquele corpo em cima do seu era uma espécie de tortura psicológica. Isso devia ser técnica em algum lugar do mundo. O cheio de sabonete misturado ao calor daquele corpo era hipnotizante. A consciência do jornalista começava a se apagar.
–... Então você quer ser meu? – e ele segurou o queixo de Kamenashi, cujos lábios franzidos e o olhar irritado não foram desfeitos, e o obrigou a encará-lo.
Jin apreciou a transformação no rosto dele. Achava Kame um homem muito bonito e ainda mais quando estava sério, mas, quando ocorria àquela mudança sentia um formigamento inevitável e a vontade de ter o corpo de Kame falava mais alto. Isso era quando o sorriso dele, o sorriso de canto, aquele sacana que significava sexo surgia em seus lábios finos e rosados. Como agora. Então, ele soube que o jornalista já não fugiria mais das suas investidas, ele não recusaria mais o sexo.
Kame entreabriu a boca.
– Não. Você é quem vai ser meu. – ele se agarrou à camiseta de Jin e o beijou.
O embate entre as línguas foi curto. Intenso e as mãos de Kamenashi já haviam percorrido o peitoral de Jin com uma velocidade incrível, mas aquele momento foi curto. Isso porque um barulho começou a irritar Kamenashi que interrompeu o contato. Olhou irritado para Jin, estalou a língua e disse:
– Seu filho está chorando. Vá cuidar dele. – ele o empurrou, finalmente recuperando sua consciência e conseguindo passagem para o quarto.
– Mou ~... – Jin se lamentou – Isso é hora de criança estar acordada? – reclamou, indo até a caixa de papelão em que improvisaram uma cama. – Nee ~... Durma rápido, ok? Seus pais tem que se acertar pra você ter onde morar, oras...
Akanishi ouviu os passos de Kame e se virou. Ele trazia do quarto uma coberta e travesseiros e jogou em cima dele.
– Você vai dormir na sala.
– Mas Kam... – ele nem lhe deu atenção e ainda bateu a porta do quarto – Puxa, como esse cara é genioso... A gente briga, se acerta, briga, se acerta, briga... Como é que terminei tendo que dormir no sofá? – inflou as bochechas com ar e depois olhou torto para o cão – Nee~? A culpa é sua e ainda ficou sem nome. Que coisa! Pare de chorar, eu tô aqui... Dorme aí... – ele pediu, afagando a cabeça dele.
7
Okura bateu o copo de cerveja na mesa do bar, indignado e cansado. Os últimos dias estavam puxados com as investigações em torno do assassinato de Kimura e com a operação de apreensão de drogas. Sentia seu corpo dolorido, sua cabeça parecia que explodiria com tantas informações recebidas e com a tarefa de tentar separar a mentira da verdade.
– Inagaki-san agora se fechou como uma ostra. Diz que só vai responder na presença do advogado. E Kusanagi-sensei é um dos melhores advogados nessa área. Vai ficar muito difícil agora.
– Un. – Subaru mantinha o corpo inclinado para o lado na cadeira enquanto fumava. Ele sacudiu a cabeça, concordando, e não disse mais nada.
– O que temos até agora? – ele suspirou. – Kimura era uma pessoa que ninguém desejaria sua morte. Segundo a sua esposa, era impossível que ele tivesse uma amante, ela diz que eles se amavam.
– Hayami Minami afirma que foi amante de Kimura. – Subaru murmurou, vago – E temos mesmo o registro dela naquele motel com boa freqüência nos últimos dois anos. Sempre aparecia um homem que procurava pelo quarto dela e que, de acordo com a recepcionista, era parecido com Kimura. É claro que a recepcionista pode estar sendo influenciada pela situação, mas, na noite do crime, Kimura realmente procurou por Hayami, foi ao quarto e foi assassinado. Mas Hayami não havia reservado o lugar e temos o álibi de que ela estava com um cliente.
– Isso faz supor que o assassino conhecia os hábitos de Hayami. E sabia que ela era amante de Kimura. Alguém fez a reserva em seu nome.
– Mas então Inagaki supostamente esteve na cena do crime em alguma ocasião. Ele saiu do prédio em que trabalha e foi para lá. Ele conhece o caminho e a distância. E não apresentou um álibi para a noite do crime.
– Também nos contou que Kimura teria brigado com um garoto de programa. Yamashita Tomohisa.
– Sim... Nos contou isso depois de encostado na parede... Seria para desviar a atenção? – Subaru coçou o queixo. – De qualquer forma, teremos que investigar esse rapaz e ver até onde e porque eles estavam brigando. Segundo Inagaki, ele não sabia o motivo da discussão.
– E também precisamos descobrir porque Kimura andava preocupado. E porque você insistiu com o advogado se ele não estaria amargurado?
– Dependendo do motivo que o preocupava, ele teria uma reação. Ele não parecia amargurado, então podia ser um problema que não envolvesse seus sentimentos.
– Então... Você está descartando a amante?
– Não disse isso. Nem sabemos qual foi o motivo do assassinato. O que preocupava Kimura pode nem ter a ver com este caso... Podia ser que ele estivesse preocupado com essa briga com esse rapaz, Yamashita.
– Em todo caso... Ainda temos que falar com Nakai-san. Dizem que ele é o mais próximo entre os amigos, ele seria o confidente de todos. Quem sabe ele não está escondendo alguns segredos sobre Kimura?
Subaru balançou a cabeça, concordando e se calou por um momento. Depois ergueu o rosto em direção do seu parceiro.
– Sim, e temos que conversar com a viúva também.
– É verdade. Ela adiou a nossa conversa por orientações médicas... Ainda está muito abalada, coitada... E tem duas filhas para criar. – Okura já estava emocionado.
– Un. Mas desde que entramos neste caso, quero escutar todos os relatos com meus próprios ouvidos. Não podemos seguir com relatórios feitos com impressões de outras pessoas.
– Eu entendo isso... Só acho que não deve ser algo fácil ficar revivendo esses momentos inúmeras vezes... Mas sei que é necessário... E pegar o culpado é uma forma de ajudar a viúva e as órfãs... – ele estava decidido.
8
Rolou na cama chegando até o seu limite e colocou seu rosto no colchão, fora do travesseiro, não conseguia dormir. De alguma forma que Kamenashi não conseguia explicar nem a si próprio, Akanishi tinha o dom de lhe deixar com a consciência pesada. E naquele momento ele se perguntava se não estava descontando no rapaz as suas frustrações e sendo severo demais com ele.
Por outro lado, ele também se arrependia quando era sincero demais. Que ideia foi aquela de dizer que Akanishi seria dele? Porque não conseguia conter sua língua quando estavam juntos? Nos dois sentidos. Porque não conseguia impedi-la de desejá-lo?
E agora, porque não deixava de querer que Jin entraria pela porta e arranjaria alguma desculpa para dormir com ele?
Não era uma pessoa que vivia bem deixando seus sentimentos confusos dessa forma. Ele tinha que ter controle sobre tudo. Tudo devia ser organizado. Era por isso que ele preferia não se relacionar com ninguém. Não queria perder o controle de si mesmo.
Seu coração deu um salto quando a porta foi aberta. Era ele. Ele estava vindo e Kame não conseguiu conter um pequeno sorriso. A sua sorte era que tudo estava escuro e ele pode se recompor sem qualquer constrangimento.
– Kame...
–... Ainda tá acordado? – ele se virou e tentou enxergar o vulto de Akanishi.
– Kame... Na sala tá muito frio... Podemos dormir aqui? – a voz era tímida e hesitante. Sabia que tinha aprontado muito e estava com medo de outra bronca.
– Dormir aqui... E... ”Podemos”?
Kamenashi enxergou que Jin carregava uma caixa e estapeou a própria testa.
– É que se tava frio pra mim, ele deve estar com frio também...
– Escuta, não está nada frio, está muito quente, aliás... Choveu, mas isso só deixou o clima mais abafado. O que você está dizendo sobre estar frio... Volte pra sala e não me enche o saco!
– Mas Kame, eu...
– Nada de “mas, eu”... Oyasumi.
–... Podia ao menos me dar mais uma coberta?
Ele não podia mesmo estar falando sério sobre estar com frio. Kamenashi se irritou, acendeu a luz do abajur e foi pegar outro cobertor no armário, quando voltou, notou algo esquisito. Jin estava corado e suando. Em outro contexto, essa seria uma bela fotografia.
– Com você pode estar com frio se está suando? – ele questionou e jogou o cobertor na cama, em seguida ele se aproximou e pôs a mão na testa dele. –... Você está com febre, seu cretino!
– Desculpa... – ele disse, franzindo a testa, não compreendendo porque também estava recebendo bronca por isso, mas não queria deixar o jornalista ainda mais irritado.
Kamenashi lambeu o interior da sua boca. Definitivamente, aquele homem surgiu em sua vida só para lhe trazer dores de cabeça. Sem dizer nada, tomou a caixa com o filhote e a repousou no chão, ao lado da porta.
– Deita, eu vou pegar um termômetro. – disse, contrariado.
Ele obedeceu e Kame foi até o banheiro. Aproveitou e verificou os remédios que tinha ali. A maioria era para dor de cabeça, que era o que mais afetava a sua saúde. Há muito tempo que não tinha sinais de febre ou outros sintomas, então não tinha nenhum remédio de gripe ou antifebril.
Voltou para o quarto e entregou o aparelho para Akanishi.
– Kame sabe ser gentil também! – ele disse, sorrindo.
– Não fale enquanto está com isso na boca, idiota... Eu não acredito que você está com febre por causa de uma chuvinha...
– Não foi uma “chuvinha”...
– Não aconteceu nada com o filhote!
–... Eu tenho a saúde sensível, ok?
– Já não mandei calar a boca?
Eles trocaram olhares atravessados e ficaram em silêncio. Mesmo quando Kamensahi foi verificar sua temperatura, eles não disseram nada um ao outro. Mas o jornalista ficou preocupado. A temperatura estava um pouco alta.
– Vou comprar um antifebril... Apenas fique quieto e tente dormir.
– Tá...
Vestiu um moletom por cima do pijama e saiu em seguida. Tinha uma loja de conveniências por perto e ele correu até lá. Comprou antifebril e outros remédios para amenizar os sintomas da gripe. E alguns chás. Não tinha o hábito de tomar chá, apenas café para se manter acordado em sua rotina de dead-lines apertados, mas sabia que chá era bom para quando se está debilitado.
Pagou no caixa e se apressou em voltar para casa. Jin já estava sonolento quando lhe deu os remédios e chá. E era mesmo uma imagem chocante que ele estivesse amuado daquele jeito. Jin tinha que ser alegre, mimado e barulhento. Mas agora ele estava calado, quieto e visivelmente cansado.
Ele tomou o chá e depois voltou a se deitar, cobrindo-se até o pescoço.
– Daqui a pouco a febre deve abaixar. Descanse.
– Un... Arigatou Kame...
O jornalista apagou a luz do abajur e depois pegou a caixa de papelão com cãozinho, adormecido todo esse tempo, e eles foram para a sala. Kame o deixou no lugar de antes e depois foi ajeitar o sofá.
– Como é que isso terminou desse jeito? – perguntou, suspirando, antes de apagar a luz e tentar dormir um pouco. – Aquele é meu quarto, minha cama... É minha casa... Que droga.
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