O apartamento
5 Capítulo 4 - O que houve?
Notas iniciais
Depois da seção de fotos durante a manhã, Sr. H. e Poliana me levaram em casa.
— Achei que fossemos almoçar juntos... – Disse meu novo amigo, arrumando seu relógio no pulso distraidamente.
— Vamos jantar, tudo bem?! Tenho que saber o que está acontecendo na minha casa, mas as 19h é um bom horário. – Eu disse fechando a porta do carro. – Me mandem mensagens. – Sorri e corri para o elevador.
Nas horas de tensão morar na cobertura de um prédio de 35 andares com certeza muda seu humor. Se você está com pressa fica nervoso, irritado e imaginando se um dia você terá coragem de saber se é mais rápido que o elevador. Mas se você está preocupado, com algo que você ainda não sabe o que é e nem como resolver, o tempo do elevador parece evaporar.
Eu pensava em uma forma de perguntar para um dos caras o que havia acontecido sem parecer um intrometido. ‘’Talvez eles estejam mais calmos agora.’’ Se fosse uma briga muito séria eu teria que interferir, eles são tipo pais pra mim, não posso deixa-los se afastarem, não sei mais como seria viver longe de um dos dois.
O apartamento estava em silêncio quando finalmente entrei. Roger estava sentado numa ponta do sofá e Flávio na outra. Apesar do clima indiscutivelmente pesado entre os dois, eles fingiam estar distraídos com a televisão. Os dois estavam com os calcanhares encostados na bunda, abraçando as pernas e com a cabeça apoiada sobre os joelhos.
— Voltei. – Disse fingindo não ter percebido nada.
Eles se viraram pra mim e sorriram, depois voltaram para a mesma posição. Quem vê de fora com certeza imaginaria que era algum jogo de ‘’siga o mestre’’ e que estavam se imitando, mas depois de conviver um pouco com eles, você acaba percebendo que mesmo que se comportem igual, seus trejeitos fazem uma diferença enorme. Flávio com seu jeito meigo e Roger com sua elegância.
— O que vocês almoçaram? – Perguntei.
Eles se entre olharam e arregalaram os olhos. Flávio correu pra cozinha e Roger começou a rir muito alto.
— Não sei por que vocês insistem que eu cozinhe nos sábados... – Resmungou o loiro, trazendo uma forma com batatas cortadas ao meio e assadas no forno. Para acompanhar as batatas ele desfiou e fritou frango. E para deixar claro que foram eles quem fez, regou com molho de tomate caseiro e queijo parmesão ralado.
— Vamos comer! – Falei sorrindo para Roger e me sentando ao lugar de sempre na mesa.
— Vamos...? – Disse ele olhando para Flavio, como se pedisse permissão.
— Vamos, antes que esfrie. – Disse Flavio, olhando sério para Roger.
Nós almoçamos em silêncio. Quer dizer... A cabeça dos dois parecia estar puro barulho, bagunça e coisas sendo atiradas pela janela. Depois do almoço, Roger se ofereceu para lavar a louça no meu lugar, já que eu havia trabalhado de manhã. Flávio foi se deitar.
Entrei no enorme quarto de Flávio e o vi deitado no tapete macio no meio do quarto, cercado por livros de Biologia, que se amontoavam em diversos pontos. Sem dizer nada fui até ele. Ele só me observava. Deitei-me ao seu lado e puxei sua cabeça para o meu ombro.
— Fala pra mim o que houve. – Pedi.
— Já pedi pra não se meter nisso, Henrique. – Ele disse baixo.
— Me diz... Só quero ajudar. – Insisti.
— Quando meu pai morreu, ele me disse que eu nunca iria ser alguém na vida. Que eu nunca passaria de um professorzinho de nada. – Contou. – E ontem, quando o Roger chegou bêbado, por sua causa, eu fiquei muito bravo com ele. Disse que ele não se comportava com um atleta tão bom quanto ele é. – Suspirou. – Ele me disse que pelo menos ele era alguém. Que pelo menos as pessoas iam de lembrar dele e de mim, ninguém nem teria ouvido falar. – Agora sua voz estava travada seus olhos escorriam muito. Eu o abracei.
— Sabe Flávio, você deveria prestar mais atenção em você. – Eu disse puxando pra mais perto. – Você é um professor incrível! Você viveu o que você ensina e todos os seus alunos te adora e te respeitam. Você é muito jovem pra ficar pensando em qual será seu legado, mas se isso te preocupa tanto, tente entender que a sua profissão é muito importante. – Eu o apertava ainda mais contra mim. – Você está abrindo as portas para diversos dos seus alunos que vão seguir carreiras também muito importantes e que pra chegarem onde desejam, vão precisar de um professor fantástico como você! Você é uma inspiração pros seus alunos e mal começou. Você vai ser lembrado pra sempre!
Flávio me beijou. Um beijo muito demorado e regado de lagrimas.
— Obrigado! – Agradeceu ele, secando meu rosto, que estava molhado por suas lagrimas, com seus polegares. – Desculpe pelo beijo... Eu não me contive. Não me odeie por favor. – Ele disse levantando e me empurrando para fora do quarto.
— Boiei... – Pensei alto pondo a ponta dos dedos nas minhas bochechas quentes e provavelmente vermelhas.
— Porque sua boca ta tão vermelha? – Perguntou Roger muito sério. Ele parecia irritado.
— É que... – Não consegui terminar a frase. – Esquece...
Roger voou pra cima de mim e me encostou na parede no corredor.
— Se ele pode te beijar, eu também posso! – Ele disse baixo no meu ouvido, segurando meus pulsos atrás de mim.
Eu não estava entendendo mais nada. Se bem que o beijo de Roger foi tão intenso que eu nem queria entender. Quando ele parou, pareceu ter um súbito ataque de consciência e assim como Flavio se desculpou e sumiu pra dentro de seu quarto. Esse apartamento está começando a ficar um tanto pequeno...
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