O Voo Do Passarinho
23 Capítulo 23 - A Justiça das Chamas

Não conseguia acreditar no que estava acontecendo consigo e mesmo assim ele era o responsável por ter se deixado ser capturado por esses foras da lei. Eu podia ter fugido, Estranho estava comigo, ele obedeceria ao meu comando. E para onde iria? Pedra do Dragão, ele tinha que ir para aquela maldita ilha feita de pedras negras, mas sabia que não conseguiria atingir o seu objetivo de resgatar o seu Passarinho se estivesse sozinho. Odiava a ideia de ter que ir até aquele lugar. De acordo com a história havia um vulcão ativo que podia entrar em erupção a qualquer instante e não se sentia nem um pouco atraído à essa ideia. Sandor Clegane preferia evitar as chamas o máximo que podia, porém se os deuses realmente fossem reais, então eles estavam gozando de sua existência, tirando-o do caldeirão para jogá-lo ao fogo.
Graças a puta do Stannis, comentou consigo mesmo. Se não fosse Melisandre quem o tivesse capturado, talvez o seu destino tivesse sido outro, talvez Sansa ainda estivesse consigo e os dois poderiam estar indo ao encontro do Jovem Lobo. Não que ele quisesse entregar o seu Passarinho para os lobos e os peixes, todavia essa ideia era mais atraente do que deixá-la para Stannis e sua boceta flamejante.
Sansa Stark era uma Lady, filha de Lorde Eddard Stark, o antigo Senhor do Norte que foi decapitado por traição ao rei que ainda está sentado no Trono de Ferro, Joffrey Baratheon, e agora a garota era a irmã do proclamado Rei do Norte, o Jovem Lobo. O sangue dela é forte o suficiente para se formar alianças, mesmo ela não sendo mais uma donzela, essa segunda parte sendo responsabilidade dele mesmo. Era bem provável que Sansa fosse mantida como prisioneira de guerra ou então contraísse núpcias com algum nobre ou vassalo de quem quer que a tivesse como prisioneira. Não que Sandor se importasse com isso, ele não tinha o direito de fazê-lo, a vida já o havia ensinado a não cobiçar bens que não lhe pertenciam e sabia que ainda pagaria um preço alto por ter possuído a garota Stark. É até melhor que ela esteja longe de mim, depois do beijo que deram no porão do navio de Melisandre, o seu desejo para voltar a se deitar com sua protegida havia inflamado. Sandor não havia se dado conta antes daquele momento que o Passarinho era o seu vício e ele não se importava se feria ela ou a si mesmo desde que pudesse tê-la para si em todos os sentidos possíveis. Ela deveria me evitar, teria sido a atitude mais sensata que a garota tomaria, mas ela não o fez. Sandor se recordava de como ela estava feliz quando o reencontrou no porão do Black Betha, o homem podia jurar que ela estava mais feliz do que ele por estarem juntos novamente, contudo isso poderia ser apenas uma alucinação e não a verdade propriamente dita. Qual terá sido a reação dela quando descobriu que eu havia sido levado? Se questionou, deixando-se ser levado por suas fantasias impróprias para um homem de sua idade e com toda a vivência que tinha.
Já faziam catorze dias desde que tinha visto Sansa pela última vez e algumas horas desde quando fora trancafiado dentro daquela gaiola que pertencia à corvos. Cada barra de metal deixara uma marca em sua carne. Sandor estava inteiramente dolorido e mal podia se movimentar. Recebera uma refeição de pão seco e água, o suficiente para que não morresse de fome ou sede e nada mais além disso. Era uma ração boa o suficiente para prisioneiros, sabia que se tivesse sido pego pelos Lannisters não receberia nem metade disso. Os habitantes do Septo de Pedra depois de terem garantido que o grandalhão estava bem preso nas barras de metais lhe atiraram frutas, legumes e vegetais podres e as crianças mais corajosas vinham até ele com gravetos lhe cutucar. Para cada um desses indivíduos ele desejou uma morte lenta e dolorosa que poderia com muito gosto conceder com suas próprias mãos assim que se visse liberto de seu cárcere. Foi no amanhecer deste mesmo dia que a sua tão ansiada liberdade chegou.
– Levante-se, saco de pulgas! — O velho que cuidava dos cães dos foras da lei exclamou, chutando a sua gaiola.
Sandor podia ter explicado que não havia como se mover em sua prisão, mas o homem que era chamado de Caçador Louco tinha perfeito conhecimento do fato e foi por essa conscientização de seu carrasco que a sua resposta se resumiu em um de seus olhares mortais e suas ríspidas palavras:
– Já estou em pé.
Como era de se esperar, ele foi punido pelo atrevimento. Se não estivesse fraco e dolorido demais poderia facilmente ter retribuído o soco que levou na boca do estômago fazendo com que caísse sobre os próprios joelhos logo que atravessou as barras que o isolavam da vila. A sensação de poder se alongar depois de longas horas tendo de ficar encolhido era indescritível de tão boa e agora se lembrava de partes de seu corpo que esquecera que existia.
– Filho da puta... — Gemeu, se pondo em pé com as forças que voltava a ter. Os grilhões que foram presentes da puta de Stannis continuavam atados em seus pulsos e tilintavam conforme se movimentava.
O prisioneiro estava preparado para levar outro soco no estômago quando a voz de um outro carcereiro deteve o primeiro. Era Anguy, o arqueiro, a donzela que usava gravetos como arma. Covarde, todos eles não passam de putas baratas que trabalham por ouro. O único cavaleiro de verdade no meio desses vermes é Beric, isso é, se a existência do cavaleiro fosse mesmo real. A última notícia que tivera sobre o paradeiro do Senhor do Relâmpago era a de sua morte pelas mãos de Sor Gregor Clegane. Não foi preciso muito tempo para traçar o perfil daquela gente que dizia trabalhar em prol da mesma causa. No grupo da Irmandade Sem Estandartes haviam muitas pessoas que nunca antes na vida pegara em uma arma e o Caçador Louco se enquadrava nesse meio, o restante que já vira e pegara em uma arma não lutavam com honra, sendo o principal exemplo disso Thoros de Myr, que usava uma espada flamejante em duelos, a mesma espada desgraçada que o derrotara nas três vezes que confrontara o sacerdote em torneios realizados em Porto Real. Lorde Beric Dondarrion era o único que tivera todos os treinamentos de um cavaleiro, tanto no modo de lutar quanto na educação. O velho Barristan Selmy teria gostado de ter Beric como Irmão Juramentado antes dele ter se tornado o líder dessa ralé; se Barristan o visse agora provavelmente estaria agradecendo os Sete Malditos por ter sido destituído de sua função como membro da Guarda Real.
– Lorde Beric deseja que o Cão de Caça seja levado para ele inteiro– Advertiu o arqueiro.
– Estava apenas treinando este animal — O Caçador Louco rebateu, puxando Sandor pela corrente que ligava um bracelete no outro em sua algema. O movimento fez com que sangue seco caísse de seus pulsos feridos.
– Ele não é um de seus cães, Caçador — Anguy abriu espaço para que os dois pudessem passar.
– Sorte dele, porque se fosse eu não teria esperado tanto tempo para sacrificá-lo.
Sacrificio. Então era para onde ele estava sendo levado, como um cão que chegou em uma idade avançada ou que perdeu o seu espírito para a caça, ele seria aniquilado pelo carniceiro, como Sansa temia que acontecesse.
– Ratos! — Os xingou — Por que não me matam logo!?
Sandor não estava disposto a desistir da vida assim tão fácil e por esta razão tê-lo abatido enquanto estava preso teria sido a atitude mais inteligente daqueles homens. O Caçador Louco voltou a colocar o saco de estopa sobre a cabeça do Cão de Caça, tomando dele sua visão. Ainda assim, o grandalhão se deixou ser guiado para onde quer que fosse que estivessem o levando. As pernas doíam na região bem atrás do joelho a cada passo que dava. A cada instante sentia que o chão não era tão longe e que em breve o beijaria. Maldição, amaldiçoava sua condição.
– Silêncio, Cão! — O Caçador o advertiu, puxando-o com mais força.
– Lorde Beric deseja vê-lo — Disse Anguy.
Havia algo a mais que estava sendo oculto. Sentia que o que quer que fosse não o deixaria mais feliz do que estava agora. Não voltou a dirigir a palavra a nenhum dos dois carcereiros, todavia tratou de prestar bastante atenção no caminho em que estava seguindo. Mesmo que estivesse privado da visão os seus outros sentidos estavam bem apurados. Como um cão o seu olfato e a sua audição nunca o deixaram na mão. Pôde perceber que haviam mais pessoas os seguindo e que estavam deixando o Septo de Pedra. O cheiro da água da fonte em forma de truta ficara para trás, junto com o odor dos alimentos podres que foram atirados sobre ele e o desagradável aroma de mijo na muralha que corroía a pedra se fez mais presente quando cruzou o portão de entrada da vila. Sob os seus pés, sentiu folhas e gravetos se quebrarem e no cume das árvores pássaros piavam as suas diferentes melodias. Sandor não pôde evitar e um sorriso se formou em seus lábios. A cada passo, mais sentia que estava se embrenhando no meio das matas e depois de um determinado tempo teve a consciência de que estava descendo, o que era algo muito estranho visto que acreditava estar no meio do nada. O calor o atingiu na velocidade de uma flecha certeira. Não foi necessário que retirassem a sua venda para saber de que o mormaço não era pertencente apenas ao calor corporal da quantidade de indivíduos que estavam ali, sendo também atribuído à uma fogueira. Conhecia muito bem o poder do fogo para não confundi-lo.
– Bem vindo ao nosso humilde salão, Cão — Thoros de Myr o saudou, retirando de sua cabeça o que lhe cobria os olhos — Não é tão grande quanto o salão da Fortaleza Vermelha, mas a nossa companhia é melhor do que a de lá.
– Antes tivesse me deixado cego, assim seria poupado de ver a sua cara feia — Grunhiu o Cão de Caça.
Podendo finalmente ver onde se encontrava, se deparou com um salão relativamente espaçoso lotado com as pessoas do Septo de Pedra, homens, mulheres, crianças e velhos, estando todos eles alinhados de tal forma que formavam um círculo ao redor da fogueira, estando ele, o Caçador e Thoros isolados do restante da plateia. Como havia sentido, o lugar era um esconderijo que fora construído em baixo da terra, com raízes de árvores e pedras grosseiramente visíveis na construção e um número significativo de túneis que não fazia a mínima ideia de onde levavam. Deve ter sido aqui que Robert se escondeu quando os cavaleiros de Rhaegar vieram procurar por ele. Conhecia a história vergonhosa da façanha de Robert Baratheon que se escondeu atrás de camponeses e que se não fosse pela chegada heroica de Eddard Stark teria sido morto pelo cavaleiro do Poleiro do Grifo.
– Tudo em seu tempo — O sacerdote respondeu, com um sorriso de escárnio estampado no rosto — Você foi trazido até nós esta noite para ser julgado pelos seus crimes.
Sandor crispou os lábios. Não era um sacrifício que estaria enfrentando, mas no final o resultado seria quase o mesmo.
– E quem há de julgar os seus crimes? — Desafiou o Cão — A porra de suas chamas?
A blasfêmia arrancou um gemido de indignação dos presentes e murmúrios romperam pelo salão. O silêncio não era mandatório ali e nem motivo para se tirar uma ordem, visto que ela nem existia, contudo as palavras de Sandor não puderam passar em branco.
– Cuidado com o seu latido, Cão — O homem de manto de cor de mijo abrira espaço na multidão. O indivíduo era um dos únicos que tinha altura suficiente para encará-lo nos olhos — Sua vida está nas nossas mãos.
Rosnou uma risada. Sabia que aquelas palavras eram vazias. O Limão, ou qualquer que fosse o nome do sujeito não teria coragem para enfrentá-lo, a sua fama de Cão de Caça o precedia e isso dava força à sua arrogância. Mesmo estando acorrentado, era mais perigoso do que todos eles juntos, pelo menos era o que transmitia à eles.
– Então é melhor que parem de enfiar essas mãos no cu! — Exclamou — Há quanto tempo vocês estão usando este lugar como esconderijo?
Sandor estava com sorte em suas ofensas. O arqueiro se queimara com a insinuação de covardia e se antecipou para a defesa, mas foi a voz de uma figura masculina que estava oculta no meio das raízes de uma antiga árvore quem lhe dirigiu a palavra.
– Não somos covardes — O homem disse, caminhando para a luz projetada pela fogueira — Já tem tempo desde que começamos e continuamos a defender o reino em nome de do Rei Robert. Antes dessa guerra eramos camponeses, cantores, pedreiros. Alguns de nós, como eu, servimos à grandes e pequenos senhores como cavaleiros, escudeiros, homens de armas ou até mesmo senhores e plebeus.
Com a luz revelando cada centímetro do orador, Sandor precisou de muito esforço para reconhecê-lo. O homem à sua frente era puro osso, a pele do rosto dele estava grudada ao crânio fazendo com que as suas órbitas oculares ficassem maiores do que de qualquer ser humano e na região onde deveria ser a sobrancelha do olho direito a pele estava pregueada e repleta de cicatrizes, além do próprio olho não estar mais lá o que acentuava o asco de sua aparência. Com uma visão um pouco mais detalhada, o Cão de Caça percebeu que ao redor do pescoço do morto-vivo havia uma rodela negra e sobre a orelha esquerda tinha uma falha na vasta cabeleira ruiva-alourada indicando um golpe profundo que sofrera. Se não tivesse sido pelo manto negro esfarrapado com estrelas bordadas e uma placa de peito amassa pelos diversos ataques sofridos, Clegane não o teria reconhecido.
– Lutam por Robert!? — Perguntou, incrédulo. A imagem deformada de Beric não era tão alarmante quanto a confissão de qual rei eles lutavam por.
– Foi o Rei Robert através de Ned Stark quem mandou eu e os meus homens cobrar a justiça pelos crimes de seu irmão — Dondarrion confessou.
– Ninguém os informou que Robert está morto? — Latiu uma risada — É por isso que vivem em baixo da terra? Em honra ao seu rei?
– Guarde a sua arrogância, Clegane, pois nesta guerra já nos ferimos o suficiente para não nos abalarmos com palavras como as suas — Beric o advertiu — Mesmo com Robert estando morto a terra dele perdura e cabe a nós, a Irmandade Sem Estandarte, protegê-la daqueles que desejam destruí-la.
– Trata essas terras como se fosse sua filha, Dondarrion. Se Robert estivesse vivo ele a arrombaria com a sua espada — Cuspiu aos pés do cavaleiro — Robert nunca se interessou por pedras, árvores e rios, não há necessidade de se defender essas coisas e qualquer coisa que pudesse beber, combater e foder aborrecia o antigo rei; vocês não passam de vermes escondidos em baixo da terra, Robert deve estar se remexendo em seu túmulo com um exército como este!
– Volte à nos chamar de vermes novamente! — O homem cor de limão o desafiou, sacando a sua espada de modo a não mais aceitar aquelas insinuações de covardia.
– Um homem corajoso — Clegane estudou o aço cintilante que refletia as chamas da fogueira — Ameaçando um homem amarrado. Por que não me solta e me arma para realmente provar a sua coragem?
– Não há covardia entre cavaleiros — Thoros de Myr interveio — Aqui somos todos cavaleiros unidos à mesma causa e ao mesmo Deus; somos a Irmandade Sem Estandartes — O sacerdote os apresentou com um orgulho inflamado.
A cada palavra dita a reunião ficava ainda mais engraçada, fazendo com que Sandor risse pelo nariz. A ideia de que toda aquela gente tivesse sido armado cavaleiro era hilária.
– Cavaleiros! — Clegane explodiu em gargalhadas — Beric é o único cavaleiro, sobre o restante, cago homens melhores do que qualquer um de vocês!
– Qualquer cavaleiro armado pode armar cavaleiros — Explicou Dondarrion, como se Sandor não soubesse disso — Cada um de meus homens sentiram minha espada em seu ombro.
– Então foi pra isso que me trouxe aqui? Para me armar cavaleiro? — Franziu o cenho — Pois prefiro a morte a fazer parte dessa ralé.
– Morrerá em breve, Cão — O homem de manto da cor de mijo o informou.
– Não aceitamos cães na nossa irmandade — O arqueiro resmungou, deixando transparecer a sua ofensa.
– A sua morte virá como justiça, não como assassinato — Thoros contou.
– Julgamento? É isso? E de que sou acusado? — Indagou.
– A sua laia estraçalhou bebês de peito enquanto as mães assistiam e meninas de seis e sete anos foram estupradas em Sherrer e no Vau do Saltimbanco — O Caçador Louco tomou a palavra e começou com as acusações. Pela forma como dizia, era óbvio que ele veio das proximidades dos lugares mencionados e presenciou o fato em primeira mão.
– Deposite suas crianças mortas em outra porta! — Sandor o alertou — Não estive em Sherrer e muito menos no Vau do Saltimbanco!
– E quanto a Princesa Rhaenys e o Príncipe Aegon? — Thoros começou — Eu estava presente quando os ossos dos filhos de Rhaegar foram depositados perante o trono!
– Pois então deve ter visto muito mal; o responsável por esse ocorrido foi o meu irmão, agora devo também responder pelos crimes dele? É crime nascer Clegane? — Revoltou-se o Cão de Caça. Se realmente esse fosse o caso, então era improvável que a lista de condenações terminasse antes do anoitecer.
– Assassinato é um crime! — Rebateu Thoros.
– Quem foi que eu assassinei? — Exigiu saber. Havia muitas pessoas que Sandor matara a mando dos leões do Rochedo Casterly, mesmo que tivesse aquelas ocasiões em que retirara uma vida por legítima defesa e misericórdia, mas nenhuma foi por simples diversão, estava guardando essa honra para Gregor.
Com essa pergunta diversos nomes foram mencionados por alguns dos presentes. Eram tantas pessoas falando ao mesmo tempo que se tornou difícil distinguir os nomes e os oradores. Lorde Lothar Mallery, Sor Gladden Wylde, Lister e Lennocks, Beck e Mudge, o filho do moleiro de Bosque de Donnel, A viúva Merriman, os septões do Charco Lamacento, Sor Andrey Charlton, Lucas Roote, todos os habitantes de Campopedra e do Moinho do Rato, o Senhor e a Senhora Deddings, Alyn de Winterfell, Joth Arco-Ligeiro, Matt pequeno e a irmã, Randa, Anvil Ryn, Sor Ormond, Sor Dudley, Pate de Mory, Pate de Bosquelança, Velho Pate e Pate de Bosque de Shermer, Wyl Cego, o entalhador, Patroa Maerie, Maerie, a Prostituta, Becca Padeira, Sor Raymun Darry, Lorde Darry, o jovem Lorde Darry, Bastardo de Bracken, Fletcher Will, Harsley, Patroa Nolla, foram alguns dos nomes que Sandro conseguiu distinguir, sendo que nenhum teve significado para ele.
– Basta! — Ordenou em seu tom mais alto e o silêncio se fez entre eles — Não conheço nenhuma dessas pessoas! Esses nomes não me significam nada!
– Deveriam significar — Dondarrion se manifestou — Todas essas pessoas foram mortas por espadas e lanças Lannister; elas foram assassinadas pelas pessoas que você jurou defender — Acusou o fazedor de cavaleiros.
– Nenhuma dessas pessoas foram mortas pela minha espada — Defendeu-se Clegane, sentindo a fúria inflamar.
– Você é servo dos Lannister do Rochedo Casterly — Apontou Thoros.
– Já fui, eu e mais milhares, ocorre que não sou mais, até um cão cansa de levar chutes — Rosnou as palavras — Não basta mentir como cavaleiros, irão vocês me assassinarem como cavaleiros? Me condenando pelos crimes de outros!?
Alguns desses ditos cavaleiros gritaram de volta para ele. Sandor pôde perceber que ele não era o único quem estava se frustrando com essas conversas.
– O que quer dizer com isso, Clegane? — Dondarrion questionou, fazendo com que a plateia se silenciasse com apenas um gesto de suas mãos.
– Um cavaleiro é formado por uma espada e um cavalo. Todo os apetrechos que o segue, como os votos e os favores da donzela, não servem para nada em batalha a não ser enfeitar com laços sua espada, que mata tão bem com ou sem eles — Sandor podia contar nos dedos quem foram as pessoas que lhe perguntaram sobre a sua ideia de cavaleiros. Tinha plena consciência de ter ofendido alguns dos questionadores, como Barristan Selmy, mas também divertiu outros, como Joffrey Baratheon, infelizmente nenhum deles demonstrou ter levado suas considerações à sério — Cavaleiro é só uma palavra criada para justificar as ações da espada. Então vamos, acabem logo com isso. Tirem a minha vida como verdadeiros cavaleiros– Concluiu, cuspindo novamente próximo aos pés de Lorde Beric ao fim da frase.
O silêncio surgiu como uma onda opressora naquela espécie de caverna subterrânea. O ar estava quente devido a quantidade de pessoas ali presente e a poeira avermelhada finalmente começava a se assentar de volta no solo. As chamas cintilantes da fogueira crepitavam com mais vida do que a maioria dos presentes. Sandor não sabia dizer se eram as suas palavras que haviam surtido efeito ou a falta de provas dos crimes que ele estava sendo acusado que resultara este silêncio anormal. Algo dentro de si começava a latejar, era a esperança de que a sua vida poderia vir a ser poupada por mais um dia. O Cão de Caça nunca se importou com a data de sua morte desde que fosse em uma luta corporal contra a Montanha que Cavalga, entretanto Sandor tinha outros planos, ele desejava se ver livre desses foras da lei para reencontrar Sansa e levá-la em segurança para a família. Talvez fosse isso que o tenha mantido vivo nesses últimos tempos, não a sua vontade de vingança contra o irmão como fora desde que Gregor levara Reyla à morte, mas sim a necessidade de proteger o seu passarinho, ter certeza de que Sansa ficará bem e junta de pessoas que realmente se importem com o bem estar dela.
– Assassino! — A voz estridente de alguém desesperado correu pelo ambiente, chamando a atenção de todos para o locutor — Matou o Mycah! O assassinou! Não adianta negar!
O indivíduo que lhe lançava a acusação não parecia ter mais do que onze anos. Era um garotinho magricela vestido em farrapos e com o cabelo cor de barro cheio de falha. Ainda assim, Clegane podia jurar já ter visto aquele rosto longilíneo em algum lugar antes, sendo difícil o reconhecimento devido as manchas de carvão que o coloriam.
– E quem é esse Michael, menino? — Rebateu com cansaço, totalmente desinteressado nas informações.
– Não é Michael, é Mycah! E eu não sou um menino! — O corrigiu, com as maçãs do rosto enrubescendo por trás das manchas negras — Ele era o filho do açougueiro e você o matou, Jory disse que você quase o cortou ao meio mesmo ele não estando armado!
Sandor cerrou o cenho e dedicou maior atenção naquela criatura. Não havia nada de feminino nela, mesmo que ela alegasse ser uma garota. Mycah... Também se lembrava de ter ouvido este nome anteriormente, muito tempo atrás, assim como o nome de Jory. Ela diz que quase cortei o garoto ao meio... Clegane piscou os olhos meia dúzia de vezes em seguida, não acreditando no que a sua memória trouxe a tona. Ele de fato havia assassinado um garoto dessa forma, um par de anos passados, na Estrada do Rei enquanto voltava de Winterfell e pela acusação, aquela garotinha deveria estar na tropa vinda do norte, a fala dela a entregava, como entregava a Sansa, era carregado de sotaque e a pronúncia quase não continha erros...
– SETE INFERNOS! — Gritou a blasfêmia — A irmã mais nova! A fedelha que atirou a linda espada de Joffrey ao Tridente! — A coincidência de ter encontrado Arya Stark era tão grande que a sua reação foi cair na gargalhada — Não sabia que está morta?
– É você quem está morto! — Jogou a sentença de volta para ele e pela reação dela Sandor soube na hora que a filha mais nova de Lorde Eddard não fazia ideia dos boatos de sua existência espalhados após a fuga da mesma.
Um homem saltou à frente de Arya e a escondeu com o seu próprio corpo enquanto a conduzia de volta para o meio da multidão.
– A garota o acusa de ter assassinado o filho do açougueiro, você nega ter relação com este crime? — Lorde Beric se manifestou.
– O garoto atacou Joffrey, aquele cujo qual eu era escudo juramentado — Deu de ombros.
– Mentira! — A garota protestou, lutando contra o homem que a defendia para se por na frente dele — Fui eu! Eu quem bati em Joffrey, fui eu quem jogou a espada dele no rio! O Mycah só fugiu como eu lhe disse para fazer!
O sangue do lobo corria em maior quantidade nas veias de Arya, diferente de Sansa que tinha sangue de passarinho. Se a irmã mais nova não tivesse fugido da Corte dos Leões logo após a morte do líder da matilha dela, Sandor sabia que a cabeça dela teria durado mais tempo nas ameias do castelo do que em qualquer outro lugar em Porto Real.
– Não foi o que fiquei sabendo — Clegane a acusou — Sua própria irmã contou uma versão diferente da sua para o Rei Robert.
– Sansa é uma mentirosa! Não foi como ela disse, não foi! — Gritou e o ódio que sentia pela irmã naquele momento não passou despercebido por Sandor. Sansa é um passarinho e pássaros mentem, seria inteligente se trocasse a sua pele de lobo por um belo par de asas, podia ter dito para Arya, mas isso não viria ao caso, não naquele momento.
Clegane estava tão distraído com sua nova descoberto que não percebeu quando Thoros e Beric se uniram para decidir o seu destino, só teve noção do fato quando Dondarrion se dirigiu à ele novamente.
– Sandor Clegane, você foi acusado de ter assassinado o garoto Mycah e como ninguém presente tem como provar os fatos, caberá ao Senhor da Luz definir a sua inocência através de um julgamento por combate.
Não conseguiu acreditar em seus próprios ouvidos. A condenação deveria ser um teste, ele havia confirmado ter cumprido ordens reais para matar o filho do açougueiro, para foras da lei isso poderia ser o suficiente para esfolá-lo e mesmo assim estava sendo sentenciado à um julgamento por combate, aquele em que sua vitória era iminente.
– Você é burro ou louco? — Perguntou, com o cenho franzido em desconfiança.
– Sou um senhor justo — Beric respondeu, com algo que se assemelhava à um sorriso de canto dos lábios, mas vindo daquele homem cadavérico era algo estranho — Prove a sua inocência com a sua espada e ficará livre para ir.
Arya gritou uma negação a decisão de Dondarrion que foi abafada pela gargalhada vitoriosa de Sandor.
– E contra quem irei lutar? — Demonstrou-se animado para por em uso a sua lâmina — Será você, arqueiro? Conseguirá ser habilidoso com uma espada ou irá lutar com os seus gravetos? — Riu e virou-se para o homem com o manto cor de limão — Ou será com você que irei lutar? Diga-me, você tem o que é necessário para me derrotar de baixo desse manto mijado? — Agora sua atenção se voltou para o Caçador Louco — Você já deve ter chutado muitos cães, por que não tenta fazer isso comigo, hein? Ou será que o seu deus vermelho escolheu você como campeão, Thoros? — Não estava tão animado com a última opção por mais que desejasse matar o sacerdote. Thoros lutava com a sua espada em chamas e todas as vezes que lutara com o mesmo perdera por razão do fogo e não de sua destreza. Apenas covardes usam truques de pantomimeiros em um duelo.
– Eu lutarei contra você, Cão — Foi Lorde Beric Dondarrion quem se manifestou.
Havia passado na cabeça de Sandor lutar até mesmo contra Arya Stark, mas não contra o líder da Irmandade Sem Estandartes. Beric estava mais no mundo dos mortos do que no dos vivos o que fazia o duelo soar como uma disputa infantil ao invés de algo sério. Para Clegane foi como se descobrisse que quem ele deveria derrotar era um espantalho, o que o levou a soltar uma gargalhada estridente.
– Tem certeza, Irmão? — O homem com o manto cor de mijo se manifestou — Posso lutar contra ele no seu lugar.
Lorde Beric fez um sinal com a mão dizendo que estava bem ainda que o seu rosto fosse uma placa sólida sem nenhuma expressão. O homem que se ofereceu para tomar o lugar de seu Irmão ajudou-o a se aprontar para o que viria à seguir, enquanto o Caçador Louco com as mãos trêmulas e a testa pingando suor finalmente libertava Sandor de seus grilhões.
– Irei precisar da minha espada e armadura — Disse, enquanto massageava o pulso e derrubava sangue seco em cada esfregada. Mesmo que Dondarrion estivesse decrépito a placa de peito que usava lhe dava mais vantagens do que a fina camisa de algodão que Clegane usava.
– Você terá a sua espada e a armadura que utilizará será a sua inocência — Beric respondeu.
– Minha inocência contra a sua placa de peito, aham — Ironizou Os pulsos e as articulações dos braços estavam doloridos, assim como as pernas que estavam enrijecidas, contudo, Sandor tinha confiança de que a sua vitória seria garantida.
– Limo, ajude-me com a minha armadura — Pediu Lorde Beric.
Houve uma certa comoção na plateia quando a proteção peitoral de Dondarrion foi retirada e Sandor pôde descobrir sobre o que aquilo se tratava. Ocorre que a utilidade de placa de peito do cavaleiro não era protegê-lo de golpes futuros, mas esconder o ferimento de um golpe já sofrido. No lugar onde se encontra o coração tinha amostra o buraco de entrada e de saída de uma espada e como se só isso não fosse horrível o suficiente as costelas do homem estavam visíveis por de baixo da fina pele acinzentada que ele possuía.
Sandor sentiu o cabelo da nuca se arrepiar. Aquilo não podia ser efeito de nenhuma outra coisa que não bruxaria, mas ele não acreditava naquelas coisas e ainda assim estava sendo testemunha de um poder sobrenatural. É humanamente impossível viver com um ferimento de espada no peito, disse para si mesmo, apoiando-se na lógica e só então ele reparou que Lorde Beric não possuía apenas um ferimento mortal visível aos olhos. Dondarrion exibia um corte profundo sobre a orelha, perdera um dos olhos e tinha um arroxeado muito suspenso no pescoço. Sabe-se lá o que mais ele trazia oculto pelo corpo. Para matá-lo eu terei que esquartejá-lo, elaborou a teoria. Se todos aqueles cortes não o levaram à morte, então se todo o corpo estivesse separado a vida o deixaria de vez, como aconteceu com aquele olho que ele perdeu e não voltou à funcionar, estando agora oculto por um tapa-olho.
– Vista isso, Beric — Thoros lhe entregou a própria camisa na tentativa de esconder a vergonha de seu irmão de causa e assim como lhe foi dito Beric o fez, no fim voltando a se armar com a sua lâmina, o seu escudo e a capa com o símbolo de sua Casa que era destinada a ser prendida na armadura, o que deixava o pano ainda mais solto em seu corpo mirrado.
– Mesmo não sendo um cavaleiro ungido espero que tenha honra, Cão — Thoros o advertiu — Caso pense em voltar a sua lâmina para qualquer um que não seja o seu oponente os arqueiros da Irmandade o deixará tão furado quanto um queijo.
Os olhos de Sandor se voltaram para onde três arqueiros preparavam as suas flechas para apontarem em sua direção. O pseudo-cavaleiro reconheceu apenas um daqueles rostos., Anguy, o que tinha mais firmeza na mão, os outros dois tremiam como bambu verde. Foi apenas quando os três estavam preparados na ação que Thoros permitiu que o Caçador Louco entregasse o cinto com a espada para Clegane.
Em um movimento rápido, Sandor sacou a sua espada e descartou a bainha da mesma e na outra mão vaga tomou o seu escudo com o brasão de sua Casa pintado, porém já desbotando e com a madeira lascada devido à causas naturais e batalhas envolvidas. Clegane girou a espada algumas vezes no ar para exercitar suas articulações, entretanto quando ameaçou se aproximar do adversário, Thoros o deteve.
– Antes do julgamento por combate ser iniciado devemos orar — O sacerdote o informou e voltou-se para a fogueira, erguendo os braços para a mesma — Senhor da Luz, orai por nós! — O fogo crepitava e Sandor não soube dizer se foi uma ilusão ou se as chamas realmente cresceram um pouco mais com a ação do homem de Myr.
Por todo o lugar a voz da população se misturou com a de Thoros na oração para o Deus Vermelho.
– Senhor da Luz, defenda-nos. Senhor da Luz, proteja-nos da escuridão. Senhor da Luz, brilhe sobre nós.
As vozes tornaram a se silenciar e apenas o sacerdote continuou.
– Acenda a sua chama entre nós, R'hllor, que a verdade ou a falsidade deste homem venha à tona. Mate-o se for culpado e caso seja inocente, empreste à ele a Sua força.
O coro da oração voltou antes de morrer novamente.
– Senhor da Luz, dê-nos sabedoria. Pois a noite é escura e cheia de terrores! — As vozes de algumas pessoas eram mais altas do que as outras, porém era impossível encontrar alguém que não orassem com eles fora o próprio Sandor e a Arya, que ficaram inertes durante a manifestação dos demais.
Com a última frase, Sandor riu.
– Mande os meus cumprimentos para o seu deus, Dondarrion, pois vai encontrá-lo em breve!
O cavaleiro não emitiu reação à ameaça que sofreu do Cão de Caça. Com indiferença apoiou o gume da própria espada na palma mão e o fez deslizar, cortando a sua carne e liberando o sangue que batizou o aço. No mesmo instante a lâmina incandesceu-se, revelando que Thoros não era o único a lutar com uma espada flamejante.
– Filho da puta! — Esbravejou Sandor — Que você e o Thoros queimem nos Sete Infernos! Quando acabar com ele será a sua vez, sacerdote! — Ameaçou o homem de Myr.
– A cada palavra dita os seus crimes aumentam, Clegane — Thoros o alertou enquanto outras pessoas praguejavam as palavras de Sandor.
Lorde Beric tinha na mão direita a espada em chamas e no braço esquerdo carregava o escudo com o símbolo de sua Casa, todavia o cavaleiro estava imóvel, em posição de luta, aguardando o ataque do inimigo como se fosse uma estátua de pedra. Dondarrion não precisou esperar por muito tempo o primeiro golpe de Sandor.
O Cão de Caça em dois longos passos cessou a distância que existia entre eles e a sua espada se chocou contra o aço incandescente, provando que Lorde Beric mesmo estando sem um olho e aparentando ser um morto-vivo continuava tão ágil e atento a batalha como em dias passados. O acusado ao sentir o calor vindo da arma do rival cambaleou para trás pingando suor de sua testa. Lembranças que mais do que qualquer coisa desejava esquecer vieram à sua mente e se projetaram na realidade. Por um instante Sandor pensou ter visto o rosto de Gregor no lugar do de Beric e foram necessárias duas piscadas rápidas e fortes para voltar a ver o rosto do Senhor do Relâmpago, entretanto o devaneio quase lhe custou a única orelha boa que possuía, pois Dondarrion se aproveitando do descuido do adversário veio em sua direção e com um movimento alto da espada cortou o ar, pois Sandor conseguiu com muito custo se esquivar para o lado e de prontidão utilizou a espada que tinha em mãos para dar um golpe na direção do quadril de Beric, sendo que o golpe foi facilmente bloqueado pelo escudo do outro, criando uma falha na madeira onde tinha uma estrela pintada. Tenho de matá-lo, recordou-se de seu objetivo, tentando ao máximo ignorar as chamas que acompanhavam cada movimento do líder dos foras da lei como se fossem as fitas com os favores das donzelas do fogo. Talvez R'hllor seja uma mulher, pensou Sandor ao fazer a comparação. Não seria estranho se o Senhor da Luz se revelasse como Senhora da Luz, essa divindade era exigente como uma boceta.
O aço em chamas veio repetidas vezes para cima de Clegane que com muito custo bloqueava os ataques sem chance de atacar de volta, sendo obrigado a perder espaço no campo de batalha para que não fosse atingido. O coro que a plateia formara de mate-o só piorava a situação. Sandor nunca se importou com o que as pessoas desejavam e em todos os torneios que participou ele se fez surdo as palavras dos presentes, estando sempre atento nos passos de seu adversário para saber qual a melhor estratégia para utilizar, mas agora era diferente. Com Lorde Beric o seu modo habitual de guerreiro não estava funcionando, como também não funcionara nas três vezes que duelara com Thoros de Myr. É o maldito fogo, esbravejou, esquivando-se de mais um golpe que veio na direção de sua perna esquerda e que por um triz não rasgou sua pele.
Se eu perder esta batalha, então eu estarei condenado. Não podia deixar que os fantasmas de sua infância viessem assombrá-lo agora. Com muito custo Sandor conseguiu proferir um golpe que tão fraco e tão temeroso foi logo detido por Dondarrion. Sem alternativa, o Cão de Caça cambaleou para trás e só percebeu o perigo de sua situação quando sentiu o calor da fogueira lhe lamber as canelas. O grandalhão estava preso entre a grande pira de fogo e o aço incandescente de Beric. Antes que pudesse fazer a sua escolha, o cavaleiro decrépito chocou a sua espada contra a de Sandor e o pseudo-cavaleiro entrou rapidamente na fogueira e antes que as chamas o abraçassem como um pedaço suculento de carne ele saiu do outro lado, incrivelmente sem nenhum dano que não as botas sujas de fuligem.
– Filho da puta! — Gritou, partindo para cima do Senhor do Relâmpago.
É apenas fogo, disse para si mesmo, porém o significado da palavra fogo para Sandor era diferente. Se eu for rápido o suficiente como fui ao passar pela fogueira eu não serei queimado. A concentração voltou e com movimentos rápidos de sua pesada espada feita especialmente para ele conseguiu ganhar o seu espaço no campo de batalha, mas toda vez que as chamas vinham em direção ao seu rosto maldições eram proferidas e todo espaço ganho era perdido para o adversário.
Diferente de Clegane, Dondarrion era silencioso em sua luta. Sandor a cada movimento soltava grunhidos e xingamentos, sua respiração era pesada e entrecortada enquanto o outro mal dava para dizer que respirava. Todo aquele exercício não parecia estar deixando Beric fatigado. Ele provavelmente já deve estar morto, o pensamento veio, devo arrancar-lhe a cabeça só por garantia. A linha tracejada no pescoço do Senhor do Relâmpago estava ali, visível aos seus olhos e em certo momento ficou de fácil acesso para a espada do grandalhão que não perdeu tempo e sem pensar nos prós e contras proferiu o golpe, deixando livre toda a sua parte frontal. Lorde Beric conseguiu prever a ação e esquivou-se para o lado oposto de onde vinha o ataque, erguendo o seu próprio escudo para a defesa enquanto aproveitava a brecha para atacar o oponente com um movimento rápido do aço para frente. O Cão de Caça percebeu o seu erro e trazendo o escudo com os três cães de sua Casa lascado para a frente do corpo para defender o peito conseguiu por questão de milímetros evitar o golpe fatal, mas não a colisão do aço do adversário em seu objeto de defesa que se partiu em dois estando ainda preso pelas correias em seu antebraço, criando um corte superficial na pele do mesmo.
A dor do ataque não deu para ser sentida, fosse o seu sangue, a madeira ou o pigmento de coloração resultou na combustão automática do escudo enquanto a espada de Lorde Beric ainda estava presa ali.
O pânico dominou o acusado e todos os presentes emitiriam um som de surpresa. Dondarrion vendo a cena recolheu a sua espada e conteve os golpes, atento ao que ocorria com o oponente. A reação imediata de Sandor foi soltar as correias para se ver livre da madeira incandescente. A primeira correia saiu com facilidade, mas a segunda e última estava bem atada em seu nó. Com alguns golpes de sua própria espada conseguiu se ver livre do primeiro pedaço do escudo que apesar de estar rachado não estava devidamente partido. Quanto ao segundo, os seus esforços para se ver livre dele apenas atiçaram as chamas que se espalharam para a manga de sua camisa e agora percorriam todo o espaço de seu antebraço. O cheiro de tecido queimado logo foi substituído pelo cheiro de pele e em segundos pelo de carne. A dor insuportável fez com que Sandor gritasse por socorro internamente, sendo incapaz de proferir qualquer palavra que não fosse grunhidos de dor.
– Mate-o! — Os presentes gritavam para que Beric Dondarrion finalizasse o julgamento dando o golpe final no grandalhão que estava atordoado com a situação na qual se encontrava.
Sim, eu tenho de matá-lo, os olhos do Cão de Caça encontraram a mancha arroxeada no pescoço de Lorde Beric, era ali que ele deveria atacar antes que a sua vida fosse tirada. Eu não posso morrer, disse para si mesmo, sentindo a cabeça formigar e a visão anuviar. Prometi à Sansa que iria buscá-la em Pedra do Dragão. Sandor sentiu o sangue ferver com a lembrança da promessa feita. Se ele tivesse de morrer teria de ser pelas mãos quentes de seu passarinho e de mais ninguém.
Seguindo ao desejo da plateia, Dondarrion partiu para cima de Clegane com a espada na mão. O golpe de Beric como sempre fora arrumado de forma perfeita. O cavaleiro rodopiou sua espada leve no ar formando as serpentinas de fogo e então a desceu, aprontando-a horizontalmente em seu peito para que quando esticada para frente arrancasse a cabeça do Cão de Caça. Eu não posso morrer, Sandor pensou para consigo mesmo, mesmo a morte soando tão mais atraente do que a vida com aquela dor em seu antebraço. Segurando a sua pesada espada com as duas mãos se jogou para a frente. O barulho horrendo de aço se chocando com aço foi ouvido e então, veio o barulho de pele rasgada e osso cortado. Ambos os homens foram ao chão, cada um no lado oposto do outro.
– Nãããããããããoooooooo! — O grito estridente de Arya ecoou por toda a caverna.
A espada de Lorde Beric fora partida em duas e agora se encontrava atirada ao chão com o fogo ainda ardente com o seu mestre do lado dela, com a mão direita ainda segurando o cabo da arma. Ao redor do corpo do cavaleiro sangue fresco que mais pareciam lavas de um vulcão pela sua cor quente e negra era absorvido pela terra, manchando toda a área próxima ao tronco do homem. O golpe de Sandor além de ter partido a espada dele ao meio foi capaz de cortá-lo do pescoço até o esterno arrancando toda a vida que ainda restava naquela casca que já vira dias melhores. Thoros de Myr foi o primeiro a se locomover e sua atenção estava depositada em seu amigo e irmão de causa. Sem que conseguissem ouvir mais do que sussurros, o sacerdote começou ao que parecia uma oração sobre o corpo inerte do Senhor do Relâmpago.
– Socorro... — As palavras finalmente deixaram a boca de Sandor — ... Estou queimando... — Implorou o socorro. Lágrimas escorriam de seu rosto deixando sua voz embargada pelo nó na garganta que formara. Em uma tentativa ingênua, mas muito eficaz, o homem rolou chão, jogando terra por cima da queimadura. O pedaço de madeira que antes de ser ateado fogo fora um escudo caíra de seu antebraço com a intensidade do golpe que atacara o oponente e sem ter mais um condutor o fogo foi se extinguindo. O tecido da camisa de Clegane na região do braço esquerdo fora inteiramente destruído e misturado com a carne queimada. Quando o homem com o manto cor de limão fora ao seu auxílio um pedaço de carne queimada caíra de seu braço, deixando Sandor ainda mais afetado com sua condição.
– Você deveria ter morrido! — A voz vinha de Arya. A garota havia se esquivado do homem que a detinha na multidão e roubado o punhal do mesmo, vindo na direção de Clegane com intenções assassinas.
Sandor, tomado pela dor e pelo pânico do fogo soltou uma gargalhada, assistindo a garota ser pega pelo braço por um dos homens da irmandade.
– Quer tanto assim que eu morra, menina lobo? — Perguntou, com a voz pastosa, apoiando-se em Limo e no Caçador Louco que também viera ao seu auxílio para por-se em pé.
– Você matou o Mycah! — Arya mordeu o lábio inferior, seus grandes olhos acinzentados estavam molhados e cintilavam à luz da fogueira.
Sandor não tinha mais paciência para aquilo. Qualquer coisa que dissesse sabia que não poderia condená-lo novamente. O maldito Senhor da Luz já o perdoara de todos os seus crimes passados e a morte do filho do açougueiro estava incluso.
– Sim, eu o matei. Parti-o ao meio com a minha espada enquanto ele estava correndo — A perna tremeu. Deveria ter parado a confissão por aí, mas não o fez, a cabeça estava cheia de pensamentos que insistiam em arrastá-lo para fora do incômodo corporal — E a sua irmã — Riu — Eu a fodi até lhe arrancar sangue — Confessou e mais lágrimas vieram ao seu rosto, deformando a sua expressão que foi facilmente confundida com a de dor e não a de pesar, como de fato o era.
– Você é a pior merda dos Sete Reinos! Queime nos Sete Infernos! — Arya exclamou, debatendo-se nos braços do homem que a segurava como um cão que desejava escapar dos braços de seu dono. A menina tinha um instinto perigoso e nada parecido com o de Sansa. Sandor teria gostado de conhecê-la melhor.
– Ele irá queimar — Uma voz vinda das costas de Sandor disse — Mas não hoje — Era Lorde Beric o locutor. O cavaleiro tinha um braço trespassado pelo ombro de Thoros que o auxiliava a ficar em pé. Milagrosamente a ferida mortal que carregava fora estancada restando apenas uma mancha negra no lugar, assim como a que Dondarrion tinha no pescoço.
Clegane não conseguiu acreditar em seus próprios olhos. Talvez fosse efeito da febre que o seu ferimento estava causando, contudo ao olhar para o chão todo aquele fluído que caíra do corpo do Senhor do Relâmpago sumira, não restando nenhum vestígio de seu golpe mortal. Pode ser que eu tenha morrido. Sandor se questionou, mesmo sabendo que isso não era possível. Quando abriu a boca para indagar o que estava acontecendo sentiu uma forte dor na cabeça, os lábios secos e a visão anuviada clareou de vez antes de escurecer por completo. Ao abrir os olhos, Sandor não estava mais naquela caverna e sim em um quarto fortemente carregado pelo perfume de mulher e o seu braço não doía tanto quanto se lembrava.
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