O assassino do Cantor
16 Capítulo 16
Capítulo dezesseis
1
Ele estava com uma faixa ao redor dos olhos e seu rosto estava inchado. Deitado em uma cama e com tubos enfiados em seu corpo, aquele não parecia ser o seu amigo. Aquela visão foi um choque para Kamenashi Kazuya, do lado de fora do quarto, observando através do vidro.
– Não se preocupe, a cirurgia foi bem sucedida.
Nakai estava ao seu lado. Seu editor estava sendo um grande apoio desde que Kamenashi recobrou a consciência no hospital e ele estava grato por isso. Mas, naquele momento, de que importava a Kamenashi saber que a cirurgia foi bem sucedida enquanto Koki não acordasse? E, depois disso, como seria?
– Ele vai recuperar a visão parcial do lado esquerdo. E, mais para frente, poderá fazer uma nova cirurgia para tentar recuperar a visão completa. Já o olho direito...
– Ele perdeu para sempre, não é?
– Un...
– E os ferimentos internos?
– Nada grave. Ele estava com muitos cortes por todo o corpo, mas não foram profundos. Parece que a Nishikido-gumi invadiu o lugar pouco depois de eles arrancarem seu olho direito. Foi torturado em outras partes dos corpos, mas não foram fundos, eles não queriam que ele morresse rápido. O processo do olho esquerdo foi interrompido quando os homens de Nishikido chegaram ao local. Por isso foi possível recuperar. Já o olho direito, durante a confusão, ele se perdeu em algum canto daquele armazém ou alguém o pegou.
Kamenashi entendeu a situação. Era alguma espécie de glória para o inimigo ou uma espécie de homenagem para o aliado manter algo do inimigo ou aliado torturado. Ainda que para o jornalista a ideia de guardar um órgão fosse esquisita demais.
– Alguma ideia do motivo dessa guerra? – perguntou, notando que sua voz saiu mais rancorosa do que pretendia.
Nakai cruzou os braços e, com a voz ainda mais séria, e também cansada, explicou a Kamenashi.
– A Nishikido-gumi teve uma operação fracassada por causa de um delator. Você deve se recordar dessa operação. – Kamenashi se lembrava, foi por causa dela que Koki se manteve escondido por alguns dias – Há rumores de um traidor dentro da Nishikido-gumi. Já existia essa tensão entre essas famílias recentemente. Para tentar consertar o prejuízo da operação, parece que Nishikido estava assediando os clientes de Matsuoka.
– Entendo. – Kamenashi assentiu, tentando se manter calmo, mas sua mente estava agitada, pensando em todas as conseqüências daquela situação e teve medo da sua próxima pergunta. – E como vai ser a partir de agora?
– É claro que a Nishikido-gumi vai revidar. – respondeu Nakai sombriamente.
A guerra tinha começado, afinal. Os dois jornalistas trocaram olhares preocupados.
2
– Assim que o estado de saúde de Koki estabilizar, eu quero que o tirem de lá. Não o quero em um hospital dos tiras. Se você não é capaz de resolver isso para mim, sem problemas. Peço ajuda ao velho.
A pessoa do ouro lado sabia o que significava quando Ryo mencionava seu pai e imediatamente afirmou que não existiriam problemas em transferir Tanaka Koki para o hospital da família. Ryo sorriu, satisfeito e encerrou a ligação. Pouco depois, Ikuta Toma bateu na porta e entrou.
– Yamashita quer falar com você, aniki.
– Ah, ele quer? – Ryo se recostou na poltrona – Ele já está sabendo sobre Akanishi?
– Sim. E ele quer ir até a delegacia. Consegui convencê-lo a conversar com você primeiro. Ele sabe que a situação lá fora será pior sem a sua proteção.
– Sim. Ainda não fizemos nossa principal jogada, que será o ataque a Casa de Show, mas é questão de dias para Matsuoka e Nagase descobrirem quem nos forneceu informações sobre o lugar. E a partir daí Yamashita vai ser caçado.
Toma concordou que a situação daquele rapaz não era das melhores e ele não era capaz de entender a lógica de Yamashita. Jogar-se dessa forma contra uma família da Yakuza por causa de outra pessoa. Para ele não fazia sentido esse tipo de amor incondicional. Beirava à loucura e, para um homem racional como Toma, isso era o que ele mais temia.
De qualquer jeito, ele deixou suas opiniões guardadas para si e foi buscar o hóspede. Yamashita entrou no escritório com a mesma expressão de indiferença quando se encontrou com Nishikido Ryo pela primeira vez. Apesar desse tipo de pessoa ser a mais perigosa, pois não é possível prever seus movimentos e pensamentos, prova disso foi a sua traição à Nagase que Yamapi arquitetou usando de Matsuoka e se aliando a Nishikido, mas, ainda assim, Ryo teve uma boa impressão sobre Yamashita. Ele era direto e sabia bem seus propósitos. E agia para alcançá-los.
Ele se sentou no lugar à frente da mesa de Ryo que lhe foi oferecida e esperou.
– Está querendo ir atrás de Akanishi?
– Aquele idiota está mentindo. Não posso permitir que ele continue com essa farsa.
– Farsa? A que se refere?
– Ao assassinato do Kimura.
Ryo ergueu uma sobrancelha e analisou atentamente aquele rosto indiferente. O que Yamashita pretendia com aquela declaração, Ryo questionava-se internamente. Achou melhor fazer a pergunta com cautela.
– E como Yamashita-san tem tanta certeza de que se trata de uma farsa?
– Porque Jin não matou Kimura. Não foi ele. Ele não seria capaz.
– Compreendo a sua dedicação ao seu amigo, mas ele confessou o crime. E contou detalhes, pelo que eu pude descobrir.
Yamashita se calou, mas não pareceu abalado com aquela informação.
– De qualquer forma, o que pretende na delegacia?
– Preciso conversar com Jin.
– Acredito, pelo que nos contou sobre a relação de vocês, de que ele está fugindo de Yamashita-san, que ele vai se recusar a encontrá-lo.
– Se for assim, então, eu me entrego.
– Você... Se entrega? – Ryo compreendeu menos ainda aquelas palavras.
– Sim. Porque o assassino de Kimura sou eu, afinal de contas. – e a sua declaração foi muito tranqüila.
3
Subaru repassou com Okura as informações que Akanishi tinha fornecido naquele primeiro interrogatório enquanto seguia pelo corredor da delegacia até a sala deles. O rapaz estava muito enganado se pensava que seria poupado de outras narrativas. Criminosos não recebem compaixão e ainda havia muitos pontos a serem esclarecidos.
– Agora temos que conversar com Taguchi. – Okura avisou, andando ao seu lado – O que achou de Akanishi ter se entregado?
– Não sei se ele é o culpado ou não. Pode ser, por que ele sabe as circunstâncias do crime. Mas ele está mentindo.
– Eh?? Por que você acha isso?
– Porque ele afirmou que ficou sozinho com Kimura naquela noite. Mas ele não sabia que Inagaki foi se encontrar com o cantor pouco depois das 21h. Se o que Akanishi disse fosse verdade, ele deveria saber disso, certo?
– Mas... Você suspeita de Inagaki?
– Não. Ele é inocente.
– Como tem tanta certeza? – Okura se sentiu como se não estivesse acompanhando o mesmo caso que Subaru. E isso acontecia com freqüência desde que passaram a trabalhar juntos.
– Quando conversamos da última vez sobre o horário do crime, ele se atrapalhou.
– Isso quer dizer que ele estava mentindo.
– Sim, ele mentiu sobre o horário.
– Então... Eu não entendo. – Okura admitiu, parado na porta da sala, enquanto Subaru se dirigia à mesa.
– Ele mentiu quanto a não ter ido até o local do crime. Mas a prova da sua inocência é que, se ele fosse o assassino, ele saberia o horário da morte. E saberia que eu estava jogando horas falsas. Na verdade, ele teria forjado um álibi mais próximo da 01h e não apenas próximo das 21h. Ele quis esconder que se encontrou com Kimura. E não que o matou. E porque uma pessoa não iria esconder que matou? Simplesmente porque é inocente. Pelo menos em relação à morte, eu quero dizer.
– Eu... Não estou tão certo quanto a isso... – disse vagamente, sentindo-se perdido nas explicações de Subaru.
– Pra resumir... Inagaki não sabia a hora da morte. Isso prova a sua inocência. Ele mentiu sobre as horas porque queria esconder o encontro com Kimura.
– E porque ele mentiu sobre o encontro com Kimura?
– Isso nós vamos descobrir quando o interrogarmos com as gravações de que ele esteve no local do crime. Agora, nosso foco é outro. Taguchi Junnosuke. Ele era o policial que estava guardando a cena do crime quando o jornalista conseguiu invadir e encontrou a pista plantada.
– Certo. Era ele. – Okura confirmou e foi até o armário. Pegou uma pasta: – Aqui está a ficha dele.
Já sentado em sua mesa, Subaru pegou a pasta que o mais novo entregava. Abriu e encontrou uma ficha com a foto de Taguchi presa à folha por um clips. Era um rapaz alto, com um bom porte e um rosto ingênuo. Tinha as melhores referências da corporação e vinha de uma família com renda considerável. A hipótese de suborno era pouco provável.
– Alguma chantagem? – Subaru ponderou.
– É um caminho que podemos investigar depois, mas não acho que seja necessário. Taguchi é do tipo honesto, deve ter tido um motivo que ele julgou importante para ter cometido esse delito. Só que agora deve estar sendo totalmente consumido pela própria consciência. Só vamos precisar pressioná-lo um pouco.
Subaru sorriu de canto.
– Deixa comigo, então.
– Onegai shimasu! – e ele se curvou levemente.
– Como sempre, o trabalho sujo fica pra mim...
– Eu não tenho a sua personalidade fria para isso. – ele riu.
– Mas ter ideias, vocês tem. – recriminou – Certo, vamos lá.
4
Nakamaru abriu a porta do apartamento e eles entraram. Foram poucos dias, mas, Kamenashi se sentia como se há meses não estivesse ali. Ele recebeu alta em dois dias depois de despertar, ainda sentia dores, mas não era mais necessário ficar sob observação. A única coisa que incomodava era ficar sem escrever por um bom tempo. Suspirou.
A sua atenção logo caiu sobre Akame, que veio correndo do seu quarto – o que ele estava fazendo em seu quarto? Kamenashi esperava que não tivesse sujado o local ou acabado com algum sapato seu – para recebê-lo. Ele se agachou para o cãozinho, gemendo um pouco de dor com o gesto, e deixou que Akame lambesse sua mão boa.
– Parece faminto, Nakamaru cuidou bem de você esses dias?
– Owe! Claro que sim! Aliás, quem precisa se alimentar agora é você... Vou preparar algo.
– Un. Valeu, Maru.
Viu o amigo sumir pela porta que levava a cozinha. Agradecia o zelo de Nakamaru, mas, preferia ficar sozinho. Precisava pensar em algumas coisas e queria ler mais uma vez a cópia das declarações de Akanishi. Nakai havia conseguido o documento, ele era mesmo um grande jornalista, e depois de muita insistência da sua parte, o editor deixou que ele lesse o conteúdo.
Kamenashi se acomodou em seu sofá, levemente incomodado com as suas últimas lembranças de Akanishi sentado ali. Aquele sorriso bobo e imaturo. Podia ser mesmo o de um assassino?
Naqueles documentos estava a confissão. Segundo aqueles papéis, ele era mesmo o culpado. Kamenashi não conseguiu encontrar uma brecha em sua declaração que mostrasse que ele estava mentindo. Ele conhecia os detalhes da morte. Como isso seria possível se ele não fosse o assassino?
Havia algo errado. Tinha que ter alguma coisa errada naquela história toda. Ele queria que houvesse algo errado. Mas não parecia que havia. Jin se aproximou dele para acompanhar e atrapalhar a sua investigação. Deveria aceitar isso.
Sacudiu a cabeça. É. Tinha que aceitar e esquecer tudo o que se passou no último mês.
5
Ele estava assustado e Okura sentiu pena de Taguchi. O rapaz era mais alto que Subaru, mas, ele estava mesmo apavorado. Ele devia conhecer a fama do agente, que nunca fracassou em seus interrogatórios e certamente estava calculando as suas chances de continuar mentindo. Ele deve ter percebido que estava encuralado.
Aquela sala era a menor e mais abafada. Taguchi estava suando bastante e suas mãos estavam agitadas, Subaru observou e sorriu. Aquela seria uma presa fácil. Portanto, ele simplesmente esperou enquanto suas palavras surtiam o efeito desejado na mente do policial interrogado.
– Taguchi-san, você mora com sua mãe e uma irmã, certo?
Okura estava sentado na frente de Taguchi, fazendo anotações, enquanto o outro detetive, como de costume, estava de pé brincando com a sua moeda. A diferença era que desta vez ele olhava diretamente nos olhos de Taguchi.
– Soube que sua mãe está doente... Coração fraco, certo? Uma emoção mais forte poderia causar o pior... Mas vou rezar para que nada afete a saúde da sua adorada mãe. E, imagino Taguchi-san que todos os seus atos são baseados no que pode afetá-la ou não. Porque Taguchi-san é um bom filho, não?
– Taguchi-san. – Subaru tomou a palavra novamente quando percebeu que o rapaz continuava indeciso – Será que vale a pena a vida da sua mãe em troca de um crime? Sabemos que você permitiu a entrada do jornalista. Esse crime é pequeno, mas pode estar relacionado com o assassinato.
Pode ver pelo olhar assustado que Taguchi não fazia ideia, até então, sobre a gravidade de seus atos. Subaru explicou sobre a prova plantada.
– Taguchi-san... Isso o tornaria cúmplice do crime. – ele disse – Por isso, é melhor que nos diga quem, além de Kamenashi Kazuya, entrou naquele lugar sem permissão. Essa pessoa pode ser cúmplice do assassinato ou, até mesmo, o próprio assassino. Você compreende, agora, a importância do que fez?
Mordendo os lábios, ele respondeu que sim. E balbuciou:
– E-eu não podia... Não podia imaginar... Ele me disse que era apenas para um jornalista, um amigo dele, conseguir a história da vida. Acesso a cenas de crimes são liberados aos jornalistas, não seria nada demais...
– Ele? Está se referindo a Kamenashi Kazuya?
Taguchi sacudiu a cabeça, nervoso.
– Não, não... A pessoa que me pediu para liberar o acesso a Kamenashi-san. – ele explicou. – E ele é da Yakuza... E, ele não chegou a me ameaçar claramente, as ameaças nunca são claras de qualquer forma... Mas fiquei com medo... A minha mãe e minha irmã... E seria mesmo só alguns minutos para o jornalista e tal...
– Mas essa pessoa também entrou na cena? – Okura inquiriu.
– Sim. – Taguchi sacudiu a cabeça – Ele disse que podia dar uma olhada primeiro para ver se seria necessário a visita do jornalista. Como disse que não descobriu nada, insistiu para que o jornalista visse com os próprios olhos... Poderia não achar nada de importante, mas teria impressões sobre o local que os demais jornalistas ainda não tiveram acesso e já era alguma coisa...
– Taguchi. – Subaru o interrompeu – Quem é essa pessoa?
– Tanaka Koki.
Os policiais trocaram olhares. Tanaka Koki era o braço direito de Nishikido Ryo. Agora estava internado no hospital depois de uma briga entre as duas famílias locais da Yakuza. O jornalista Kamenashi Kazuya estava envolvido na briga e depois visitou Tanaka no hospital, segundo informações dos guardas que estão cuidando para que Nishikido não retire o yakuza do hospital.
Deixaram Taguchi sob o cuidado de outro agente e voltaram para a sala deles. Okura questionando:
– Tanaka Koki é a fonte do jornalista?
– É o que parece. Mas ele implantou aquela prova.
– Então... Ele estava direcionando as investigações do jornalista?
– Sim. Também penso isso. Não podemos deixar que a Yakuza o tire de nós, temos que redobrar o policiamento no hospital. Nishikido pode estar envolvido. Por favor, Tacchon, reveja as gravações das conversas de Nishikido.
– Bah, mas ele só fala com mulheres...
– Identifique essas mulheres.
– A maioria é acompanhante. Esse cara é um sem vergonha!
– Acompanhantes? – Subaru franziu a testa – Por acaso todas elas são da Casa de Chá?
Okura parou de andar e encarou o parceiro.
– Sei que duas ou três são da Casa de Chá, mas, posso confirmar para você sobre as outras. Por que... Você acha que isso é importante?
Subaru não respondeu. Buscou sua moeda dourada e refletiu.
6
Uma vez a cada dois meses, Nagase Tomoya viaja para o exterior a fim de conhecer melhor os gostos dos estrangeiros, estudar as novidades de luxo e conforto, enfim, observar as tendências para melhorar cada vez mais o seu negócio. Neste momento, ele estava analisando uma proposta em abrir uma filial em Paris.
Yamapi conhecia muito bem os hábitos daquele homem. Repassou a informação para a Nishikido-gumi, que aproveitou a ausência do dono da Casa de Show para atacar. Foi um massacre.
Não era do interesse de Yamapi a morte de Nagase. Ele ficaria satisfeito com a destruição daquela casa. Quanto aos demais funcionários, ele também não se importava com nenhum de seus antigos colegas que não fosse Jin.
A noite já tinha começado e os preparativos para a abertura da Casa estavam quase prontos quando sete veículos estacionaram naquela rua. Havia um segurança na porta, mas ele foi alvejado antes que pudesse entender o que estava acontecendo. E a maioria perdeu a vida assim, sem tempo para reagir e, quando perceberam o que estavam acontecendo e começaram a se mobilizar para se defenderem, era tarde demais.
A casa foi destruída e a chacina tomou conta dos noticiários na manhã seguinte.
7
A noite demorou a chegar, na opinião de Kamenashi, e foi somente depois que Nakamaru dormiu em seu sofá, insistindo que deveria ficar acompanhado pelo menos nos primeiros dias, que o jornalista teve a oportunidade para reler o depoimento de Akanishi. Aquela impressão de algo estava errado ainda o incomodava, mas, ele não queria acreditar que pudesse ser apenas a esperança de que Jin fosse inocente.
Ele leu e releu aquele documento sem, contudo, conseguir encontrar alguma brecha. A fadiga o dominou e ele preferiu dormir. No dia seguinte, descansado e mais consciente, ele pensaria em seus próximos passos. Afinal, aquela era a matéria da sua vida e ele a levaria até o final, seja ele qual for.
8
Por mais esforços que Subaru poderia exigir de seus superiores, a verdade é que a corrupção é um inimigo poderoso demais. Assim, dois dias depois, ele teve que engolir a raiva e o orgulho quando soube, logo cedo, que Tanaka Koki, em uma suposta piora de seu estado de saúde, foi transferido para outro hospital para receber o tratamento adequado. É claro que era o hospital da família. Depois disso, ele não se surpreendeu que o nome do rapaz foi apagado do incidente, ao menos, oficialmente.
Ele também teve que se manter muito frio quando se encontrou com Nishikido Ryo no corredor do hospital. O herdeiro da Nishikido-gumi exibiu um meio sorriso quando se aproximou e o cumprimentou com evidente ironia.
– Detetive Shibutani, eu espero que os senhores possam prender o quanto antes o responsável que feriu meu primo dessa forma.
–Tanaka Koki, seu primo? – Okura não escondeu a surpresa.
– Praticamente. O estimo como a um familiar.
– Não se preocupe, Nishikido-san. – Subaru foi incisivo – Se estiver relacionado com drogas, pode ter certeza de que eu mesmo prenderei o responsável. Se não estiver, outra equipe igualmente competente vai se encarregar do caso.
Eles se olharam, Nishikido ainda sorria, Subaru retribuiu o sorriso. A despedida do breve encontro foi igualmente carregada de ironias. Quando o herdeiro se afastou, Okura pode questionar seu parceiro:
– E agora?
– Bem. Não poderemos interrogar Tanaka Koki tão cedo. – ele disse – Mas tudo bem. Vamos mudar nosso alvo. Vamos ter finalmente a nossa conversa com Inagaki Goro. Enquanto isso continue ouvindo as gravações daquele sujeito.
– Ainda?? Mou~... Eu já não disse que ele não fala de outra coisa além de putaria? É só sobre encontros, sexos, posições e um monte de coisas indecentes!
– Seja paciente, Tacchon.
O mais novo suspirou.
– Hai~
9
Koyama sentiu um pequeno calafrio quando entrou na delegacia. Não gostava de delegacias, hospitais e cemitérios, embora entedesse e agradecesse pela existência de cada um deles. Mas isso não tornava mais agradável a sua presença naquele recinto. Foi bem recebido pelo primo de Murakami, que o levou até Akanishi.
– Vocês só tem trinta minutos. – ele informou.
– Tudo bem, é mais que o suficiente. Arigatou, Murakami-san.
O rapaz sacudiu a cabeça, dando a entender que fazia a pedido do primo, e depois trancou a porta atrás de Koyama.
Akanishi tinha sido avisado da sua visita e estava esperando por ele sentado na cama. Sorriu e o cumprimentou com educação, mas sua aparência abatida era um choque para Koyama, que tinha se acostumado a vê-lo sempre com bom humor e muita energia.
– Você está se alimentando bem?
– A comida daqui é muito boa, mais do que eu mereço. Estou agradecido.
– Você está pálido e magro, Akanishi...
– Isso não vai fazer diferença se eu for condenado à morte, não é? – e ele exibiu um sorriso infantil, piscando ao mesmo tempo.
– Como pode brincar com esse tipo de situação? – Koyama o recriminou – Virei mais vezes. Trarei frutas. E estou procurando por um advogado.
– Diga ao Pi que nada disso é necessário. – ele cortou. – Ele te pediu para vir, não é?
– Não, não pediu. Há muito que não nos falamos, mas, sei que, se ele pudesse, teria me pedido. Mas também estou aqui por mim. Estou preocupado, Akanishi. Você realmente matou Kimura?
– Foi exatamente como eu declarei e os jornais devem ter noticiado.
Koyama exibiu um olhar tristonho e Jin agradeceu silenciosamente a sua consideração. Nunca foram amigos, apenas conhecidos, mas o suficiente para Jin perceber que ele era uma pessoa bondosa e que não podia deixar de se preocupar com quem quer que fosse. Até mesmo com um assassino.
– De qualquer forma, a batalha ainda não está perdida. Talvez você consiga uma redução em sua pena, talvez eles nem consigam provas suficiente para processá-lo...
– Eh?
– Eles ainda estão investigando.
– Porque? Porque eles fariam isso? Eu já confessei! – Akanishi perguntou, incomodado – Eles estão suspeitando de alguma coisa? O que você sabe Koyama?
Koyama hesitou diante de seu nervosismo. Olhou para o rosto aflito de Akanishi e não soube o que pensar diante essa atitude exagerada.
– Bem... Você ainda não foi acusado formalmente. O promotor ainda não abriu processo contra você. Talvez estejam apenas recolhendo mais provas do seu crime.
– Mas eu já confessei...
– Mesmo assim, tudo tem que ser verificado detalhadamente para evitar injutiças.
– Não é injustiça. Takuya está morto e eu estou vivo. Essa é a única injustiça.
O outro não disse nada e apenas fitou a o rosto entristecido de Akanishi. Não tinha nada contra aquele rapaz, além do fato de que seu melhor amigo sempre se arriscava demais por causa dele e isso não era realmente culpa do rapaz a sua frente e sim de Yamapi, por ser cabeça dura demais. Mesmo sendo Akanishi um assassino, Koyama imaginava que tinha sido por causa do desespero de sua situação naquele relacionamento amoroso. Para Koyama, Akanishi não era uma pessoa ruim. Ele apenas tomava as decisões erradas. Sempre. E por isso ele sempre precisava de alguém por perto para tomar conta dele.
10
Após o café da manhã, ele se colocou diante do seu laptop e ficou até ali pouco antes do almoço. Parou apenas para comer novamente e depois voltou ao seu trabalho. Estava revisando suas anotações em seu laptop, por mais que Maru insistisse que ele devesse abandonar aquela história e se concentrar em sua recuperação, Kamenashi não poderia seguir tal conselho. Estava envolvido demais para simplesmente esperar o desenrolar daquela história.
Ele abriu todos os seus arquivos. Releu todas as informações que possuía e estava certo de alguns pontos.
1 – Akanishi era amante de Kimura.
2 – Yamashita foi visto discutindo com Kimura na Casa de Chá.
3 – Yamashita ama Akanishi.
Esses eram os seus pontos. Talvez, Yamashita tivesse assassinado Kimura por ciúme e Akanishi o perdoou por alguma razão obscura e agora estivesse apenas acobertando o amigo.
Kamenashi jogou seus cotovelos sobre a mesa e levou as mãos à testa. Se ao menos ele encontrasse uma brecha de que Jin estava mentindo naquela declaração. Kame fechou os olhos.
– Pense... Vamos... Pense... Se ele for inocente... Se ele for inocente... Existe um álibi. Sim. Existe um álibi. Se conseguir provar que ele não estava na cena do crime... Vamos... Algum índicio de que ele não estava na cena do crime.
Uma mão repousou em seu ombro. Ele olhou com desalento para Nakamaru, seu amigo segurava uma xícara de café com a outra mão.
– Tome, dê uma pausa.
Ele aceitou o café, mas recusou a pausa. Como poderia fazer Nakamaru entender o quã precioso se tornou o tempo desde que Akanishi tinha se entregado à polícia se que o amigo tivesse certeza de que estava louco? Mas devia estar mesmo louco em acreditar que Akanishi fosse inocente.
– Kazuya... Esta história já acabou. – Maru insistia – Pare de se torturar. Não há como Akanishi está protegendo alguém, ele sabia de todos os detalhes da cena do crime. Não está idêntico a todos os detalhes que você teve acesso?
Foi então que o jornalista percebeu o que o incomodava há tanto tempo. Segurou o braço de Maru com força e exibiu um largo sorriso.
– É isso! Sim, é isso!!
– É isso o que, criatura?
Ele não respondeu, apenas pegou de novo o depoimento de Akanishi e depois ele abriu seus arquivos, agora sabendo exatamente a ordem que deveria ler.
– Akanishi teve acesso aos meus dados, Maru. Ele simplesmente disse aquilo que a polícia já sabia. Ele não contou nenhuma novidade. Ele só decorou os arquivos que ele provavelmente leu do meu laptop.
– Kazuya... Você não tem certeza sobre isso...
– Mas Maru, você não entende? É claro que ele sabia exatamente sobre as minhas investigações. É óbvio que ele deve ter consigo acessar o meu computador, porque esse era o objetivo dele afinal, ficar comigo para recolher informações. Assim, não prova nada ele saber dos detalhes do crime.
Maru examinou o rosto animado do amigo e teve pena em desfazê-la, mas não podia deixar Kamenashi eufórico com aquela hipótese porque era frágil demais.
– Ok. Vamos supor que seja extamente isso. Como você provaria?
– Eu sei que não é nenhuma prova concluisva...
– Isso não se pode nem ao menos ser chamado de prova.
–... Mas ao menos vai dar mais tempo para a investigação. Levantando dúvidas sobre o depoimento de Akanishi, não poderão levá-lo a um julgamento, pois existe essa possibilidade dele estar assumindo a culpa por outra pessoa.
– Está certo, está tudo lindo. Mas Kazuya, por favor, passe a considerar a possibiliade de que ele seja realmente o assassino, está bem? Você não pode continuar mantendo esse tipo de sentimento por alguém que pode ser condenado à pena de morte.
Kamenashi estremeceu ao cogitar aquela possibilidade. E depois riu.
– Não precisa se preocupar com isso. Akanishi não é o assassino.
– E porque não?
– Simplesmente porque eu não acredito nisso.
Maru não acreditou naquela resposta. Girou os olhos, tinha que se conformar que seu amigo estava maluquinho.
– Em todo caso, não faça nada imprudente. Agora eu vou chegar até o hospital que transferiram o Koki, você precisa de mais alguma coisa? Quer que eu traga algo?
– Não, não precisa. Apenas me avise se o Koki estiver consciente.
– Tudo bem, avisarei. Vê se agora que chegou a essa conclusão sobre Akanishi descanse um pouco está bem?
– Hai~ okaa-san!
– É isso que eu recebo por me preocupar com você? Ingrato!
Após Nakamaru ir embora e levar os seus sermões e broncas, Kamenashi voltou a se dedicar em Akanishi. Agora que havia mais um indício de que estava mentindo, ele precisava pensar por odne começar a procurar por um álibi para ele. Precisava conversar com Nagase de novo.
11
Kamenashi soube logo o que tinha acontecido ao estabelecimento de Nagase, o qual tinha retornado para o Japão assim que soube do ataque a sua casa noturna. O jornalista entendeu que aquela era a retaliação da Yakuza ao ataque sofrido por ele e Koki, embora não entendesse muito bem porque o alvo teria sido Nagase e não Matsuoka diretamente. Sabia que a Casa de Show era protegida da família Matsuoka, mas, ainda assim, não justificava porque o ataque não foi direto à família rival.
Mesmo estando com muitos problemas para resolver, Nagase aceitou o encontro em um restaurante escolhido por Kamenashi. O jornalista, apesar do medo e insegurança em se encontrar novamente com alguém ligado a Matsuoka-gumi, sabia que não seria alvejado quando a imprensa estava fazendo marcação cerrada sobre a recente briga entre as famílias principalmente porque um colega de profissão foi uma das vítimas do ataque. E não era porque a imprensa é solidária, mas porque prefere reagir antes que se torne o próximo alvo.
A conversa entre eles foi rápida. Kamenashi soube que na noite do crime tanto Akanishi quanto Yamashita estavam de folga e ele não saberia dizer onde estavam realmente. Passou o endereço que eles moravam, mas avisou que certamente nenhum dos dois voltava para lá há muito tempo. Ainda assim, o faro jornalístico de Kamenashi o incentivou a dar uma olhada no local.
O proprietário do imóvel disse que os móveis ainda estavam lá e que Yamashita teria pago o aluguel dos próximos cinco meses, o que demonstrava a sua intenção de retornar.
– O senhor pode dar uma olhada sim... Se o senhor quiser alugar o apartamento, podemos negociar a forma de pagamento, mas, se Yamashita retornar, o senhor vai ter que sair... Porque, afinal, o contrato foi assinado com ele.
Kamenashi continuou com seu personagem interessado em um lugar para ficar e aceitou aquela proposta. O senhor, então, indicou qual era o apartamento e comentou:
– É melhor o senhor se decidir o quanto antes e, se pagar bem, pode ficar com o apartamento. Mas o menino que está lá olhando o imóvel agora fez uma proposta bastante interessante.
Kamenashi franziu a testa e se perguntou quem também estaria naquele apartamento e qual o interesse de tal pessoa?
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