O amor é um mistério
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Alguns dias depois...
O garoto da picape, era do meu colégio, sabia que era um rosto familiar, mas achei que talvez fosse um dos clientes da lanchonete. O acidente foi publicado no jornal local e também descrito em detalhes na rádio da cidade. Mas uma pergunta estava tirando o sono de todos, afinal quem era o motorista naquela noite?
Derek, o garoto que eu “salvei”, era filho do prefeito de nossa cidade. Ele se recusava a dizer quem era o motorista naquela a noite e lançava olhares cheios de ódio em minha direção desde que retornou para as aulas.
Como eu iria adivinhar que devia ter mentido e não ter dito que ele estava no banco do carona? Pior foi o prefeito e todos os outros me agradecendo e apontando para mim sempre que me viam andando por aí. Tudo que eu menos queria era a atenção de todos.
Quando o último horário terminou, saí apressada da sala. Tinha uma meia hora antes de ter que estar no trabalho e como não havia nada em minha geladeira em casa, tinha que comprar algumas coisas.
O que mais me impressionava em minha mãe, era sua capacidade de trabalhar somente para manter o vício. Ela pagava as contas básicas, como água e luz, mas o resto era comigo, pois o dinheiro dela ia todo para bebida.
Ela não se preocupava mais com o futuro desde que o papai se foi, eu tentava me acostumar, entender seu luto, mas já haviam se passado 5 anos e ela não mudava.
— Pensativa... – uma voz desconhecida, me abordou enquanto escolhia algumas frutas. Virei-me encarei Patrick.
Patrick era o melhor aluno de nossa turma, de uma origem tão humilde quanto a minha. Apesar de termos muito em comum, eu não sentia que éramos parecidos, ele havia se tornado o tipo de pessoa que faria de tudo para se dar bem. Ele almejava uma bolsa de estudos para faculdade e estava disposto a tudo para conseguir isto.
— Oi Patrick. – Cumprimento-o voltando a escolher as frutas.
— Você deve estar adorando, não é? – Ele perguntou.
— Não sei do que está falando. – Limitei-me a dizer se nem sequer olhá-lo.
— Toda essa atenção, não era assim desde a morte do seu pai. – Ele diz com ironia.
Sinto meus olhos arderem, senti ódio ao ouvir aquelas palavras, mas não ia deixar que ele percebesse o quanto suas palavras haviam me incomodado.
Fui até o caixa e paguei por minhas compras sai apressada pelo estacionamento, consciente de que Patrick me seguia com o olhar.
Quando cheguei a lanchonete estava arfando e suada.
— Algum problema, minha querida? – Senhora Jones perguntou, levantando brevemente olhar da chapa aonde preparava uns hambúrgueres.
— Não, vou me trocar. – Respondi rapidamente, indo em direção ao vestiário.
Uma lágrima, foi tudo que eu deixei escapar. Evitei pensar em meu pai e agradeci a Deus pelo grande movimento na lanchonete, assim mantive minha mente distraída.
No final da noite, só queria ir embora e descansar um pouco. Ajudei a Senhora Jones a limpar tudo e depois a fechar as portas.
— Eu sei que tem algo te incomodando. – Ela disse me encarando. – Você não precisa me contar se não quiser, mas se precisar de ajuda saiba que estou aqui.
— Obrigada! – agradeci, mas não iria envolve-la ainda mais em meus problemas. – Boa noite!
— Boa noite querida. – Ela despediu-se dando um de seus sorrisos acolhedores para mim.
Senhora Jones era uma das poucas pessoas que havia dado um voto de confiança em mim, assim como todos ela sabia dos problemas de minha mãe e do quanto eu precisava de um emprego. Eu era sua única garçonete e havia seu filho Billy que era nosso cozinheiro/faz-tudo desde que voltara a cidade após o divórcio. Eu me comprometi com meu trabalho e estava lá todos os dias, tirando as segundas em que eu estava de folga.
Estava tão distraída com meus pensamentos, que nem havia notado o rapaz parado ao lado de um Sedan no estacionamento da lanchonete, mesmo na escuridão, podia sentir seu olhar sobre mim.
Tentei ignorá-lo e seguir meu caminho, mas quando ele entrou em seu carro e bateu a porta com força, confesso ter estremecido um pouco. Ele manobrou o veículo e veio em minha direção, quando chegou bem ao meu lado, abriu a janela do carona e perguntou:
— Aceita uma carona? – Era ele, Derek, depois de me ignorar, soltar olhares de ódio, aqui estava ele agindo como se nada tivesse acontecido.
— Não precisa, obrigado! – Agradeci e voltei a caminhar.
— Anna, preciso conversar com você. – Ele disse me acompanhando com o carro.
— Olha, desculpe, eu não sabia que devia ter mentido sobre aquele dia, não fiz de propósito. – Digo continuando a caminhar.
Eu não havia feito nada de errado, mas quando se trata de um filho de alguém poderoso, aprendi desde cedo que não deveria me indispor e fazer de tudo para passar despercebida. Abruptamente Derek parou o carro e saiu vindo em minha direção.
— Anna, por favor, preciso falar com você, não precisa ter medo de mim. – Ele disse encarando-me, seu tom era de suplica. Não sei se forem seus olhos azuis, que me faziam perder o ar, ou a forma como havia dito meu nome, mas por um momento senti que poderia ficar a sós com ele e que isto não seria assim tão ruim.
— Tá bom. – Digo desviando meu olhar do dele e caminhando em direção ao carro.
Derek abriu a porta do carona para mim e eu entrei. Seu carro estava tão quentinho, que poderia tranquilamente ficar um tempinho por ali.
Ele entrou e ficamos em silencio apenas escutando o som do rádio. Eu não conseguia relaxar, mil ideias passavam pela minha cabeça.
— Então, sobre o que quer falar? – digo, tentando acabar com o assunto o mais brevemente possível.
— Eu sei, que você sabe quem estava comigo naquela noite... – Derek começou.
— Eu já disse que não tinha ninguém lá! – O interrompi.
— Eu te contei quem estava lá, e não me diga que não se lembra, porque vi vocês dois hoje mais cedo no mercado. – Derek retrucou.
— Pat? O Pat é o Patrick? – pergunto chocada.
Derek desvia o olhar da estrada para mim parecendo mais chocado do que eu.
— Droga! – Ele resmunga, parando o carro já em frente minha casa.
Ele sabia onde eu morava, maravilhas de morar em cidade pequena.
— Por que você estava me seguindo no mercado? – perguntei incrédula.
— Escuta Anna, não pode contar para ninguém sobre o Patrick, naquela noite nos bebemos muito, mas felizmente ninguém se machucou. Uma ficha policial não vai ajudá-lo a entrar na faculdade. – Ele disse me encarando.
— Porque se preocupa tanto com ele? – digo, sabendo que estou sendo intrometida, eu não tinha nada a ver com aquela história.
— Acredite em mim, não é com ele que me preocupo. – Ele diz com sinceridade.
— Tudo bem, não é da minha conta de qualquer forma. – Digo já tirando o cinto de segurança.
— Anna, posso contar com você? – Derek pergunta.
— Sim, não sei de nada. – Digo abrindo a porta.
— Vou garantir que ele não te incomode mais. – Ele diz enquanto saio.
Fecho a porta e vou em direção a casa sem olhar para trás.
Eu sei que não devia sentir o que senti, algo em seu olhar, em seu cheiro e até mesmo na forma de falar me atraia muito. Mas uma grande sirene soava em minha cabeça, indicando o perigo que um homem como ele podia trazer para minha vida.
Fale com o autor