O amor custa caro
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O clima naquela região era quente e seco. Os bóias frias revisavam a única garrafa de água que tinham. Entre uma cortada e outra rapidamente os vários carregamentos de cana de açúcar eram levados até a fazenda. No meio daquela multidão de trabalhadores havia um jovem chamado Edward Masen de vinte e dois anos casado com Isabella Masen de vinte e um. Os dois haviam se casado ainda jovens, ambos órfãs cresceram no pequeno orfanato da cidade e quando saíram de lá decidiram morar juntos. Infelizmente a situação financeira de ambos era precária, moravam em barraco nas proximidades da fazenda de seus patrões, Isabella trabalhava como empregada doméstica e Edward trabalhava nos canaviais.
Naquela tarde quando o ultimo carregamento de cana foi levado para a fazenda Edward passou a mão na testa limpando o suor que se acumulara. Não havia uma parte de seu corpo que não doía, mas precisava se sacrificar para levar alguma coisa comestível para Bella. Pegou o cavalo que o patrão lhe emprestara e cavalgou até a cidade. Infelizmente devido as secas os canaviais quase não produziam, sendo assim o pagamento dos trabalhadores fora reduzido em quase quarenta por cento e para sua desgraça Isabella ainda ficara doente impossibilitando-a de trabalhar. Ele desceu do cavalo e o amarrou num poste perto da mercearia. Temeroso levou a mão ao bolso e pegou as moedas que havia ganho no trabalho, aquela porcaria não daria pra comprar os remédios que ela precisava, tampouco a comida. Caminhou até o balcão encarando o vendedor que já conhecia aquela expressão em seu rosto. Era muito humilhante, mas Edward precisava comprar fiado caso contrário Bella morreria de fome.
-Boa tarde – Edward disse sem graça coçando a cabeça.
-Boa – O vendedor disse seco.
-Paul – Ele fitou o chão – Preciso de um favor.
-Outro? – O vendedor riu sarcástico – Já disse que não vendo mais fiado pra você Edward.
-Eu vou te pagar assim que a situação melhorar eu juro!
-Eu não acredito.
-Por favor Paul – Ele implorou sentindo a garganta arder pela humilhação – Bella precisa comer.
-Isso é problema seu... O marido dela é você e não eu.
Ouvir aquilo era o mesmo que acerta-lhe o estômago. Realmente ele era o marido e nem sequer conseguia levar comida para a mesa. Que espécie de homem via sua esposa padecer de fome em uma cama e nem sequer conseguir um pedaço de pão? Aquilo era humilhação demais. Ele saiu da mercearia em passos firmes, montou o cavalo e cavalgou até o barraco em que morava.
Bella estava deitada no colchão velho e poeirento no cantinho do cubículo. Sorriu fracamente quando o viu chegar. Edward caminhou até ela tentando disfarçar a tristeza imensa que o consumia.
-Você está bem meu amor? – Ele disse ajoelhando-se ao seu lado.
-Es...Estou – Ela deu um sorriso forçado – E você?
-Também – Ele respirou fundo fechando os olhos – Você não está bem Bells, sei que não está. Por favor não minta para mim.
-Não se preocupe comigo Edward. Só estou... – Ela hesitou.
-Continue... Diga que está com fome.
-Edward...
-Droga – Ele levantou colocando a mão na cabeça – Eu nem sequer consigo te alimentar... Que inferno de vida é essa que eu te dou?
-Por favor não fique assim! Se eu não tivesse ficado doente não estaríamos passando por isso. A culpa é minha eu...
-Não! – Ele suspirou tentando conter as lágrimas – A culpa é desse lugar. Olhe ao nosso redor, vivemos no meio de cobras, aranhas... Baratas. Dê uma olhada no colchão bolorento em que você está deitada. Por isso está doente! Por causa dessa miséria de vida que lhe dou!
-Edward – Ela sentou com dificuldade – Venha aqui.
Ele caminhou até ela e deitou a cabeça em seu colo.
-Você não merece isso Bells – Os soluços faziam o corpo esguio arquear – Se eu pudesse daria minha vida para te tirar daqui.
-Eu te amo Ed... Na riqueza e na pobreza até que a morte nos separe.
-Se eu não conseguir logo alguma coisa ela vai nos separar – Ele a olhou nos olhos acariciando seu cabelo – Se você morrer por causa dessa doença eu me mato também Bella.
-Não diga isso pelo amor de Deus!
Edward tentava sufocar o desespero que sentia ao ouvir o estomago de Bella roncando em seu ouvido. As lagrimas rolavam queimando seus olhos e sufocando sua garganta.
-Eu vou tentar de novo – Ele disse levantando.
-Tentar o que Edward?
-Volto já e vou trazer alguma coisa para você comer, nem que eu tenha que roubar! Você nunca mais vai passar fome eu juro por tudo que é mais sagrado.
Dizendo isso deu as costas a Bella e montou o cavalo disparando até a cidade. Caminhou novamente até a mercearia com um olhar furioso nos olhos, era a primeira vez que faria uma coisa dessas. Agarrou o vendedor pelo colarinho e o olhou no fundo dos olhos.
-Eu só tenho algumas moedas – Ele disse sufocado – Sei que não é o suficiente, mas é só o que posso pagar então me dê apenas alguns pães. Qualquer coisa que possa matar a fome de minha esposa.
O vendedor o encarou espantado. Era a primeira vez que Edward agia tão violentamente devia mesmo estar desesperado. Assentiu com medo já que ele tinha o triplo de seu tamanho. Correu até a cesta de pães.
Naquele momento uma mulher acabara de entrar na mercearia. Era alta, loira e pele muito clara. Trajava um vestido de seda vermelho muito curto e maquiagem pesada. Encarou Edward dos pés a cabeça e quando ele a olhou a mulher sentiu no fundo da alma que ele era exatamente o que procurava.
-Boa tarde – Ela disse sorrindo.
-Boa tarde – Edward respondeu seco.
-Estou de viagem para Las Vegas e meu motorista acabou furando o pneu do carro enquanto passávamos por aqui. Resolvi descer um pouco e ver se encontrava água. Me chamo Tânia – Ela estendeu a mão – Muito prazer em conhecê-lo senhor...
-Edward – Ele levantou a mão receoso – Edward Masen.
-Lindo nome – Ela mordeu o lábio – Tão lindo quanto você.
-Aqui... Aqui está Edward – O vendedor disse lhe entregando um pão.
-Um pão? – Ele estreitou os olhos – E ainda duro? Como acha que Bella pode comer isso? Deve estar até mofado!
-É o que suas moedas cobrem. Dê-se por satisfeito.
-Com licença – Tânia disse ao vendedor – Pegue os melhores pães que tiver e coloquem em um saco para mim por favor. Ah, coloque leite e queijo também. Algumas frutas seriam ótimas.
-Sim senhorita.
-E então Edward? – Ela perguntou enquanto ele ainda fitava o pão duro – Mora aqui?
-Desde que nasci.
-Ah! Escuta – Ela riu – Eu não gosto de enrolação então vamos direto ao ponto. Como eu disse estava indo para Las Vegas. Sou agente de uma empresa de modelos e... Iria a uma audição a procura de um novo modelo para a agencia.
-E o que eu tenho a ver com isso?
-Bom, em você encontrei tudo que preciso em um modelo. Tem um corpo atlético perfeito, olhos verdes lindos... Lábios maravilhosos sem contar sua altura que é ideal.
-Modelo eu? – Ele riu – Está de brincadeira comigo.
-Não sou mulher de brincadeira Edward. Se quiser assino um contrato com você agora mesmo. Ganhará tanto dinheiro que jamais imaginou na sua vida.
-Isso só pode ser piada!
-Venha comigo para Manhattan. Vou torná-lo o modelo mais famoso do país. O que você faz aqui nessa cidadezinha?
-Trabalho nos canaviais.
-Canavial? – Ela estreitou os olhos – Sua pele e tão perfeita... Suas mãos, como é possível se expor tanto ao sol e ter uma saúde perfeita?
-Também nunca entendi.
-Precisa de alguns reparos é claro. Os anos de trabalho duro deixam algumas marcas, mas não é nada irreversível. Venha comigo Edward – Ela segurou sua mão – Você será muito famoso.
-Aqui está o que pediu senhorita – O vendedor lhe disse.
-Pegue Edward, essas compras são suas. Se vier comigo lhe garanto que nunca mais precisará se humilhar para comer.
Ele olhou para a mulher e para as embalagens em cima do balcão. Aceitar coisas de um desconhecido era o mesmo que pedir esmolas, mas seu orgulho já estava no lixo há muito tempo. Bella precisava de tudo aquilo e por ela aceitaria.
-Se eu assinar esse contrato terei uma casa e comida?
-Não Edward – Tânia o encarou com brilho nos olhos – Você terá uma mansão e muita fartura.
-Então aceito.
-Ótimo, nem precisa levar essas coisas para sua casa. Apenas vamos até lá pegar alguma coisa que queira e partiremos hoje mesmo.
-Não Tânia , existe outra pessoa que mora comigo. Sem ela eu não vou a lugar algum.
-Sem problemas. Você terá tanto dinheiro que poderá sustentar quem quiser. Vamos então?
-Vamos.
Ele pegou as coisas de cima do balcão e lançou um ultimo olhar para o vendedor. Naquele momento se tudo desse certo nunca mais pisaria os pés ali novamente.
Cavalgou até em casa e entrou eufórico. Bella já estava de pé sentada na pequena mesa com uma xícara de café na mão.
-Onde conseguiu isso?
-Magnólia trouxe para mim – Ela fitou as sacolas nas mãos dele – E você?
-Ah é uma longa história.
Edward explicou tudo a ela. Bella assentia curiosa e amedrontada, a sorte realmente sorrira para eles?
-Meu amor isso é mesmo verdade?
-Sim Bells. Aquela mulher disse que posso virar um modelo famoso imagine!
-Edward você é lindo sempre foi, mas modelo?
-Também é muito curioso para mim. Você me apoiaria nisso?
-Claro que sim – Ela sorriu – Não temos mais outra opção.
-Como assim?
-Ah Ed – Ela suspirou – O patrão veio aqui depois que você saiu. Ele disse que não precisará mais de seus serviços que os tempos estão difíceis e que...
-Chega – Ele sussurrou – Nós iremos com Tânia. Se é uma boa oportunidade não deixaremos passar.
-Tem certeza?
-Tenho. Você terá tudo que sempre sonhou Bells. Eu juro.
-Só preciso do seu amor Edward. Enquanto me amar serei feliz.
-Então será eternamente feliz pois eu te amo mais que tudo na vida.
Os dois juntaram as poucas coisas que tinham e saíram deixando o passado para trás. Cavalgaram até o vilarejo e encontraram Tânia encostada de braços cruzados no reluzente carro preto de luxo.
-Estamos prontos.
-Ótimo – Ela encarou Edward, Bella não entendeu, mas não gostou nada daquele olhar.
-Essa é Isabella.
-Ah – Ela a olhou com desdém – Prazer em conhecer sua irmã.
-Não –Edward sorriu – Bella não é minha irmã, é minha esposa.
-Esposa? Você não disse que era casado.
-Você não perguntou. Por quê? Algum problema?
-É que... Modelos casados são complicados.
-Bom sendo assim nosso acordo está desfeito- Ele puxou Bella pela cintura – Sem ela eu não vou.
-Tudo bem – Ela sorriu falsamente – Pode levá-la.
Os dois entraram no carro e Tânia colocou os óculos escuros, aquela maldita maltrapilha estragara seus planos. Mas, depois que Edward conhecesse seu novo mundo, Isabella seria apenas uma vaga lembrança. Sorriu com o pensamento e entrou no carro pedindo ao motorista que prosseguisse a viajem até Manhattan. Edward Masen era tudo aquilo com que sonhou a vida inteira e seria dela a qualquer custo.
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