Capítulo dezoito

1

A música alta de um grupo de pop coreano estremecia o chão, as paredes, e o som parecia invadir seu corpo. Não gostava muito desse tipo de ambiente escuro, abafado, com luzes cegantes revezando quase no mesmo ritmo das batidas das músicas. Ele sempre priorizou os estudos ao invés da diversão, não estava acostumado. Mesmo quando cobria a parte de serviços de uma revista visitando as casas noturnas costumava ficar apenas o tempo suficiente para entender os pontos principais e atrativos do lugar e ia embora logo.

A casa de Nishikido estava lotada e jovens dançavam freneticamente enquanto consumiam drogas lícitas ou ilícitas em todos os cantos daquele lugar. Quase não havia espaço para se mover na sala e os corredores, decorados com ricos quadros e alguns vasos chineses, que sobreviviam por algum milagre, também estavam movimentados com os prazeres e luxúrias daqueles mais atrevidos.

Eles tentavam passar pelas pessoas e, ao mesmo tempo, tentavam atender às vontades de seus corpos. Kamenashi seguia Toma quando este parou, virou-se para trás e o prensou em uma parede, mas tomando cuidado com o braço enfaixado. Um beijo rápido, cheio de desejo. Olhares de canto um para o outro, a sedução encobrindo o ambiente ensurdecedor ao redor deles. Kamenashi escorregou sua mão pelo tórax dele e alcançou o início da calça jeans.

– Rápido... – suplicou.

Um pedido que Toma entendeu mais pela leitura de lábio do que por ter escutado alguma coisa. Ele fez que sim e voltou a puxar o jornalista pela mão até a escada que dava acesso para os quartos dos que residiam ali. Altos e fortes seguranças estrangeiros estavam no início da escada e deram passagem assim que Toma mostrou intenção de subir. Olharam para seu acompanhante, mas notaram as mãos unidas e não fizeram objeção.

Aquele corredor já era um constraste ao anterior. Estava tranqüilo e a decoração era mais sóbria, embora tão valiosa quanto à outra. Quadros de paisagem de países ocidentais e apenas dois vasos ao fundo, antes da porta do quarto que pertencia ao dono da casa formavam a decoração.

Kamenashi se mostrou surpreso que eles seguiram para o quarto anterior, tão próximo ao de Nishikido. Olhou para Toma com mais admiração, estava diante de uma pessoa importante daquela facção, e, ao mesmo tempo, sentiu ansiedade e um leve temor. Sua mente, embora alterada pela bebida e drogas consumidas enquanto estavam apenas dançando no andar debaixo, ainda tentava entender o relacionamento da viúva Kimura com alguém importante da máfia.

Toma abriu a porta e Kamenashi entrou demonstrando alguma surpresa pelo tamanho do cômodo, embora não estivesse de fato impressionado, imaginava que o interior daquela casa seria deslumbrante que a sua fachada. Era um quarto bem organizado, com uma estante cheia de livros próxima a uma mesa de computador em um canto do quarto, perto da porta que levava à varanda e que a porta de vidro permitia ao jornalista perceber que havia uma mesa confortável para o café da manhã.

A cama ficava encostada à parede do fundo, centralizada. Ao lado esquerdo havia um grande aparelho de som. A coleção de DVDs e CDs do rapaz era incrível. A análise de Kamenashi foi rápida, seus olhos já estavam treinados a notar os detalhes assim que entra em um cenário novo, sempre foi uma forma de descobrir mais sobre a pessoa que entrevistaria ou mesmo para descobrir novas pistas quando se tratava de jornalismo investigativo.

Assim, essa foi a visão que ele teve enquanto Toma trancava a porta e regulava a intensidade da luz. Em seguida, ele segurou-se à cintura do jornalista e o direcionou até a cama. Era bastante confortável, a cama era tão macia que Kamenashi nunca imaginou que pudesse existir tanto conforto quando suas costas deitaram no colchão. Toma subiu por cima de seu corpo e voltou a beijá-lo.

Não sentia remorso em seus atos. Não era um puritano e sempre foi além dos escrúpulos para conquistar a informação que precisava para sua matéria. E, neste caso, era muito mais do que suas matérias que estavam em jogo. E, além disso, não podia negar o prazer que estava recebendo...

Até que eles se separassem e Toma caísse esgotado, em um sono profundo, ao seu lado levou algumas horas. Não foi sem dificuldades que ele conseguiu se manter acordardo. Teve que ingerir álcool e drogas na companhia do amante para que ele não suspeitasse de suas intenções, mas teve o cuidado de dosar tudo o que consumia e se esforçava para que Toma bebesse muito mais. Tinha certeza de que ele não acordaria nem se uma explosão ocorresse naquele quarto.

Sentiu-se tonto e enjoado. Provavelmente teria uma ressaca infernal no dia seguinte. Levantou-se, pegou suas roupas no chão e seguiu para o banheiro, precisava lavar o rosto e recuperar um pouco mais de sobriedade. E também testaria o quanto de barulho poderia fazer sem que o outro despertasse.

Quando retornou ao quarto, novamente vestido, ficou satisfeito com Toma roncando alto. A luz baixa ainda estava ligada e por isso ele tinha uma visão razoável do quarto. Por onde começaria a procurar? Pensou primeiro em procurar na mesa do computador.

A busca foi feita com minuciosidade e movimentos suaves. Abriu as gavetas e pastas, folheou livros e não conseguia encontrar o envelope. Foi quando ele se lembrou de que Toma usava outras roupas quando trombou com a viúva Kimura e de quando eles se encontraram no bar. Talvez pudesse encontrar o envelope em seu casaco.

Teve essa ideia e foi até o armário, parando por alguns instantes quando o ronco cessou e o rapaz virou-se de lado na cama, grunhiu algo e voltou a roncar. Kamenashi seguiu para o armário em busca do casaco verde-musgo. Empurrou a porta para o lado vagarosamente e começou a vasculhar entre as roupas até que finalmente encontrou o tal casaco. O envelope estava em um bolso interno.

Antes de abrir o envelope, ele certificou-se mais uma vez que Toma estava dormindo e, então retrirou os documentos. Usou seu celular para ter uma iluminação melhor para ler o que estava escrito ali. Parecia um acordo comercial. E Kamenashi logo entendeu do que se tratava. Uma grande carga de drogas seria entregue no dia X, no lugar X. Ele anotou aquelas informações em seu celular, guardou as folhas e recolocou o envelope dentro do casaco.

Depois disso, deixou o quarto. Precisava ir embora e organizar suas ideias com o que tinha descoberto, mas, sozinho no corredor, ouvindo vagamente a música no andar debaixo, estava tão perto do quarto de Nishikido... Ele se aproximou sem realmente se dar conta. Encostou o rosto à porta para tentar escutar algum barulho lá dentro. Não ouviu nada. Tentou enxergar alguma coisa pela fechadura, apenas viu parcialmente uma cômoda com espelho.

Tomou uma decisão e reuniu coragem para entrar. Antes, ele tomou o cuidado de enviar as informações da venda de drogas para Nakai e explicou em um texto rápido sobre a viúva e onde se encontrava no momento. Depois desligou o celular, evitando uma provável ligação de seu chefe.

Abriu a porta, que estava destrancada. Kamenahsi pensou que Nishikido deveria confiar demais nas pessoas que moravam ali ou então realmente não tinha nada de muito valor naquele quarto, o que o desanimou.

O quarto do herdeiro tinha o dobro do tamanho de Toma. Exibia muito mais luxo e sua decoração era totalmente ocidental. As cores que predominavam eram o branco e o preto. Os móveis eram grandes e, de alguma forma, refletiam o poder de Ryo. Não tinha realmente o que procurar ali. Não sabia o que estava fazendo, deveria ir embora. Mas suas ações foram involuntárias.

E sua curiosidade foi recompensada quando ele encontrou algumas fotos na gaveta de uma cômoda ao lado da cama. Eram fotos de Nishikido com mulheres. As acompanhantes da Casa de Chá, inclusive a dona, e também outra mulher. A mesma mulher que estava na maioria das fotos em que estava apenas com Nishikido. Uma mulher mais velha, loira e sempre de óculos escuros. A mesma mulher que tinha esbarrado com Toma na plataforma do metrô.

A viúva Kimura.

O jornalista franziu o cenho, as poses nas fotos demonstravam muita intimidade entre o casal.

– E, no fim, pode ter sido mesmo um crime passional... Mas pelo outro lado da história?

Kamenashi, contudo, não pode pensar sobre o assunto. Ouviu o gatilho de uma arma e logo sentiu o cano frio em sua nuca.

2

A voz fria disse lentamente:

– Vire-se devagar.

Kamenashi obedeceu e seu susto foi maior quando reconheceu o rapaz que apontava a arma para si. Aquele a quem só tinha visto por fotos, até então, Yamashita Tomohisa.

Um encontro inesperado, mas que Kamenashi desejava em seu íntimo. Queria conhecer aquela pessoa que era tão devota a Jin a ponto de se declarar culpado de um crime ou ainda a ponto de cometer um assassinato.

Yamashita era mais alto que o jornalista e mais robusto. Era muito mais bonito pessoalmente do que nas fotos que Kame tinha visto antes. O rapaz mantinha a arma apontada para o seu rosto. Seria um tiro fatal.

– Kamenashi Kazuya... O jornalista.

– Yamashita Tomohisa, eu presumo.

– Ora, não precisamos de apresentações, então.

– Não, não precisamos. Então você realmente entrou para a família Nishikido? É assim que pretende tirar Jin da cadeia?

Não houve resposta. Yamashita o olhou, parecendo curioso com a sua pergunta atrevida. Depois riu com desdém.

– E o que você está fazendo para tirar Jin da cadeia? Parece que está mais preocupado em descobrir informações sobre a máfia.

– Estou buscando provas da sua inocência. – Kamenashi disse tranquilamente – Mas você acredita mesmo que Jin é o assassino, certo?

– Não. Quem matou Kimura está aqui na sua frente. Com uma arma apontada para você.

– Seria uma pena...

Kamenashi começou, lentamente, tentando ganhar tempo enquanto avaliava as intenções de Yamashita em realmente atirar. Ficou evidente que Yamashita não estava ali para proteger a Nishikido-gumi. Que eles estavam disputando a Jin naquele momento.

–... Se a prova da inocência de Jin se perdesse, não é? – disse e passou a língua rapidamente pelos lábios, ansioso pela resposta de Yamashita.

Yamapi o olhou com mais atenção, parecendo incrédulo sobre o que ouvia. Aquele jornalista intrometido estaria dizendo a verdade? Não, não podia. Não havia provas para inocentar Jin, porque Yamapi sabia que Jin...

Ouviram gritos. E tiros. E mais gritos e mais tiros. Os barulhos dos tiros começaram a ficar mais próximos e eles viram as portas de vidro que levava à varanda sendo repartidas quando foram metralhadas.

Em um movimento rápido, Yamashita se jogou para cima de Kamenashi e eles caíram atrás da cama. O jornalista gemeu quando o peso do outro corpo caiu sobre seu braço quebrado.

– Itteee... Iteeee!

Yamapi não lhe deu atenção. Tentava apurar seus ouvidos para ouvir os tiros e tentar calcular de onde eles estavam vindo. Após alguns minutos sem novos ataques ao quarto de Nishikido, Yamapi pensou que provavelmente os responsáveis passaram de carro em torno da casa para acertar as janelas.

– Vamos, levante-se! – ele estendeu a mão para Kamenashi – Temos que sair daqui.

O jornalista ainda sentia dor e ficou confuso. Porque agora eles estavam, momentaneamente, como aliados?

– Vamos logo, imbecil! Você quer morrer?

– Não era isso o que você pretendia há pouco?

– Pare de resmungar!

Ele segurou firme na mão de Kamenashi e o puxou para que ele enfim se levantasse. Andaram curvados até a porta e saíram do quarto. Os gritos dos convidados indicavam que o ataque também estava acontecendo dentro da casa. Estavam passando pelo quarto de Toma, quando a porta se abriu e ele saiu de lá. Estava armado e atento, não parecia a mesma pessoa que Kamenashi deixou praticamente em coma momentos antes.

Toma olhou com uma expressão dura para Kamenashi e depois para Yamashita. O jornalista pensou em formular alguma desculpa, mas depois percebeu que não era necessário, certamente Yamashita o desmentiria. Mas Toma não fez nenhuma pergunta.

– É a Matsuoka-gumi. – ele explicou para Yamashita – Você tem que sair daqui. Vocês devem fugir o quanto antes.

Yamapi fez que sim e apenas esperou enquanto Toma pegava seu celular e conversava com alguém. Quando encerrou a ligação, virou-se para os dois e explicou o que deveriam fazer.

– Não é um ataque mortal. É uma retaliação pelo o que aconteceu à Casa de Show. Não é uma emboscada, querem apenas bagunçar e fazer uma afronta ao aniki. Eles não bloquearam as rotas de fuga. Assim, vocês dois vão para o estacionamento. Yamashita, você sabe onde há chaves dos carros reservas.

– Para chegarmos ao estacionamento temos que atravessar a sala... – Yamapi comentou.

– Darei cobertura a vocês. Nossos homens já começaram o contra-ataque. Perdemos muitos com a surpresa, mas já estamos nos recuperando. Vamos, sem perder mais tempo.

Kamenashi apenas assentiu e se deixou levar. Estavam acontecendo coisas demais em um intervalo de tempo curtíssimo ele não conseguia pensar com clareza. Estava novamente no fogo cruzado da Yakuza e tudo o que o preocupava naquele momento era sair com vida daquele lugar.

Não percebeu quando, mas agora quem o puxava pela mão era Toma. Eles desceram as escadas correndo após Yamashita atirar em alguns homens ao pé da escada. Kamenashi notou, enquanto desciam, que os seguranças que tinham bloqueado a escada quando ele chegou com Toma estavam mortos, caídos próximos à estante em que havia uma enorme televisão, que também estava destruída pelos tiros.

A confusão era grande. Os convidados que não tinham ligação alguma com a máfia, além de serem consumidores de drogas, corriam desesperados sem saber realmente para onde fugir e muitos terminavam no chão, atingidos por tiros sem saber de qual lado.

Toma o puxou para evitar que Kamenashi trombasse com dois rapazes que tentavam fugir e corriam na direção deles. Puxou o jornalista para si e passou um braço por seu ombro, para protegê-lo, enquanto esticava o outro braço próximo ao rosto de Kame, para atirar nos integrantes da Matsuoka-gumi.

Yamapi ia à frente, recebendo ajuda de outros membros da Nishikido-gumi que se aproximaram e receberam a ordem de Toma para levá-los ao estacionamento.

Eles atravessaram a sala, que momentos antes era uma movimentada pista de dança, e alcançaram uma porta dupla. A porta levava para um pequeno corredor, onde havia mais três portas. Uma era para o escritório de Nishikido, outro para a cozinha e a terceira para a escada que levava ao estacionamento. Ali já parecia mais seguro, o ataque parecia concentrado na parte da frente da casa.

Yamapi foi o primeiro a descer e antes Toma lhe fez algumas recomendações.

– Você vai ficar? – Yamapi questionou.

– Vou segurar mais um tempo aqui. – explicou – Até nossos homens chegarem.

– Ok. Cuidado. – Yamapi disse, mas seu rosto não indicava que ele realmente se importava.

O rapaz, então, desceu as escadas e Kamenashi ia segui-lo, mas Toma o impediu.

– Leve isso com você. – ele disse, retirando uma pistola, presa na parte de trás de sua calça, por baixo da camisa. – Para o caso de surgir problemas pra fugir... Gomen né, Ryu-chan! A noite foi mais agitada do que eu pretendia. – ele exibiu um belo sorriso. – Você vai ter coisas mais interessantes do que basebol para escrever em seu artigo.

– Toma... Eu...

Toma piscou um olho e depois lhe tomou o rosto para beijá-lo. Kamenashi correspondeu ao beijo, perguntando-se porque se sentia com remorso em ter enganado o rapaz. Ele era um integrante da Yakuza, afinal. Não tevia ter consideração alguma.

– Cuide-se.

– Você também, Toma...

Toma lhe deu as costas e correu de volta para o confronto. Kamenashi suspirou e depois desceu atrás de Yamapi. O rapaz o esperava, zangado.

– Eu devia ter te largado. Vamos logo, tartaruga lenta!

Ele já estava com as chaves do carro na mão e correu até o veículo. Kamenashi se acomodou no banco do passageiro e respirou mais aliviado quando finalmente deram a partida e foram embora.

Não estava entendendo absolutamente nada.

3

Havia muitas dúvidas em sua cabeça, mas a primeira pergunta que fez a Yamapi, quando já dirigiam com tranqüilidade pelas ruas longe da casa de Nishikido era porque o outro o tinha salvado.

– Você disse, não disse? – respondeu o acompanhante – Que tem uma prova da inocência do Jin, certo?

– Un.

– Eu não quero que me condenem. Não quero morrer ou ficar presos por muitos anos. Quero viver e ficar com o Jin. É isso o que eu quero e vou fazer.

Apesar do ciúme, Kamenashi admirou a forma como Yamapi podia falar livremente dos seus sentimentos. Como ele tinha certeza absoluta sobre o que sentia e o que queria.

– E se você tem convicção de que essa pista pode tirar o Jin de lá... Melhor pra mim. Me poupa de um longo julgamento e de gastos para a Yakuza. Que pista é essa que você tem?

– Você realmente acha que vou te dizer tudo?

– Abusado. Você tem certeza de que pode tirar o Jin da cadeia?

–... Eu vou tirá-lo de lá com certeza.

Yamapi aproveitou o farol vermelho e olhou para o rosto convicto do jornalista. A conversa entre eles terminou ali. Estavam se dirigindo para a casa de Nakai. Kamenashi não se sentia seguro em revelar ao companheiro de Jin onde morava.

Aproveitou o silêncio durante o trajeto e tentou organizar tudo o que tinha acontecido naquela noite. O primeiro ponto é que a viúva Kimura estava envolvida com a Yakuza. Tanto em negócios, quanto sentimentalmente, ao que indicavam aquelas fotos. Isso abria um novo caminho para as investigações sobre a morte de Kimura. Isso era o que ele tinha de concreto para entregar à polícia.

Agora, o que o incomodava realmente era porque tanto Yamashita quanto Toma não o mataram. Ele pensava que tinha se tornado evidente que ele era suspeito quando Toma o encontrou com Yamashita. Porque Yamashita não contou a Toma que ele estava vasculhando o quarto de Nishikido? Entendia que os sentimentos de Yamashita por Jin pode ter encoberto esse fato, mas... Toma não devia ter suspeitado porque ele estava no corredor e não em sua cama?

Além disso, ele tinha certeza de que Toma tinha se embebedado e consumido drogas o suficiente para permanecer um dia inteiro desacordado e, ainda assim, seus movimentos foram incrivelmente coordenados enquanto atirava nos inimigos.

– É aqui?

Deixou os pensamentos de lado e assentiu. Retirou o cinto de segurança e agradeceu, pela carona e por ter sido salvo.

– Fiz isso pelo Jin. – ele esclareceu, de forma seca. – Mas você pode me fazer um favor?

– Qual?

– Você consegue falar com ele. Ele não vai te evitar na cadeia como fez comigo. Então... Quando o encontrar, dê este recado.

Kamenashi o viu tirar o cinto também e se inclinar em sua direção. Não foi veloz o suficiente para evitar o beijo. Yamapi se afastou somente um pouco e disse:

– Eu o amo. – seus olhos castanhos observaram as faces rosadas de Kamenashi com certo ar de superioridade – E farei tudo para ficar com ele. Tudo.

Era incrível aquele amor. Era forte, impulsivo e decidido. Era mesmo o amor de uma montanha. Kamenashi se sentiu ridículo, inferior, pequeno... Sentiu-se humilhado e derrotado. Poderia competir com um amor como o de Yamashita? Apenas foi capaz de manter um mínimo de orgulho e dizer:

– Eu darei o seu recado.

Desceu do veículo e bateu a porta.

4

Foi recebido com uma grande bronca, e também com muita comida, que ele devorou com muita satisfação após um bom banho. Agora se sentia completamente sonolento para contar qualquer coisa para Nakai, que concordava que o rapaz precisava de um bom descanso.

Dormiu por um dia e meio e só acordou por causa de seu braço, que doía absurdamente. Para a sua sorte, o editor tinha sido atencioso o suficiente para ter comprado os remédios que precisava e, depois de tomá-los, estava sentado na cozinha com Nakai. Molhou um pedaço do pão no leite e seu estômago novamente faminto agradeceu.

– Coma pouco e devagar. – Nakai aconselhou. – Daqui a pouco vou preparar o jantar.

– Está certo.

– E agora... O que diabos foi tudo isso?

– Eu também não faço a menor ideia. Na verdade, tenho algumas hipóteses, mas... Foi mesmo algo muito esquisito tudo o que aconteceu.

– Aquela vadia envolvida com a Yakuza? Sabia que ela não prestava, mas nunca imaginei que fosse tão perigosa... Me pergunto se Takuya sabia sobre isso. Ele sabia que ela tinha um amante. Se for mesmo Nishikido, teremos mais alternativas para o crime. Agora pode ter sido apenas um crime motivado pelos negócios da Yakuza.

– Não acha que pode ter sido passional? Digo... Nishikido o matou para deixá-la livre?

– Isso seria romântico demais. – Nakai riu – E não parece combinar com Nishikido. Talvez o contrário pudesse ser verdadeiro. Ela se livrar do marido para ficar com o amante, mas não teria razão. Takuya sabia e não se importava. Na verdade, ele desejava que ela fosse tão feliz quanto ele estava sendo com Akanishi.

Kamenashi sentiu seu estômago revirar, mas controlou o seu desgosto. Nakai não estava prestando muita atenção ao rapaz, não percebeu a sua expressão contrariada. O editor estava perdido em seus pensamentos, absorvendo as informações que Kamenashi havia lhe passado.

– E sobre o ataque a Nishikido? – Kamenashi questionou.

– A polícia prendeu alguns. Peixes pequenos, é claro. E essa foi a resposta de Matsuoka para o ataque a Casa de Show. E é claro que a Nishikido-gumi não vai engolir essa afronta ao herdeiro. Puxa, mas que encrenca!

– Não é? De repente, a máfia está em caos... O equilíbrio estabelecido pelo contrato de não agressão foi totalmente dissolvido.

– Un... Em todo caso, Kamenashi-kun, descanse mais um pouco. Mais tarde vamos à polícia informar o que descobrimos.

– Está bem... Anooo... Nakai-san?

– Hai?

– Será que eu poderia ter uma visita com Akanishi?

– Não vejo problemas... – mas Nakai o olhou desconfiado.

–... A sós?

–... Se é o que você quer. Não vou perguntar a razão disso, mas desconfio... – e ele estreitou os olhos ao dizer isso. – Ah-ah... Parecem que os homens ficam todos tolos quando conhecem Akanishi... – foi seu último comentário e depois se levantou para lavar a louça.

Kamenashi sorriu curto, envergonhado.

5

No dia da visita, Kamenashi despertou antes do horário programado em seu celular para tocar. Levantou-se da cama, banhou-se, vestiu-se e foi para a cozinha tentar enfiar algo em seu estomâgo. Comeu pouco, estava ansioso. Finalmente iria rever Akanishi Jin.

Depois de tudo o que tinha acontecido, eles finalmente estariam frente a frente. Akanishi continuaria a mentir, Kamenashi estava preparado para isso. Na verdade, ele não tinha certeza do que queria com aquela visita. Ele podia simplesmente entregar a foto de Jin e as informações sobrea viúva Kimura para Shibutani investigar o álibi de Akanishi. Eles não precisavam se encontrar, não precisavam mais manter contato.

Mas ele desejava o contato. Queria ver Akanishi de novo. Ouvir sua voz, sua risada. Ser alvo daqueles olhos misteriosos, ora arrogantes, ora infantis. Apenas queria estar com ele mais uma vez.

Olhou para o relógio. Ainda era cedo para sair de casa. Então decidiu telefonar para Nakamaru, que atendeu sonolento e irritado.

– O que você quer?

– Notícias do Koki. Você estava dormindo?

–... O que você acha? – resmungou – O Koki ainda não consegue ficar muito tempo acordado. Os remédios ainda estão com dosagens altas. Mas já conversei com ele... É claro que ele ainda está muito confuso, não diz coisa com coisa, mas são efeitos previsíveis. Um dia, entre seus delírios, chegou a dizer que era o Homem-Aranha. Você sabe, ele adora histórias em quadrinhos. Chegou até mesmo a dizer que era o líder indicado da Yakuza e que deveriam respeitá-lo. Falava sozinho, com ninguém. Ou falava com alguém invisível, vai saber. Em todo caso, os médicos disseram que ele está reagindo muito melhor do que esperavam, então não precisa se preocupar. Mas no momento em que ele pareceu mais lúcido, perguntou por você, Kame.

– Vou visitá-lo em breve. Que bom que ele tá se recuperando bem. Né, Maru? Ele já sabe que a sua visão...

– Não. Quero dizer, é claro que ele não vê nada, mas ainda não podemos lhe contar sobre a sua real situação. Em todo caso, ele ainda não perguntou tão pouco. Koki sempre foi forte, sempre preferiu sofrer em silêncio... Você sabe como ele é.

Kamenashi disse que sim, sabia realmente como era seu amigo. Koki podia estar sob os efeitos do remédio, mas, se ele percebeu que algo estava errado com sua visão, ele não reclamaria sobre isso.

Encerrou a ligação pouco depois e decidiu sair de casa. Decidiu ir de metrô, assim ocuparia mais o tempo para conseguir chegar no horário marcado. Durante o caminho, não conseguiu deixar de pensar em Akanishi. Eram os mesmo pensamentos desde que soube da sua prisão. Como ele estaria? Imaginava que, devido a sua personalidade, deveria estar amuado como naqueles dias em que esteve doente. Devia estar se sentindo solitário. Estaria se alimentando direito?

Essas preocupações eram involuntárias e o jornalista tratava de afastá-las quando se lembrava de como foi usado pelo rapaz. E então outras perguntas ocupavam a sua atenção. Akanishi não sentia absolutamente nada por ele? Teria se arrependido por tê-lo enganado? Até onde foi somente uma farsa.

Foi somente uma farsa?

Depois da melancólia, a raiva voltava. Tinha sido enganado, usado e jogado fora. Mas a raiva só era tão intensa porque sabia que desejava que tudo o que tinham vivido fosse verdade. Porque queria que em algum momento Akanishi o tivesse amado.

6

Há dias estava tendo pesadelos e não conseguia dormir direito. Akanishi estava mais magro, pálido e abatido. Acreditou que tudo seria mais fácil se ele se entregasse. Seria condenado e pagaria pelo crime. Não esperava que o processo fosse tão demorado. Não agüentava mais responder as perguntas daqueles policiais cretinos que não aceitavam sua confissão como prova suficiente para levá-lo a julgamento. Não agüentava mais a solidão, preenchida com as lembranças de seus momentos com Kimura, o que apenas o fazia se sentir pior. A tristeza pela sua ausência se tornou maior e insuportável agora que estava sozinho.

Estava definhando. Dia após dia, um pouquinho mais a cada hora, ele estava sendo destruído lentamente. Mas seu propósito ainda era firme. Ele recusou a visita de Yamapi, mesmo que sua vontade em vê-lo fosse enorme. Sabia que se o encontrasse, seria facilmente convencido por ele a desistir de seus objetivos.

Koyama o visitava quase todos os dias e era o momento em que ele podia sentir algum conforto e tranqüilidade. Quando ele parava de pensar em seu passado. O amigo de Yamapi havia se tornado o seu ponto de sobriedade. Era quando ele se lembrava da sua decisão e recuperava a sua certeza de que fazia o que era certo.

Ele tinha se esquecido de Kamenashi. Perdeu-se em sua própria dor depois que soube que o jornalista estava bem. O trancou fundo em sua memória. Bastava suas dores com Kimura para lhe perturbar. E, no entanto, seu coração bateu mais rápido quando anunciaram a sua presença.

– Kazu? – murmurou e deixou um sorriso involuntário aparecer em seus lábios quando se lembrou dos momentos com o jornalista.

A porta foi aberta e ele entrou. Estava lindo e estava bem, o rosto redondo e corado. Um braço quebrado não era nada para quem tinha sido envolvido na briga entre as duas principais famílias da Yakuza da região. Ele estava vivo e era o que importava. Jin não tinha percebido que sentia saudades até o momento em que o reviu.

Foi um disparo em suas lembranças. Veio-lhe à mente as risadas, os beijos, os toques, o mau humor, as caretas, as broncas...

Kamenashi estava ali e ele estava bravo. Muito bravo, Akanishi soube assim que notou os lábios franzidos e as sobrancelhas unidas. E isso fez o rapaz se levantar de um pulo da cama.

– Kazu!! – ele disse com bom humor – Quanto tempo! Você está cuidando do nosso filho direitinho? Não brigue quando ele fizer xixi fora do lugar, lembre-se de alimentá-lo e não vá correr com ele na chuva e...

O punho fechado de Kamenashi o atingiu bem em sua boca. Akanishi cambaleou alguns passos, levou a mão à boca atingida, os olhos arregalados de dor e susto. O jornalista abaixou o punho, a mão ainda fechada com força, ele tentava controlar a sua vontade de agredir o outro rapaz de novo. O seu rosto estava voltado para baixo, seus olhos preferindo fitar os próprios pés quando disse:

– Você apenas me usou, não foi?

Akanishi não respondeu. Ele sempre se esquecia daquilo que ele não gostava. Takuya viva o acusando disso. Ele ignorava e passava por cima do que lhe provocava algum mal estar. E ele não queria discutir sobre aquilo. Era um assunto complicado. Sim, ele tinha usado o jornalista. Não considerou os sentimentos de mais ninguém depois que Takuya morreu. Na verdade, ele nunca realmente considerou os sentimentos de alguém além dele próprio. Não era algo de que ele se vangloriava. Sua consciência sempre o recriminava sobre isso, mas sempre o fazia quando já era tarde demais. A sua consciência protestou sobre o que tinha feito ao jornalista depois que suas vidas já estavam misturadas. Quando já não havia mais volta...

– Apenas se aproximou porque sabia que eu estava envolvido no caso Kimura. Que eu investigaria esse crime...

–...

– Você apenas queria as informações que eu obteria, não é verdade?

–...

–... Você sentiu alguma coisa? Enquanto dormia na minha cama? Você sentiu alguma consideração?

– Gomen... Kaz... Kamenashi-san. – ele disse, a voz fraca, constrangida e chorosa – Gomen. Eu realmente não tenho nada contra você. Foi apenas necessário e a única forma que eu... Que eu encontrei para acompanhar as investigações... Gomen. Kamenashi-san é uma boa pessoa e eu... Teria me apaixonado se fosse uma situação diferente.

Jin lambeu os lábios, sentindo o gosto metálico do próprio sangue, e tentou sorrir. Um sorriso curto, mas sincero. E ele voltou para a cama. Sentou-se, ainda com a mão na boca.

– Eu realmente sou grato por tudo o que Kamenashi-san fez por mim. – ele afirmou. – E pelos momentos que passamos juntos. Eu tinha meus objetivos, mas eu realmente fui feliz. Sim, eu fui feliz com Kamenashi-san, ainda que não da forma que deveria ter sido. Receber o carinho de Kamenashi-san realmente aqueceu o meu coração... E eu estava precisando desse conforto... Por isso, arigatou ne...

Ele riu e coçou o nariz com o indicador. Notou um movimento brusco de Kamenashi, que vinha em sua direção. Acreditou que fosse apanhar novamente e fechou os olhos automaticamente. Mas apenas foi abraçado. Ficou surpreso em sentir esse calor novamente, o rosto do jornalista deslizando pelo seu, escondendo-se em seu cabelo, aspirando ao seu perfume. Era confortável e agradável tê-lo tão próximo.

Os dedos da mão boa de Kamenashi tocaram o rosto de Jin e desceram até sua nuca. Akanishi fechou os olhos quando o jornalista o puxou para o seu peito. Permaneceram assim, abraçados, em silêncio.

Jin percebeu, então, o quanto tinha sentido falta disso. Sentiu-se protegido novamente ali nos braços do jornalista. Como se nada mais existisse além daquele conforto. Não existisse nada além deles dois, não havia um mundo em que Jin tinha responsabilidades a assumir, não existia a prisão, não existia o crime. Não existia o remorso, nem as lágrimas, nem as dores... Mas o cansaço continuava. Estava tão cansado que aquele simples gesto de conforto o fez relaxar e o sono começou a lhe vencer.

– Eu vou te tirar daqui, Jin...

Ouviu vagamente aquela afirmação. Sorriu, contente. Naquele momento acreditou que isso era algo possível. Teria sua liberdade de volta e seria cuidado por Kamenashi. Ele afastou o sono e se endireitou na cama, ainda sorrindo.

– Arigatou.

Eles se olharam. Havia carinho de ambas as partes, embora nos de Kamenashi houvesse algo de confusão também por conta daquele agradecimento.

– Agora eu tenho um novo sonho. – Jin explicou. – Vou imaginar outra realidade em que eu tivesse conhecido Kazu antes de qualquer outra pessoa. Se tivesse sido assim... Onde estaríamos agora? Aonde Kazuya ia querer morar? Eu não quero morar no Japão e nem nos Estados Unidos. Não, eu quero uma história bem diferente.

– Eh?? Do que diabos você tá falando? – tentou fingir uma irritação, mas não foi capaz de evitar o riso, afinal, estava diante de novo do Jin bobo e sonhador.

– Pode ser na Itália?

– Se for para ser na Europa, talvez Paris... – ele inclinou o rosto para o lado, pensativo.

– Ehhhh... Que romântico! Já sei! Viveríamos na Itália e Paris seria o nosso refúgio!

– Refúgio?

– Sim, vamos precisar de um. Um lugar onde eu pudesse te seqüestrar para te afastar do seu trabalho. Porque sei que imaginar que você não seja um workaholic insensível é pedir demais até mesmo para a minha mente! – ele disse e observou o outro formar um bico contrariado – Mas tudo bem porque alguém tem que manter a casa, não é?

– E ainda vai viver sob as minhas custas... Você é muito folgado!

– É só uma brincadeira, você não precisa ficar bravo de verdade, que coisa!

– Você e essas ideias malucas...

–... Você não precisa me tirar daqui, Kazuya. – ele disse, repentinamente voltando a falar sério – Eu me entreguei por vontade. Eu quero pagar pelo meu crime.

– Você não o matou. – disse com uma conviccção que surpreendeu a si mesmo.

O susto tomou o rosto de Jin por um instante, mas depois ele sorriu.

– Por que diz isso quando eu mesmo estou confessando?

– Você não seria capaz disso.

– E por que não? O que você sabe sobre mim, afinal?

Kamenashi tentou encontrar um traço no rosto de Jin que indicasse que ele estivesse mentindo. Não encontrou nada porque Jin estava certo. Ele não o conhecia tão bem a este ponto. Eles não se conheciam há muito tempo e, afinal, o que ele realmente sabia sobre Jin que não fosse o que o rapaz inventou ou permitiu que ele conhesse? E como separar o que era o Jin real do que foi construído para seduzi-lo e roubar suas informações? Isso, contudo, não era importante neste momento.

– Você pode ter premeditado seus planos muito bem... – ele disse, sem desviar o olhar dos de Jin – Mas você não podia prever as minhas ações... E eu espero... Não... Eu sei. – e foi tomado por uma confiança talvez excessiva – Eu sei que você não foi capaz de ser totalmente indiferente a mim... Mesmo que eu seja uma das pessoas mais dificil de se apaixonar... Você não pode te sido sempre indiferente... E, em alguns momentos, por descuido ou por ter se sentido à vontade, eu quero acreditar que em alguns momentos... Você foi sincero... Você foi, não foi?

–... Kazu...

– Esqueça, você vai mentir de qualquer jeito. O que importa é que eu convivi com uma pessoa que, ainda que tenha seus defeitos irritantes, ainda que tenha sido mimado e egoísta em muitas oportunidades... Tenha sido atrapalhado, folgado e insolente...

– Né? O tempo de visita é curto, você pode ir logo ao elogio! – Jin sacudiu a cabeça para incentivá-lo.

–... Apesar de tudo isso o Jin que eu conheci foi capaz de sair na chuva, de forma irresponsável e idiota, por causa de um filhote...

– Isso não foi bem um elogio... – resmungou, com um pequeno bico.

– O Jin que era atencioso o suficiente para tomar banho em casas públicas antes de entrar na minha...

– Eh? Como você sabe? – piscou abobalhado.

– Encontrei as notas fiscais quando fui lavar suas roupas.

– Ah, droga! – levou uma mão à nuca, sem jeito: – Eu sempre me esqueço de tirar dos bolsos! Mas continue, continue!

– Aquele Jin que me comprou uma camiseta do meu time de basebol e até mesmo me deu um ‘filho’... É nesse Jin que eu prefiro acreditar quando digo que não é capaz de matar outra pessoa.

– Kazu... – Jin o olhou emocionado.

Talvez uma emoção exagerada, mas justificável para alguém com o espírito que Akanishi se encontrava naquele momento. Além dos dias trancafiados naquela cela e com todos os pensamentos torturosos a lhe fazer companhia, o passado mais distante de Akanishi também não era dos melhores. Ele podia contar nos dedos quantas pessoas realmente se importaram com ele desde que pisou no Japão. Takuya e Yamapi. E agora Kamenashi.

Das outras pessoas ele só conheceu o desprezo, abusos e maus tratos. Ninguém confiaria em um puto, mesmo que de luxo. Ninguém dispensaria um mínimo de atenção, se não estivesse pagando pela sua companhia. Na verdade, mesmo pagando, seus clientes queriam atenção para si e não oferecer aos outros.

Kamenashi estava confiando nele quando nem mesmos seus pais seriam capazes disso. Depois de tê-lo enganado, depois de confessar um crime, mesmo sendo alguém que vende o corpo para ganhar dinheiro... O jornalista tinha passado por cima de tudo isso e queria acreditar em sua inocência. Jin não podia ficar indiferente a isso.

– É por isso... É por esse Akanishi que eu sei que você não é um assassino. E eu vou te tirar daqui.

– Por favor, não faça nada... – ele implorou. – Eu... Adoro você. De verdade. Estou muito feliz com tudo o que tem feito e o que pensou em fazer, mas... Chega. Não faça mais nada. Não tente me tirar daqui. Você só vai se decepcionar...

– Eu sei que vou.

E Jin ficou ainda mais confuso com aquela resposta.

–... Você está fazendo isso por ele, não está?

– D-do que... Do que você está falando?

– Yamashita.

– O que... O que ele tem a ver?

– Ele se entregou como assassino.

Notou, então, que o outro ingorava esse fato e ficou comovido com a expressão que tomou conta de Akanishi. Um misto de alarde, espanto e preocupação. Ele mordeu os lábios com força e diversas vezes.

– Por que... Não. Ele não devia ter feito isso.

– Você se entregou para protegê-lo, não foi?

Jin virou o rosto em sua direção, o rosto pálido, os olhos agitados.

– Você sabia que Yamashita era o assassino e quis protegê-lo. Porque você fez isso Jin? Kimura não era o homem que você amava?

Ele sacudiu a cabeça, agitado. E depois agitou uma mão, negando enfáticamente.

– Não. Não, não! É o contrário! É o contrário! Yamapi está fazendo isso para me proteger... Ele é inocente!! Eu sei que ele é inocente! Isso é culpa dessa demora... Se tivessem me condenado mais rápido nada disso... Merda!

– Jin...

– Kazuya! Você tem que ajudá-lo!

O jornalista teve a gola de sua blusa agarrada com brutalidade. Jin estava desesperado.

– Por favor, eu te imploro. Por mim... O que você ia fazer por mim... Faça por ele. Tire-o dessa situação. Ele é inocente! O culpado sou eu! Eu!

Kamenashi levou suas mãos às dele para soltá-las de sua camiseta. Falou baixo, com a voz serena.

– Acalme-se, Jin... Não é como se ele pudesse ser julgado amanhã e condenado à morte no mesmo dia. Fique calmo! Primeiro, como há duas confissões, a investigação vai continuar. Quando finalmente o culpado foi descoberto, aí sim teremos o julgamento. Não se afobe desse jeito. – e ele sorriu. – E não se preocupe. Yamashita tem um bom advogado. O advogado da família Nishikido.

Pode ver novamente a expressão confusa de Jin.

– A Nishikido-gumi? Mas porque...

Ele se calou. Ele já tinha cogitado o envolvimento de Yamapi com a máfia assim que soube da briga entre as famílias que resultou no braço quebrado de Kamenashi. Mas ele tinha pensado que o amigo tinha incentivado Matsuoka a atacar. Porque agora ele estava com a família Nishikido? As ações de Yamapi estavam ficando cada vez mais obscuras e Jin sentiu medo. Medo do que essa distância entre eles poderia significar... Medo de que estivesse perdendo Yamapi...

Kamenashi sorriu de canto, como se tivesse percebido algo. Akanishi o olhou para ele e o jornalista manteve a expressão serena.

– Akanishi, eu tenho um recado do Yamashita para você...

– O que é?

Rápido, ele tomou o rostou de Jin e o beijou. Quando se afastaram, o jornalista se manteve próximo para encarar o rapaz e disse:

– Eu te amo... E farei de tudo para ficar com você...

Notou que Akanishi prendeu a respiração e o olhava com os lábios entreabertos.

– Essas são as palavras de Yamashita. – disse, enfim.

Atônito, Jin nada disse. Kamenashi, então, o beijou na testa e se despediu. De costas para Akanishi, seu rosto se tornou mais duro. Tinha compreendido os sentimentos de Jin. Agora ele tinha certeza de que o rapaz era inocente.