O anjo e o Condenado
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Todos esses anos eu estive aqui, fechado em mim mesmo. Preso pela amargura e tristeza. Não havia nada que pudesse fazer para tudo deixasse de ser tão ruim, para que pudesse ter um grãozinho de esperança.
Estava trancado em meu quarto como de costume. Eu geralmente permanecia ali para refletir e me corroer com pensamentos que me atormentavam.
Já estava escuro lá fora. Da sacada se podia ver todo o terreno em volta do castelo, podia ver a floresta que cercava toda aquela região e podia ver também um pouco das luzes da aldeia de Danorum.
Eu daria tudo para poder ir lá, passear pelas ruas, ver as pessoas, conversar com elas. Mas tudo isso era só um sonho vão. Nunca poderia me mostrar às pessoas. Eu era um monstro. Não só no sentido figurado da palavra, mas no sentido físico também.
Há mais de 20 anos atrás fui castigado por uma feiticeira a ser por fora como era por dentro, a ser um monstro. E como se isso já não bastasse, estava congelado no tempo, preso na eternidade nessa forma horrível. Eu era um condenado.
Fiquei um tempo na sacada, olhando para o nada e tentando não pensar em nada também. Quando o vento começou a ficar muito gelado, resolvi entrar e dar uma volta pelo castelo. Todos os criados, os poucos que me restaram, já haviam se recolhido e tudo estava em silêncio. Caminhei pelos corredores vazios e sem vida. Nunca mais haveria um baile, uma festa, ou simplesmente alegria.
Lembrei-me do ultimo baile que foi realizado ali. Moças com seus lindos vestidos, os homens vestidos à caráter. Todo o salão iluminado. A música enchia todo o ambiente. Ah, lembranças. Era tudo o que me restava, mas mesmo elas não eram tão boas, porque agora eu via como minha vida era fria e vazia. Como eu era egoísta e só sabia dar valor a mim mesmo.
Príncipe Matthew, assim eu era conhecido de todos e assim eu era respeitado. Não por ser o que era, mas por ter o que não merecia. Ninguém se importava realmente comigo, o que interessava era ser do seleto grupo que podia estar perto de alguém importante. Mas tudo isso não teve importância alguma quando eu “sumi” e ninguém mais teve noticias de mim. Tiveram-me como morto e foi só. Cada um continuou a vida e encontraram outro para bajular: meu tio Guilbert. Ele tomou meu lugar no trono e foi outro dos que não se preocuparam em saber o que houve comigo.
Cansei do passeio e voltei para o quarto. Minha única forma de saber o que acontecia no mundo lá fora era uma janela, mas não uma janela qualquer. Ela foi encantada pela própria feiticeira que me castigou, para que eu pudesse ver como as pessoas viviam.
A janela ficava numa parede que, aparentemente, não dava em lugar algum, mas ela me mostrava tudo o que eu lhe pedia para ver. Era meu passatempo nas horas vagas, ou seja, durante quase todo o dia. Ficava ali olhando as pessoas de Danorum passeando na praça, indo ao mercado, as mulheres fofocando nas janelas, as crianças brincando nas ruas. Mas o que eu mais gostava mesmo era observar uma das moças da aldeia em particular.
Ela tinha longos cabelos castanhos que lhe caiam em leves cachos pelos ombros e doces olhos verdes. Suas maneiras eram doces, inteligentes e mesmo quem não merecia era tratado por ela com o mais profundo respeito.
Eu ficava sempre muito indignado com a indiferença com que as pessoas da aldeia a tratavam, varias vezes eu assistia cenas em que falavam dela pelas suas costas, a achavam estranha só por causa da sua paixão pelos livros.
Infelizmente, agora era muito tarde e não havia nada para ver na janela. Meus olhos também estavam ficando pesados e o sono foi tomando conta de mim. Dormi ali mesmo, no que restava de uma espreguiçadeira.
Meu sono foi como sempre: agitado e cheio de pesadelos. Eu já estava acostumado com isso, desde o dia em que fui transformado minhas noites eram inquietas. Levantei e lavei meu rosto no lavatório que ficava no canto do quarto. O cômodo era extremamente bagunçado, a maioria dos móveis tinha sido total ou parcialmente destruída nos meus ataques de fúria, muito frequentes no inicio de minha “nova” vida, vários pedaços de tecido rasgado jaziam no chão.
A única coisa realmente inteira no quarto era uma mesinha na qual estava uma rosa amarela. Esta rosa me foi dada pela feiticeira e marcava o meu tempo de “redenção”, ou seja, o tempo que tinha para provar o meu valor. Mas as condições para tal eram impossíveis, pois eu deveria aprender a amar eternamente alguém e esse amor deveria ser retribuído com a mesma intensidade. O fato de eu aprender a amar não era um grande problema, isso não era impossível, mas alguém chegar a gostar de mim era algo totalmente sem cabimento.
Esse era o grande motivo para o meu sofrimento. Mesmo que eu mudasse, o que já estava acontecendo, pois já era muito menos grosseiro e a vaidade já não tinha lugar em mim, eu sabia que nunca seria “humano” de novo. Como alguém seria capaz de amar um monstro?
A rosa ia murchando conforme meu prazo acabava. A cada pétala que caia eu me sentia mais sem esperança, pouco tempo me restava agora. Mas o que eu haveria de fazer? Só esperar minha condenação total.
Não estava com vontade de ser melhor naquele dia. Passei a tarde toda fechado no quarto me lamentando e observando o que acontecia no vilarejo. A moça que me despertava o interesse passou o dia ajudando seu pai com os preparativos para uma viagem, ao que parecia, ele iria à feira de invenções.
Na hora do jantar, a Sra. Hanna levou um prato de ensopado para mim, mas não estava com fome. Deixei a bandeja intocada onde ela havia deixado. Estava cansado e acabei dormindo sentado no chão.
Quando acordei o tempo lá fora estava feio. Nuvens pesadas de chuva encobriam o céu e o vento soprava com muita força. Não sabia quanto tempo havia dormido, e mesmo que eu não quisesse comer, meu estômago estava doendo de fome. Olhei para o lugar onde antes estava a bandeja, mas parecia que já tinham a levado embora.
Levantei e fui para a cozinha. Estranhei que não havia ninguém ali, mas já devia ser muito tarde. Peguei um pedaço de pão e o enfiei inteiro na boca. Não estava com disposição para saborear a comida, só queria encher o estômago. Enquanto estava na cozinha, ouvi vozes vindas do andar de baixo. Estranho, não estavam dormindo ainda.
Resolvi descer e ver o que estava acontecendo lá embaixo. Quando entrei na sala vi que todos os empregados estavam ali reunidos, eles não notaram minha chegada, e havia mais alguém com eles. Era um homem de meia idade meio baixinho e careca. Sabia que já o tinha visto em algum lugar, mas não queria nem saber de onde. Aquela intromissão era de mais!
O que aquele homem estava fazendo ali? Queria ver se as histórias que contavam por aí eram verdadeiras? Eu não permitiria que ninguém viesse me perturbar e rir da minha desgraça.
– O que ele faz aqui? – gritei e todos pularam de susto e de medo. Até tentaram esconder o homem se colocando na frente dele, como se isso fosse adiantar.
– Amo! O que o senhor faz aqui? – Smutter, o responsável pela iluminação do castelo, tomou a frente do grupo e tentou ficar sem tremer na minha frente. Ele geralmente tomava a liderança em horas como essa.
– Você não respondeu à minha pergunta! O que este homem faz aqui?! – eu estava realmente nervoso, minha visão começou a ficar avermelhada de raiva e tive que me segurar para não arrebentar alguma coisa.
– Perdoe-me s-senhor – o pequeno homem saiu de trás dos outros empregados e se dirigiu a mim. Ele tremia um pouco e olhava para o chão, não tinha coragem de ver o monstro que eu era. Isso me deixou ainda mais nervoso, mas ele continuou a falar.
– Eu... eu estava à caminho de Lighenfor quando... quando meu cavalo se assustou com... com os trovões e acabou me derrubando da carroça... ele fugiu... e eu fiquei no caminho... meio perdido...eu... eu não queria incomodá-lo senhor... só queria um lugar para me abrigar da tempestade.
Ele estava realmente com medo. Lá no fundo, meu coração ficou com pena dele, mas eu não queria saber mais de tentar ser bonzinho. Isso não adiantava nada.
– Aqui não é casa de caridade para se abrigar! Você veio me incomodar! Veio... – neste momento uma ideia me passou pela cabeça. Ele poderia ser alguém mandado pela feiticeira para ver como eu estava. Aquilo me enfureceu de vez! – Você veio a mando dela não foi?! Claro que sim! Ela quer saber como eu vou indo na sua preciosa tarefa não é?!
Ele pareceu realmente surpreso com o que eu disse, mas eu não desisti da ideia. Tinha certeza que era verdade.
– Amo, que ideia absurda! O que este homem fala é verdade, não duvide dele. Não vê que é um bom homem? – Benn, o responsável pelos empregados, tentou me dissuadir. Ele era um dos meus mais fiéis empregados e eu confiava muito nele, mas minha raiva e descontrole eram tão grandes que eu não lhe dei ouvidos.
– Ele só precisa de um lugar para ficar esta noite e amanhã irá embora, não há incômodo algum nisso. Tenha um bom coração! – Hanna também estava tentando me persuadir, mas não adiantava. E aquilo que ela falou me deu uma luz sobre o que fazer.
Olhei para o pequeno homenzinho que agora tremia do alto da cabeça até a ponta dos pés e lhe disse com um tom sarcástico.
– Então você só quer um lugar para ficar, não é mesmo? Então me acompanhe que irei lhe mostrar os seus aposentos.
Peguei-o pelo colarinho da camisa e o arrastei pelas escadarias até a torre onde havia as celas. Por muitos anos elas não haviam mais sido usadas, mas talvez eu começasse a utilizá-las novamente.
Enquanto o carregava, ele choramingava e implorava. Ouvi algo sobre uma filha e o quanto ela precisava dele, mas não dei a mínima importância àquilo. Joguei-o dentro de um cubículo daqueles e o deixei lá.
Quando voltava para meu quarto, vi que Smutter e Benn estavam me esperando no corredor e Hanna havia se juntado a eles, suas expressões eram de preocupação e inquietude. Aproximei-me deles e Smutter se dirigiu a mim.
– Senhor, não acha que seus modos não foram muito agradáveis esta noite? Precisava prender o pobre homem só porque ele necessitava de uma ajuda?
– Não vou falar sobre isso Smutter! E não me incomodem mais. O que está feito está feito! – Deixei-os ali, mas enquanto me distanciava pude ouvir Hanna falar “Achei que não queria mais ser um monstro”.
Aquilo ficou ecoando em minha mente durante toda a noite. E se eles estivessem certos? E se aquele homem não tivesse a ver com a feiticeira?
Tinha que admitir que ultimamente andava mais perturbado do que nunca, já que o tempo estava se acabando e minhas esperanças também. Pensamentos giravam em minha cabeça e passei a noite toda em claro, não consegui pregar os olhos nem por cinco minutos.
Quando vi que a claridade começava a entrar pelas janelas do quarto decidi que tinha que fazer algo em relação a tudo aquilo. As palavras ainda soavam em meus pensamentos “Achei que não queria mais ser um monstro”. Hanna era como uma espécie de consciência para mim, quase uma mãe. Ela sempre me deu apoio e tentou me ajudar, mesmo quando eu não queria. Sua fidelidade para com meus pais havia sido transferida integralmente a mim com a morte deles e, por mais que eu não merecesse, ela de dedicava a tentar me mostrar que eu poderia ser alguém, mesmo daquele jeito.
Eu não queria ser um monstro. Talvez, se eu me esforçasse para melhorar, a feiticeira iria ver que eu tenho valor e me transformaria de volta, mesmo sem ninguém me amar.
Levantei e caminhei decidido a mudar minhas ações e me reparar perante todos.
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