O Voo Do Passarinho

2 Capítulo 2 - A Estrada


O sol estava alto no céu quando o casal decidiu descansar próximo a um pequeno lago dentro da Matadorrei. Sansa não compreendeu porque eles estavam seguindo aquele caminho se eles desejavam chegar ao Norte. Quando ela perguntou à Clegane sobre a direção que eles estavam tomando, ele murmurou algo como "Viagem segura" e "as vezes devemos descer para depois subir". Depois disso ela não voltou a questioná-lo. Nesse ponto da viagem Sansa já se arrependera de ter deixado Porto Real. Seu estomago estava vazio e a última coisa que ingerira foi um gole do vinho de Sandor, mas essa não era a pior coisa; ela realmente desejava um banho. O sangue sobre ela secara havia muito tempo e até mesmo o seu cabelo tinha um pouco dentro dos nós formado pela cavalgada.

– Ainda há sangue em sua face. – Anunciou Clegane enquanto observava Sansa secando o rosto nas mangas. – Bem aqui, em baixo de seus olhos. – Apontou um lugar no próprio rosto, obrigando-a a olhar sua face deformada. – Bom, agora venha comer.

Sansa saiu de perto do lago para se sentar próxima ao fogo. O inverno está chegando, recordou o lema de sua Casa quando um vento frio passou por ela. Era meio dia e já estava começando a esfriar. Pelo caminho que seguiram, um amontoado de folhas estava esparramado pelo chão e mais um amontoado estava prestes a cair das árvores. Era realmente uma linda visão outonal.

– Isso é peixe? Quero dizer, que peixe é esse? — Sansa olhou com nojo para a comida. Nessa hora na Fortaleza Vermelha ela estaria provavelmente se deliciando com um pedaço de porco ou cordeiro, ou quem sabe uma torta de lampreia e teria como sobremesa bolo de limão, uma das sete maravilhas do reino.

– Coma, passarinho. — Sandor respondeu, ocupado com sua própria comida.

A garota de cabelos rubros tentou tocar em seu peixe; a pele dele estava crocante, mas de algum modo não parecia gostoso. O peixe era realmente magro e foi no do meio que ela arrancou um pequeno pedaço, mastigou um pouco e depois voltou a colocar de lado o peixe.

– Isso é nojento! – Disse com a cara enrugada de desgosto. Nunca em toda a sua vida Sansa teve uma refeição tão simples quanto essa. Para o cavaleiro em sua frente, isso parecera normal.

– O passarinho não gosta de peixe, huh? Talvez ela prefira alguns bolos de limão? Ou quem sabe algumas tortas? – A voz de Sandor soou divertida, mas a zombação do que disse foi latente.

– Eu não sou um passarinho, Sor, e se o senhor tiver alguns bolos de limões ou alguma torta, eu iria preferí-los. – Sansa respondeu cheia de si, demonstrando teimosia, mas não o olhando diretamente.

– Eu já lhe disse, garota, eu não sou nenhum Sor e você é um passarinho e infelizmente você terá de se contentar com o peixe, caso contrário vá em frente e passe fome. – Ele deu os ombros para o seu caso.

As bochechas de Sansa coraram tão depressa que ela de repente sentiu calor apesar do frio. Voltou a pegar o peixe e o observou, tentando adquirir coragem e então deu mais uma mordida. Ela teria se livrado dessa refeição se pudesse, mas seu estomago a lembrou quão faminta estava e era incerto afirmar quando eles parariam de novo para se alimentarem.

Sansa sempre pensou que Sandor fosse um cavaleiro, mas não como aqueles das canções que ela ouviu diversas vezes na infância durante os tempos em Winterfell. Ele não é como o Sor Loras Tyrell. A garota se lembrava de quando Sor Loras lhe dera a única rosa vermelha que possuía durante o Torneio da Mão. Ele (Sor Loras) certamente é um verdadeiro cavaleiro, ele é corajoso e acima de tudo bonito e galante. Sandor, por outro lado era corajoso, mas faltava-lhe a aparência e a elegancia. E ele não gosta de ser chamado de Sor. Sansa tinha conhecimento do motivo que levava Clegane a desprezar esse título, referia-se ao irmão mais velho, Sor Gregor Clegane, uma vil criatura sedenta de sangue incapaz de pensar em outras pessoas que não a si mesmo ainda que isso significasse sujar suas mãos com sangue inocente ou com o sangue do próprio irmão e, ainda assim, foi nomeado cavaleiro pelos Lannisters.

– Não irá me perguntar por que estou te ajudando, passarinho? – Sandor perguntou enquanto a observava comer. Sansa já havia pensado em perguntar sobre a razão por de trás da ação, mas decidiu que não era uma pergunta que uma dama faria.

– Se isso vos agradar, So… — Estava prestes a chamá-lo de Sor mais uma vez, mas parou — ...Cão de Caça. – Concluiu.

– Não sou mais nenhum Cão de Caça agora, menina. Chame-me apenas de Sandor ou Clegane e estará tudo bem. – Ele soou nervoso e calmo ao mesmo tempo. – E você não gostaria que eu fizesse o que eu quero. – Tomou mais um gole de vinho após a frase, deixando um pouco escorrer pelo canto do lábio esquerdo. Ele pode ter se esquecido de trazer um monte de coisa, mas ele não se esqueceu do vinho... ou de mim, constatou Sansa. – Como você vê, eu perdi a minha posição na Guarda Real e provavelmente tudo o que eu sonhei em ter algum dia. Então, eu pretendo te devolver para a sua mãe e pedir uma posição no exército de seu irmão.

– Você pensa que o meu irmão, Robb, o aceitaria? – Sansa perguntou colocando a carcaça do peixe de lado. Ela não queria, mas olhou para o rosto de Sandor involuntariamente. Sandor possuía a expressão de um homem cansado por volta de seus trinta anos, embora fosse mais novo do que isso; de baixo da luz do sol e com alguns ferimentos a mais, seu rosto não era tão assustador quanto à noite sob a luz de velas, todavia conseguia causar asco, ainda mais para uma dama que sonha com a beleza.

O rosto de Sandor Clegane não amedrontava Sansa apenas pelas cicatrizes geradas pelo fogo, incluindo a perda da orelha esquerda e a parte do couro cabeludo o que o obrigava a deixar o cabelo do lado direito mais longo do que do lado esquerdo, de modo que pudesse jogar uma quantidade significativa das madeixas negras para o outro lado na tentativa de melhorar a aparência, o que realmente a amedrontava era o lado direito do rosto dele; Clegane conhecera de perto e jovem de mais a maldade do mundo provinda de sua própria família, muito diferente de Sansa, que viveu em um conto de fadas até a morte de seu pai e mesmo após esse fato, ela ainda continuava integra a maldade, e era sobre o lado intacto do rosto do homem que toda essa maldade estava guardada, pronta para ser usada.

– Se ele não me quiser então uma bolsa cheia de ouro servirá. – Os olhos deles se encontraram; cinzas dentro de azuis; não durou por muito tempo o contato visual.

– E… e se o meu irmão... não quiser lhe dar o ouro também? – As mãos de Sansa começavam a suar. Ela conhecia o irmão bem o suficiente para saber que ele não negociava com pessoas consideradas inimigas.

– Então, passarinho, ele não a terá de volta.

– Você disse que não me machucaria… — Lembrou-o.

– Sim, eu disse, mas o seu irmão não sabe disso e as coisas podem mudar. – Sandor se pôs de pé. – Agora venha, nós devemos continuar. Eu não tenho conhecimento sobre o resultado da batalha e quem quer que tenha ganhado virá atrás de você. – Caminhou até Estranho, o negro cavalo de batalha que os ajudou a escaparem.

– Mas agora!? Pensei que iríamos descansar um pouco! Estou cansada, quero dormir! – Pôs-se em pé e caminhou até ele.

– Se quer dormir, então durma sobre o cavalo. Eu pretendo seguir a Estrada do Rei e achar um lugar onde possamos vender suas joias e então partiremos para o Norte. – Sandor sentou-se sobre o cavalo e esticou a mão para Sansa. – Venha.

– Como você sabe que eu trouxe minhas joias? – A garota hesitou em pegar a mão do homem, curiosa sobre o fato dele saber algo que ela não lhe dissera.

– Encontrei com sua ama quando eu estava deixando os seus aposentos e lhe disse que caso a sua senhora mudasse de ideia deveria trazer consigo suas joias e estaria esperando-a por não mais que meia hora nos estábulos. Agora venha. – Esticando o seu corpo próximo ao de Sansa segurou-lhe as mãos sem esperar por resposta ou ação da mesma. Sansa subiu no cavalo, atrás de Sandor, e o abraçou, com medo de cair.

Sem parar mais do que o necessário para aliviar as necessidades biológicas, eles cavalgaram até depois do cair da noite. Algumas vezes Sansa cochilou e outras vezes ela podia jurar que Sandor também o fizera. Todavia, ele era movido pelo vinho e quando esse acabou suas atitudes mudaram. Ele pareceu mais rígido e firme sobre o cavalo e até pediu-lhe algumas vezes para mudar a posição de suas mãos, alegando estarem o atrapalhando.

Quando eles pararam foi nas terras da Casa Fell localizada entre as árvores da Matadorrei, conhecida como Fellwood.¹ Aquele lugar não tinha o tamanho de Porto Real e nem era bem estruturado. Sansa não conhecia a história dali nem quem era o seu Lorde, o que ela sabia era que a Casa Fell quase encontrou o seu fim durante a Rebelião de Robert, quando o antigo rei, pai de Joffrey, lutou contra os Targaryen e clamou o Trono de Ferro após sua vitória.

– Nós passaremos a noite aqui. – Sandor disse, entrando na vila.

Apesar de estar bem escuro, tinha algumas casas com vida, onde a música ressoava através das paredes junto com risinhos de mulheres. Ainda assim o lugar parecia abandonado. Havia um monte de pegadas de cavalos e de homens no chão, mas estavam quase apagadas por complete devido à chuva que caiu por lá recentemente. Sansa não se importou com isso, o que ela realmente queria naquele momento era uma cama e um banho e, se possível, alguma coisa quente para colocar no estômago. Sandor, por outro lado, com certeza desejava vinho.

Ambos entraram em uma pousada intitulada como Vara Grande, sendo o lugar mais vivo da vila. Havia um bardo tocando uma nova canção feliz sobre uma donzela e uma víbora e algumas garotas de várias idades estavam sentadas ao redor dele, rindo de sua música engraçada. Como dito, Sansa estava muito cansada, mas ela possuía uma queda por música e queria se juntar aquelas garotas. Seus olhos não desgrudaram do bardo por um segundo se quer, assim como os olhos verdes dele não deixaram os dela.

– Boa noite, meu Lorde! – Uma mulher de extremo bom humor com alguns quilos a mais e grandes peitos esmagados pelo espartilho apareceu na frente deles, aparentemente vinda de lugar algum. Sansa saltou para trás, perdendo o contato visual com o bardo, mas Sandor a segurou pelos ombros fazendo-a ficar parada. – Oh, eu por acaso a assustei, garota? Bem, isso não importa, não é mesmo? Você gostaria de um quarto, me'Lorde?

Sansa observou aquela mulher com as sobrancelhas franzidas. Ela não parecia ser tão velha, talvez tivesse dois ou três anos a mais que ela, fazendo com que a estalajadeira tivesse por volta de seus 18, 19 anos.² A garota rechonchuda tinha um rosto rosado bonito com cabelos castanhos o adornando, junto com olhos da mesma cor. Ela era menor que Sansa alguns centímetros. Seus peitos são enormes! E certamente está cortejando Clegane. Constatou. Será que ela pensa que ele é bonito? Claro que não! Olhe para o rosto dele, para sua aparência, ele não é elegante nem mesmo um bom homem. Deve ser provavelmente porque ela pensa que ele é rico. Ou talvez ela flerte com qualquer um.

– O passarinho deseja descansar, mande-a para um quarto. – Sandor empurrou-a para a mulher.

– Oh! Mas é claro! Sally! – Uma morena magricela que estava entretida com a música do bardo se pôs de pé em um instante e correu de encontro a sua mestra. – Pegue essa garota e lhe dê um quarto. – Sansa foi empurrada mais uma vez. Ela estava começando a se sentir como a boneca que seu pai lhe dera.

– Sim, madame. – Sally segurou o braço de Sansa com seus dedos ossudos pressionando a carne alva da ruiva com certa intensidade e a levou para o maior quarto que possuíam.

O quarto estava localizado no final do corredor, possuindo uma pequena lareira no canto direito e todos os ornamentos eram feitos de Madeira. A melhor coisa do quarto era banheira escondida por um biombo.

– Gostaria de alguma coisa, senhora?

– Por favor, prepare um banho para mim e desejo algo para comer após me lavar, alguma coisa quente de preferência, mas nada de peixe! – Sansa ordenou, sentando-se na cama.

– Sim, como desejar, minha senhora.

Quando a garota nomeada Sally se retirou do quarto, Sansa começou a observar o lugar. Havia pequenos detalhes de madeira por todo o aposento, provavelmente cenas cujas qual a Casa Fell viveu. Algumas Sansa reconheceu como sendo do período Targaryen e outras do período Baratheon. Esse era realmente um trabalho muito interessante, mas não conseguia compreender porque havia sido feito e quando ela perguntou para a estalajadeira Sally quando esta havia entrado no quarto pela segunda vez carregando um balde de água, a resposta foi: "Nós temos orgulho de nossa história". Até mesmo essas pessoas tem orgulho, pensou admirada apesar de não ter dito nada. O orgulho é considerado algo de extrema importância; se você tem isso, você não sairá por aí fazendo coisas sem pensar e se protegerá dessa forma. Orgulho e honra eram as duas faces da mesma moeda e Sansa havia perdido uma parte disso ao tentar salvar o seu pescoço na Fortaleza Vermelha, cantando as doces canções que aprendera com Septã Mordane.

– …Minha Senhora… o seu banho... – Disse a estalajadeira magricela.

– Oh, obrigada. Você pode ir agora.

Sansa olhou para a porta durante alguns minutos depois que foi deixada sozinha no quarto, tentando garantir que ninguém entraria. A música ainda estava ecoando do outro lado da porta, dessa vez fazendo referência a uma princesa. Ao som da música Sansa removeu sua capa, seu vestido e sua roupa de baixo, deixando as botas por último. O sangue da lua havia parado naquela tarde, deixando-a suja com o sangue velho e o desejo incontrolável de limpá-lo. Teria sido bom se ela tivesse outras roupas para se vestir, mas como ela não possuía, ela preferiria tomar um banho e colocar as mesmas roupas do que não tomar banho algum. Quando sua pele de marfim tocou a água, se arrepiou; a água estava morna e todos os seus músculos se relaxaram nela. Finalmente eu posso me limpar. Pegou o sabão que Sally deixou para ela e começou a limpar sua pele e seu cabelo. Foi uma pena não haver nenhum sal de banho, ela teria amado isso. Quando terminou de se banhar, pôs-se de pé com os seus brilhantes cabelos rubros molhados caindo pelas costas e se enrolou na toalha. Ele ainda não veio. Sansa havia percebido a ausência de Sandor muito tempo atrás, mas só agora isso começou a incomodá-la. Desde o dia anterior quando eles fugiram dos olhos do rei ele se tornou a única coisa confiável que ela conhecia e o pensamento de ser deixada para trás era perturbador. Ele não faria isso, disse para si mesma. Nem mesmo pelos grandes seios daquela mulher, concluiu, deitando-se sobre a cama vestida com a sua antiga roupa, exceto pela roupa íntima que estava nojenta pelo sangue e decidiu lavá-la pobremente na banheira e colocá-la para secar próxima a lareira. Sansa estava faminta, mas o seu cansaço era superior a sua fome e acabou por adormecer sobre a coberta com Sandor Clegane distante, talvez em algum lugar abaixo de seu quarto bebendo vinho e tendo algum tipo de diversão; ela o amaldiçoou por isso.

Notas finais
Sobre a Casa Fell. Bem, ela realmente existe. Pode procurar no mapa em inglês que a encontrará em Kingswood (Matadorrei). Não há grandes informações sobre a casa, a maioria do que foi colocado foi invenção minha.Agora, sobre a idade da estalajadeira peituda. Ela tem entre 18/19 anos, se a diferença de idade dela com Sansa é de 2/3 anos, então Sansa tem de 15 a 17 anos. No final do livro 2 Sansa tem por volta dos 12/13 anos, na série da HBO de 13 a 15 anos e na minha fanfic ela tem 16. O motivo para essa decisão é que eu não conseguiria desenvolver uma fanfic onde Sandor tem por volta de seus 27 anos enquanto Sansa está entrando na adolescência! Por tanto, ela terá 16 anos e ponto final.