A deusa fala: Escolhi Brienne para ser mãe de duas crianças especiais por motivos remotos. Muitas de minhas servas, assim como você que agora ouve essa história, ficaram se questionando o motivo de minha escolha. Afinal, o que era Brienne, além de uma das muitas sacerdotisas de Avalon?

Mas sou Deusa porque de muito sei e há muito existo. Não era para Morgana ter mais filhos e mesmo que a semente fosse plantada em seu ventre, como muitas vezes foi, ela não seria capaz de levar a gravidez adiante depois do trabalho enorme e difícil que teve para dar a luz a seu primeiro filho. Por isso escolhi Brienne, que era de duas linhagens reais.

Sei que nesse momento está tão confuso quanto a maioria das sacerdotisas, mas contarei a ti a historia que ninguém, exceto Morgana e a própria Brienne, conhecem.”

Nephania era uma sacerdotisa de Avalon, uma moça linda como poucas sabiam ser. Era da linhagem real de Avalon e teria sido senhora do lago caso Morgana estivesse escolhido seguir outro caminho. Nephania era pequena, como o povo das fadas, mas tinha a pele branca e os olhos verdes como os saxões. Seus cabelos eram um mar de chamas, caindo lisos até o meio das costas.

Foi, por muitos anos, uma sacerdotisa boa. Tinha um dom natural para a visão e para a cura, embora nunca tivesse muita paciência com os livros. Sabia cuidar das ervas como ninguém, mas também era muito dada a amores, aventuras e a romper regras. Perdia-se, por dias a fio, nos bosques de Avalon, ou saia da ilha sem permissão, fugindo através das brumas que de boa vontade curvavam-se ao poder em seu sangue.

Em uma dessas fugas, Nephania conheceu Bronwen, senhor de um grande castelo, rei de uma pequena porção de terra com vassalos suficientes para lhe conceder o título de conde de guerra. Era um homem bom, apesar da guerra. Chamavam-no de coração honesto devido ao coração flamejante que trazia em seu estande e pela honestidade que lhe era natural. Bronwen era alto, com cabelos escuros e barba negra feita ao estilo romano. Tinha os olhos bondosos, castanhos, em contraste completo a sua pele branca e os músculos bem definidos.

Quando aquela pequena mulher apareceu em sua propriedade, tarde da noite e ensopada até os ossos, o bom senhor não pensou duas vezes antes de lhe dar abrigo, comida e roupas secas nas quais se aquecer. Encantada pela generosidade e pelos gestos graciosos do homem, apesar de seu tamanho, Nephania pediu abrigo por mais algumas noites e seu pedido foi prontamente atendido. Em troca da segurança de viver no castelo, a mulher ajudava a curar os feridos da guerra, a trazer ao mundo bebês e a cuidar de crianças que pudessem adoecer.

Não demorou muito tempo para que Bronwen, encantado com a beleza e sabedoria da mulher, desejasse cada vez mais sua companhia. Ambos sentiam algo aquecendo seus corações, ansiavam pela chegada da noite quando, depois do jantar, eles conversavam sobre coisas diversas e às vezes Nephania tocava harpa e cantava para homem que sabia estar amando.

Seria mentira dizer que a ruiva não sentia saudade de casa, pois sentia, mas algo lhe prendia tanto aquele homem que ela simplesmente não conseguia se imaginar vivendo num mundo no qual ele não estivesse... Aos poucos a admiração virou amor. Bronwen, que não tinha preconceitos com religião, apesar de ser católico, casou-se com Nephania com muito gosto, em uma cerimônia linda, embora sem padres ou sacerdotisas. A vida dos dois era boa, se completavam e não deixavam que qualquer religião se intrometesse em seu amor.

É natural que histórias de amor gerem frutos e com esse casal não foi diferente. Nephania teve quatro filhos, todos meninos, bonitos e fortes como o pai. Aquele era um castelo feliz, com o riso das crianças enchendo os cômodos enormes, com as marcas de suas mãos sujas atormentando as criadas, com suas correrias enlouquecendo as amas, com suas brincadeiras tirando do sério os instrutores. Embora estivesse feliz com sua vida, faltava para a ruiva uma menina a quem amar, a quem trançar os cabelos e ensinar a arte de fiar e tecer. Felizmente, a Deusa atende todas as suas filhas, mesmo aquelas que viraram as costas à Avalon e deixaram de pintar o crescente entre as sobrancelhas.

Nephania deu a luz a uma menina bonita e forte, que veio ao mundo quieta, mas aquela foi uma das poucas vezes em que fez silêncio, pois começou a chorar intensamente assim que parteira soprou seu rosto. A menina era parecida com a mãe da mesma forma que os meninos eram parecidos com o pai, porém era grande e a ela foi dado o nome de Brienne, a nobre, a alta.

Brienne foi uma criança feliz, criada como convinha a uma princesa. Era a mais nova, a menininha do papai. Era amada pelos pais como todos os outros eram, mas protegida pelos quatro irmãos mais velhos, que lhe levavam em suas aventuras, pois foram ensinados a respeitar as mulheres da mesma forma que os homens. Brienne sabia fiar e tecer, mas também sabia ler, escrever, andar a cavalo, caçar e lutar tão bem quanto qualquer um de seus irmãos.

Quando chegou o devido momento, quando todos seus irmãos já estavam casados em seus próprios castelos e, de tempos em tempos, o castelo ficava cheio dos netos de Nephania, foi à vez de Brienne partir. Não partiu para um casamento sem amor como acontecia com os romanos e cristãos. Ela conheceu muitos garotos, passou um tempo em companhia de alguns e finalmente acabou por escolher Merle, o filho do meio de um duque de guerra amigo de Bronwen... Merle era bonito e gentil, além disso, morava a mais ou menos dois dias da casa de Nephania e Brienne era livre para ir e vir em visitas a sua mãe.

No segundo ano de casamento, Brienne deu a luz a seu primeiro filho que foi chamado de Christian, cumprindo a promessa que Merle tinha feito a Virgem Maria caso seu primeiro filho fosse menino. No sexto ano, deu a luz ao segundo, chamado Henri. Ambos os garotos vieram ao estilo do pai. Eram altos, levemente queimados de sol, com os músculos largos e bem definidos, com os cabelos e olhos castanhos.

Era feliz, não podia reclamar de sua vida. Seus criados gostavam dela, seus filhos eram meninos inteligentes, seu marido era bondoso e conversava com ela de igual para igual, da mesma forma que seu pai fazia com sua mãe. Tinha um castelo para cuidar, presente de casamento que ganhará de seu pai. Estava sempre ocupada, principalmente agora que a guerra contra os saxões se tornava mais difícil e seu marido passava muito tempo fora.

Certa noite, no auge do inverno, Brienne estava confortável em sua cama, dormindo com duas de suas criadas. O fogo da lareira crepitava agradavelmente, mantendo o cômodo aconchegante. Gritos estridentes lhe tiraram a força do sono profundo. Confusa, Brienne se levantou, enrolou o corpo num pesado manto que jazia sobre a cadeira e caminhou até a janela. Pensou em abri-la, mas viu as criadas dormindo e por um momento, hesitou... No fim, convenceu-se que abrir apenas por poucos minutos não seria ruim e assim o fez.

Quando a brisa fria invadiu o quarto, a ruiva tremeu, mas mesmo assim colocou a cabeça para fora do parapeito, observando o céu estrelado. Depois desceu os olhos para grande pátio do castelo. Nos estábulos, os cavalos pareciam agitados e aquilo era estranho. Quando seu olhar atingiu a estrada, ao longe, o terror lhe encheu o peito. As chamas lambiam a noite, casas, igrejas, carroças. Tudo estava em chamas.

Deduziu que algo dera errado na guerra e que os saxões estavam atacando. Seu coração doeu e quando ela se virou para acordar as criadas, no escuro, viu uma imagem etérea de seu marido, ferido na altura das costelas. Seu olhar demonstrava toda a agonia que sentia e também o amor que nutria por aquela mulher a sua frente... Ele esticou a mão para tocar o rosto da esposa e nesse momento, a imagem sumiu. Brienne sabia, de alguma forma, que o marido estava morto e decidiu que não deixaria seus criados entregues ao mesmo destino.

Brienne acordou as criadas que estavam em sua cama e deu-lhes ordens precisas. A ruiva desceu as escadas rapidamente e tocou o sino do pátio principal com força suficiente para acordar todos do castelo. Em pouquíssimo tempo todos os criados que não tinham seguido seu marido estavam no pátio, com suas coisas mais essenciais presas cuidadosamente em pequenas trouxas. Antes que os saxões chegassem, todos estavam longe, menos Brienne.

A senhora do castelo ficou para trás quando, vendo os criados partir, sentiu falta da filha única de um cavaleiro que partiu com seu marido. Provavelmente, pensava a ruiva, a adolescente teria ficado dormindo ou estivera enfiada num canto isolado, entregue aos livros como já fora encontrada outras tantas vezes. Brienne começou a percorrer cada cômodo de seu lar até que a encontrou num quarto pequeno, na torre mais alta e a guiou rapidamente para longe do castelo.

Infelizmente, Brienne não foi rápida o suficiente. Conseguiu mandar a menina para longe, mas quando estava saindo, eles chegaram. Invadiram os portões aos berros, com tochas e espadas nas mãos. Brienne foi ferida quase que imediatamente e teria sido morta se não tivesse ficado em silêncio num canto até que os saxões fossem embora.

Quando o dia amanheceu, a ruiva não soube se tinha desmaiado ou adormecido no canto em que estava, mas se levantou com dificuldade e caminhou, em passos lentos, para fora do castelo, em busca de ajuda. Não saberia dizer por quanto tempo caminhou, nem qual direção tomou, mas por onde olhava havia dor e destruição, pessoas mortas e feridas, pessoas chorando e tentando achar suas esposas e filhas que tinham sido carregadas pelos bandos. Em algum momento da manhã, Brienne meio se ajoelhou e meio caiu na beira de um lago. Lavou as mãos, sujas de sangue, na água límpida e bebeu um pouco. Então se deixou deitar na beira úmida do lago, desejando que a dor passasse.

No momento em que seus olhos se abriram novamente, estava em uma espécie de barco e uma mulher, toda vestida de negro, permanecia parada majestosamente na beira do mesmo. Queria falar, mas sentiu que sua garganta estava seca. Os olhos bondosos da mulher desceram sobre seu rosto e ela sorriu, o mesmo sorriso que Brienne se lembrava de ver nos lábios da mãe. – Não se preocupe, minha menina. Estará curada em breve, mas agora feche seus olhos e descanse. Cuidarei de ti. – Aquela era uma voz aveludada.

Brienne naquele dia foi levada para Avalon, onde foi cuidada pelas sacerdotisas e sentou-se com Morgana para contar toda sua história. Foi lhe oferecida a chance de ficar ali e aprender a ser uma das filhas da deusa, como sua mãe havia sido antes de conhecer seu pai. A ruiva aceitou e Morgana, compadecida com a dor que a mulher sentia por não ter notícias de seus filhos, usou a visão para encontrar os garotos e tranquilizá-la. Na ilha sagrada, Brienne se dedicou a deusa, buscando nela refúgio para a dor que sentia com a perda do marido, para se curar da saudade dos filhos e para ajudar de todas as formas as mulheres que ali chegavam.

De muitas formas, Brienne era merecedora de ser mãe das escolhidas, pois era bondosa e fiel, tinha vencido grandes batalhas internas e externas, e era inteligente. Apesar do marido cristão, nunca havia discriminado qualquer fé. Era paciente com o próximo, amorosa e apesar de toda a dor que sentia, sempre pensava em ajudar os outros da melhor forma possível. Além de tudo, tinha sangue real de Avalon e de um duque de guerra digno de nota.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.