O ajudante de Noel
1 Capítulo Único
O sol fraco passava por entre as fofas nuvens do imenso céu polar.
Naquela vastidão branca, o vento uivava pelas montanhas cobertas de gelo. A brisa do ar densa e de temperatura negativa espalhava a fraca neblina que se estendia por tanta neve. Perdida por entre o gelo havia uma placa vermelha indicando a localização: Polo Norte.
Escondido embaixo de mais de 5 metros de gelo, havia um esconderijo camuflado pela mágica. Dentro do enorme estabelecimento havia uma luz piscando no painel central. A luz invadia toda a sala de operações com seus raios vermelhos, raios de alerta. A mágica estava prestes a sumir: Papai Noel desapareceu.
O 17º sucessor da linhagem de Noel, que continuava os gestos caridosos de São Nicolau de Mira, mais conhecido como Papai Noel, havia esvaído dos arredores da mansão no fim da noite do dia 23 de dezembro. Por mais que os duendes e a família Noel procurassem pelo bom velhinho, não havia nenhum sinal dele ou dos presentes. Era uma situação de emergência: sem Papai Noel, a esperança e a alegria do Natal para as crianças estariam acabadas e elas deixariam de acreditar ao que ver nenhum presente as esperavam embaixo da árvore. O jeito era acionar as autoridades mundiais.
— Não! – chegou interrompendo uma senhora de meia idade com algumas mexas brancas no cabelo. – Não podemos causar um pânico por entre a Terra! Felipe é muito novo para ser o próximo Papai Noel e nós teremos que encontrar o meu marido!
— Certo, Mamãe Noel, chamaremos as silenciosas. E consultaremos ele.
O duende que dissera isso logo se juntou com os demais e foram para a sala de operações. Iniciava-se agora a busca por Papai Noel.
Em uma casa de campo na Inglaterra um telefone tocava. “Eles precisam de você, eu não conseguirei realizar isso.” Era o que a pequena moça escutava de uma voz rouca e cansada vinda do telefone. Depois ouviu o barulho de um helicóptero e apareceu um rapaz na porta. Hora de ir.
Polo Norte, 24 de Dezembro às 10h12
Uma moça e um rapaz estavam parados no meio do gelo cercados por agentes do FBI e da CIA.
— Me diga — foi perguntando o rapaz para a jovem – o que estamos esperando que aconteça por aqui?
— Você não consegue ver a diferença do gelo lá na frente? – respondeu a moça com um olhar intelectual e sério. — Aqui, pela camada visível, temos gelo desde que veio a ultima nevada, tanto que os caminhos são irregulares. Mas ali na frente o chão fica mais liso e regular, e pelos pés daquele militar, a profundidade é bem menor. E se eu fosse ele, sairia daquele lugar agora.
Assim que a jovem terminou de falar, um grande tremor invadiu aquela região ártica, fazendo com que todos, inclusive o militar, se afastassem extremamente do lugar. A pequena moça deu um passo para trás puxando o rapaz junto e diante deles surgiu uma monstruosa construção de ferro que espalhou flocos de neve para todo lado.
Aquilocresceu até estar a cerca de 5 metros do chão. Uma porta abriu-se lentamente e pequenas criaturas de orelhas pontudas saíram de lá. Um dos pequenos, olhando em volta, pediu para que os dois jovens entrassem. Assim que entraram, a base voltou a se esconder embaixo do gelo.
— Senhora, os silenciosos já estão cercando o perímetro. Se papai Noel estiver por perto, eles o acharão. – O único duende sem touca daquele lugar falava em uma espécie de celular, logo se dirigiu aos convidados que deixara entrar. – E ele já está aqui.
O duende apertou as mãos do moço e abriu um sorrisoenquanto encarava o rapaz.
— Que bom que pôde vir, senhor Holmes. Sou Extephanic Muractu, mas me chamam de Nic. Sou o duende de direção geral. Vejo que és mais novo do que contam os registros, senhor Holmes.
Os jovens se entreolharam.
— Bem... Prazer Nic – Disse o jovem ainda apertando a mão do Duende. – Mas não sou um Holmes. Sou Jack Miller.
— Mas então o Sr. Holmes não veio e nos mandou dois jovens, ou melhor, duas crianças para se desculparem por ele?
— Na verdade, — disse a garota – me mandaram para resolver este problema. Sou Clarice Holmes. Filha de Sherlock Holmes.
— E desde quando Sr. Holmes tem uma filha?
— Só porque ninguém a conhece não quer dizer que ela não existe, não é Sr. Nic?- A garota deu um leve sorriso, um tanto sarcástico — Pois bem, estou aqui e sou tudo o que você tem.
— Apesar de não ser tão boa quanto o pai, ela é o melhor que você conseguirá achar. – respondeu Jack defendendo-a.
— Mas isto é inaceitável! É um...
— Oras, Nic! – disse a senhora que entrava na sala interrompendo o duende. – Quando Noel estava doente, se não fosse eu para acompanhá-lo, ele teria caído no Oceano Atlântico! Mulheres podem fazer muito. Prazer em conhecê-la Clarice, sou a Mamãe Noel. Uma fã do trabalho de seu pai. Fiquei sabendo que a doença o está deixando inválido por esses tempos.
— Sim, senhora. Mas ele me pediu para vir ajudá-los.
— Fico feliz por terem vindo. Venham. Vou levá-los até a sala onde os presentes e o Noel foram vistos pela última vez.
Desceram por uma escadaria que levava para uma profundidade maior do que a se encontravam. Por mais incrível que parecesse, podia se ver uma floresta tropical por uma janela de vidro; havia um salão imenso com vários duendes refazendo os brinquedos perdidos e uma escadaria que parecia passar por todas as entradas de salas daquele lugar. Com o fim da escadaria, chegaram a uma mansão de ar simpático: a casa do Papai Noel. Logo, uma campainha apitou ao lado deles e uma porta se abriu com vários duendes dentro acompanhados de Nic.
— Um elevador?! – gritou exaltado o rapaz. – Por que não viemos por ele também?!
— Jack, estamos aqui para examinar. Eu pedi para virmos por aqui. Vamos continuar. – A moça acenou para que a senhora prosseguisse enquanto o rapaz a olhava confuso
Andaram até o fundo da casa, onde havia um enorme saco quase vazio. Alguns presentes caiam de minuto a minuto dentro dele.
— Nós já o tínhamos enchido... – disse a velha em um tom triste. – Noel veio aqui para lustrar o trenó antes do grande dia... mas... – ela simplesmente apontou para um pano caído e uma latinha de cera.
Clarice chegou perto do trenó e olhou para o saco de presentes. Pegou o pano caído e alisou o veículo que o velho utilizava na noite santa. Foi para o que deveria ser a ‘pista de decolagem’ do trenó. Ela voltou.
— Ele foi raptado! – disse o duende Nic gritando desnecessariamente. – Não tem outra escolha! Levaram ele embora! Foi aquele coelho maldito!
— Nic – a moça o lançou um olhar feroz para que se calasse. – Não foi o Coelhinho da Páscoa. É tão óbvio isso! Não temos sinais de pelo ou pegadas no chão. A escadaria não foi usada. Aquele elevador, além do barulho irritante ao chegar ao destino, é monitorado por aquelas pequenas câmeras na lâmpada. O salão de brinquedos e as outras salas também são monitorados. Ninguém entraria ou sairia daqui sem ser percebido.
A Senhora Noel, Nic e Jack encaravam-na com espanto. Como ela tinha visto aquelas câmeras pequenas e notado tanto em tão pouco tempo?
— A não ser – prosseguiu a garota –, que a pessoa também usasse mágica.
— Como a Fada dos Dentes! Nunca confiei nela! Aquela mulherzinha...
— Nic, se falar mais uma vez terei que pedir para que saia. O que você acha sobre isso, Jack?
— A Fada dos Dentes não poderia ter feito isso. Fadas não são capazes de fazer o mal, mesmo que sintam apenas uma emoção de cada vez. E além do mais, a Fada dos Dentes, o Sandman e o Bicho Papão estão ocupados o ano inteiro. Não teriam o porquê fazer isso.
— Exatamente. Papai Noel realmente começou a encerar o trenó e algo o interrompeu. Que horas ele veio para cá, Sra. Noel?
— Era umas 23h40 já... O coitado não conseguia dormir de ansiedade.
— Por volta de meia-noite foi quando o raptaram.
A expressão de confusão ficou esboçada no rosto de todos os presentes.
— Vamos, pessoal! Olhem para o trenó! Ele é grande. Demora para encerar. Já estava mais da metade concluída... e pelo tamanho do pano o enceramento deveria ficar pronto em 30 minutos. Interromperam-no antes de terminar. É tão simples. – Ela olhou para os duendes. — Vocês sempre utilizam mágica para esconder este estabelecimento?
— Sim – respondeu prontamente um duende gorducho se aproximando da garota mostrando um saquinho brilhante. – É mágica da aurora boreal. Todo ano buscamos, não podemos ficar sem ela.
— Se não...?
— Se não ficaríamos extremamente visíveis aos olhos de todo o mundo e a magia acabaria.
— EXATO! Por favor, quero um relatório sobre o pó mágico e as filmagens desta noite. Vocês já olharam elas? Há algo importante?
Os duendes entreolharam-se. Nic foi quem falou:
— Bem... Não a verificamos ainda...
Ela expirou forte.
— OK. Traga-as para mim. – Ela olhou para o relógio: quase meio-dia. – E o mais rápido possível. – Ela olhou em volta. – Onde está a Mamãe Noel?
— Está fazendo o almoço. – respondeu um menino de jeito faceiro que veio correndo em direção a eles. – Ela pediu para vocês dois entrarem. – Ele olhou para Clarice. Os cabelos negros da garota contornavam a pele pálida do rosto delicado da pequena. O menino sorriu. – Tirando a palidez e o nariz fino, não se parece muito com o seu pai. É bonita demais para se parecer com ele.
A garota corou levemente e se aproximou do menino com um sorriso. Deu um tapinha no topo da cabeça do garoto e começou a andar rapidamente, envergonhada. Jack riu baixo acompanhando-a.
O corredor que dava na sala de jantar tinha quadros de todos os Papais Noéis até agora. A mesa já estava posta quando chegaram. Quase instantaneamente após acabarem a refeição, os duendes apareceram com alguns livros e um notebook bem avançado.
— Jack, veja se encontra algo nas filmagens para mim, por favor.
O moço pegou o notebook e começou a verificar todas as câmeras desde as 23h40 da noite anterior. Clarice ficou com os livros e com os eventos ligados ao pó mágico da Aurora Boreal.
— Achei algo. – Disse Jack após meia hora do início da pesquisa.
Clarice chegou perto do rapaz de cabelos claros e ficou olhando para a tela que tinha os vídeos de quatro câmeras.
— Olhe... 00h02 está tudo normal... mas da 00h03min23 até 00h04 tudo se apaga... Cerca de trinta e sete segundos de escuridão. Todas as luzes se apagaram. Mas a força não acabou, já que as câmeras continuaram rodando. Apenas as luzes.
— Foi quando o pegaram...
— Quer dizer que o sequestraram em trinta e sete segundos? – perguntou Nic que estava quieto demais até o momento. – Como conseguiram levá-lo para tão longe em 37 segundos?
— Usaram mágica... E não, não o levaram para tão longe em trinta e sete segundos. Ele ainda está aqui, em algum lugar.
— Procuramos em tudo! Ele não está por aqui senhorita Holmes!
— Está! Só falta alguma coisa... a peça para encaixar tudo...
Ela então começou a andar pelo corredor examinando as pinturas dos antigos Noéis. “Estou esquecendo algo...” Ela parou em frente de um quadro um pouco mais antigo. “Ou de alguém...”
— Nic! Jack! Venham aqui!
Os dois correram para perto da menina que apontava para uma das pinturas.
— Que Noel é este Nic?
— É o 13º. Ele foi o Noel de 1790 até 1860.
— E o que é este ser? Este quadro é a última vez em que ele aparece..
Nic apertou os olhos para ver que atrás da cadeira de Noel tinha uma espécie de monstro obscuro com chifres que se escondia do pintor, e em todas as outras pinturas até aquela ele sempre estava em algum lugar, quase totalmente escondido.
— Eu... Eu nunca o vi.
— Jack, quem é ele?
— Pela aparência, ele deve ser o Krampus. O espírito maligno que andava junto com Noel. Uma espécie de ‘ajudante’, só que do mal. Enquanto o bom velhinho recompensava as crianças, ele as punia.
O rosto pálido de Nic tinha uma expressão de “como-que-você-sabe-disso-se-nem-eu-sei”. Clarice deu um leve sorriso entendendo a expressão de Nic e apoiou o cotovelo no ombro do amigo:
— Conheça Jack: Ele é louco por coisas desnecessárias. – Ela revirou os olhos. – Mas que às vezes são necessárias. Ele é historiador, trabalha em um museu... Conhece muitos fatos e adora mitologia e lendas. É a minha fonte de informações ambulante. Agora, — ela desapoiou-se de Jack — voltemos ao que importa: SRA. NOEL!
A velha senhora surgiu na porta. A moça perguntou-lhe sobre Krampus. A senhora estremeceu.
— Ele sempre acompanhava o Papai Noel... – disse a velha apertando nervosamente as mãos e olhando para o chão — mas então um dia ele exagerou na punição da criança, quase a matando. Então, no seu último ano como Noel oficial, o 13º Papai Noel o trancou em uma fortaleza mágica...
— Onde fica isso? – perguntou a jovem.
— Ah, minha filha, apenas os Noéis sabem... Parece que contam esse segredo quando for a hora do próximo assumir...
Clarice correu e pegou um dos livros.
— Este livro não tem o registro de 2010 sobre a busca pela Aurora Boreal. Algum evento relacionado ao Norte nesse ano que você se lembre, Jack?
— Bem... – ele fechou um momento os olhos – Sim! Eles rastrearam um sinal forte vindo daqui, mas nada foi encontrado... seria....?
— Sim... – afirmou Nic — O Papai Noel se atrasou ao trazer o pó mágico... ficamos por uma hora sem magia... foi terrível!
— Agora tudo faz sentido... – Clarice segurou-se na parede por alguns instantes e olhou para a janela aberta. – Ele está por aqui.
Ela saiu correndo em direção as escadas até chegar à janela que dava para a floresta tropical. Jack, Nic e alguns duendes acompanharam o ritmo da garota, mas a Sra. Noel ficou para trás.
— Jack, como sou burra! Por que raios teria uma floresta aqui?
— Talvez para pegar madeira... Ou então para uma distração diferente no meio deste gelo... Sei lá...
— Foi o que eu pensei a princípio, mas que lugar melhor para esconder algo importante do que uma densa floresta? Ó céus... Aquele Noel pensou até nisso... Ele deve criado este ambiente apenas para isso... Ele nunca imaginaria que... Precisamos entrar Nic!
Os jovens e os duendes foram até uma porta e entraram naquela sala cheia de plantas e árvores. Era imensa.
— Vamos seguir em frente. Já veio aqui Nic?
— Não temos permissão senhorita... Não poderemos entrar mais do que isso. –Os outros duendes já haviam parado após o primeiro passo, só Nic ainda estava bem perto deles.
— Nunca me disseram que não posso ir. – Clarice encarava o pequeno de orelhas pontudas. — Se quiser, fique aí... Mas estamos procurando por Noel... não se esqueça disso. Vamos Jack!
Os dois jovens começaram a caminhar em direção à floresta. Nic, olhava de um lado para outro, nervoso, observando a reação dos outros duendes que tremiam na porta, até que resolveu segui-los.
Caminharam por um longo tempo até que Clarice bateu a testa em algo invisível. Os três então começaram a apalpar o nada em busca de alguma coisa. Jack sentiu o que quer que fosse e puxou: era uma alavanca. Uma caixa de metal começou a surgir diante deles. Na caixa não havia janela, nem porta. Apenas o metal. Clarice deu um passo para trás e segurou o braço de Jack, nervosa.
— Ele está aí...
— O Krampus? – disseram em uníssono as vozes masculinas.
— Não... – Ela examinou a caixa mais uma vez — O Papai Noel... Krampus está solto... – Ela apertou mais forte o braço de Jack.
Jack retirou as mãos da garota delicadamente e pegou uma pistola do bolso de sua jaqueta e apontou para a caixa de metal, pronto para atirar.
— Jack! O que pensa que está fazendo?!
— Tentando abrir!
— Você é louco ou apenas idiota? Não está vendo que tem magia? Apenas magia rebate magia!
— Escute a garota, rapaz – disse Nic pegando um saquinho do bolso. Era um pouco de pó que todos os duendes carregavam. Ele encheu a pequena mão com um pouco do pó e assoprou sobre a caixa que logo se abriu como um dado de papel desmontado.
Dentro daquela caixa estava Noel que começava a acordar. Ele olhou ao redor e viu os rapazes e o duende olhando-o.
— Oh, Deus... Ele escapou... – Papai Noel se levantou limpando a roupa. – HO HO HO! Quem diria... Ele ficou mais forte do que me disseram que era! Como me explica isso, pequena Clarice?
A moça surpreendeu-se. Ele não se esquecia de ninguém mesmo?
— Bem, — disse a moça de forma clara – em 2010 quando a magia acabou por uma hora essa prisão se desfez e o Krampus pôde escapar, mas ninguém percebeu já que o único que conhecia este lugar era o senhor, e, quando o senhor chegou, esta caixa, com a magia de volta, já deveria ter se montado novamente. Então o Krampus deve ter esperado até o Natal para sair e segundo o que Jack veio me falando, sem o senhor por perto ele podia ir para o mundo se fortificar com a energia das crianças más. Agora que ele voltou com a última saída do senhor para pegar a magia da Aurora Boreal na semana passada, ele queria vingança por ter sido aprisionado.
— Mas você realmente ficou boa... – Disse Noel jogando uma piscadela para menina. – E agora ele deve estar na fábrica de brinquedo... Ele já levou os outros brinquedos, não é?
— Sim... como o senhor sabe...?
— Ele é um Krampus, minha querida. Ele só quer punir as crianças. O dever do Noel era deixar ele punir apenas as más, mas ele quer punir a todas. Tirar um presente de natal é uma boa ideia, não é?
A menina assentiu com a cabeça. Já com o Papai Noel, eles foram até a fábrica.
— Jack, onde você iria se fosse um Krampus, meu rapaz? – disse o bom velhinho como se já soubesse a resposta.
— Sabotar os demais brinquedos... então... – ele apontou para uma máquina grande no meio da fábrica.
— Isso mesmo, meu rapaz. – Então ele assoviou alto.
Com o assovio, todos os duendes olharam para ele, mas não só os duendes. De dentro da máquina surgiu-se um vulto negro. O vulto escalou as paredes até que encarou o velho com os olhos vermelhos ferozes e começou a acelerar em sua direção.
Clarice antes mesmo de vê-lo sair já tinha ido para trás de Jack, que percebendo o medo da garota, pegou em sua mão e a trouxe para perto, falando baixo, só para ela ouvir:
— Acalme-se, Clarice... você sempre foi uma boa garota.. seu pai irá ficar orgulhoso por ter ido bem... afinal, sua primeira ‘missão’ em campo foi um sucesso... O Krampus não vai te pegar... o Sr. Noel sabe o que faz.
Ela apertou a mão do garoto. Fechou os olhos. Respirou fundo. Deu um passo para frente. Era besteira ter medo, não era uma criança. Abriu os olhos.
O coração da pequena acelerou. Os olhos vermelhos estavam de frente para ela, encarando-a. Ela podia sentir a respiração forte daquilo que estava bem a sua frente. Ele a encarava mexendo o rosto de um lado para o outro. O monstro ergueu as garras e começou a aproximá-las da garota. Pois bem, ela devia ser uma criança: estava com muito medo.
Antes que aquelas enormes garras a tocassem, o Papai Noel o pegou pelo pescoço e Jack já havia puxado a garota para os seus braços. O Krampus, quando dominado por Noel, ficava tão indefeso quanto uma criança. Naquela noite, Krampus tinha usado toda a força que conseguira para apagar as luzes e conseguir prender Noel, explicava o bom velhinho. Agora, sem toda aquela força, era um ser fraco que tentava inutilmente soltar-se das mãos de Noel.
— Vamos voltar Krampus... É feio aterrorizar garotinhas. – Disse Noel levando-o em direção a floresta.
Quando Papai Noel voltou, todos estavam saudando Clarice por ter resolvido o mistério. Noel juntou-se a eles.
— Mas, Sr. Noel... e os presentes? – Indagou Jack, preocupado com o que iria acontecer.
— Não sei se você percebeu, meu rapaz... mas o Krampus é uma criatura óbvia em alguns casos... Veja só!
O bom velhinho estalou os dedos e vários brinquedos surgiram espalhados no chão.
— Ele colocou em uma “dispensa” na qual só nós dois podemos acessar... – O velho pegou um dos brinquedos do chão e limpou-o por cima. – Agora é só arrumarmos isso até o natal.
Clarice olhou para o relógio: 18h31. O tempo na floresta havia passado mais rápido do que ela havia imaginado.
— Vai dar tempo? Até organizar tudo...?
— Ah sim, minha filha. Mesmo que alguém diga que eu não apareci esse ano, cedo ou tarde eu vou levar o presente. Sabe, tenho milhares de duendes e a magia para me ajudar.
O velho jogou outra piscadela para a garota e, assim como ele, ela sorriu. Estava terminado. Agora era hora de voltar.
Após se despedirem da família Noel e dos duendes que os ajudaram, Clarice e Jack voltaram para a parte superior do estabelecimento (desta vez pelo elevador), e voltaram para o branco que estiveram naquela manhã, o qual agora estava envolto pela escuridão. Viram a base que guardava a casa de Papai Noel se abaixar e tudo voltar a ser apenas gelo.
Jack esfregava uma mão na outra por conta do frio. Então, olhando para Clarice, ele sorriu esticando a mão em um convite para a moça.
— Bem, agora que já salvamos o Natal, nós podemos aproveitar o nosso?
Ela sorriu e segurou a mão do rapaz.
— Elementar, meu caro Jack.
E os dois caminharam através das trevas da noite até o avião que os levariam de volta para a Inglaterra.
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