P.O.V: Noah Belmonte.

Passou-se algum tempo após o ataque de Ravena. As aulas agora estão próximas do fim e ainda assim Daniel e Hitomi ainda não nos deram notícias sobre a tradução do texto desconhecido.

A partir do momento que tirei Ravena do portal fomos preenchidos por uma energia poderosa, que nos protege da aura pesada e amedrontadora da Bruxa, não temos mais pesadelos e podemos usar essa energia extra para rondar a floresta e não permitir que outros alunos sejam levados, por mais que durante esses meses a Bruxa tenha saído menos vezes e retornado sem crianças, não pretendemos parar com nossos “passeios noturnos” tão cedo.

Abraço meu travesseiro enquanto a luz do sol entra pela janela de vidro. Raios fracos, cansados.

— Finalmente o final de semana.

As aulas estão me desgastando um pouco, já que foco minha energia na floresta e na vontade de proteger os alunos. Os professores deveriam estar pensando nisso, não eu, mas infelizmente eles não acreditaram na história da Bruxa. Hitomi teve um pequeno ataque de pânico e contou tudo para a professora Eleonor Smethwyck, mas ela disse não saber do que estamos com medo já que a escola é protegida e nada passa por essa tal proteção. Após Ravena quase matar Hitomi por isso, ela voltou a trabalhar na tradução do texto.

Por mais que possamos tentar explicar isso até mesmo para alunos mais velhos, eles não conseguem acreditar em nós e sempre culpam o estresse ou ansiedade causados pelas aulas. A Bruxa nunca apareceu para eles da forma que apareceu para mim e meus amigos. Me pergunto o que eles veem em seus pesadelos e como ela se apresenta para cada um.

Me levanto e percebo as outras camas arrumadas. Um milagre. Talvez eu tenha acordado um pouco tarde. Espero que estejam me esperando para o café da manhã.

Me arrumo e abro a porta. Uma luz forte se apaga em minha visão, como se a tela de uma TV tivesse acabado de queimar. Com uma tontura meu corpo quase atinge o chão, mas um de meus colegas de casa me segura.

— Não precisa fingir que estar morrendo, ela sabe que você está aqui.

Meu coração parece congelar por um segundo. Do que ele está falando? É a Bruxa?

Ele aponta para a porta. Alguém parece estar brigando na entrada do dormitório. Me aproximo.

A garota de cabelos longos parece estar se segurando para não voar no pescoço dos alunos mais velhos.

— Me deixe entrar! Não importa de qual casa eu sou, apenas me deixe!

Não consigo controlar uma gargalhada.

— Ravena, acalme-se. Já estou aqui.

Matt leva a mão até a cabeça, desanimado.

— Ela está com fome. E medo de não sobrar comida para gente. Você está atrasado.

Ravena realmente se estressa quando está com fome. Matt tenta não rir da expressão emburrada que Ravena lança em minha direção.

— … Vamos, Hitomi está nos esperando com os garotos.

É engraçado imaginar a cena de Hitomi em uma mesa com Scorpius e Alvo. Eu os vejo todos os dias, mas o sentimento hoje é diferente por algum motivo. Um sentimento nostálgico percorre meu corpo, se passaram quase um ano inteiro que estamos juntos. As férias que passei junto com Rav e sua tia. As brincadeiras de Hitomi. O mau humor dos sonserinos. Matt e sua lerdeza. Não consigo me imaginar longe deles nas férias.

Ravena me da um soco no braço.

— Pare de se atrasar, nós sempre esperamos por você para comer. Agora vamos, rápido!

Ela agarra minha mão e corremos juntos pelo corredor. Matt pedindo para esperarmos por ele.

Existem feitiços para fazer com que objetos durem mais tempo e não se quebrem, será que existe algo assim para conservar amizades intactas? Nos manter assim até deixarmos Hogwarts e continuar após isso.

As mesas já estão vazias e as bandejas de comida tem espaços entre elas, algumas coisas já estão sendo retiradas.

Ravena revira os olhos enquanto vê alguns dos alunos mais velhos passarem pela mesa.

— Quem eles pensam que são para não me deixar entrar no dormitório?

Scorpius ri.

— Grifanos?

— … Sim! Odeio eles.

A lanço um olhar irritado.

— … menos você, Noah.

Enquanto Ravena come como um trasgo descontrolado, Hitomi e Matt parecem um pouco agitados. Hitomi se levanta.

— Nós temos algo a dizer.

Ela parece se encher de vontade de dizer algo e segura a respiração tentando tomar coragem. Todos se mantêm em silêncio e a encaram. Alvo revira os olhos.

— Então diga.

Ela se senta novamente e não diz nada. Matt deixa escapar uma respiração pesada.

— Nós conseguimos traduzir o texto.

Essa frase foi o que eu esperei escutar por muito tempo, mas agora sinto um gosto amargo em minha boca, o que vai acontecer agora?

Ravena larga seus talheres que fazem um barulho alto quando atingem o prato.

— E esperaram até agora para nos contar?

— Bem, você tinha que comer antes.

Rav revira os olhos. Matt retira um papel amassado do bolso e o abre. Desenhos estranhos estão espalhados pelo papel, com descrições e textos imensos. Ele aponta para as setas que estavam desenhadas nos pilares do portal.

— Vocês veem isso? De acordo com o que entendemos precisamos atacar o portal por dentro e por fora ao mesmo tempo.

Alvo lança uma expressão duvidosa.

— Mas então alguém tem que se sacrificar?

— Não exatamente... — Digo. — … quando entrei no portal para recuperar Ravena, conseguimos sair antes que ele se fechasse. Então há uma fração de tempo pequena até seu fechamento completo. Podemos usar isso.

— E quando faremo isso?

— Hoje.

Pela primeira vez vejo uma expressão surpresa tomar o lugar da expressão fria e indiferente que Alvo usa no dia a dia. Ele desvia o olhar e não diz nada.

Ravena parece se animar um pouco.

— Noah e eu sempre estamos indo observar de perto o portal e ele sempre se abre de dois em dois dias. Hoje ele vai se abrir, podemos acabar com isso.

Scorpius olha para o nada, imitando seu melhor amigo. Hitomi e Matt se entreolham nervosos e brincam com os dedos de suas mãos ansiosamente.

Forço um sorriso convincente.

— Nós podemos salvar esses alunos. Vamos juntos, tudo bem?

A noite chega e traz com ela um vento frio e uma sensação de derrota que não consigo entender. Meus amigos estão caminhando comigo pela floresta, mas tudo parece estranho, escuro, solitário, uma loucura.

Ravena toca meu ombro.

— Ei, se acalme. Parece que você vai ter um ataque, a floresta inteira pode escutar seu coração.

— A floresta pode ouvir todos os nossos corações.

Todos estão nervosos e com medo. Nós temos um plano, mas nada nos dá a certeza que ele virá a correr da forma que queremos, ou se nossa tradução foi correta. Somos crianças no primeiro ano de Hogwarts e usamos habilidades de um iniciante em tradução mágica para um texto que me parece muito antigo.

Scorpius tem um pedaço de papel e uma caneta tinteiro em sua mão.

— Vocês trouxeram tudo? Varinhas? Pergaminhos mágicos caso nos separemos?

Hitomi revira os olhos.

— Pode guardar sua lista, nós temos tudo aqui, estamos preparados.

Todos parecem realmente ter tomado uma injeção de confiança, mas em mim teve o efeito contrário. Desde que sai de meu quarto tento esconder a tremedeira em minhas mãos.

A floresta parece tentar me avisar para voltar, para correr de volta e levar meus amigos de volta para a proteção das paredes do castelo.

— Chegamos. — Alvo diz em minha frente.

Tarde demais para voltar.

O portal ainda não está aberto.

Matt se esconde atrás de uma árvore.

— Como vocês sabem que a Bruxa vai sair hoje. O feitiço só funciona por completo se ela estiver aqui fora.

— E se ela não estiver? — Scorpius pega novamente seu papel e caneta.

— Ele não se fecha por completo, apenas por tempo indeterminado.

Encaro Ravena. Ambos sabemos que a bruxa não saiu do portal por muito tempo nos últimos meses, esperamos que dessa vez seja diferente. Definitivamente não podemos entrar em uma batalha direta contra ela, então precisamos tomar o maior cuidado possível.

Hitomi se senta atrás de um arbusto.

— Então vamos esperar.

Cada um toma seu lugar próximo às árvores. Me recosto sobre um tronco frio e folhas caem em meus rosto. Assim que uma delas toca em minha mão se transforma em uma folha negra, grudenta. Controlo meu susto, quando percebo que não é real. A magia da bruxa não funciona mais em mim. O que está me fazendo ver essas coisas estranhas desde cedo?

O tempo parece passar devagar. Ravena está agitada. Scorpius dorme no ombro esquerdo de Alvo e Hitomi faz o mesmo do lado direito. Matt parece temer que algo saia das sombras e o leve para sempre pois seus olhos correm todas as frestas de todos os arbustos e árvores.

Meu corpo não parece entender o que está acontecendo, não está agitado e nervoso como os outros, está fraco e cansado, como se tivesse desistido de lutar, mas eu não desisti.

Uma luz brilha forte atrás de nós. Alvo acorda os amigos adormecidos. Matt protege sua cabeça. Seguro o braço de Ravena antes que ela se levante.

Uma luz branca surge em meio as pilastras, protegidas por um véu mágico fino de luzes em tons pastéis que brincam entre si e flutuam levemente. O véu se abre. A bruxa usa sua mão com dedo de varinha para agarrar uma das pilastras e forçar seu corpo para fora do portal. Em sua outra mão, sua máscara, tal máscara que ela leva para todos os lugares. Seu rosto é magro e assustador como o de uma caveira. Todos nós paramos nossa respiração enquanto ela faz seu caminho por nós, indo em direção a floresta.

Assim que ela se distancia Alvo se levanta e corre em direção ao portal.

— Vamos!

Matt e Hitomi se posicionam ao lado dos pilares e erguem suas varinhas, uma luz branca sai de suas pontas e energizam o portal, o mantendo aberto.

O brilho do portal é lindo, mas ao mesmo tempo ameaçador. Alvo me encara corajoso.

— Noah e eu vamos entrar e tirar os outros alunos de lá. Se a bruxa voltar façam o possível para segurar ela. E Ravena. Se prepare para usar o feitiço de selamento, ok?

Ravena concorda.

— Vamos acabar com isso. Eu posso ir no seu lugar, Noah.

— Tudo bem. Nós já combinamos tudo, Rav. Vou entrar lá, tirar os alunos, lançar o feitiço e voltar para os meus amigos. Nós vamos fazer isso funcionar, eu tenho certeza.

— Ei, vão logo! — Matt grita.

— Isso aqui é um pouco cansativo. — Hitomi completa sua reclamação.

Alvo passa pelo portal primeiro e não parece ter nenhum tipo de problema com isso. Faço o mesmo, ao caminhar pelo portal sinto uma grande força me abraçar e aquecer meu corpo, o lado de fora parece se mover em ondas estranhas e desfocadas. Nós só temos uma chance.


Assim que pisamos em uma terra verde com árvores altas e folhas coloridas encontramos em um enorme círculo uma grande quantidade de alunos, até mesmo alunos que nós vemos todos os dias. Hoje mesmo o aluno que me segurou quando quase caí, está aqui, e seu rosto está muito cansado, como se estivesse aqui há muitos dias. Talvez há algum feitiço que faça com que as pessoas vejam esses alunos raptados, será que a Bruxa é tão poderosa assim?

— Vamos tirá-los daqui, rápido!

Alvo está nervoso e segura sua varinha com força.

— Todos vocês sigam o portal, nós estamos mantendo-o aberto, não se preocupem! Apenas corram.


Ninguém parece acreditar.

Aron se levanta e abre um sorriso cansado quando me vê parado atrás de Alvo.


— Ei, gente! É verdade! Nós temos tempo para fugir agora! Eles vieram nos salvar, eu disse que eles voltariam.

Dessa vez posso olhar com detalhes o outro lado do portal. As folhas coloridas trazem uma sensação de calma. A grama é rosa e brilhante. O medo no olhar dos prisioneiros não pode ser apenas pela bruxa. Esse lugar é… lindo.

As crianças fazem fila para passar pelo portal. Aron ajuda alguns que parecem estar mais cansados que os outros. Faço o mesmo. Alunos mais velhos também vieram parar aqui. Como nós perdemos todos esses alunos de vista? Sem perceber que eles desapareceram? O esquecimento que ela causa é assim tão poderoso?

O último aluno sai do portal. Vamos conseguir.

Alvo me encara preocupado.

— Você consegue, certo?

— Sim. Te encontro lá fora.

Ele pega Aron pelo braço e ambos passam pelo portal, Aron olha para trás, me encarando como se não entendesse o que está acontecendo.

Quando os dois saem. Ravena se posiciona em minha frente, separada pela grande energia flutuante do portal, seu rosto está desfocado e ondulando por causa das ondas de magia que o portal emana.

Ela acena para mim.

— Preparado?

— Não, mas vamos logo com isso.

Uma onda de terror corre por meu corpo. De repente o ar está pesado e assustador. Os alunos começam a gritar. Droga, ela está voltando.

— Saia daí, Noah! — Escuto o grito de Hitomi.

A bruxa surge, seu corpo desfocado, mas sua voz saindo em alto e bom som.

— Não permitirei que terminem isso!

Alvo e Scorpius se lançam em sua frente e seguram suas varinhas ofensivamente, mas são lançados para longe com um movimento da mão com varinha da bruxa.

Os olhos de Ravena se enchem de medo.

— Noah, é tarde demais, nós tiramos os alunos, saia dai!

— Não! Vamos acabar com isso! Lance o feitiço, AGORA!

— COLLOPORTUS! — Gritamos ao mesmo tempo.

Um raio azulado sai de nossas varinhas e se encontram na entrada do portal. Em poucos segundos tudo se torna transparente, consigo ver o lado de fora por completo. Uma explosão de energia lança Hitomi e Matt para trás, o portal começa a se fechar. Hora de ir. Corro em direção ao portal, enquanto vejo a Bruxa caminhar em minha direção. Ravena não se move e parece querer enfrentá-la, abrindo os braços e agindo como se fosse uma muralha de proteção. Corro o mais rápido possível. A Bruxa se torna uma nuvem negra e passa por Ravena como se ela não existisse.

— Não! — Escuto o grito de Ravena.

Salto em direção a saída do portal, mas algo me segura no ar. A Bruxa se materializa com sua mão segurando meu pescoço. Seu olhar é frio e amedrontador.

— Não! Isso não pode acontecer!

— Me solte!

Ela me lança para longe do portal. Minha última visão é o olhar amedrontado de Ravena que corre em direção ao portal com a mão estendida, mas o portal já fechou, a luz se apagou como minha visão de mais cedo, um ponto de luz na escuridão, desaparecendo e levando meus amigos e minhas esperanças.

Atinjo o chão. A grama rosa de antes se torna uma gosma negra. As folhas coloridas caem em mim, secas e escuras como se tivessem sido banhadas na gosma que está por todo lado. O céu se escurece e ondas de magia escura flutuam por ele. Essa é a realidade do outro lado do portal. Escuridão.

A Bruxa caminha até mim, a gosma que está espalhada vem de dentro dela, saindo pelas frestas de seu vestido. Essa é a loucura que a alimenta, entregar as crianças um paraíso e retirá-lo assim que ela passa pelo portal. Essa é sua real forma. Destruição.

Ela ergue a mão para me atacar. Suas unhas se tornam grandes, como garras prontas para me estraçalhar. Duas luzes brilhantes surgem no céu. Uma azul e uma branca. A Bruxa congela, seu rosto não demonstra mais o ódio que ela sentia e sim medo, muito medo.

— Vocês…

Ela se vira.

Escuto uma risada ecoando pelo espaço.

_ Irmã… onde estão suas crianças?

Uma risada mais seca e pesarosa segue a pergunta.

— As perdeu? Derrotada por crianças. Como pode ser tão fraca?

— Elas são inteligentes…

— Não importa! O seu tempo está acabando. Você deve preparar meu retorno.

A luz azulada desce até o chão e toma uma forma estranha. Escondida em sombras. Ela não deve ter energia o suficiente para se materializar como a irmã. Ela solta um suspiro irritado.

— Nosso retorno…

Ela pega a mão da irmã, e acaricia a máscara que ela segura.

— … seu tempo está a esgotar. Enquanto você não fizer o seu trabalho, você irá vesti-la novamente.

— Não, não faça isso, por favor! — A Bruxa implora. — Eu prometo recuperá-las, por favor, não! Esse feitiço não vai durar para sempre! Eu prometo! POR FAVOR!

— Quebre o feitiço antes que ele acabe. Faça seu trabalho direito.

A gosma ainda me segura no chão. Preciso correr para longe daqui antes que elas me percebam, talvez elas já saibam que estou aqui apenas não se importam. Lágrimas descem pelo meu rosto. Não quero ficar aqui. Não quero.

A luz azulada leva a mão da irmã até seu rosto e com dificuldade a máscara parece deixar sua mão se pregando em seu rosto, uma gosma negra escorre pelo pescoço da bruxa. A luz azul desaparece. A Bruxa se ajoelha ao chão e solta um grito doloroso que é abafado por sua máscara. Um grito que faz meu corpo pulsar. Preciso correr.

Com muito esforço me levanto e corro pelas árvores negras. Preciso sair daqui. Lágrimas de pavor escorrem pelo meu rosto. Meu coração parece querer sair pela minha boca. A imagem de meus amigos passa pela minha mente. Ravena, Hitomi, Matt, Scorpius, Alvo e Aron, que acabei de salvá-lo. Não quero passar tempo longe de vocês. Não me esqueçam, por favor, não me esqueçam.