Uma semana depois, resolvi deixar a cidade e passar um tempo a sós. Liguei para a minha mãe e avisei que estava indo viajar, não dei previsão de volta e pedi para que ela não me ligasse e nem falasse para ninguém onde eu estaria.

Arrumei uma bolsa apenas com as coisas necessárias, abasteci o meu carro e fui em direção à estrada principal que sai da cidade em direção ao interior.

No meio do caminho senti que precisava descansar um pouco. Logo, parei o carro em um posto, comi algo e esperei cerca de duas horas para voltar a dirigir. Enquanto descansava no banco traseiro, fiquei pensando em tudo o que já havia acontecido na minha vida, e nada nunca me abalou tanto quanto o término do meu namoro, que aconteceu há um ano. Nós ficamos juntas por quatro anos, mas ela terminou comigo por uma grande besteira e ainda acha que a culpada de tudo realmente fui eu, quando na verdade, foi ela. Eu tentei mudar a situação diversas vezes, mas nada do que eu falava entrava em seus ouvidos. Então, aceitei o fato de que ela já não queria mais ficar em minha vida e a deixei livre.

Antes de retomar a viagem, lembrei que na minha bolsa havia um CD com as minhas músicas preferidas. Aproveitei que a estrada estava vazia, encostei o carro, peguei o CD e o coloquei para tocar.

Quando cheguei ao meu destino final, eu não fazia ideia de onde me hospedaria. Pensei em ir para uma dessas áreas de acampamento, mas lembrei que não peguei a minha barraca e não gastaria dinheiro comprando outra sendo que tenho uma em casa. Então, pesquisei por pousadas na região e achei uma que, aparentemente, era boa.

Ao chegar lá, a moça da recepção me passou todas as informações necessárias e fechei um pacote de duas semanas. Assim que recebi a chave do meu quarto, levei minha bolsa para lá e arrumei algumas coisas que estavam fora de ordem. Em seguida, resolvi ir para a piscina e me distrair um pouco e para não ficar sozinha levei o meu livro e aproveitei o silêncio para terminar de lê-lo. Mas em certo momento fui interrompida por uma garota.

— Boa tarde, desculpa atrapalhar a sua leitura, mas você sabe como faço para pegar outra chave? Não tem ninguém na recepção e eu perdi a minha.

— Tem um sino bem ao lado da porta de entrada, acho que se você toca-lo, alguém de lá vai aparecer.

— Ah, não tinha visto esse sino. Cheguei aqui esta manhã e não reparei em nada. Mas, muito obrigada!

Assim que a garota se virou e foi embora, resolvi ir para meu quarto e dormir um pouco. Tomei um banho, coloquei o celular para carregar e logo adormeci.

Quando acordei, pude ver que já havia anoitecido e que provavelmente perdi o horário do jantar. Então, sai atrás de algum mercado ou qualquer outra coisa aberta para comer algo. Encontrei um restaurante vinte e quatro horas, e assim que entrei lá pude ver a mesma garota da pousada cujo eu não fazia ideia de qual era o seu nome.

Sentei-me em uma mesa e enquanto esperava algum garçom vir me atender, notei que ela estava me olhando e quando percebeu que eu estava vendo, tentou disfarçar. Pensei em chamá-la para se sentar comigo, mas pensei na possiblidade de que ela poderia estar esperando alguém, então achei melhor esperar.

Quando o garçom me trouxe o cardápio, logo pedi o primeiro prato que vi. Não estava a fim de ficar revirando aquelas páginas. Pedi para que ele trouxesse a bebida antes, pois eu estava com cede e precisava beber algo logo. E enquanto esperava notei que a garota continuava sozinha a espera de seu pedido. Levantei-me e fui até ela.

— Aceita companhia? Vi que está sozinha desde que cheguei aqui e achei que gostaria de companhia.

— É claro! Sente-se, por favor.

— Obrigada. Está aqui há muito tempo?

— Não muito. Cheguei aqui faz vinte minutos, eu acho. Perdi um pouco a noção do tempo.

— Como você se chama?

— Fernanda, e você?

— Júlia.

— Muito prazer, Júlia.

— O prazer é todo meu!

Horas se passaram e nós não percebemos que já eram quase duas da manhã. E foi nessas horas gastas em sua companhia, que eu percebi que não importa o quão quebrado esteja o seu coração, alguém pode aparecer e juntar todos os cacos e colá-los dando vida a ele novamente.