Notas iniciais
Olá pessoal! Novamente um capítulo no ponto de vista da Lizzie! Eu to tentando me conter, mas novamente esse cap saiu mais comprido do que os outros! hehehe Boa leitura!

Sentada ali naquele banco, olhando para as águas calmas do lago à minha frente e com a brisa tocando levemente meu rosto, eu me sentia bem, tranquila até.

Era completamente estranho que eu me sentisse assim e tinha total consciência de que deveria estar preocupada com meu futuro. O que seria feito de meu pai sem mim, como ficariam as coisas daqui para frente, será que eu nunca mais sairia desse castelo. Mas por mais que essas questões me preocupassem, eu me sentia leve, uma sensação de pertencimento tomava conta de mim. Era como se finalmente tivesse achado meu lugar.

Sabia que era loucura! Como poderia sentir isso estando num cativeiro? Mesmo que fosse um cativeiro de luxo. Eu definitivamente não estava mais no meu perfeito juízo, era a única explicação para isso. Tentava me convencer de que precisava fugir a todo custo e deixar esse lugar o quanto antes, mas como poderia? Eu tinha feito uma promessa.

Pensando bem, se meu pai tivesse aqui não haveria nada que realmente me prendesse ao mundo lá fora. Claro que eu sentiria muita falta da vida na aldeia e até mesmo das pessoas, e principalmente do sr. Carter! Meu velho e bom amigo! O que diria ele se soubesse que eu estava vivendo uma de suas histórias?!

A única coisa que realmente me incomodava era saber como meu pai estava. Já sentia falta dele e sabia que estaria preocupado sabendo que eu era uma prisioneira. Se eu conseguisse de alguma forma lhe enviar um recado ou ainda, se ele viesse ficar aqui comigo, parecia que tudo se encaixaria. Mas como eu poderia fazer isso com ele? Afinal de contas acabei virando prisioneira para que ele ficasse livre! Parecia que quanto mais eu pensava mais confusa ficava!

As conversas com Hanna e Thiodell, o jeito que elas me trataram, como seu já fizesse parte daquele lugar, me fazia tão bem. Eu tinha visto outros criados andando por aí realizando suas tarefas e todos me cumprimentaram educadamente. Eles tinham certa curiosidade no olhar, mas não era aquela curiosidade fofoqueira com que as pessoas da aldeia geralmente me observavam. Era como se eu realmente estivesse em casa.

Por um breve momento me senti sendo observada. Olhei ao redor, mas não vi ninguém. Estranho. Talvez fosse só uma impressão mesmo.

Fiquei ali ainda mais um tempo. Não cansava de olhar para aquele lago, as flores que caíam em cascatas das árvores curvadas quase se encostando à superfície da água. Era muito lindo. Meu pai certamente amaria este lugar, ele sabia apreciar um belo jardim e fez algumas tentativas de deixar nosso jardim com um ar mais sofisticado, mas nunca teve muito sucesso, já que a maior parte do seu tempo era dedicada às invenções.

Novamente a lembrança de meu pai fez com que eu pensasse em uma maneira de lhe escrever uma carta. Talvez Matthew permitisse se eu pedisse. Todos sempre falavam que ele era tão bom. Mas a ideia de conversar com ele me causou arrepios na espinha. Havia algo nele que eu ainda não entendia.

Não, esta ideia estava fora de cogitação. Talvez algum dos criados pudesse me ajudar. Decidida a conseguir realizar meu plano, fui à procura de alguém.

Enquanto caminhava por um dos corredores perto da cozinha, encontrei um deles que me cumprimentou gentilmente.

– Boa tarde, mademoiselle. – e fez uma pequena reverência descontraída. – Sou Smutter, e estou à sua disposição.

Ele era muito alto e magro. Seu cabelo loiro era curto e os olhos castanhos extremamente vivos. O rosto era gentil e agradável, como o de todos por aqui.

– Olá – lhe respondi dando um sorriso. Essa era a minha chance de pedir. – Será que poderia me ajudar?

– Com prazer! Do que está precisando?

– Bom...

Comecei meio sem jeito, não sabendo direito como pedir sem causar desconfiança. Eu não queria que soubessem, pelo menos por enquanto, que eu iria escrever para meu pai. Talvez não fosse algo permitido.

– Eu queria saber onde tem papel e tinta. Não tenho nada para fazer e achei que escrever um pouco seria bom... Gosto de escrever histórias – emendei ligeiro para não despertar nenhuma suspeita.

Por um momento ele me olhou com certa desconfiança, como se estivesse me analisando e depois seu sorriso se abriu e ele simplesmente respondeu.

– Acho que a senhorita encontrará o que procura em seu quarto.

– Mesmo? – perguntei surpresa.

– Certamente! Se quiser é só dar uma espiada lá.

Deixei-o ali e fui para meu quarto achando aquilo muito estranho. Não recordava de ter visto qualquer coisa semelhante no quarto. Claro que passei pouco tempo ali, mas eu teria me lembrado caso tivesse visto pena, tinta e papel.

Fui caminhando apressada. As palavras que eu queria dizer ao meu pai já iam fluindo em minha mente, mas quando cheguei ao quarto elas simplesmente fugiram diante da surpresa que encontrei.

Quando abri a porta, a primeira coisa que vi, em frente a uma das janelas, foi uma escrivaninha absolutamente linda, de carvalho branco, assim como o resto dos móveis do quarto. A cadeira que ficava junto dela tinha o estofado de um salmão bordado com motivos florais. Sobre ela estavam alguns papéis, envelopes, tinteiro e pena. Praticamente como se tivessem lido minha mente e realizado o que eu desejava.

– Espero que tenha gostado da surpresa.

Dei um pulo de susto quando ouvi a voz de Matthew logo atrás de mim. Virei-me rapidamente para encará-lo e mais uma vez me senti uma anã perto dele.

– Desculpe-me, eu não queria assustá-la. – Ele parecia um tanto desconfortável e mexia os pés numa atitude meio nervosa, mas ainda havia mais alguma coisa nele que me escapava.

– Tudo bem. Você só me pegou meio distraída. – tentei relaxar e olhei novamente para o quarto. Parecia que a ideia havia sido dele. – Bom, hum, obrigada pelo presente.

– Eu imaginei que talvez você gostaria de escrever para seu pai. Então pedi para que colocassem a escrivaninha em seu quarto. Achei que seria mais confortável.

Eu poderia sem problema nenhum escrever uma carta? Ele estava se preocupando comigo? Estava meio perdida agora. O que exatamente estava acontecendo aqui? Isso não parecia nem um pouco com uma prisão.

– Eu vou poder escrever para meu pai? – perguntei com certa desconfiança.

– Claro.– Agora quem parecia confuso era ele. – A menos que não queira.

– Quero, quero sim. Só achei estranho. Pensei que como sou prisioneira aqui meu contato com o mundo lá fora não seria permitido.

O rosto dele se contorceu e ele ficou ainda mais tenso do que já aparentava. O que eu tinha dito de errado?

– Você não é uma prisioneira aqui, Lizzie. Você é uma convidada. — Essa eu não entendi, mas deixei passar.

– Certo. Mas como a carta vai chegar até ele? Quem vai levá-la? – Se é que realmente alguém a levaria até ele.

– Jason ou Benn a deixarão em sua casa.

– E se meu pai quiser me enviar uma carta também?

– Ele poderá deixar a carta do lado de fora da porta e um dos dois irá trazê-la para você.

– Mas como ele vai saber isso?

Neste ponto eu percebi que já havia feito perguntas demais, porque Matthew me respondeu irritado:

– Simplesmente escreva isso para ele! – e falando isso virou as costas e foi embora.

“Que estúpido!” Tive vontade de gritar, mas segurei minha língua. Tudo bem, talvez eu tivesse forçado um pouco nas perguntas, mas ele não precisava ter respondido desse jeito. Decididamente era um grosseiro. Não pude entender como todos o tinham em tão alta conta por aqui.

Joguei-me no sofá e fiquei remoendo a frustração. Tudo bem que tinha forçado um pouco nas perguntas parecendo uma criança chata, mas era realmente confuso para mim o jeito como ele me tratava. Afinal de contas eu era apenas uma prisioneira aqui. Ou não? Odiava quando perdiam a paciência comigo e me culpava um pouco também por isso. Mas afinal de contas eu não tinha feito nada de mais! Definitivamente ele era um bruto.

Dei um suspiro. Estava começando a ficar seriamente preocupada em como seria minha estada aqui. Eu não queria arranjar encrencas com ninguém, muito menos com Matthew, mas se ele continuasse a me deixar confusa daquele jeito eu iria enlouquecer alguma hora.

Olhei para a escrivaninha e decidi que era hora de escrever a carta. Mesmo que talvez ela não chegasse ao seu destino.

Querido Pai,

Sei que pedir que não se preocupe comigo seja meio inútil, mas eu lhe afirmo que estou completamente bem. Todos Os criados são muito amáveis e estou sendo muito bem tratada aqui.

O lugar todo é fabuloso. Não me deixaram naquelas celas horríveis da torre. Estou em um quarto muito espaçoso e lindo. Os jardins são de tirar o fôlego. Gostaria que pudesse vê-los. Tenho certeza que concordaria comigo.

Sinto muito por ter perdido a feira, sei que na próxima vez o senhor irá ganhar. Tenho muita fé nisso.

Se quiser me mandar uma carta, deverá deixá-la do lado de fora da porta e um dos criados irá entregá-la para mim.

Com muito amor, de sua filha,

Lizzie

As palavras não fluíram exatamente como eu queria. Tinha perdido o fio da meada com a surpresa e não consegui mais recuperar a ideia original. Não tinha muita certeza se essa carta deixaria meu pai um pouco menos preocupado, mas era o que eu tinha conseguido no momento.

Fui dar uma espiada no corredor para ver se tinha alguém por ali para entregar a carta e vi um menino junto a uma das janelas. Ele parecia um pouco aborrecido olhando para fora.

– Ei, garoto! Pode vir aqui um instante?

Seu rosto se animou na hora que eu o chamei e veio até a porta do meu quarto.

– Olá senhorita! – me cumprimentou sorrindo. Era um garoto muito simpático e parecia que quando ficasse mais velho seria um belo rapaz. O cabelo castanho era curto e bem penteado; a pele levemente bronzeada; os olhos castanhos tinham um brilho especial e o sorriso era daqueles contagiantes.

– Qual é o seu nome garoto? – perguntei-lhe curiosa.

– Tim. Sou filho da Hanna. — Nunca eu iria imaginar que aquele garoto era filho dela.

– Bom, meu nome é Lizzie.

– Eu sei disso. – respondeu como se eu tivesse falado algo óbvio demais.

– Acho que todo mundo aqui já sabe, não é? – Eu deveria ser o assunto principal naquele castelo.

– É, acho que todos sabem sim!

– Eu imagino. – acrescentei desapontada.

– O que foi? Você vai ficar chateada se todos te conhecerem?

– Não é isso. Eu só não gosto de ser o centro das atenções. Fico desconfortável.

–Uhum – ele se encostou na parede ao lado da porta. – Sei como é. Detesto quando minha mãe fala de mim na hora do jantar. Estão todos juntos e eu acabo virando a atração.

Tive que rir do comentário dele, mas era uma boa comparação.

– É praticamente isso. Acho que você me compreende então. – lhe respondi sorrindo.

– Mas não fique chateada. Ninguém aqui quer que você se sinta mal. Só estamos curiosos, porque não é todo dia que recebemos... hum...visitas.

– Não vou me chatear. Não se preocupe.

– Então? – Tim perguntou depois de ficarmos calados alguns instantes. – Você queria alguma coisa e me chamou? Ou só queria conversar comigo mesmo? – Seu sorriso brincalhão fez duas covinhas em suas bochechas.

– Ah, é mesmo. – Fui até a escrivaninha pegar a carta enquanto ele olhava para o quarto.

– Este é um dos melhores quartos do castelo. A vista que você tem destas janelas é incrível. –ele dizia se aproximando de uma delas.

– É mesmo incrível. Este lugar é muito lindo. Como é que ninguém na aldeia sabe que existe este lugar tão perto? Eu pelo menos nunca ouvi alguém falar que havia um castelo nas redondezas.

Tim deu de ombros.

– A estrada para chegar até aqui é muito ruim e com mata fechada. Acho que ninguém se atreveria a viajar por ela sem nem mesmo saber onde vai chegar, já que é a direção oposta da estrada para Lighenfor.

Ele tinha razão. Só meu velho e descuidado pai poderia acabar chegando num lugar tão escondido. Lembrava-me de como tinha ficado com medo da estrada, perguntando se Marfy estaria louco ou brincando comigo.

– É, acho que ninguém mesmo faria isso. – Pensar em Marfy me fez perceber que eu não fazia ideia do que tinha acontecido a ele ou a Brum. Eu simplesmente os deixara esperando no portão.

–Tim, você sabe se havia um cavalo e um cachorro perto do portão hum... — tive que para um instante para lembrar quanto tempo já fazia. Eu podia jurar que eram semanas e não só um dia. — ... Ontem à noite?

– Ah sim! – ele respondeu com os olhos brilhantes. — Nunca vi cavalo mais manso que aquele e um cachorro mais bonito e esperto!

– Verdade? O cavalo é um shire marrom e o cachorro um perdigueiro manchado?

– Sim, sim! Não é todo dia que a gente encontra uns bichos tão bonitos parados no portão. – seu tom foi um pouco debochado, mas eu deixei passar.

– Bom, e onde eles estão agora?

– O cavalo nós deixamos no estábulo e o cachorro está junto com os outros lá fora. Se quiser, eu posso te levar para vê-los. Eles são seus, não é?

– São sim. Foram eles que me trouxeram aqui. – Será que os odiaria por isso ou os amaria?

– Venha comigo então! Eu te levo lá! – ele nem esperou minha resposta. Simplesmente agarrou minha mão e foi quase me arrastando pelos corredores. Aquela parte do castelo eu ainda não conhecia, mas mal pude reparar as salas por onde passamos, por que precisava me concentrar em não tropeçar no garoto que ia me rebocando impacientemente.

Quando saímos, pude ver um pequeno pasto que se estendia alguns metros à nossa frente. Mais ao longe estava uma pequena construção que eu supus ser o estábulo. Dois cavalos corriam em um cercado, mas nenhum deles era o meu.

– Aqueles são Grinel e Trinado. Aquele que está pulando feito um maluco é o Trinado. A Grinel é mãe dele.

Os dois cavalos eram muito bonitos. Um era preto e o outro que pulava era manchado com branco.

– O seu cavalo está aqui dentro. – Tim abriu a larga porta de madeira rústica e eu pude ver Brum em uma das baias, com seu pescoção espiando para fora.

Corri até ele e afaguei seu pescoço. Não imaginava que o alívio de vê-lo seria tão grande. Era como se um pedacinho da minha casa estivesse aqui comigo.

– O cachorro está lá fora correndo. Ele já fez amizade com os nossos. – Por um momento havia me esquecido que Tim ainda estava ali.

Como se esperasse sua deixa, Marfy entrou como louco no estábulo acompanhado por mais dois perdigueiros e quase me derrubou no chão ao pular em mim.

– Ei, garotão! – eu o cumprimentei segurando sua cabeça entre minhas mãos e chacoalhando suas orelhas. – Já se enturmou com o pessoal aqui é?

Em resposta, ele lambeu meu rosto.

– Eca. Já entendi que você está feliz. – Enxuguei a lambida com as costas da mão.

– Tudo bem Tim, agora eu já sei onde eles estão. Venha comigo que eu ainda tenho uma tarefa para você.

Desta vez quem o rebocou pelos corredores fui eu, com ele tropeçando atrás de mim para me acompanhar. Quando chegamos ao quarto fui até perto da cama, onde a carta tinha caído e a peguei.

–Tome. – disse, lhe entregando. – Esta é uma carta para meu pai. Seu... hum...bom, Matthew me disse que eu poderia escrever e que depois algum dos criados iria entregá-la.

– Ah, é! Ele me disse que talvez você fosse me chamar para entregar uma carta. Por isso eu estava ali fora esperando.

– Sério? Ele te mandou ficar esperando aqui? Mas como ele sabia que eu ia escrever agora?

Novamente Tim deu de ombros.

– Não sei, ele simplesmente me mandou ficar aqui até que você precisasse de alguma coisa.

Eu me perguntava quando eu iria parar de ser surpreendida pelos cuidados de Matthew comigo. Ele definitivamente me intrigava.

– Bom, se você não precisa de mais nada eu vou entregar ela para o Benn. Acho que ele ainda vai para a aldeia hoje antes do jantar.

Novamente fiquei sozinha com minhas dúvidas. Era impossível deixar de me perguntar como tudo isso acabaria. A carta seria mesmo entregue? Meu pai escreveria para mim? Ele iria acreditar que estava tudo bem mesmo? Dúvidas, dúvidas e mais um monte delas.

O céu estava ficando avermelhado com o pôr do sol e eu fiquei admirando o entardecer sem notar que já estava ficando tarde até que Hanna bateu à porta.

– Entre. – respondi do sofá que ficava na frente de uma das janelas.

– Olá, menina! – ela sorriu gentilmente entrando. – Como foi sua tarde?

– Um pouco confusa e meio maluca, mas acho que eu vou acabar me acostumando com isso.

Ela sorriu com a minha resposta e confirmou com a cabeça.

– Eu sei que deve ser tudo muito estranho, mas, como eu lhe disse antes: logo você vai entender o que está acontecendo.

Dei um suspiro alto.

– Assim espero. – resmunguei baixinho.

– De qualquer forma, vim lhe avisar que o jantar será servido daqui a mais ou menos uma hora.

Parecia que ela ainda queria falar mais alguma coisa, mas não sabia como, mas por fim completou o recado:

– Matthew estará lhe esperando na sala de jantar.

Hein?! Como assim ele iria me esperar?

– Espere um pouco, Hanna! Eu não vou jantar com vocês na cozinha? Que história é essa de sala de jantar?meu susto foi tamanho que eu tive que levantar do sofá e caminhar pelo quarto.

– Você irá almoçar conosco na cozinha, mas o jantar será sempre na sala de jantar... Com Matthew.

– Mas por quê? – depois da grosseria dele mais cedo, eu não tinha vontade nenhuma de vê-lo.

– Não se preocupe com isso, menina. – Hanna chegou perto de mim e colocou sua mão em meu ombro. – Agora, arrume-se que eu logo lhe chamarei para descer.

Com isso ela saiu do quarto me deixando novamente ali, parada, confusa e com medo.

“Que ótimo! Um jantar com um monstro!” pensei, mas logo me repreendi mentalmente. Monstro não era a palavra certa para defini-lo.

Meio com raiva, meio acovardada, procurei no guarda roupas algum vestido um pouco mais formal. Abri uma das portas do armário e levei um susto com a beleza dos vestidos que estavam pendurados por ordem de cores. Desde preto até branco, de vários tipos de tecidos finíssimos e brilhosos. Estendi a mão para tocar de leve em um azul marinho cintilante. A seda deslizou suavemente em meus dedos.

Fiquei um tempo acariciando os tecidos e sentindo as texturas em minhas mãos. Mas por mais que eu quisesse usá-los, sabia que eram muito exagerados para um simples jantar. Fechei as portas e fui para as seguintes e, como tinha imaginado, ali estavam os modelos mais simples.

Escolhi um verde escuro de mangas compridas e um xale branco. Prendi meu cabelo com algumas fivelas que estavam na penteadeira e me olhei no espelho.

Enquanto eu ainda me arrumava, Hanna deu duas batidinhas na porta e espiou para dentro.

– Pronta? – ela perguntou entrando de vez no quarto.

– Acho que sim. – respondi meio em dúvida.

Saímos do quarto e a segui até a sala de jantar. O lustre, cheio de velas, iluminava o salão que não era muito grande e tinha uma bela mesa de carvalho no centro com várias cadeiras estofadas de encosto alto ao redor dela.

E, para descontrole do meu coração estúpido, apoiado com uma mão na lareira e virado para o fogo, estava Matthew.

Ele parecia bem distraído olhando para as labaredas que lambiam preguiçosamente a lenha, que na hora em que entramos, nem se deu conta da nossa presença.

Hanna deu uma tossida de leve para tirá-lo de sua distração.

No momento em que Matthew se virou, tive que me forçar a respirar. Ele estava absurdamente lindo vestido com uma casaca azul escuro, camisa branca, calças pretas e botas e eu podia jurar que um sorriso havia se formado no canto de sua boca enquanto caminhava até nós.

Depois, quando me ofereceu seu braço para irmos juntos até a mesa, eu não podia evitar a tremedeira que percorria meu corpo todo. Mais do que nunca, eu odiei os movimentos involuntários de meu corpo! Ainda mais porque sabia que eu não era a única a percebê-los.

– Com frio? – Matthew perguntou-me ao puxar a cadeira para eu me sentar.

– Um pouco. – Menti apertando o xale um pouco ao redor do pescoço.

O sorriso, que antes eu achei estar em sua boca, neste instante apareceu totalmente, enquanto ele atiçava o fogo da lareira e voltava para se sentar à cabeceira da mesa, ao meu lado. Reparei que seu cabelo estava amarrado para trás, mas ainda tinha o efeito de juba de leão que eu havia notado na noite anterior quando o vi pela primeira vez.

O efeito que ele tinha sobre mim não era normal. Eu nunca tinha sentido nada como aquilo antes. Ele tinha a capacidade de me tirar do sério e ao mesmo tempo de me fazer querer ficar por perto. Seu olhar me tirava de órbita e eu acabava perdendo por alguns instantes o controle sobre mim mesma.

Porém, um pensamento daqueles inevitáveis, me passou de repente: “Você está jantando com o homem que prendeu seu pai e agora te faz de refém”.

Nem percebi que falavam comigo até que alguém colocou a mão no meu braço.

– Se não está se sentindo bem pode voltar para seu quarto se quiser. – Matthew me olhava meio preocupado e Hanna ainda estava com uma mão em meu braço e na outra ela segurava uma tigela com sopa.

– Estou bem, só me distraí um pouco. – sorri para eles para parecer mais convincente.

– Gosta de ensopado de lentilhas? – ela perguntou mostrando-me a tigela.

– Gosto sim. Obrigada. – tentei parecer normal enquanto ela colocava a sopa no meu prato, mas a sombra daquele pensamento ainda me rondava.

Depois de nos servir, Hanna voltou para a cozinha e o silêncio tomou conta do jantar. Nenhum de nós falou. O silêncio pesava sobre nossas cabeças. Talvez cada um estivesse ocupado demais pensando no quão estranho era aquele momento.

O ensopado estava uma delícia e em seguida Hanna nos trouxe uma sobremesa de frutas. Novamente comemos sem dizer uma palavra e, quando eu já estava ficando realmente desconfortável pela falta de assunto, Matthew resolveu quebrar o silêncio.

– Espero que esteja se sentindo bem aqui. – começou ele meio desajeitado. A confiança que ele aparentava no início já havia desaparecido. — Só quero que saiba que todos aqui estão prontos para lhe atender no que precisar.

Não consegui dizer nada, só assenti afirmativamente. Eu tinha que parar de ficar tão nervosa quando ele estava por perto.

– Hum... – ele hesitou um pouco – Você deve estar cansada.

– Um pouco. – me levantei e pedi licença para me retirar.

Matthew também se levantou e, quando eu já estava na porta, ele me perguntou:

– Posso te acompanhar até seu quarto?

Virei-me surpresa com a pergunta. O que ele estava querendo?

– Eu acho que sim. – forcei a voz a sair.

Ele me acompanhou silenciosamente até a porta do meu quarto, desejou-me “boa noite” e foi embora. Será que um dia eu iria mesmo entender todas essas loucuras? O comportamento estranho de Matthew, o mistério que estava por trás de tudo e por que ele era daquele jeito?

Entrei e vi que havia uma camisola dobrada sobre a cama, que já estava pronta para que eu me deitasse.

“Quase um hotel” não pude deixar de pensar.

Vesti a camisola que me serviu perfeitamente, assim como os vestidos, e me deitei na cama. Estava exausta e não demorei a pegar no sono.

Mais uma vez eu me vi caminhando à beira do rio em um dia ensolarado. Mais uma vez havia alguém de costas para mim parado junto à margem, e novamente tive a vontade louca de abraçá-lo. Mas desta vez ele se virou e me encarou. Parei no meio da corrida quando vi que era Matthew, mas comecei a correr de novo com o desejo ainda maior dentro de mim. E novamente ele caiu no rio e se afogava, e mais uma vez fui eu quem acabou se afogando e acordou desesperada.

Sentei-me ofegante na cama. Ainda estava escuro e eu não fazia nem ideia de que horas poderiam ser.

Enquanto eu tentava me acalmar, as imagens do sonho ainda rodavam em minha cabeça e eu vi que uma coisa estava diferente no pesadelo. Quando eu caí na água para salvá-lo, pude ver perfeitamente seu rosto afundando no rio e sua boca movia-se constantemente dizendo salve-me, até que eu não pude mais alcançá-lo nem vê-lo.

Até quando essas loucuras iriam durar?

Notas finais
Estava ouvindo o álbum English Rain da Gabrielle Aplin e acho que achei a música tema para a Fic! Chama-se Salvation (link: https://www.youtube.com/playlist?list=PLIaANNRayupVnfdsRtHTdQUmJJPQZM6iy ) O que acharam! Comentários! o/