O acordo Dramione
20 Capítulo 20
A mansão não era a mesma, há um bom tempo. Sempre que Draco a visitava, podia ver as mudanças que sua mãe promovia, com os elfos domésticos que ficaram com ela, apenas por serem leais e com sua própria magia. Sua mãe leiloara quadros, conseguindo um pouco de dinheiro, para fazer reformas em alguns cômodos e deixar a mansão com um aspecto mais aristocrático, do que lúgubre. Seu pai gostava de deixar objetos de artes das trevas espalhados pela sala, pela mesinha de centro, em cima do console da lareira e até mesmo, pendurava quadros de gosto duvidoso e desagradáveis ao olhar. Ele se lembrava de um, que ficava em cima da lareira. Um anjo vingador, pisando no crânio de um ser humano, apontando a espada para ele, com um olhar cruel. Quando foi recebido na sala de estar, por sua mãe, não havia mais o quadro. Na verdade, o local estava redecorado, com papel de parede florido, em tom bege e as poltronas de cor vermelha e preta foram trocadas por tons suaves, de azul claro a bege.
— Olá querido – ela disse, com um sorriso afável, deixando uma bandeja de biscoitos e chá, em cima da mesinha de centro, que também era nova, de vidro. Ela se sentou na poltrona de couro de dragão, com as pernas cruzadas. Parecia ser a rainha do lugar. E isso alegrou Draco, que fazia dois meses não a visitava – Sente-se, filho – Ela convidou com a mão.
Ele sentou-se em um divã, de cor azul, na ponta, um pouco desconfortável. A sala estava com um tapete felpudo, em tom branco gelo. O tapete era macio. Teve vontade de baixar a mão para toca-lo.
— Como estão as coisas no Ministério? – ela interrompeu seu fluxo de pensamentos.
Observou sua mãe, então, atentamente. Os olhos dela pareciam distantes, as mãos inquietas sobre o colo não passaram despercebidas por ele. Ela vestia um lindo vestido, de tom turquesa, com gola alta e mangas cumpridas. Os cabelos loios presos no alto da cabeça, com alguns fios brancos em evidencia. Estava magra, é claro. Não devia comer nas horas certas. Ela sempre fora comedida em sua alimentação. E ele havia notado nos poucos dias que passou ali, antes de encontrar um lugar para morar, que ela mal tocava nos alimentos. Estava apática. Contudo, naquele dia ela parecia temerosa de algo.
— Estão um caos – Draco respondeu, sincero, apoiando o cotovelo na coxa e a mão apoiou seu queixo – Parece que temos mais problemas vindo por ai. Então, pedi proteção para você.
— Proteção? – Ela perguntou, com os olhos arregalados – Mas, por que?
— Você leu os jornais, mãe?
— Bem...sim, eu li, mas não há necessidade de se preocupar...- suas mãos tremiam em cima do colo.
Ele pensou em se levantar e acalma-la, mas temia que ela o rechaçasse. Ela ultimamente evitava contato físico, pelo menos, nas ultimas vezes que esteve em casa. Não que ele fosse amoroso. Mas, estava acostumado a receber um abraço dela. Ela sempre o abraçava quando ele voltava para casa, nas férias de Hogwarts. Esse era um dos momentos em que ele mais sentia felicidade, pois durante todo o tempo que passava no castelo, ele mal tinha contato humano. Seus amigos eram mais servos e lacaios, do que realmente pessoas que se importavam com ele. E só estavam com ele devido ao seu status.
— Eu não sei se a senhora entendeu a gravidade da situação – Draco constatou – Porque, estamos em ataque novamente. Houve fuga em massa de Azkaban, além do fato de que, eu não sei se deveria contar, mas quero lhe pôr a par disso, Yaxley está comandando um exército de comensais. E acredito que irá recrutar mais seguidores.
Ela não parecia surpresa pela notícia, mas suas mãos, elas continuavam tremulas.
— Eu imaginava que isso viria acontecer, mas nós não precisamos estar no meio disso, precisamos? – Ela perguntou, em tom neutro.
— Eu não tenho escolha quanto a isso – Draco retrucou, ácido – A marca negra e minha associação com o lorde das trevas não me permite me desvencilhar deles. Somente com a minha morte eu poderia fazer isso.
A mãe dele abriu e fechou a boca, em uma expressão horrorizada. Ela passou a mão pelo rosto, pálida.
— Não pode ser isso. Meu menino...- ela estava com a voz embargada – Eu disse a Lucius que você não poderia...ele me prometeu!
— Mãe, o que você sabe? – Draco indagou, compreendendo que sua mãe escondia algo maior do que deixava transparecer. Segredos que não compartilhou com ele.
— Querido...se você soubesse...eu...- Ela estava com voz entrecortada, lágrimas escorriam de seu belo rosto. Ela se levantou da poltrona, de um salto. Andou até a janela, sob o olhar vigilante de Draco. Entreabriu as cortinas diáfanas, parecendo procurar por alguém – Você disse que veio sozinho, querido?
— Eu não disse – Draco então, se levantou – Camus está lá fora, reforçando as proteções em volta da mansão. Deixaremos dois aurores vigiando a propriedade – Estava próximo a ela agora, vendo pela janela Camus terminar os feitiços de proteção no perímetro da propriedade.
— Você não pode! – ela se virou para Draco, um olhar assustado. Parecia com medo de algo – Não pode fazer isso comigo...
— O que? Mãe, é para protege-la – ele se indignou, dando um passo atrás, ao ver como ela parecia alterada.
Ela passou a mão pelos cabelos, desmanchando o coque.
— Não quero os olhos do Ministério na minha casa – ela murmurou – Diga a eles que não é necessário.
— Mãe, a senhora não tem opinião quanto a isso. É sua segurança e eu não vou permitir que você seja atacada!
Ela negou com a cabeça, andando para longe da janela. Draco a seguiu. Ela andava transtornada e parou. Girou nos calcanhares, fitando os olhos do filho.
— Se quer me ajudar, Draco, precisa fazê-los não entrar aqui, na minha casa.
— Mãe, eles vão ficar do lado de fora. Só vão entrar em caso de perigo. Tenha calma.
Ele não sabia o motivo para ela estar com um ar tão sombrio. Não entendia o que havia acontecido com ela, durante aqueles dois meses em que evitava pisar na mansão.
— Papai fugiu, você sabe – ele disse, lentamente – Ele desapareceu e preciso encontra-lo.
Narcissa evitou olha-lo. Parecia esconder algo.
— Você sabe onde ele está, mãe? Precisa me dizer.
Silêncio. Ela não lhe diria nada.
— Não sei, querido. Sinto falta do seu pai, você sabe disso, não sabe? – Ela falava baixo, retorcendo as mãos – Preciso descansar, Draco. Estou com dor de cabeça. Saber que o Ministério está intervindo em nossas vidas além do necessário está me deixando cansada.
— Claro, mãe – Draco concordou, a contragosto. Ele queria continuar a conversar com ela e entender o que estava acontecendo ali.
Mas, a única coisa que poderia fazer era ir para casa. Ela o dispensou, sem cerimonias, mandando um elfo leva-lo até a porta. Encontrou Camus no caminho.
— E aí, falou com sua mãe? – ele perguntou.
— O mesmo de sempre – Draco respondeu – Ela não fala comigo.
E ele não deixaria que Camus soubesse das suas próprias suspeitas, que ele sabia muito bem o que sua mãe escondia. Mas, não tiraria dela o que ela necessitava. Por enquanto, não.
**
Hermione prendeu a respiração. Não poderia acreditar no que estava vendo. Não poderia ser. Era impossível. Mas, ali estava a prova de que Harry estava certo.
— Está vazio – Harry murmurou – Não pode ser.
O caixão que havia sido enterrado o corpo de Voldemort estava vazio. Sem nada a não ser o estofado que o cobria. Era como se nunca tivesse tido um corpo ali. E como isso viera acontecer, era a pergunta que Hermione se fazia?
— Harry, precisamos alertar o Ministério...alguém pode tê-lo roubado para fazer...não sei, magia negra?
Dessa vez, ela nem sabia o que poderia ser. Talvez, uma ressuscitação. Mas, claro, quem o fizesse, precisaria de uma relíquia da morte, a qual Harry perdeu, na batalha de Hogwarts. Então, como fariam tal coisa? A não ser que houvesse outros meios de traze-lo a vida. Havia é claro, um. Como tornar um morto em um inferi. Um tipo de morto vivo. Mas, a pessoa não voltaria ao seu estado normal. Na verdade, ela estaria sob o comando do bruxo que a ressuscitou. E aquilo era somente o começo. Hermione poderia pesquisar mais sobre o assunto e descobrir se havia outras coisas que poderiam ser feitas com um corpo.
— Eu não sei – Harry passou a mão no rosto, tirou os óculos e secou-os na camisa, colocando-os de volta – Eu não posso acreditar que isso esteja acontecendo. E se ele estiver vivo, em algum lugar, apenas usando os comensais para então, começar uma nova batalha?
— Não podemos fazer conjecturas, Harry. Precisamos ir aos fatos – Hermione argumentou – E precisamos enviar um patrono para o Ministério. Espera – ela pediu, antes que Harry fizesse qualquer movimento – Estou pensando, será que isso terá implicações? Você sabe, no nosso mundo, poderíamos ser presos por exumar um corpo sem o consentimento das autoridades.
— Kinglsey não vai fazer isso conosco. Ele vai estar mais preocupado com o fato de que o corpo de Voldemort desapareceu – Harry argumentou.
— Ou ele pode achar isso uma tremenda perda de tempo – Harry a fulminou com o olhar – Me desculpe, mas todos vimos Voldemort morrer Harry...
— Você não entende, não é? Se alguém fez isso, é para um propósito maior.
Seu amigo parecia muito contrariado, na verdade magoado. O que ela poderia fazer, afinal? Confiar que Voldemort voltou, sendo que ele morreu diante de todos? E tentar uma ressuscitação seria impossível. Todas as partes da alma dele, as sete, haviam sido destruídas. Poderia sim, reanimar seu corpo, mas sem alma. Ele não seria nada, a não ser uma casca vazia, a comando de outro bruxo. Não teria inteligência ou força para qualquer coisa. Nunca teria a sua personalidade e alma de volta em seu corpo, porque sua alma havia sido destruída para sempre.
— Harry – Hermione tentou colocar a mão sobre o ombro do amigo, que se afastou.
— Eu vou conjurar o patrono – ele disse, em tom azedo – Se quiser ir embora, pode ir.
Hermione suspirou. Harry sempre fora difícil de lidar, quando tinha certas convicções sobre algum assunto. E ali estava seu lado obstinado, que ela amava, mas também, a irritava. Então, quando Harry enviou o patrono, eles apenas aguardaram em silêncio a chegada do Ministro e do Esquadrão de aurores. O silêncio era sepulcral naquele lugar. Hermione sentiu o vento arrepiar sua pele, mesmo usando um moletom grosso. Colocou a toca, abraçando a si mesma, mal enxergando o cemitério devido a nevoa densa que tomava todo o lugar. Harry, é claro, andava de um lado a outro, nervoso, como se não aguentasse mais esperar.
— Vai afundar o chão de tanto andar – ela zombou.
Ele a fitou com irritação e continuou em suas passadas largas, como se isso retirasse todo seu estresse.
— Harry, para – ela pediu, ficando tonta por vê-lo fazer aquilo.
Ele parou em frente a ela, com um olhar impaciente. Colocou os óculos de volta no lugar, pois estava quase escorregando de seu nariz.
Estalos ecoaram. Harry olhou para trás, com a varinha em punho. Hermione fez o mesmo, esperando o pior. Alguém com certeza havia descoberto eles e mandaria prende-los. Ela apenas tremia de medo disso. Nem estava com medo do que poderia encontrar no meio da nevoa, como fantasmas ou mortos vivos. Ela apenas não queria ser presa.
De repente, um grupo de pessoas ficou nítido, no meio da nevoa. Era inconfundível. Kingsley era acompanhado de um grupo de aurores. Ele olhava diretamente para Harry, usando um chapéu alto sobre a cabeça careca e uma túnica roxa.
— O que você disse é verdade, Potter? – ele perguntou – O corpo de Voldemort se foi?
— Sim, senhor – Harry respondeu, como se fosse uma sentença – Ali, veja.
Ele apontou a varinha, para o caixão aberto. Kingsley se aproximou do caixão, juntamente com os aurores.
— Pelas barbas de Merlin – O Ministro murmurou – Isso significa que alguém violou o caixão sem que percebêssemos.
— E eu gostaria de saber para qual finalidade – Harry perguntou mais para si mesmo do que para os presentes – O que queriam com o corpo dele?
— O fato é que alguém deseja algo, Potter. E é desestabilizar o que nos custou em manter. A paz no mundo bruxo – Kingsley disse, em tom sombrio – Estamos em guerra novamente e não podemos baixar nossas defesas – Então, se virou para Hermione – A senhorita fez parte disso, da exumação de um corpo?
Ele parecia achar engraçado o fato de eles terem violado uma sepultura.
— Eu...er...vai nos mandar para Azkaban? – indagou, receosa.
A gargalhada de Kingsley ecoou.
— Não, mas quero entender o que passou pela mente de vocês para fazer isso?
Harry explicou então, seus teremos. Os sonhos. O quanto tinha a impressão de que Voldemort poderia voltar a qualquer momento. O Ministro pareceu entender sua intuição.
— Os sonhos podem ser profecias que virão a se realizar – Kingsley disse, passando a mão pelo queixo – E não podemos descartar a hipótese desses sonhos. Apenas não devemos também, acreditar neles cem por cento.
Hermione não gostava de se basear nisso. Muito menos na arte da Advinhação. Apesar de uma advinha certa vez ter feito uma profecia, que mudou o mundo. Onde Harry seria o único que poderia derrotar Voldemort. Sabia que aquela profecia era real, mas sabia também, que quando uma profecia era lançada, poderia ser cumprida, pois aquele que estava destinado a cumprir tal profecia tomaria decisões induzidos pela própria profecia. O que queria dizer que estava sendo manipulado a cumprir tal destino. E a noção de destino, não era certa. Como uma pessoa poderia estar fadada a tal coisa, sem chance de remediar? Bom, talvez, fosse assim que Voldemort pensou, quando percebeu que seria destruído por um simples garoto que não tinha sua força, poder e grandeza. Então, para parar a profecia, ele tentou mata-lo, o que causou sua própria ruina, desencadeando assim, o destino que a profecia prometera. Talvez, se ele não tivesse tentado exterminar seu rival, não tivesse uma brecha para ser atacado no fim.
**
No fim, depois que deixaram o cemitério, Harry e Hermione voltaram a Toca. Harry parou Hermione, antes que eles adentrassem a casa.
— Precisamos manter o que sabemos em segredo, Mione. Não podemos contar a ninguém.
—E Rony? – Hermione perguntou.
— Eu preciso pensar sobre isso. Rony...bom, ele é ótimo em combate, ainda mais porque tem uma varinha certa, contudo, quanto as decisões estratégicas, é péssimo. E quando está sobre pressão, tudo se torna um caos. O melhor, era poupa-lo disso.
— Você tem certeza disso? Vai esconder do seu melhor amigo o que está acontecendo? – Não era a melhor decisão a se tomar, afinal, Rony era seu parceiro. Ele não deveria fazer tal coisa. Deviam trabalhar juntos para encontrar uma solução para o problema.
— Eu vou pensar. Kinglsey ainda quer voltar em Godric Hollow, para averiguar mais e lançar um feitiço que possibilidade saber o que de fato aconteceu ali. Mas, duvido muito que eles ainda consigam usar um feitiço para procurar o responsável por remover o corpo. Isso pode ter sido há mais de um ano.
— Bom, não custa tentarmos. Enfim, vamos entrar. Depois pensamos no que falar.
Os dois entraram, para surpresa de Gina e alegria de Molly. Elas estavam na cozinha, jantando. Harry e Hermione se reuniram a mesa, para compartilhar da refeição. Rony apareceu logo em seguida, evitando o contato visual com Hermione. Ela bufou, tentando controlar o próprio humor. Se ele queria ficar bravo por ela ser parceira de Malfoy, que ficasse.
George apareceu logo em seguida, assim com Arthur. A conversa então, se tornou alta. Um burburinho reconfortante. Era bom estar em família, com os Weasley. Hermione, pelo menos, considerava eles sua segunda família.
Gina cutucou o braço de Hermione, sussurrando em seu ouvido:
— Como foi o encontro com o Krum?
— Não tivemos – Hermione respondeu.
Gina se afastou, a fitando incrédula.
— Sério? Como assim? Ele deu o bolo?
Hermione olhou para os lados. Ninguém parecia prestar atenção nelas. E ela não queria que Rony ouvisse a conversa.
— Ele apareceu, mas precisou ir embora. Tinha que pegar um portal pra Alemanha, substituir um jogar do time, que caiu da vassoura. Era a folgada dele, mas precisava ir. O jogo é amanhã.
— Ah, Mione, que chato. Mas, vocês vão se encontrar de novo, não vão?
— Talvez – ela respondeu, sem sentir a menor vontade. E isso era pelo fato de que não sabia muito bem o que queria.
— E me diz uma coisa, o que é que você e Harry estão aprontando? – Gina perguntou, em voz baixa.
— Nós? Nada – Hermione desconversou. Mas, era péssima mentirosa. Gina logo notou isso.
— Sei, é que vocês entraram juntos e eu achei que só o Harry ia voltar – ela disse, remexendo com o garfo a comida no prato.
Hermione suspirou. Nada passava despercebido pela ruiva.
— Gin, nós descobrimos algo que não podemos falar, ainda não. É muito sério – ela sussurrou.
Harry parecia ter percebido que Hermione estava contando o segredo sobre Voldemort, pois olhou em direção a ela, com um olhar de: não abra essa boca! Hermione engoliu a seco, enfiando copo de suco na boca, bebericando, sem ter que olhar para ele.
— Tudo bem, então. Quando puder contar, me avise – Gina disse, tom magoado.
Por Merlin! Harry a colocara em uma situação ruim, agora. O que Gina poderia estar pensando?
— Gin, você não está brava, está?
— Não – a ruiva respondeu, em tom morno.
— Ei, eu prometo que conto. Juro, mas Harry pediu segredo.
— Claro, ele sempre esconde tudo – Gina rolou os olhos.
— Quem esconde segredos? – George perguntou, captando o fragmento da conversa.
Hermione bufou. Harry tossiu em seguida, exasperado.
— Ninguém em particular, Georgie. Cuida da sua vida – Gina retrucou.
— Mas, que grosseria, irmãzinha – George alfinetou – Bom, já que todos estão olhando para mim, tenho uma notícia para dar.
— Não, nem pense nisso – Molly disse, em tom autoritário.
— Ah, mas eu vou sim, mãe – George replicou – Eu vou em mudar para Irlanda.
— O que? – Rony engasgou.
— Não, filho. Por que vai fazer isso? – Arthur perguntou, em tom triste.
Harry ficou quieto, olhando para o próprio prato e Gina fulminava George com olhar. Ele a ignorava totalmente. Hermione desejou que um buraco abrisse sobre o chão. Ela não queria no meio daquela discussão. Era tão desconfortável.
— Porque, pai, eu tenho novos negócios lá. E vai ser bom. Vocês estão convidados para me ver.
— Nós não queremos que você vá – Molly protestou – Queremos você em casa.
George fitou a mãe, com um olhar irredutível.
— E a Angelina, Georgie, não tentou avisar ela sobre isso? – Gina escolheu aquele momento para alfineta-lo – Ela vem te procurar várias vezes na Toca.
— Eu não quero falar sobre isso – George retrucou.
— É claro que não. Mas, já pensou que ela ama você?
Hermione levantou, devagar e foi se afastando da mesa, até conseguir sair da cozinha. Ficou do lado de fora da casa, olhando o céu coberto de nuvens. Estava escuro e muito frio ali fora, mas preferia ficar lá, do que no meio do problema de outras pessoas. De repente, a lembrança dos seus pais a atingiram em cheio. Como ela sentia falta deles. Dos jantares em família. Será que eles ficariam magoados se soubessem o que ela fez? Será que ficariam furiosos por ela os ter obliviado? Será que ficariam tristes, como os pais de George, que não queriam que ele fosse embora para longe? Bom, ela nunca saberia, porque eles nunca voltariam a ser seus pais.
Lágrimas quentes escorreram de seu rosto. Ela não suportava mais a solidão, mas precisava se acostumar com isso. Apesar de ter amigos ali, não tinha uma família. Nunca mais a teria, se não soubesse como reverter o feitiço. Resolveu que já era hora de ir embora, então. Aparatou para casa. Quando estava subindo os degraus, ela o viu. Ele estava sentado nos degraus de pedra. Não parecia ter notado sua presença, mas então, quando ela subiu o primeiro degrau, ele estava olhando para ela.
— Granger – ele disse, com um tom arrastado – Que tal, uma bebida?
Ela o fitou, sem acreditar.
— Quanto você já bebeu? – ela perguntou, notando a garrafa na mão dele.
— Só um pouco – ele respondeu – Tá bom, meia garrafa.
Ela riu, sentando ao lado dele, tomando a garrafa de sua mão. O cheiro que sentiu era forte.
— Whisky trouxa? – ela perguntou, tomando um gole, sentindo a bebida queimar sua garganta.
— Sim – ele respondeu – Parece que é só isso que posso pagar hoje. E um barato. Nada refinado, é claro.
Ela riu, passando a garrafa para ele.
— Vai, me diga, o que você faz aqui? Não deveria estar saindo para algum lugar badalado? Encontrar alguma garota?
— Pff...eu não sou muito sociável, Granger. Ninguém parece interessado em estar perto de mim, então, zero vida social – ele respondeu, sincero. Deveria ser a bebida, com certeza. Ele tomou um gole – Eu vim...não sei por que...eu apenas saí andando e parei aqui. Sabia que já entrei nessa casa? Quando era bem pequeno – Ela não respondeu à pergunta, mas continuo o escutando. Sabia que ele estava apenas constatando um fato – Esse lugar me dava arrepios, sabe? Principalmente a família Black. Meus avós, por parte da minha mãe eram desprezíveis. Pessoas de pensamento conservador. Mamãe veio poucas vezes aqui e eu tinha que suportar os olhares poucos lisonjeiros quanto a minha aparência. O quanto eu era frágil e fraco para a linguagem Black. Meu pai, é claro, ficou furioso. Proibiu minha mãe de voltar para cá. E logo, ela nem precisou mais, por que seus pais estavam mortos.
O silêncio se tornou estranho, ao redor deles. Malfoy daquela maneira, tão sincera, era algo novo e estranho para Hermione.
— Quer entrar? – ela perguntou – Ou quer que eu te leve para casa?
Ele não respondeu. Na verdade, ele estava quase dormindo nos degraus.
— Malfoy! – ela quase gritou.
— O que...hã? – ele indagou, com a voz pastosa.
— Vamos entrar – ela convidou, a contragosto.
Ele anuiu com a cabeça. Ao que parecia, Malfoy era muito fraco com bebidas trouxas. Ela riu consigo mesma. Tentou equilibra-lo para entrar, mas tropeçaram juntos, derrubando a garrafa no chão, que espatifou no chão.
— A bebida – ele disse, em um lamento.
— Melhor assim. Você e a bebida não combinam – ela zombou.
Quando finalmente entraram e ela o deixou no sofá, pode respirar. Ele deitou, sem a menor cerimônia e começou a roncar. Bichento, que havia dado o ar da graça, saiu da poltrona perto da lareira e passou feito uma bala. Ele estava assustado com o visitante.
Hermione olhou para rosto calmo de Malfoy. Ele ainda tinha hematomas no rosto, que ele parecia não querer esconder com magia. Parecia tão plácido e tranquilo. Gostava de vê-lo assim, quieto. Sem a expressão sarcástica que via em seu rosto toda vez. Conjurou um coberto e o cobriu. Então, quando estava se afastando, sentiu a mão dele buscar a dela.
— Não, por favor...- ele sussurrou – Não quero ficar sozinho, mamãe.
Ele parecia sonhar. Sentiu uma profunda compaixão por ele. Estava angustiado. Algo ruim na sua infância, com certeza.
— Não vou deixa-lo – ela prometeu, beijando sua testa.
Então, o rosto dele suavizou. Respirava normalmente. Ela soltou sua mão e saiu da sala, indo para seu quarto.
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