O amor que não ousa dizer seu nome

1 Alguns meninos não sabem amar


Notas iniciais
Enfim! Caro paneleiro secreto: espero que goste dessa história, eu fiz o possível para adequar aos seus requisitos. Quase escrevi uma Pol/Bruno, mas não tinha visto a terceira temporada ainda e fiquei com medo de dar ruim, e quase fiz uma Ari/Dante, mas não estava fluindo bem, então acabei com essa original mesmo. Essa narrativa é diferente do que eu estou acostumada, mas saiba que foi de coração xD
(O título do capítulo foi retirado da música "Some Boys" do Death Cab For Cutie, que me inspirou bastante pra essa história, principalmente a versão cantada por Krysta Rodriguez, Andy Mientus e Jeremy Jordan.)

I

Jovem encantador,

Dize-me: por que, triste e suspirante, erras

Nestes reinos aprazíveis? Peço-te, dize-me:

Qual o teu verdadeiro nome? “Meu nome é o Amor.”

Então, o primeiro virou-se para mim,

E gritou-me: “Ele mente, porque o nome dele é a Vergonha (...)”

— “Os dois amores”, Oscar Wilde

Você sempre me pergunta por que eu não quero segurar a sua mão. Não é uma pergunta justa, porque nem é verdade. Eu quero segurar a sua mão. Às vezes, isso é tudo que eu quero. Quando estamos andando juntos até sua casa, ou quando sua irmã diz algo horrível sobre você, ou quando alguém nos olha atravessado por estarmos perto demais. Eu quero te puxar para perto e passar um braço ao redor dos seus ombros. Ou, pelo menos, segurar a sua mão.

Hoje, aconteceu de novo. Nós estávamos na fila do cinema, e você estava rindo de algo que eu tinha dito, e você estava tão lindo que eu poderia te encarar para sempre, mas, quando você estendeu a mão para pegar a minha, eu me afastei. Eu não fiz de propósito. Eu não pensei no assunto. Eu só me afastei.

Eu queria dizer que a culpa é sua por levar tudo para o lado pessoal, mas, quando o riso morreu no seu rosto, eu odiei a mim mesmo.

— Leo – chamei, mas não passou disso. Não consegui dizer mais nada. Eu nunca sei o que dizer quando isso acontece.

Você ficou olhando para mim, provavelmente esperando um pedido de desculpas, e eu me perguntei o que eu tinha feito para te merecer. A verdade é que eu não te mereço.

Quando percebeu que o pedido não viria, você suspirou, mais resignado do que chateado. Foi o que mais partiu meu coração, a forma como você já estava acostumado. Eu imaginei que, a essa altura, você não esperasse muito de mim. Eu me pergunto quanto tempo vai demorar até você passar a não esperar mais nada.

— Eu vou procurar nossos lugares – você disse. Sua voz estava neutra, de forma calculada. – Você pode ir comprar a pipoca. Tudo bem por você?

Ambos sabíamos que não estava tudo bem, mas eu assenti. Acho que nós dois precisávamos de um minuto sozinhos.

Não foi difícil te achar na sala de cinema, com aquele seu cabelo maluco. Lembro que, quando te conheci, seu cabelo era castanho claro, do tipo que parecia quase ruivo quando a luz do sol batia nele do jeito certo, e que, quando você decidiu pintá-lo de verde berrante, foi um choque no pequeno ecossistema da nossa minúscula escola. Ninguém falava de outra coisa a não ser você por uma semana. Meus amigos fizeram piadas. Seus amigos pareceram te invejar.

Eu achei que você parecia ainda mais inalcançável do que antes. Às vezes, mesmo com tudo pelo que passamos, eu ainda sinto que estou cada vez mais longe. A culpa quase nunca foi sua, mas é difícil acreditar que isso importa.

Nenhum de nós estava muito interessado no filme. Já passamos da fase de beijos acalorados no fundo do cinema há algum tempo, mas você ainda parecia ausente, e eu ainda estava pensando na conversa que não tivemos na fila. Ali, no escuro, eu podia segurar sua mão, e o fiz, mas não pareceu ser o suficiente. Eventualmente, eu me inclinei para murmurar no seu ouvido:

— Me desculpe. Eu juro que estou tentando.

Eu não esperava que isso bastasse, mas, minutos depois, senti seu corpo relaxar, e você deitou a cabeça no meu ombro. Nossos dedos permaneceram entrelaçados. Eu gostaria de mantê-los assim para sempre, e eu gostaria que você soubesse disso, Leo.

Quando eu cheguei em casa, já estava tarde. Meu pai me lançou um olhar desconfiado quando entrei; ele estava na poltrona, em frente à TV, no mesmo canto onde estava quando saí. Desde que ficou doente, ele não tem se movido muito.

— Isso não é hora de chegar em casa – ralhou ele, naquela voz rouca de fumante. Às vezes, eu me pergunto o que meu pai faria se descobrisse o estoque de cigarros no meu quarto. Não é como se eu fumasse o tempo todo, como ele costumava fazer, mas mesmo assim. Se ele não ficasse satisfeito, pelo menos vocês teriam algo em comum.

— Desculpa – murmurei. A doença deixou meu pai ainda mais mal-humorado do que de costume, como você sabe, e eu achei que não valia a pena discutir.

Ele me perguntou por onde eu tinha andado, e eu respondi que tinha ido ao cinema com alguns amigos. Leo, você sabe que meu pai não sabe sobre você. Minha mãe desconfia, mas ela me pediu, da forma mais vaga possível, para não dizer ao meu pai “nada que pudesse chateá-lo em um momento tão difícil”. Não há muitas coisas que não chateiem meu pai, mesmo quando ele não está gravemente doente.

Não é como se eu pretendesse contar a ele, de todo jeito. Quando eu tinha 10 anos, eu estava de mãos dadas com meu primo. Não lembro exatamente por quê. O que eu lembro é que meu pai não ficou muito contente; ele deu um tapa nas nossas mãos e nos disse para “parar com essa baitolagem”. Acho que nem você conseguiria conversar sobre nós com alguém assim, Leo.

Felizmente, meu pai aceitou a resposta sem questionar. Eu sugeri que ele fosse para a cama, já que estava tarde e ele tem essa mania de cochilar no sofá. Ele me respondeu com um grunhido e um gesto desdenhoso, então eu fui para o meu quarto. Meu pai é o homem mais teimoso do mundo. Minha mãe diz que eu puxei isso dele.

Nós trocamos mensagens por algum tempo depois disso. Em algum momento, eu digitei: eu deveria ter segurado a sua mão hoje lá na fila. E você respondeu: tudo bem. Agora já passou.

Sua resposta foi um alívio, mas eu continuo sentindo muito. Você não deveria ter que se acostumar a isso.

II

“A afeição ainda resolverá os

Problemas da Liberdade;

aqueles que se amam

tornar-se-ão invencíveis.”

— Walt Whitman

Nós não falamos do tempo que eu passei fugindo de você; acho que é doloroso demais. Nós não falamos da vez em que você tentou me beijar e eu te chamei de bicha e te disse para ficar longe de mim. Não falamos sobre como meus amigos costumavam imitar seus gestos exagerados. Não falamos de como eu chorei naquele dia, depois de ter passado a noite na sua casa e admitido o quanto te queria.

Nós não falamos sobre essas coisas, mas nunca conseguimos ignorar completamente o fato de que elas aconteceram.

Às vezes, elas voltam para nos assombrar. Como ontem à tarde, quando o Caio te chamou de queridinha. Ele esbarrou em você, fazendo com que você derrubasse seu projeto de ciências. Quando você reclamou, ele disse: “não precisa ficar toda nervosa, queridinha”. Você ficou olhando para mim com aquela ferocidade no olhar, me desafiando a ficar calado. Eu odeio quando você fica assim; me dá vontade de te arrastar para uma sala vazia e te beijar até perder o fôlego, ou de dar um soco na minha própria cara por ser tão imbecil.

Não foi nada sério, pelo menos comparado com o que você já ouviu de outros rapazes da escola. Comparado com esses caras, meus amigos são gente boa. Eu não sou completamente sem noção. Mas eu poderia ter dito alguma coisa. Ao invés disso, eu revirei os olhos e o arrastei para longe de você. Você observou enquanto nos afastávamos, e eu não conseguia ler sua expressão. Esse fato me incomodou pelo resto do período letivo.

Mais tarde, depois da aula, você me encontrou no corredor vazio e disse, sem hesitar:

— Um dia, você vai precisar começar a enfrentar as pessoas, Bruno.

Eu me virei para te encarar, e retruquei:

— O que você queria que eu dissesse?

Eu sei que, na maior parte do tempo, sou eu quem faz besteira, mas você nem sempre é justo comigo, Leo. Então, me perdoe se eu também fico com raiva, às vezes. Esse não é um direito exclusivamente seu. Eu posso ter dias ruins, também. De pessoas injustas, já me basta o meu pai.

Você cruzou os braços e endireitou a coluna, conseguindo, de alguma forma, me olhar de cima. Isso é uma das coisas que mais me deixa louco ao seu respeito, e não num bom sentido: essa mania de agir como se fosse mais alto que todo mundo, maior do que todo mundo – e, às vezes, sim, Leo, melhor do que todo mundo. Você não pode negar que tem esse hábito. Nem que é um hábito bem irritante.

— Isso não é sobre o Caio – você disse, revirando os olhos. Não parecia exatamente com raiva. Era mais como se você soubesse de algo que eu não sabia. – É sobre você se deixar ser empurrado de um lado pro outro por todo mundo. Você não pode passar sua vida inteira evitando conflito, Bruno, você sabe que não. Um ser humano só consegue aguentar até certo ponto.

Eu queria te dizer que talvez evitar conflito fosse melhor do que procurá-lo ativamente, como você faz. Acho que essa possibilidade nunca te ocorreu. Na sua cabeça, é você contra o mundo. Sempre foi, e sempre vai ser. Bem, Leo, eu acho que você está vencendo, e não espero que você entenda que, na minha cabeça, sou eu contra mim mesmo, e ninguém mais.

O que eu realmente disse foi:

— Engraçado, isso não parece te incomodar quando é você que tá me empurrando de um lado pro outro.

Você só ficou me encarando, como se eu tivesse te dado um tapa. A verdade embaraçosa, Leo, é que isso me deu uma pontada de satisfação. Então, continuei:

— Você quer me dar sermão sobre não fazer sempre o que os outros querem, Leo? Então talvez você devesse começar por não me dizer o que fazer.

Fui embora antes que você pudesse responder, o que talvez tenha sido um erro, mas não me arrependo. A questão é que você estava certo, ao menos em parte: um ser humano só pode aguentar até certo ponto, e, naquele momento, eu me senti como se tivesse atingido esse limite. Então, fui dar uma volta. Ficar com você não era uma opção, e ir para casa nunca ajudava – o que mais eu poderia fazer?

A questão, Leo, é que eu só faço o que os outros querem porque parece que todo mundo quer alguma coisa diferente de mim, e, às vezes, essas coisas são mutuamente excludentes. Você quer um bom namorado. Meu pai quer um bom filho. Minha mãe quer ter uma boa nora um dia. Você vê do que eu estou falando? Entre todas essas exigências, eu sinto que ainda não tive tempo para descobrir o que eu quero para mim mesmo, ou como conseguir isso sem passar por cima daqueles que eu amo.

É para isso que servem as caminhadas com telefone desligado e sem destino algum. Eu sei que tenho que ir pra casa eventualmente, antes que minha mãe fique preocupada ou que meu pai fique irritado, mas, por um segundo, dá pra fingir que ninguém quer nada de mim, e eu consigo parar de brigar com minha própria consciência por um instante que seja.

Então, depois de deixar a escola, não, eu não pensei sobre a nossa briga. Eu não “tive tempo para refletir sobre minhas atitudes e concluir que estava errado”. Você sabe que isso não é algo que eu faço. Se eu passar muito tempo refletindo sobre minhas atitudes, vou acabar ficando louco. Eu pensei que provavelmente acabaria te pedindo desculpas, e que provavelmente deveria ter dito algo ao Caio, e que provavelmente deveria dizer algo ao meu pai em algum momento, mas o pensamento não durou muito. Nunca dura.

Sabe, Leo, meu pai costumava falar esse tipo de coisa para mim e para os meus primos quando éramos pequenos e não fazíamos as coisas como ele queria. “Vamos, meninas, chutem com mais força”, “o que as senhoritas estão esperando pra levantar? Um beijo do amor verdadeiro?”, “você corre como uma garotinha, Bruno”. Por algum tempo, eu não entendia exatamente qual era o problema. Acho que me acostumei. Eu não entendia por que te afetava tanto ser chamado, na adolescência, de algo que eu crescera ouvindo sendo dirigido a mim.

Claro, é fácil de entender agora, conhecendo sua família. Conhecendo sua mãe, que nunca te deu nada além de apoio, e sua irmã, que, por mais que finja te odiar, iria até o inferno por você, e seu irmão, que te vê como um herói. Acho que entendo, Leo, de verdade. Você não estava preparado para a crueldade de ser você em um mundo como o nosso. É encantador. E meio perturbador, para ser sincero.

Ontem, eu estava pensando em como sua mãe me recebeu quando você me apresentou a ela – calorosamente, como se eu fosse uma ótima notícia – quando voltei para casa, o que não tornou a acolhida fria do meu pai melhor. Ele me olhou de cima a baixo, procurando por pistas, antes de perguntar:

— Qual o motivo dessa demora?

Eu havia demorado mais do que de costume na caminhada. Depois de ter brigado com você por ter tentando me dar ordens, eu estava me sentindo particularmente rebelde. Revirei os olhos sem pensar, e, uma vez na vida, minha língua foi mais rápida que o meu cérebro:

— Só fui dar uma volta. Ainda tenho esse direito?

Ao contrário do que eu esperava, meu pai não pareceu ligar muito. Ele continuou olhando para a televisão ao responder:

— Esfria a cabeça, queridinha, foi só uma pergunta. Enquanto morar debaixo do meu teto, você ainda me deve satisfação.

Não sei se foi porque já estava chateado, ou porque a frase era tão semelhante à que Caio tinha dito para você, ou porque eu já estava ficando cansado de toda aquela história. Comecei a me dirigir ao meu quarto sem responder, mas, na metade do caminho, murmurei, alto o suficiente para ter apenas a mínima chance de ser ouvido:

— Cuzão.

Acho que eu não queria realmente que ele ouvisse. Acho que só queria fingir me rebelar um pouquinho, pra variar. De todo jeito, ele ouviu. Não sei se você já reparou, Leo, mas meu pai continua sendo bastante ágil, para um homem doente. Ele torceu meu braço atrás das costas e me empurrou de cara contra a parede em questão de segundos.

— Repete – murmurou ele, na voz mais calma do mundo.

Eu não conseguia sentir nada além da dor no meu braço. E pensei, é isso, eu poderia dizer tudo que sempre tive vontade numa tacada só e com um castigo só, mas vou levar uma surra por uma única palavra ao invés disso. Não consegui dizer nada. Nem abri a boca. Eu provavelmente teria força o suficiente pra me desvencilhar, se quisesse. Uma parte de mim até queria. Mas eu não movi um só músculo. Acho que eu não estava nem respirando.

Depois do minuto mais longo da minha vida, meu pai cansou de esperar uma resposta. Ele me soltou e, quando me virei, ele estava limpando as mãos na calça, como se eu as tivesse sujado.

— Você não tem colhões o suficiente pra isso, não é? – Ele sacudiu a cabeça. Parecia quase decepcionado, exceto pela pontada de satisfação lá no fundo de seus olhos. Leo, eu acho que, no fundo, meu pai gosta de me ver fracassar. Acho que ele gosta mesmo. Prova que ele tem razão.

Eu só fiquei olhando para ele, com medo de me mover. Meu pai pode bater muito forte, se quiser. Eu sei melhor que ninguém. Já aconteceu antes. Não o tempo todo, não, ele não é esse cara. Mas vezes o suficiente.

Ele indicou o corredor com a cabeça.

— Pode ir – disse. – Vá em frente.

E eu fui. Assim que eu levantei um pé para dar um passo, meu pai me deu uma rasteira. Eu caí de costas no chão, sem fôlego, sem reação e provavelmente sem a menor dignidade.

Eu esperei que ele risse. Ao invés disso, ele me olhou lá do alto, parecendo quase com pena, e disse:

— Você é mesmo uma bichinha, Bruno, Deus me perdoe.

E depois voltou para sua cadeira e sua televisão, como se nada tivesse acontecido.

Eu fiquei deitado por algum tempo, tentando juntar os cacos do que quer que fosse que eu chamava de amor próprio. Acho que demorei um bom minuto a mais que o normal pra chegar ao meu quarto, de tão devagar que estava andando. Fechei a porta, cobri as janelas e deitei na cama. Não liguei para você, como tinha planejado fazer; eu estava com muita vergonha para isso. Não fiz meu dever de casa. Não olhei meus e-mails. Só fiquei deitado, olhando para o teto e pensando em como eu poderia ter tornado as coisas mais fáceis.

Veja bem, meu pai não é sempre assim. Juro que não é. Às vezes, ele vai aos meus jogos de futebol e torce mais alto do que todos os outros e me consola caso eu não consiga fazer nenhum gol. Às vezes, ele me leva pra tomar sorvete e me conta sobre seus amigos de infância. Há pais bem piores do que o meu. É só que talvez nós não sejamos compatíveis, como pai e filho, e a doença tornou tudo pior. Meu pai não sabe admitir fraquezas; ele está fazendo de tudo para provar que ainda é o mesmo homem que sempre foi. Mesmo que seu coração não seja.

Hoje, acordei com a notícia de que meu pai estava no hospital. Ele foi levado às pressas durante a madrugada, e minha mãe não quis me acordar com algo tão preocupante. Afinal, podia não ser nada. Só que, como logo ficou claro, era alguma coisa.

Então, Leo, me desculpe por não ter ligado. Eu queria ligar. Eu precisava de você. Eu só não queria que você visse certas partes de mim.

III

“No início, os filhos amam os pais. Depois de um certo tempo, passam a julgá-los. Raramente ou quase nunca os perdoam.”

— Oscar Wilde

Meu pai não era uma boa pessoa, e eu nunca tentei te convencer do contrário. Ele também não teria tentado. Ele era como era, e morreria antes de negar ou se desculpar por isso. Nesse ponto, eu nunca consegui ser igual ao meu pai. Mesmo que, de acordo com a minha mãe, eu tivesse os olhos dele. Mesmo que ele tenha moldado a maior parte da minha personalidade. Mesmo que, como você dizia nos nossos piores momentos, eu vivesse sob a sombra dele. Eu passei a minha vida inteira pedindo desculpas por quem eu sou.

Só que ele era o único pai que eu conhecia, e isso deve contar para alguma coisa. Acho que você não entenderia, Leo – afinal, você só conhece seu pai das histórias nada lisonjeiras que sua mãe conta sobre ele. O resto da sua família te ama o suficiente para ele não te fazer falta, e isso é uma coisa boa. Às vezes, em um canto escuro e empoeirado da minha alma, eu tenho inveja de você.

Mas o meu pai... Bem, ele me amava, eu acho. E ele sempre esteve lá. Ele me ensinou a andar, e a jogar futebol, e a somar e a dividir. Claro, ele me ensinou algumas coisas ruins, também, e eu tive que desaprender e reaprender algumas delas por conta própria, o que não foi nada fácil. Não está sendo nada fácil. Você sabe disso tão bem quanto eu.

Por exemplo: meu pai sempre me disse que homens não choram. Eu sempre fui um filho obediente, mas eu estava chorando quando baixaram o corpo dele em um buraco na terra.

Aconteceu rápido demais. Em um momento, eu estava me preocupando em como pedir desculpas a você, e em como conciliar a pessoa que eu queria ser com a pessoa que eu fora criado para ser. Então, de repente, o homem que criou a bagunça que eu sou hoje estava morto. Minha mãe me ligou para avisar que ele estava no hospital, e, horas depois, ela estava chorando ao telefone como se o mundo tivesse acabado. E, de certa forma, acabou. Nós sabíamos que ele estava doente, mas acho que nenhum de nós estava realmente preparado para algo assim. Acho que simplesmente supomos que ele superaria, como fez com todas as outras coisas.

Se você quiser olhar pelo lado bom e ser uma pessoa bastante mesquinha, pode olhar pelo lado bom e dizer que pelo menos isso resolveu nossa briguinha. Você foi a primeira pessoa para quem eu liguei, e a única com quem eu queria falar.

— Caramba – Foi o que você disse. – Eu sinto muito, Bruno. Cacete.

Eu não consegui dizer nada. Não havia dito nada quando minha mãe me dera a notícia. Era simplesmente demais para absorver. Até tentei, por você, mas só saiu um som esquisito de engasgo, e eu desliguei. Me desculpe por ter desligado na sua cara, Leo. Juro que não foi minha intenção. Eu só não sabia mais o que fazer.

Eu não dormi. Passei a noite em claro, repetindo para mim mesmo que homens não choram e tentando ignorar a pontada quase inexistente de alívio bem lá no fundo do meu ser. Leo, às vezes, eu o odiava. Odiava mesmo. Mas eu nunca quis que ele morresse, nunca, nem nos piores momentos. Você precisa acreditar em mim quanto a isso. Eu queria que as coisas mudassem, mas não desse jeito. Eu queria uma solução, e não uma interrupção brusca e definitiva. Um caminho alternativo, e não um muro de tijolos.

Homens não choram. Homens não choram. Homens não choram. Você não acreditaria em mim se eu te contasse por quantas noites essa frase me manteve acordado, Leo.

Então, o velório. A missa, as condolências – eu não me lembro de nada disso. Lembro de querer que você estivesse lá para segurar minha mão, e da imagem do caixão sendo posto na cova. Foi quando eu comecei a chorar. Não foi um choro controlado, do tipo lágrimas estoicas; foi o tipo de coisa privada, com direito a soluços tão altos que eu tive que cobrir a boca com a mão e morder a palma para evitar chamar atenção. Eu fiquei mortificado por essa reação, envergonhado, até, mas não me dei ao trabalho de tentar evitar. Qual seria o objetivo, afinal?

Não voltei para casa depois do enterro. Acho que deveria, pela minha mãe, mas simplesmente não consegui. Eu queria ficar sozinho até me sentir como eu mesmo de novo. Ou até a nuvem escura dentro da minha cabeça se dissipar. Ou até meu coração parar de doer. Então, fui caminhar. Segui o caminho de costume, o que passa pela praia, e demorei muito mais que o normal. A verdade, Leo, é que eu não sei quem eu sou longe do meu pai. E acho que não estava pronto para descobrir, pelo menos, não desse jeito.

Já estava anoitecendo quando eu toquei a campainha da sua casa. Foi sua mãe quem abriu a porta; ela me abraçou forte e disse que sentia muito, e, em seguida, sua irmã fez o mesmo, e até seu irmão. Eles me disseram que você estava no quarto. Eu conheço o caminho para o seu quarto bem demais.

Você abriu a porta antes que eu pudesse bater, como se tivesse sentido a minha presença, e eu não lembro de ter começado a chorar de novo, mas, quando me joguei nos seus braços, molhei sua camisa inteira. Você não pareceu se importar; apenas fez com que eu me sentasse na cama, me abraçou e ficou passando a mão pelo meu cabelo, murmurando palavras reconfortantes nas quais nenhum de nós estava prestando muita atenção.

Demorou, mas eu finalmente me acalmei o suficiente para largar sua camiseta e me afastar um pouco. Você secou as lágrimas restantes com toda a delicadeza do mundo.

— Eu sinto tanto, Bruno – você disse. – Eu sei o quanto você vai sentir falta dele.

Nenhum de nós precisou mencionar que meu pai não estaria nada satisfeito em te ver me consolando assim. Acho que nenhum de nós conseguia esquecer isso, em momento algum.

— Ele não era uma pessoa fácil – falei. –, e eu sei que às vezes eu o fazia parecer um monstro... Deus, eu falava tão mal dele...

Você suspirou. Sua expressão gritava “coração partido”. Não era pelo meu pai, era? Era por mim.

— Você sempre o defendeu, Bruno. Não precisa se preocupar com isso.

— Mesmo assim – Tive que fazer uma pausa para respirar fundo. Eu não gosto de chorar, Leo, nunca gostei. – Eu fico me perguntando o que eu poderia ter feito. Pra melhorar nossa relação, quer dizer. – Um novo pensamento me ocorreu, e eu senti meu coração falhar. Àquela altura, minhas mãos estavam tremendo. – Leo, quando ele foi levado pro hospital, a gente tinha acabado de ter uma briga. Uma briga. Eu nunca brigava com meu pai. De todos os dias...

Não consegui terminar a frase. Escondi o rosto na sua camisa de novo, só sentindo seu cheiro e tomando consciência do peso no meu coração. Decidi que era melhor ir me acostumando. Acho que esse peso vai ficar comigo por muito tempo.

Você fez um carinho nas minhas costas, seu toque leve como uma pluma.

— Shhhhhh – você fez. – Você é o melhor filho que poderia ser, Bruno. Seu pai sabia disso.

Eu sei que você nunca mente, mas não acho que você acredite de verdade nisso. Me lembro de você ter me dito, certa vez, que meu pai precisava aprender a me valorizar mais. Mas aquela não era hora de apontar isso. Eu queria me deixar ser confortado, e foi o que fiz.

Ficamos em silêncio por um longo tempo, abraçados na sua cama. Eu me perguntei se você também estava lembrando da primeira vez em que ficamos assim. Foi logo depois de eu ter admitido que também pensava em você; saímos para uma caminhada, e você me beijou atrás de um quiosque abandonado na praia. Aquela também foi a primeira vez em que dormimos juntos, e a primeira vez que eu chorei nos seus braços, quando percebi que te queria tanto que chegava a doer e que era impossível continuar negando esse fato.

Leo, já faz quase um ano desde aquela noite. Eu não conseguiria te explicar o quanto sou grato por você ter permanecido ao meu lado por esse tempo todo.

Como já estava tarde quando fui embora, você insistiu em me acompanhar. Caminhamos em silêncio, até você dizer, soando quase relutante:

— Seu pai te amava muito, Bruno. Eu posso ter tido meus problemas com ele, assim como você, mas ele te amava. O amor dele não era perfeito, mas isso não o torna menos válido.

Leo, às vezes, eu pensava que meu pai amava a ideia que ele tinha de mim. A imagem do filho perfeitamente másculo e parecido com ele que só vivia em sua mente. Você não tem como saber o quanto eu precisava ouvir isso. Vindo de você, era especialmente tocante. Eu sabia que você não diria algo assim se não acreditasse. Você não daria ao meu pai esse crédito gratuito.

Eu soltei uma respiração trêmula.

— Obrigado – Foi só o que consegui dizer.

Eu quase quis dizer que te amo. Porque sim, Leo, às vezes eu realmente penso que te amo, que minha vida desmoronaria sem a sua presença, e que você faz valer a pena todas as brigas do mundo. Mas eu não posso te dizer isso, não agora. Não enquanto eu não consigo matar meus próprios demônios. Quando eu te disser que faria qualquer coisa por você, quero ter certeza de que vou ser capaz de agir de acordo.

Em silêncio, você estendeu a mão para mim. Uma vez na vida, eu a peguei. Parecia que o peso do mundo tinha caído sobre os meus ombros; era bom sentir que eu tinha alguém com quem dividi-lo. Você, mais do que qualquer peso, impedia que eu flutuasse para longe. Eu quase consegui esquecer o que meu pai diria se nos visse ali, parados no meio da calçada, sob as estrelas. Eu quase consegui esquecer que ele nunca saberia o quanto você me faz bem.

Eu me inclinei para te dar um beijo na bochecha.

— Obrigado – repeti. Você não perguntou o que aquilo significava, pelo que fiquei ainda mais grato. Ao invés disso, você deu um sorriso triste e me deu um beijo na testa.

— Vem, eu vou te levar pra casa.

Soou como uma promessa. Quando você recomeçou a andar, eu te acompanhei. Eu não estava com pressa para soltar sua mão.

Notas finais
Sobre as citações: eu não consegui encontrar os textos dos quais foram retiradas as citações do Whitman e essa última do Wilde, então, se alguém tiver esse conhecimento, favor informar.
Então, é isso. Se você leu até aqui, espero que tenha gostado.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!