O amor e suas faces
4 Primeiras sensações.
Já estava escurecendo. O vento forte, costumeiro daquele horário à tardinha, fazia as folhas das árvores balançarem de forma barulhenta. A garota de olhos verdes olhava o movimento da rua de cima do telhado da casa amarela. Seus cabelos ruivos, curtos, balançavam, revoltos, enrolando-se nos óculos.
A rua estava cheia de pessoas fazendo suas compras e voltando para suas casas. Ela sabia que logo ele apareceria por lá também. Ele... O dono da casa amarela. O vento balançava seus cabelos enquanto ela tentava fazer seu corpo permanecer em equilíbrio ali. Quase ninguém a notava. Obviamente, quem daria importância a uma garota magricela que em nada se parecia com uma ladra ou coisa do tipo?
O relógio apitou anunciando a chegada das 6 horas da tarde. Ela já estava para descer dali quando o avistou.
Ele...
Apressou-se em ajeitar o cabelo e os óculos, sentando-se novamente e colocando-se a observar o garoto alvo de cabelos e olhos negros. Abriu um sorriso travesso quando seus olhares se encontraram.
Ele deu uma leve piscada, com um sorriso de cantou e entrou.
Maldito.
A ruiva serrou os punhos e colocou-se em um ponto certo do telhado, onde deu três batidas compassadas. Segundos depois ouviu quatro batidas em resposta. Sua face, antes irritada, deu lugar novamente a outro sorriso, mas, dessa vez, livre de travessuras.
Ela estava feliz.
Pegou sua lanterna e seu laser verde. Objetos que eles costumavam usar para se verem melhor, assustar pessoas ou apontar para as estrelas. Era sempre assim, todas as noites de sexta-feira, desde a época em que os dois eram crianças de 9 anos e a mãe dela era empregada doméstica na casa da mãe dele.
Olhou para o céu, cujo sol já tinha dado lugar à escuridão intercalada por algumas estrelas. Aquilo era um clichê em sua vida. Isso era o melhor de tudo... Ela amava clichês, afinal não era nada clichê vivenciá-los.
Ouviu o barulho dele subindo no telhado.
– Anda logo, criatura! – Falou mesmo antes de vê-lo
O barulho parou.
– Obrigado pelo carinho e paciência! – A voz um pouco distante parecia travessa.
Ela riu, Jonh sempre havia tido problemas pra subir sem a ajuda dela. Quando o ato se completou, ele sentou-se ao seu lado. As roupas formais da escola haviam sido trocadas por uma blusa largada azul e uma bermuda clara, enquanto seus fios negros permaneciam desajeitados.
– Christina... – Ele falou com o olhar vago.
– Oi?
Ele não completou o que ia dizer, apenas deixou seu olhar firme sobre a ela. Pelo menos pela sua silhueta, cujos detalhes se escondiam pela sombra noturna. Sem a lanterna apontada para ela, apenas se diferenciava o movimentos dos seus cabelos curtos, que pareciam brincar devido ao vento.
Cristina ficou feliz por não ter nenhuma luz sobre si. As marcas em seu corpo a denunciavam. As pupilas dilatadas juntamente com aquele irritante rubor em seu rosto mostravam um constrangimento que nunca estivera ali antes. Afinal de contas ela nunca se importara em ser observada pelo seu melhor amigo até aqueles dias, em que os sentimentos pareciam transparecer pelo seu corpo.
– Chistina... – Jonh falou novamente, segurando sua mão. Ela colocou a luz da lanterna sobre ele e notou seu olhar preocupado. – Ei! Para com isso...
Ela podia jurar que havia visto uma leve vermelhidão em sua face antes que ele tomasse a lanterna de sua mão e voltasse a ficar no escuro. Aquilo foi estranho, ele parecera de fato constrangido e aquela noite parecia ser mais silenciosa do que as demais.
Mas aquela atitude fez acender nela uma fagulha de esperança.
O que ele estava tentando dizer?
Mordeu o lábio inferior enquanto ainda sentia o olhar dele sobre si. Aquele maldito a fazia perder a compostura. Maldito por fazê-la ficar daquele jeito tão diferente. Maldito por deixa-la nervosa como nunca antes. Maldito por, depois de tantas juras de amizade eterna, tê-la feito se apaixonar aos pouquinhos, até aquele momento em que seu corpo a denunciava sem perdão.
Maldito!
– Chris... – Ele falou pela terceira vez. A voz demonstrando nervosismo.
Seu coração acelerou ainda mais.
Maldito!
Ele hesitou ao dizer, como se tivesse dificuldade de fazer as palavras passarem da sua garganta. Seus olhos pousaram fixos nos dela. Christina sentiu o rosto mais quente do que nunca, com aquelas borboletas que pareciam querer brincar dentro de si.
Maldito!
Malditas borboletas também!
Jonh abriu a boca para falar novamente.
Maldito!
No entanto ao invés de falar, em um piscar de olhos a ruiva sentiu o par de mãos em sua nuca. Ele a puxou para si em um misto de força e delicadeza. Antes que ela mesma controlasse seus sentimentos, ele selou os lábios dela nos seus.
As malditas sensações explodiram.
Aquele era seu primeiro beijo.
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