Seu conceito de beleza era fora do padrão. No lugar de seu nascimento, o valor de um homem dependia do quão bela era a música que conseguisse produzir com o próprio corpo. Eles giravam e giravam, como um ritual que acalenta a alma, ou uma oferenda que engrandece os deuses. Bonolenov observava-os, o rosto colorido pelo fascínio. Daqueles corpos ágeis e vigorosos, nascia uma música de pureza inimaginável. E Bonolenov acreditava que não havia oferenda alguma: os homens eram os próprios deuses.

Nunca contou a ninguém o porquê de deixar seu clã. Era muito calado; só falava quando se dirigiam a ele. Quase sempre se limitava a ouvir. E como gostava de ouvir músicas! Nas rádios, nas árvores repletas de pássaros, no murmúrio tranquilo de Pakunoda quando polia sua arma. Mas, de todas as músicas, a que mais amava era a da menina de cabelos azuis. Também ela tinha seus segredos e não comentava sobre o passado. Bonolenov não dava importância a isso; sua atenção pertencia aos sons da flauta, os sons que lhe recordavam seu clã.

Quando não estava com a Trupe ou cuidando de seus próprios negócios, procurava a menina. Ela não era difícil de encontrar; parecia até que vinha a seu encontro quando a saudade se insinuava. E Bonolenov escutava a menina tocar a flauta, tão bela e graciosa em seu vestido azul e nas sapatilhas amarelas. Então, ela abria os olhos que mantivera fechados, e as íris eram como borboletas colorindo o mundo de luz. Nesses momentos, Bonolenov percebia: de todos os sons dela, o mais belo era o de seus sorrisos.

Notas finais
Há mais dois capítulos. Postarei em breve!