Capítulo quinze

1

Chovia torrencialmente. O barulho das gotas era forte no telhado. Ele gostava desse som, sempre o fazia se acalmar. Enquanto se concentrava nesse som, podia esvaziar sua mente de suas preocupações e relaxar. Não nessa noite. Essa noite era diferente. Por que o seu melhor amigo estava morto. Assassinado. E foi ele quem ajudou a esposa a reconhecer o corpo. Ele o viu pedrificado sobre uma maca fria em uma sala esverdeada. Apenas o lençol escondendo o seu corpo nu. Takuya sempre detestou o frio, preferia o verão. Alguém deveria permitir que ele colocasse um agasalho em seu amigo.

Teve muito a fazer durante o dia. Não teve um momento a sós para poder sentir aquela dor. Ainda estava atordoado.

Nakai retirou de vez a gravata já frouxa, mas não se importou em tirar a roupa ensopada. Jogou-se na poltrona da sala com um copo de uísque. Não podia ser real. Takuya não podia estar morto. Não conseguia digerir essa realidade. Uma realidade em que um de seus amigos não estava presente não deveria existir. Por ser o mais velho, Nakai havia dado como certo de que seria o primeiro a partir. Era um pensamento egoísta, mas se sentia bem por não testemunhar a morte de seus amigos. Até então.

Quando a campainha tocou, de alguma forma, ele já sabia quem era. Sentiu sua tristeza aumentar quando imaginou os olhos marejados daquele menino. Sacudiu a cabeça. Devia confortá-lo. Takuya ia desejar isso. Que alguém pudesse ser o apoio para o rapaz. Pensando assim, reuniu forças e foi abrir a porta.

Os seus olhos estavam assustados. E as lágrimas estavam misturadas às gotas de chuvas em seu rosto molhado. Ele era mais alto, mais jovem e mais robusto, mas, principalmente naquele momento, parecia milhões de vezes mais frágil.

– Nakai-san...

– Entre menino, entre.

– Nakai-san... É mentira. Me diz que é mentira. – implorou.

– Venha, está gelado aí fora. Vamos sentar perto da lareira... – disse, com a voz suave.

– É mentira. É um truque do Takuya, não é? Ele forjou a morte e nós vamos ficar bem agora, não vamos? Vamos fugir para o Ocidente. Podemos morar em Las Vegas. Gosto muito de lá. Não, é arriscado. Minha família poderia descobrir. Podemos morar na Itália?

Nakai sempre apreciou a imaginação de Akanishi Jin. Era por causa dessa fantasia que brotava facilmente em sua boca que ele podia fazer feliz a Takuya. Ele sabia envolver o seu amigo em um mundo caloroso e feliz. Só que agora, essa mesma qualidade, estava lhe provocando uma dor intensa. Nakai sentia como se enfiassem uma mão dentro de seu corpo e apertassem todos os seus órgãos. Não era justo que aquele menino estivesse sentindo tamanha dor. E não era justo que seu amigo não pudesse mais viver aquele amor com Akanishi. Não era justo que seu amigo estivesse morto.

– Me diz que é mentira... Por favor... – e ele limpou a boca com a costa da mão. – Nakai-san!!! – gritou, com mais energia.

– Akanishi... Eu sinto muito...

Ele congelou. Sua mente processando a informação. Mais uma vez. Quanto tempo ele se torturaria até conseguir aceitar o que tinha acontecido? Nakai finalmente conseguiu puxá-lo para dentro de sua casa. O levou até a sala e lhe serviu uísque. Queria pegar toalhas e roupas secas, mas, tinha medo de deixá-lo sozinho. Sabia que Akanishi era alguém que agia pela emoção. Temia que tipo de reação aquela tristeza profunda pudesse causar.

Então, ele ficou ali, sendo o apoio de Jin enquanto ele chorava e chamava pelo nome de Takuya. Sua tristeza era tão grande que Nakai não conseguiu mais segurar as suas lágrimas. E Akanishi parecia não se importar com seu choro, nem em estar chorando na sua frente. Ele queria estravazar a sua dor e aquela era a sua forma. Até suas forças esgotarem e ele cair em um sono involuntário. Já era quase dez da manhã quando isso aconteceu. Então Nakai o cobriu e o acomodou melhor no sofá. E foi dormir. Também dormiu na sala.

2

Quando abriu os olhos, percebeu o quanto estavam inchados. Mas isso não ocupou muito a sua mente, a consciência voltou e a vontade de chorar, também. Takuya tinha partido e o deixou para trás. Jin levou uma mão à testa e puxou seus cabelos, o rosto novamente tomado pelo desespero. Como poderia continuar sem ele? Como poderia viver depois que tinha se acostumado com a sua companhia, o que faria com aquele amor que ainda sentia e sabia que jamais voltaria a ser correspondido?

– Você precisa comer alguma coisa. – a voz sóbria de Nakai o fez olhar para a cima.

– Não estou com fome. Arigatou.

– Akanishi-kun, não é desse jeito que Takuya ia querer te ver...

– Ele não ia querer me ver de jeito nenhum. – respondeu, a voz baixa: – Nós discutimos feio da última vez que nos vimos. – e sua voz se tornou embargada novamente.

Então o desespero de Akanishi estava explicado. Perdeu a pessoa que amava acreditando ser alvo do ódio dela.

– Não seria a primeira vez que ele teria te perdoado... Takuya já não podia viver sem você.

– E como eu vou viver sem ele? – perguntou desolado.

– Simplesmente... Vivendo. Viva por ele, Akanishi.

Nakai se sentou na poltrona e suspirou, cansado e triste. Akanishi ergueu seu corpo, para se sentar no sofá, as pernas em cima do assento para que pudesse abraçá-las e encostar seu queixo em seus joelhos.

– A única coisa que todos nós podemos fazer por ele agora é isso... Mas, mais do que a qualquer um, tenho certeza de que ele deve estar se preocupando com você.

– Não diga isso. Ele amava suas filhas mais que tudo.

– Mas elas ainda têm a mãe. Avós. Uma família. Não estão sozinhas em outro continente, solitárias. Takuya se preocupava muito com a sua tristeza e solidão, Akanishi. Queria sempre estar pronto para confortá-lo. Eu sei disse. Quantas vezes não conversamos sobre como te convencer a sair dessa vida? Ele não queria isso para massagear o ego tendo a sua exclusividade, ou para esbanjar riqueza. Takuya só queria que você fosse feliz. Ele não conseguia compreender... E eu também não, como você pode ser feliz continuando nesse tipo de trabalho.

Jin mordeu os lábios, agradecia a sinceridade do editor. Não tiveram um bom início de relacionamento, Nakai acreditava que ele estava interessado apena no dinheiro de Kimura. Contudo, com o avanço do relacionamento e quando teve a oportunidade de conhecer melhor aquele menino, sua opinião havia mudado e ele se tornou o principal aliado naquele namoro.

Mas Nakai não poderia compreender. Nem Kimura compreendeu. Que ele, Jin, era feliz. Ele tinha sido feliz durante o seu namoro com o cantor. Muito. Intensamente. Mas era uma felicidade que poucos ou quase ninguém entenderia. Porque era uma felicidade extremamente simples. Não precisava de um contexto para ser feliz. Não precisava de um trabalho decente, uma casa, um status. Bastava viver, experimentar, sentir Takuya em sua vida. Era o suficiente. Podia se esquecer da sua tristeza, se estivesse com ele. Podia se esquecer da sua profissão, mesmo que continuasse com ela. Mas agora Takuya não existia mais.

Segurou a coberta com força. Ainda estava confuso demais. A saudade, a tristeza e a dor se misturam à raiva, o remorso e a vingança.

– Nakai-san...

– Un?

– Não posso continuar em frente.

– Akanishi... Não decida nada por enquanto. Todos estão ainda muito chocados com tudo isso.

– Não. Nem agora, nem depois. Meu sentimento será o mesmo. Não será possível seguir em frente enquanto o culpado não pagar pelo seu crime. É assim que tem que ser.

Foi ali que ele tinha se decidido. Um plano havia surgido em sua cabeça.

– Me deixe investigar. Me contrate como seu jornalista. Me deixe acompanhar o caso.

Nakai se condoeu com a sua dor, mas não era possível aceitar tal pedido. No entanto, ofereceu uma alternativa.

– Colocarei o meu melhor repórter investigativo neste caso. Fique tranqüilo. Quem quer que seja o assassino, ele vai descobrir. – ele olhou diretamente nos olhos de Akanishi. – Ele vai descobrir.

3

Ainda se lembrava da convicção de Nakai. Naquela noite, soube apenas o nome do jornalista. Kamenashi Kazuya. Por mais fé que o editor depositasse nesse jovem jornalista, Akanishi não poderia deixar as coisas dessa forma. Queria acompanhar aquela investigação, apenas dessa forma ele se tranqüilizaria. E foi então que decidiu se aproximar de Kamenashi.

O destino ajudou. De alguma forma, Kamenashi havia se interassado nele e isso era algo assombroso, tamanha coincidência. E Jin era romântico o suficiente para se impressionar com esse tipo de coisa. Contudo, estava firme. Seu propósito era acompanhar a investigação.

E atrapalhá-la quando fosse necessário.

Contudo, ele nunca imaginou que tudo se tornaria tão complicado. Agora o jornalista poderia estar morto. E ele não queria isso. Não, era doloroso pensar em sua morte. E Jin não conseguia compreender perfeitamente o motivo dessa dor, mas não queria que Kazuya morresse... Ainda não tinha se recuperado da morte de Takuya e, desconfiava, que nunca seria capaz de superar.

Sacudiu a cabeça. Essa não era a sua prioridade naquele momento. Tinha que descobrir se o jornalista estava morto, ferido ou ileso. Duvidava muito desta última. Mas desejava que fosse a certa.

Vestiu um blusão de moletom e colocou sua touca, mas, ainda assim, vestiu também o capus. Pôs uns óculos escuros e foi para o prédio de Kamenashi. Mais calmo, ele se lembrou da existência de Takahashi. Certamente o dedicado porteiro teria alguma notícia sobre a condição do jornalista.

4

Nagase desligou o aparelho televisor do seu escritório e coçou o queixo, algo de preocupação estampado em seu rosto.

– Feh... Então, começou.

Analisava o quanto aquela guerra afetaria os seus lucros. Além, é claro, do fato de ter perdido seus Hosts principais. Temporariamente, ele esperava. Seria um grande prejuízo, mas, não podia negar aquele favor a Matsuoka, seu amigo de infância e sua ligação com a Yakuza. Tinha a proteção da família, não podia decepcioná-los. E não era muito. Apenas segurou o jornalista e o homem de Nishikido o tempo suficiente para os homens de Matsuoka se posicionarem para capturá-los.

Sobre Jin e Yamapi... De qualquer forma, envolvidos no assassinato do cantor, mesmo que eles fossem inocentes, dificilmente um cliente iria comprá-los. Ninguém quer se envolver em um crime de forma alguma. Então não tinha mesmo importância eles estarem ali ou não.

– Agora... É esperar... – se conformou.

5

Ele não queria se envolver. Nunca quis. Tinha pressentido o perigo sobre aquele caso. E o aconselhou diversas vezes a não continuar. Kamenashi era teimoso, Nakamaru não conseguiu que ele mudasse de ideia. E agora ele era obrigado a se envolver.

Nakai-san correu para o local em que aconteceu a briga e, pouco depois, alguém ligou dizendo ter informações sobre o caso Kimura. A pessoa disse ser Akanishi Jin. Nakamaru tomou o telefone quando o jornalista que conversava com ele repetiu o seu nome em voz alta. Akanishi pedia um encontro. E Maru estava indo até ele.

Ele cobria o caderno policial, mas nunca se envolvia demais nos casos. Preferia apenas descrever as situações. Não investigava o que a policia estava investigando, esperava pelas suas declarações. Só queria viver tranquilamente. E achava que cada profissional deveria ficar em sua área. A polícia investiga, o jornalista compartilha a informação para a população. Sem mais, sem glamour, sem emoção, sem perigo. Principalmente sem perigo.

Ainda estava amaldiçoando mil vezes por estar indo se encontrar com um provável assassino. E não conseguia acreditar que não tinha mandado outra pessoa em seu lugar. Embora não quisesse admitir, no fundo, Maru não queria conversar apenas sobre o caso do cantor. Ele também se preocupava com os sentimentos de Kamenashi. Claro, para isso ter algum sentido, Kamenashi precisava estar vivo. Mas ele não queria pensar no pior.

O lugar que eles marcaram para um encontro era um bar conhecido e movimentado. Akanishi aceitou que ele escolhesse o lugar, mas, ele disse que só se aproximaria quando tivesse certeza de que não teria nenhum truque, que Maru estivesse sozinho. O jornalista aceitou as condições. Por isso, ele ficou sentado na mesa localizado ao fundo do estabelecimento, em um canto quase isolado. Havia mesas próximas, mas, estavam vazias.

Estava fumando o seu terceiro cigarro quando Akanishi chegou. Usava roupas simples e confortáveis e seu rosto era sombrio escondido com a touca e os óculos. E o fato de que ele não sorria também contribuía para essa imagem. Não que ele tivesse motivos para estar sorrindo.

– Yo! – ele o cumprimentou com pouca formalidade.

– Boa noite. – Maru respondeu e indicou a cadeira à frente.

Akanishi aceitou. Pediram bebidas e, enquanto esperavam, Maru notou as mãos trêmulas dele. Akanishi tentava disfaçar segurando uma à outra ou, de vez em quando, brincando rodando o cinzeiro. Como seu rosto era liso, ele parecia mais novo e, nesse quadro, parecia frágil e indefeso. Poderia ser um assassino?

– Cigarro?

Ele agradeceu e pegou um. Nakamaru acendeu para ele. As bebidas chegaram e, após um longo gole, finalmente pode escutar a voz do rapaz um pouco mais alta.

– Nakamaru-san. Eu gostaria de aguardar com você... Nakai-san deve entrar em contato para lhe dizer sobre o estado de Kazu... Digo, Kamenashi-san. Será que você poderia me fazer esse favor? O porteiro do prédio dele não sabia nada... A polícia ainda não divulgou sobre as vítimas. O hospital n informa o estado de saúde dos feridos...

– Sobre isso... O que você realmente sente sobre o Kame? Ele te ama. E você se aproximou por puro interesse. Que droga é essa de se preocupar com ele agora?

– Gomen... Eu nunca quis causar mal a ele... Eu não podia imaginar que isso aconteceria.

– Do que você está falando? O que aconteceu ao Kame... Como você poderia ser responsável? Você também está envolvido com a Yakuza?

Akanishi se calou. Olhou para Nakamaru de forma enigmática. O que estava se passando na mente do garoto de programa, o jornalista não consegui imaginar. Akanishi parecia abatido e isso ficou mais evidente quando ele finalmente tirou os óculos escuros. Seus olhos estavam vermelhos e inchados. Também havia uma cor escura abaixo deles. Não estaria dormindo nem se alimentando direito? Seria remorso? Poderia estar mesmo preocupado com Kame?

– Por favor... Só me deixe esperar com você... E depois...

– Depois?

–... Depois... Tudo vai acabar.

Agora, era só esperar.

6

Tudo era branco e sua vista não conseguiu se acostumar de imediato. Tentou se levantar, quando percebeu que estava em uma cama, mas sentiu dor e seu corpo voltou com um movimento brusco de volta ao colchão. Gemeu.

– Itteee...

Quando a dor amenizou e passou o formigamento em suas costas e braços, ele olhou melhor a sua volta e a si mesmo. Estava em um hospital. Seu corpo estava dolorido, mas, apenas seu braço e sua mão direita estavam imobilizados. Notou que não sentia seus dedos e ficou preocupado, mas, pensou que talvez estivessem quebrados. Ficou confuso, não conseguia se lembrar do motivo em estar ali e porque sentia tantas dores. Vagarosamente, começou a se lembrar.

Kimura. Akanishi. Minami. Yamashita. Nagase. Toyama. Koki.

Koki.

– Koki!!!

A sua voz deve ter saído muito alta, ele não estava muito certo de suas ações, mas a porta foi aberta bruscamente e uma mulher entrou. Uma enfermeira, delicadamente vestida de branco com um casaco azul marinho. E aquele chapéu escondendo parcialmente os cabelos negros.

– Kamenashi-san, por favor, acalme-se. – ela pediu, com uma voz bastante tranqüila, tentando influenciá-lo. – Agora está tudo bem.

– Onde está o Koki? Ele está bem?

Recebeu apenas um sorriso e aquela voz tranqüila repetiu que ele devia se acalmar. Ele ainda insistiu e escutou pela terceira vez o mesmo pedido. Entendeu que estava diante de uma máquina que apenas reproduziria as orientaçõe sabe-se lá de quem, provavelmente do médico ou talvez da polícia.

– Beba um pouco de água, Kamenashi-san. Passou muito tempo desacordado.

Ela apertou um botão e a cama se inclinou para que ele ficasse sentado. Passou um braço por trás da cabeça do paciente e o ajudou e beber o líquido. Estava tão confuso que somente quando sentiu a água que percebeu o quanto sua boca e lábios estavam secos.

– Chega. Tem que ser aos poucos. – ela aconselhou.

Ele voltou aos seus pensamentos, já que a enfermeira não seria capaz de ajudá-lo. Estava em um hospital, estava a salvo. Mas o que tinha acontecido? Como descobriram onde estavam? Koki o mandou apertar aquele número em seu celular. Isso deve ter avisado a Yakuza, a Nishikido-gumi. Será que Koki tinha alguma espécie de localizador em suas roupas, algo tão bem escondido que seus inimigos não perceberam?

Lembrava-se ainda do momento em que eles invadiram o lugar e a briga começou. Foi libertado do grandalhão que o segurava e tentou se aproximar de Koki, mas, em algum momento, alguma coisa o antigiu e ele só acordou agora.

Cada vez mais consciente, os detalhes começavam a surgir. O grito de seu amigo ecoou dentro de sua cabeça. Koki não podia ter morrido. Mas estava sangrando tanto...

– Kamenashi-kun.

A voz conhecida parecia preocupada. Olhou para a porta e viu seu editor Nakai parado ali. Ele estava usando apenas a camisa social e gravata, que estava frouxa. Seu paletó, que estava no ombro, ele jogou em uma cadeira e se aproximou da cama. Seus cabelos estavam desarrumados e ele parecia muito cansado. Cumprimentou a enfermeira, que pediu licença e os deixou a sós.

– Nakai-san...

– Que bom que está bem. O médico disse que os ferimentos foram superficiais. Os exames mostraram também que as pancadas que levou na cabeça não tiveram conseqüências sérias.

– Mas dói como no inferno... – ele resmungou. – E meu braço?

– Quebrado.

– Merda...

– Não se preocupe. Tire uma licença e descanse, você está precisando.

– Não posso perder tempo, Nakai-san. Não posso escrever a matéria, mas posso continuar a investigação e peço ao Maru para digitá-la. Sei lá, damos um jeito. As outras matérias posso repassá-las a outros colegas, mas a do cantor eu preciso terminar de qualquer jeito.

– Não, não precisa. – o editor foi enfático – Não precisa mais. O assassino se entregou.

– Eh??

Kamenashi sentiu sua garganta secar novamente. Seu coração deu um grande pulo e depois disparou.

– Q-quem...

– Seu nome é Akanishi Jin. E ele era o amante de Takuya.

Mordeu os lábios, uma grande onda de desânimo o havia atingido. Estava derrotado, ele percebeu.

7

Aquilo era mórbido, definitivamente. Ikuta Toma sabia que seu chefe tinha algumas manias estranhas, mas, aquela era de longe a mais estranha que ele já tinha testemunhado. Em cima da mesa do escritório de Nishikido Ryo, havia um frasco com um líquido que os conhecimentos de Toma sobre biologia, química ou o que quer seja não lhe ajudavam a identificar o que era. Apenas imaginava que ajudava a manter... Aquilo de uma forma que não pudesse apodrecer.

Nishikido Ryo parecia não se incomodar com as caretas de um de seus principais homens. Na verdade, ele parecia alheio a tudo que não fosse aquele frasco.

Toma deixou de olhar para o frasco e voltou a admirar o homem sentado do outro lado da mesa. Ele tinha suas manias estranhas, mas, era corajoso. E inteligente. E frio. Características que o tornaram um bom líder em um futuro próximo.

– E o nosso hóspede? – finalmente ele pareceu despertar do transe que o mantinha preso ao frasco.

– Ele está dormindo no quarto que Nishikido-aniki indicou. – Toma respondeu – Tomou um banho, comeu um pouco e está dormindo.

– Mais tarde vou conversar com ele. O que acha? Podemos confiar nele? Ele pode estar fazendo jogo duplo.

– Sim, é bem possível. – Toma balançou a cabeça. – Mas eu não acredito nessa hipótese.

– Porque?

– Porque Yamashita odeia Nagase. É compreensível que ele esteja querendo se vingar.

Nishikido franziu a testa. Então Toma lhe contou sobre suas investigações. É claro que, quando aquele sujeito, Yamashita, apareceu sugerindo uma guerra entre as famílias, Ryo ordenou que o investigassem. Encarregou Ikuta para esta missão e ele lhe narrou como Yamashita e Akanishi foram parar na casa de Nagase.

– Yamashita odeia Nagase por colocar o homem que ama a disposição da alta sociedade. Por colocar Akanishi em um lugar que ele jamais conseguiria alcançá-lo.

– Eh... Tudo isso... Só por causa de um homem? Esses viados vão mesmo acabar com o nosso mundo. – Ryo riu. – Mas Akanishi... O que ele tem para atrair Yamashita dessa forma? Será que ele vale todo esse esforço?

– Dizem que sua beleza é estonteante.

– Ainda assim...

Toma perdeu novamente a atenção de Ryo para aquele frasco. Contra a sua vontade, olhou com mais atenção para aquele órgão humano. Mesmo sendo um Yakuza, não era do tipo que se sentia à vontade com pedaços de pessoas dentro de um frasco. Ainda mais sabendo a quem pertecencia aquele olho. Por conhecer o seu dono, se tornava ainda mais repugnante aquela situação. Mas, para seu chefe, era um tipo de homenagem.

– Koki...

Toma ergueu o rosto para Nishikido e viu a sua expressão de dor. Ele estava mesmo abatido com o que tinha acontecido com Tanaka Koki... Em silêncio, Toma também admirava a coragem daquele que era o braço direito de Ryo. Mas nem por isso pretendia ficar com seu olho como uma lembrança da sua bravura. Desviou o seu olhar para outra direção.

8

Havia algo de positivo com o que tinha acontecido a Kamenashi, Jin ponderou. Encontrou forças para continuar com seus planos. Depois que soube que o jornalista estava vivo, não perdeu mais tempo. Devia encerrar essa história para impedir que ele fosse ameaçado novamente. A briga era entre a Yakuza, mas, Jin suspeitava que Yamapi estava por trás disso. Não tinha outro motivo para o jornalista ter sido capturado junto. Não podia ser apenas coincidência.

Olhou para a cela em que estava sendo mantido. Era pequena e escura. Havia uma janela, retangular e estreita, no canto de cima de uma das paredes. A luz que entrava não era suficiente, mas, ele não se importava. Estava deitado em uma cama. Na verdade, era um pedaço de metal preso à parede com um colchão fino e velho, que cheirava a mofo, e uma coberta fina. Agradeceu por ser agosto, o mês mais quente no Japão.

Disseram que ele tinha direito a um advogado caso o promotor o acusasse formalmente, mas, ele não conhecia nenhum e também não precisava. Se eles o condenassem a pena de morte, seria interessante.

A porta foi aberta.

– Ei, levante! – um guarda gritou.

Ele obedeceu e olhou para seus visitantes. Dois agentes, a quem ele já tinha sido apresentado na noite em que se entregou, seus nomes eram Shibutani e Okura. Eram da divisão de entorpecentes e estavam investigando o caso Kimura. Akanishi os cumprimentou com um breve aceno de cabeça.

A outra pessoa, ele não conhecia. Era um rapaz baixo, cabelos pretos que, apesar de estar em um corte apresentável, podia-se notar pelas pontas que eram repicados. Na hora de sua folga, aquele sujeito devia ser mais descontraído. Ele tinha um nariz arrebitado e usava óculos quadrados, de armação grossa. Usava terno claro.

– Ueda Tatsuya. – ele se apresentou – Serei o promotor do seu caso. Quero escutar a sua história, para decidir se vamos abrir uma acusação contra o senhor, e depois os policiais vão lhe fazer perguntas. Tudo bem?

Akanishi fez que sim. Ele sabia que, mesmo confessando o assassinato, o promotor é que tinha que decidir se ele seria acusado ou não.

– Não pode ser apenas uma vez? – pediu – Não tem problema que eles, os policiais, escutem a nossa conversa. Não direi nada diferente. Estou me entregando e quero contar como tudo foi. Não quero uma pena menor. Eu matei e devo ser punido por isso.

Ueda franziu a testa. Olhou para os policiais.

– Melhor para nós. – Subaru sacudiu os ombros.

– Você tem certeza disso, Akanishi-san? – Okura perguntou.

– Hai. Por favor, me deixem contar apenas uma vez como foi a morte de Takuya.

– Se essa é a sua vontade... – Ueda sacudiu os ombros. – Ao menos, não vamos perder tempo.

O promotor se aproximou da mesa que havia no centro da sala, onde Akanishi havia tomado o café da manhã e se sentou. Akanishi sentou ao seu lado e os policiais à frente deles. O guarda fechou a porta e esperou do lado de fora.

Por um instante, parecia que Akanishi estava preso dentro de sua mente. Ele olhava para suas mãos e não dizia nada. Parecia que estava revivendo aqueles momentos. Por fim, ele encheu a boca de ar por um instante, suspirou em seguida. E começou a narrativa:

– Já estávamos juntos há dois anos. Sabem, como eu disse, eu trabalho... Trabalhava na casa de Nagase-sama. Eu conheci o Takuya ali. Nos envolvemos. Nossa relação nunca foi de cliente e acompanhante. Desde o começo, ele se dizia apaixonado por mim. No começo, eu só queria que ele me escolhesse, comprasse a minha exclusividade. Eu seria o Host mais popular se isso acontecesse. Kimura Takuya, o famoso artista, meu principal cliente... Mas, isso nunca aconteceu. Acabei me apaixonando também. – e ele coçou o nariz, parecendo tímido em admitir seu sentimento diante de pessoas desconhecidas: – Vivemos bem por um período. Mas eu não podia largar meu emprego. E começamos a discutir.

Akanishi limpou a garganta e pensou por um instante.

– As discussões começaram a fazer parte da rotina. No dia anterior ao crime, acho que foi a briga mais feia que já tivemos. E eu sentia que estava perdendo minha liberdade, minha identidade, meus sentimentos. Não consigo suportar esse tipo de coisa. – desabafou e ele se mostrou cansado apenas com as lembranças das discussões. – Eu não sei porque eu tive essa ideia. Ela surgiu. Estava muito cansado e pensei que se ele não existisse, seria mais fácil. Desse pensamento para a morte, não sei dizer quando houve a transformação.

– Não foi uma ideia radical demais? – Okura questionou: – Porque não terminou com ele?

– Porque eu o amava demais. Não conseguiria romper e ficaríamos presos nesse círculo para o resto de nossas vidas... Então discutimos na noite anterior. E foi quando eu me decidi. Kimura pediu para que nos encontrássemos novamente, no lugar de sempre. Era perfeito, porque eu teria um álibi. Ah, sim, o esquema dos nossos encontros. Eu reservava um quarto com o nome Yabuki Hayato e ficava lá, esperando pelo momento para passar ao quarto de Hayami e ela ficaria no quarto de Hayato. Naquela noite, eu fiz a reserva no nome dos dois personagens falsos. Cheguei como Yabuki e foi direto ao quarto de Hayami. Kimura já estava lá, ele disse que precisava terminar uma música, então aproveitou a tranqüilidade daquele lugar e foi mais cedo.

– Que horas você chegou lá? – Subaru interrompeu a narração.

– Por volta das 20h30.

– E Kimura?

– 19h00... Algo em torno disso...

– E vocês ficaram sozinhos até 01 da manhã, então? – Subaru insistiu.

– Sim... Conversamos muito. Estávamos mais calmos, os dois. Eu pensei que talvez não precisasse seguir adiante com aquilo. Que poderíamos, enfim, viver em paz... Mas antes já tivemos muitos momentos assim. Brigávamos, e, depois, nos reconciliávamos. Não era verdadeiro, as brigas não terminariam. Eu hesitei, mas, por fim me decidi. Coloquei a droga em sua bebida e, quando ele dormiu, usei uma corda para estrangulá-lo.

Ele fez um movimento com as mãos, como se estivesse colocando a corda e estrangulando o amante ali mesmo, na frente deles. Então, ele parou e olhou para o lado, parecia que ia chorar. Mas não o fez. A sua voz soou emocionada, mas, não chorou.

– E... Então... Ele morreu...

– Porque você decidiu se entregar agora? – Subaru não se incomodou com o seu sofrimento. – Eu pretendia fugir. Eu fiz isso porque queria a minha liberdade. Não é bem a minha liberdade... Mas que meus sentimentos voltassem a ser livres. De qualquer forma, tudo começou a sair do controle e... Eu percebi que agora meus sentimentos estão mais presos do que antes. Nunca vou poder me arrepender o suficiente o que fiz... O fantasma dele vai estar sempre comigo...

– Hayami? – Subaru questionou.

– Ela sabia, obviamente, que eu era o amante de Kimura. A polícia estava apertando o cerco... Não tive opção... – admitiu, baixando sua cabeça.

– Yamashita Tomohisa? – Subaru analisou atentamente a expressão de Jin. Parecia ainda mais triste. – Saberia dizer porque ele discutiu com Kimura e esteve mantendo contato com Hayami?

–... Isso também foi minha culpa. Eu sempre reclamei de muitas coisas para Yamapi... Digo... Yamashita. E ele pensou que tinha que fazer algo para me proteger. Ele sempre foi assim... Então ele discutiu com Kimura porque me via chegar mal em casa com frequência. E Hayami... Acho que ele suspeitou de que eu fosse o assassino e estava tentando convencê-la a não revelar que eu fui o amante dele.

– Hum... Entendo. – disse Subaru.

Subaru se levantou e deu as costas para eles. Aproximou-se do canto da cela e pegou a sua moeda em seu bolso. Girou-a entre seus dedos, enquanto refletia. Okura, então, passou a explicar os procedimentos junto com o Ueda.

8

A porta foi fechada e ele se manteve ainda sentado na cadeira, o rosto baixo, os cabelos cobrindo seus olhos. Acabou. Ele ouviu os passos e as vozes dos policiais e do promotor se afastar, sem, contudo, conseguir identificar o que eles falavam, mas isso não importava para Jin realmente.

Acabou. Aquela história horrível tinha acabado. Confessou o crime e logo mais seria condenado. Logo mais estaria junto a Takuya novamente e não precisaria mais se preocupar em ficar sozinho.

Deixaria Yamapi e Kamenashi em paz. Talvez ainda pudesse deixar algo para o jornalista. Um depoimento, por escrito. A única entrevista do assassino de Kimura Takuya. Kamenashi teria a sua história.

Quanto a Yamapi, ele sentia por deixá-lo sozinho. Talvez seu amigo resolvesse segui-lo se ele fosse condenado à morte. Sentiu um gosto amargo ao pensar nisso, mas, talvez fosse a melhor opção para Pi também. Ele estava comprando briga com a Yakuza. Ele tinha feito coisas demais por sua causa. Talvez seu amigo merecesse descansar também.

Mas no fundo ele queria que Yamapi se juntasse a Koyama. Eles são amigos de infância. Koyama era a única pessoa, além dele mesmo, que se preocupava com Yamapi. Se Koyama cuidasse dele a partir de agora, Jin ficaria feliz.

– Yoroshiku... – murmurou.