O amor e suas faces

3 Happy Birthday


– Feliz aniversário! – A voz de um conjunto de pessoas soou no momento em que abri a porta da sala de aula.

A luz havia sido acesa de repente, revelando uma mesa bem arrumada, que possuía um bolo de chocolate, alguns salgados e refrigerante. Fora isso, a sala parecia estar do jeito que sempre fora: as paredes, pintadas em um estilo simples, ostentavam alguns banners feitos pelos alunos, como lembretes de estruturas anatômicas de diferentes animais, grande parte das cadeiras estava ocupada pelos meus colegas de turma.

O “parabéns pra você” começou a ser cantado por aquele coral de vozes desafinadas. As pessoas batiam palmas, algumas olhavam para a comida, outras checavam algo nos celulares e somente uma registrava tudo com fotos e vídeos no celular.

Olhei atônita, sem demonstrar sorrisos.

Hipocrisia!

Provavelmente minha mãe me condenaria por tal ato de indiferença. Diria que a educação que ela tinha me dado havia sido suficiente para me ensinar a ser gentil, sorrir e agradecer.

Mas eu não queria.

Hipócritas.

Aqueles eram os mesmos colegas que me tratavam com indiferença todos os dias. Em três períodos que já havíamos cursado juntos, nenhum deles havia sentado ao meu lado para perguntar como eu estava. A maior parte deles mostrava um aspecto de repulsa ao realizar qualquer tipo de atividade em minha presença.

Sim... Eu sabia que aquela “surpresa” era apenas para manter a tradição das aparências da turma. Aquilo acontecia sempre no dia do aniversário de cada um, mas a realidade é que ninguém se importava, de fato, com a felicidade da pessoa congratulada. A prioridade eram as fotos e curtidas do Instagram. Seriam as memórias da “família feliz” que era a turma 17 de Medicina Veterinária no dia da formatura.

Continuei olhando, séria, para eles. Alguns pareciam ter vontade de rir. Senti desejo de colocar de novo os fones e dar meia volta para fora dali, mas uma mão sobre meu ombro me fez não agir. Eu conhecia aquele toque.

O homem que estava por trás de mim falou com uma voz gentil.

– Parabéns, princesa.

Arregalei os olhos, surpresa, ao ouvir aquilo.

Olhei para trás, sobressaltada, quase não conseguia acreditar no que via. O ar pareceu ficar preso em minha garganta enquanto meu coração acelerava, denunciando minhas emoções antes escondidas pela seriedade.

Mas... Será ele? Eu não o via a anos!

O senhor de cabelos grisalhos sorriu pra mim. Pisquei mais fortemente. Eu reconhecia aquele olhar. Aquele jeito que ninguém mais olhava pra mim. Livres da repulsa. Livres de qualquer julgamento.

Repletos de amor.

Amor?!

Eu ainda sabia o que era isso?

Antes de fazer um novo movimento, falei a única palavra que conseguia se formar perfeita em minha mente.

– Pai! – Minha voz saiu mais alta do que normalmente. Entretanto, sequer notei qualquer olhar ou comentário sobre mim.

Ele sorriu novamente.

Finalmente, o sorriso brotou em minha face. Mais verdadeiro do que nunca.

A hipocrisia, que antes completava a sala, não importava mais, afinal.